terça-feira, 21 de agosto de 2007

Os valores morais da elite e do povo (21/08)

A revista Veja que está nas bancas traz reportagem sobre um estudo acadêmico que analisa os valores da elite e do povo brasileiros. Clique aqui para ler a reportagem. O texto trata de um estudo/livro com o título A Cabeça do Brasileiro, do sociólogo Alberto Carlos Almeida. Segundo a revista,

O livro traz os resultados da Pesquisa Social Brasileira, um levantamento no qual se investigaram os principais valores presentes no cotidiano social, econômico e político nacional. Enfim, o que se pode denominar de "o pensamento do brasileiro". A parcela mais educada da população é menos preconceituosa, menos estatizante e tem valores sociais mais sólidos. (...) A Pesquisa Social Brasileira foi realizada pelo instituto DataUff (Universidade Federal Fluminense) e financiada pela Fundação Ford. Foram ouvidas 2.363 pessoas, em 102 municípios. Coordenador do trabalho, Almeida optou pela mesma metodologia utilizada pela General Social Survey, a maior pesquisa social dos Estados Unidos, realizada a cada dois anos, desde 1972, pela Universidade de Chicago. O levantamento expressa a opinião dos brasileiros sobre diversos temas. Não pretende, é importante ressaltar, revelar como agem. A pesquisa é sobretudo a respeito da ética nacional ou das várias éticas que convivem no interior do país.

Eu vou comprar o livro e ler. Mas, com todo o respeito pelo trabalho do professor, eu fiquei com algumas dúvidas a partir da leitura da Veja e da reportagem que o Jornal Nacional, da TV Globo, exibiu sobre o mesmo assunto. Segundo o professor Almeida, os mais instruídos têm valores morais mais arraigados do que os menos instruídos. Talvez essa conclusão seja algo precipitada. Há uma diferença entre o que as pessoas acham e o que elas dizem que acham. As pesquisas sobre o uso da internet são um bom exemplo. Qualquer pesquisa com usuários de rede dá que as atividades mais freqüentes são trocar emails, ler notícias, fazer buscas e participar de comunidades. Mas quando você analisa o tráfego na web a navegação em sites de sexo aparece sempre bem colocada. Só que as pessoas não gostam de admitir que navegam em sites de sexo. É arriscado ponderar a respeito do que vai pela alma humana a partir do que cada ser humano afirma a respeito de si próprio. Por isso, foi importante que a reportagem da Veja tenha ponderado que a pesquisa "não pretende revelar como agem" os brasileiros. Até porque, convenhamos, e já que se trata de discutir valores morais, o dinheiro usado para corromper agentes públicos sai é do bolso da elite econômica -ainda que a origem do dinheiro sejam os cofres públicos. Ou seja, quem pratica o grosso da corrupção ativa no Brasil, monetariamente falando, é a elite econômica. E é razoável fazer alguma correlação entre elite econômica e elite intelectual. Pode haver exceções, mas quem tem mais estudo no Brasil tem também mais dinheiro, como mostra qualquer estatística. Temos então um paradoxo. Segundo o professor Almeida, a elite brasileira, apesar de ser a responsável pelo grosso da corrupção, afirma que a corrupção é condenável. Enquanto o povo, apesar de participar da corrupção apenas marginalmente, admite com mais tranquilidade a existência da corrupção. Como explicar isso? Vou ler o livro antes de dar uma opinião definitiva. Mas não custa especular. Talvez a resposta esteja nas lições do velho (Karl) Marx. Desde o século 19 sabe-se que a ideologia dominante numa sociedade é a ideologia da classe dominante. Em miúdos, os pobres tendem a pensar mais ou menos do mesmo jeito que os ricos, quando se trata de valores. Você discorda? Veja que não estou falando de política (em quem o sujeito vota), mas de ideologia (o que o sujeito pensa). Minha hipótese é que os menos instruídos e os mais instruídos pensam do mesmo jeito, só que os mais instruídos pesquisados tiveram mais vergonha quando se tratou admitir o que pensam. De todo jeito, e mesmo se eu estiver certo na minha hipótese, apenas o fato de sentir essa vergonha já distinguiria os mais instruídos dos menos instruídos. As minhas dúvidas levam-me a adotar conclusões mais cautelosas e menos otimistas do que as da Veja. Ainda que fossemos todos mais instruídos, não sei se haveria menos corrupção e menos inqüidade no Brasil. Certamente estaríamos todos os brasileiros, das diversas classes sociais, mais preparados para responder a pesquisas de um modo politicamente correto. Talvez só isso.

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33 Comentários:

Anonymous Cadú disse...

Excelente análise!

O que a pesquisa não consegue capturar é que o tipo de corrupção que mais tem visibilidade e impacto social na sociedade brasileira é a que ocorre na esfera política ou precisamente no Estado: "Condenada" moralmente por todos. Porém, sua funcionalidade exige, e os fatos demonstram isso, a participação de uma espécie de corpo de "especialistas em corromper o Estado". Logo, surge a questão: Qual a origem social desses "corruptos"? bom, parece óbvio que o estrato social responsável pelo recrutamento da burocracia estatal e do corpo de profissionais da política ( esses dois geralmente estão mais sujeitos a corrupção) é a classe dominante. Justamente a classe que fica mais revoltada com os casos de corrupção. Um verdadeiro paradoxo. Realmente o velho barbudo alemão tinha um pouco de razão! Em seus textos ele já chamava a atenção para o caráter contraditório da ideologia burguesa capitalista. Prega a moral para as massas, mas é a primeira a trair seus próprios valores...!

terça-feira, 21 de agosto de 2007 22:39:00 BRT  
Anonymous JV disse...

pode ser, mas pode ser que a pesquisa tenha valor, daí que teremos que conviver com a idéia de que aquela máxima das esquerdas-O povo é bom, ruim são as elites - seja pura balela.

terça-feira, 21 de agosto de 2007 23:49:00 BRT  
Anonymous paulo araujo disse...

Alon

Onde andara o simples caseiro? Alguem tem noticia?

E o mocinho com cara de pobrinho padroeiro das causas impossiveis? Aquele que dirigia um fusquinha recebendo salario de procurador da Republica? Alguem tem noticia? Sei. Nao existem mais causas impossiveis, dirao os amigos do mocinho com cara de pobrinho.

Sobre instruncao e cultura, a Alemanha que nos deu Hitler nunca antes na historia desse pais fora tao culta e instruida.

Heidegger saudou Hitler como o guia genial, o audacioso capaz de conduzir o povo alemao e levar ao mundo a boa nova da supremacia ariana.

Sim, aqui a filosofia morena diz: "quando o grande Ele fala o mundo se ilumina e tudo se esclarece".

Entao eu pergunto, estamos fadados a escolher um ou outra?

As armas mais eficazes contra tais iniquidades foram, sao e serao os intelectos instruidos e verdadeiramente esclarecidos. Somente nesta elite reside a esperanca. Se nao for assim, estamos destinados a repetir e imitar Goebbels:
"quando ouço falar em cultura, saco logo o meu revolver".

...................................

Uma observacao:

Nessa que segue abaixo voce escorregou. Custo a crer que voce, amigo da logica e dos fatos, tenha escrito: "o dinheiro usado para corromper agentes públicos sai é do bolso da elite econômica -ainda que a origem do dinheiro sejam os cofres públicos.

Ora, Alon, se a origem do dinheiro esta nos cofres publicos, entao e logicamente impossivel que o dinheiro usado na corrupcao tenha saido do bolso da elite economica. Certo? Ou errado?

Nessa sua afirmacao faltou a logica e sobrou ideologia.

Mais uma outra ponderacao. Nao podemos falar de elite no singular. A nao ser, e claro, se quisermos subsumir o conceito classico do marxismo sobre burguesia e proletariado (luta de classes como motor da historia) nos "conceitos" elite e nao elite.

lembro que e "in" em certos circulos intelectualizados a denominacao "elite branca", alias, surrupiada daquela grossa bobagem dita pelo ex-prefeito sobrancelhas superlativas.

Existem elites: burocraticas, sindicais, partidarias, intelectuais, militares, etc. Ha ate uma nova elite, a dos fumantes dos Cohiba, pagos com o dinheiro que tem origem nao contabilizada nos cofres publicos. Certo? Ou errado? Tudo bem, sempre havera que prefira crer que tais charutos sao presentes de Fidel...

Enfim, Alon, como dizem os nossos irmaos do norte, nao existe almoco gratis. Tambem adoro essa frase: a cada minuto, nasce um trouxa.

abs.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007 00:01:00 BRT  
Blogger Cesar Cardoso disse...

Sobre essa reportagem da Veja? Daqui a pouco a Veja vem com uma reportagem "ser feliz é melhor que ser triste". Me poupe, Alon. Por favor.

Ah sim. O Japão é um país instruído e a corrupção é vista como parte integrante do dia-a-dia.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007 00:37:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

paulo araujo

Como faltou lógica? É claro que o dinheiro da corrupção é apropriado pela elite econômica.

Quem ganha com uma licitação superfaturada? O peão da obra ou o dono da empreiteira?

Quem ganha com as máfias do lixo? O varredor de rua, o lixeiro, ou o dono da companhia de lixo?

Meu dedo está coçando para teclar mais neste post, só que não quero estragar sua construção quase perfeita, Alon. Você é maquiavélico, hein?

quarta-feira, 22 de agosto de 2007 01:48:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Errata: o último parágrafo do meu comentário refere-se ao post anterior e não a este.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007 01:50:00 BRT  
Blogger mmartinelli disse...

Alon,

Me parece que você não gostou do resultado da pesquisa e procurou justificá-la através de generalizações grosseiras. Ou será que todos os brasileiros minimamente bem abonados são dotados do mesmo conceito de moral de um Paulo Maluf? Não! Da mesma forma, ninguém em sã consciência pode afirmar que todo brasileiro pobre pode ser explicado através de Fernandinho Beira-Mar! A lógica deve valer para os dois lados.

Pelo que você escreve aqui me parece que um brasileiro, branco e com curso superior, por definição, é suspeito de corrupção e falta de caráter. Enquanto que um brasileiro menos abastado é imediatamente associado à honestidade e à ética.

Ou se faz uma crítica à metodologia da pesquisa (ou ao seu pesquisador) rejeitando os seus resultados, ou se admite que a pesquisa foi feita com isenção e honestidade e se aceita os resultados dela. Não vale dizer que os consultados mentiram! Aí resta uma pergunta: por quê só os supostamente ricos mentiram na pesquisa? Sob essa ótica, não poderíamos assumir um igual grau de falsas respostas vindas do campo dos mais pobres?

Veja bem, não desejo nem fazer uma defesa dos mais ricos e, muito menos, criticar os mais pobres. Na minha opinião, o brasileiro médio (seja ele rico ou pobre, branco ou negro, com curso superior ou analfabeto) é um indivíduo honesto e trabalhador. O problema ocorre quando se procura analisar um padrão de conduta de um grupo através das suas exceções (Paulo Maluf e Fernandinho Beira-Mar, por exemplo). As conclusões sempre são equivocadas.

O que é mais trágico é que em um outro post recente (aquele dos Ricos e o Cansei) você chegou até a dizer que seria bom que o Brasil tivesse uma quantidade maior de ricos e que estes fossem mais ricos ainda. Pela associação feita neste post aqui podemos chegar a conclusão que o que você deseja mesmo é de mais mentirosos e corruptos!!!

Me desculpe, mas esse post foi péssimo!

quarta-feira, 22 de agosto de 2007 08:20:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro MMartinelli, quem generalizou não fui eu, foi a pesquisa que resultou nas reportagens da Veja e do JN. Eu só disse que talvez seja precipitado culpar o povo pela tolerência com a corrupção, pois o grosso da corrupção é praticado pela elite. E caro José Augusto, não hesite em apontar os problemas nos posts, voc6e me ajuda.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007 10:10:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Alon,

Você acerta quando diz que não há 100% de certeza de que a elite intelectual seja a elite econômica. Não é. A elite econômica, hoje, é formada por sindicalistas nos fundos de pensão, criadores de boi-senadores e empresários como Oscar Maroni. Ou seja, a "elite" que subiu por mérito$ duvidosos.
A elite intelectual está entre as mais "ricas" somente num conceito amplo de riqueza. Beeem amplo, como sabemos. Ou seja, quem ganha mais de R$3000 reais é colocado como rico (uma falácia). É aí que se encontra nossa "elite". E é dela que a pesquisa fala.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007 12:03:00 BRT  
Blogger FReaKNM disse...

Ótimo post, Alon.

Mas como direitista, queria resolver a generalização da "elite econômica responsável pela corrupção". Alguns são, é claro, mas a generalização é ruim.

Eu vejo a questão do seguinte modo: é claro que nem todos da elite econômica são corruptos. Acredito que sejam uma minoria. E já que a elite têm mais poder político, não precisa se acomodar.
Já as classes mais baixas não contam individualmente com esse poder, e por isso acham que têm que ser assim mesmo...
Bom, deve ter ficado confuso, mas é por aí...

PS: li no tópico abaixo que alguém disse que seu posts são massantes... bom, eles não estão acostumados a ler Reinaldo Azevedo -___-

quarta-feira, 22 de agosto de 2007 12:36:00 BRT  
Anonymous Pedra disse...

Concordo com você. A conclusão do livro parece muito precipitada.
Acredito que se colocassem um detetor de mentiras durante a pesquisa, o resultado seria outro.

Na minha pesquisa pessoal, percebo o desespero daqueles com menos estudo e menos riqueza em manter o nome limpo, que entendem ser a única que tem. Casas Bahia tá aí para provar isso. Veja a inadimplência deles.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007 12:37:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Eu não preciso de pesquisa para ter a certeza de que nas ditas classes mais altas o preconceito e a hipocrisia correm soltos.
Marcos Feitoza

quarta-feira, 22 de agosto de 2007 12:50:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, certo também é que vivemos 500 anos de dominância política e econômica de uma parcela pequena da população. O que podemos chamar de elite. Esta mesma que Veja enobrece é a responsável pelo panorama de desigualdade extrema do Brasil.

Cristiano Medri

quarta-feira, 22 de agosto de 2007 12:57:00 BRT  
Anonymous emanuel lima disse...

Grande,Alon!!!!

Bela análise...
Nada como uma boa chacoalhada nos miolos pra ajudar a pensar melhor!!!!

quarta-feira, 22 de agosto de 2007 13:44:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Náo há dúvidas de que a pesquisa encontra enormes dificuldades para fazer definições. Afinal, qualquer um que não seja uma pessoa que ganha salário mínimo pode ser considerado elite. Os tais ricos englobam gente muito diferente, em todos aspectos, daí que a pesquisa não tem lá grande valor.
Mas daí dizer que o povo pobre é santo, tem uma enooooorme diferença. E olhem que eu prefiro a clientela humilde (por outros motivos que a moralidade)à clientela abastada.
Tem aquele ditado, para conhecer uma pessoa, coloque dinheiro na mão dela.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007 14:39:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Qualquer coluna, crônica, ensaio ou reportagem que use a palavra "maniqueísmo" fora de seu sentido original deve ser condenada por sua extrema vulgaridade. Se alguém quer fazer propaganda para derrotar a centro-centro-esquerda, a centro-esquerda e a esquerda em 2008 e 2010, deve usar palavras decentes e não lugares-comuns que são piores que as metáforas do Lula.

http://en.wikipedia.org/wiki/Mani_%28prophet%29

quarta-feira, 22 de agosto de 2007 14:44:00 BRT  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

O furo lógico do seu post, Alon, é que o que tem de ser medido é o volume da corrupção relativo à renda de cada um. É claro que o grosso da corrupção é feita pelos mais educados (mais ricos), já que o grosso do dinheiro que potencialmente pode ser objeto de corrupção trafega igualmente entre os mais ricos.

Mas existem também os pequenos atos de corrupção, como, sei lá, corromper um guarda para montar uma banca de camelô ou uma birosca num quanto qualquer. O dinheiro que rola nesta economia da pequena corrupção é infinitésimo comparado com o que rola na grande, mas isto não quer dizer que os educados (ricos) sejam mais propensos à corrupção.

Outra coisa é corrupção e desonestidade. Efetivamente, as interações com o Estado em que potencialmente se pode corromper muito provavelmente aumentam proporcionalmente à renda, de tal forma que o bem educado vive em um ambiente com muito mais oportunidades de corromper e ser corrompido. Mas existe a desonestidade, em que não se rouba do Estado mas sim de outro cidadão, e, neste caso, as oportunidades são mais democráticas. Bem, não me consta que os brasileiros sejam muito honestos em nenhum estrato social. As pessoas não deixam o carro destrancado num clube de classe média, e muito menos se param em uma área pobre perto de uma favela.

Enfim, a aceitação da corrupção pelos menos educados (mais pobres) pode mostrar simplesmente uma propensão à desonestidade, que não necessariamente se materializará em atos de corrupção (por falta de interações adequadas com o Estado), mas sim em desonestidade pura e simples.

Finalmente, se o grosso das oportunidades da corrupção se concentra nos estratos mais elevados de renda, isto não quer dizer que todas as pessoas neste estrato (ou a maioria delas, ou uma significativa proporção) são corruptas ou corrompíveis. O grosso da corrupção vai, por uma questão lógica, acontecer onde existe o grosso das oportunidades de corrupção. É bem possível que a maior parcela das pessoas nestes estratos seja contra a corrupção e a condene, e uma minoria a pratique (admito que tendo a achar que os brasileiros de qualquer classe são mais propensos à desonestidade do que gostaria, mas isto é apenas uma opinião, achômetro)

Por outro lado, é possível realmente que o fato de os mais ricos revelarem-se mais contrários à corrupção do que os mais pobres seja apenas um sinal de que são mais propensos a endossar verbalmente a norma moral correta e socialmente aceitável, mas que isto não necessariamente indique que eles sigam esta norma. Da mesma forma, é possível que os pobres mais ingenuamente respondam com a sua propensão natural, e não levando em conta a norma moral socialmente aceitável.

Estas são as suas hipóteses, e elas são cabíveis. O problema é que o argumento que você usa para mostrar que elas têm alguma chance de ser verdadeiras - que a corrupção acontece entre os mais ricos - não prova absolutamente nada.

Então, temos uma pesquisa que diz que os mais educados condenam mais a corrupção que os menos educados. Esta pesquisa não prova nada, mas ela indica alguma coisa. Indica que talvez os mais educados sejam de fato mais avessos à corrupção. Afinal, apesar do seu exemplo sobre sexo na Internet, eu diria que é mais comum que haja alguma correspondência entre o que as pessoas falam e fazem do que que haja uma correspondência inversa.

Mas às vezes não há correspondência. E às vezes a correspondência é inversa. Ok então. Dá para você manter a sua torcida (que para mim vem de um background ideológico de esquerda) de que os menos educados são pelo menos iguais, quiçá moralmente superiores aos mais educados. Mas é apenas torcida, você não apresentou nenhum argumento que sustente estas teses.

E a tal pesquisa do Alberto Carlos Almeida, embora não tenha provado nada, enfraqueceu um pouco mais as bases da sua crença

quarta-feira, 22 de agosto de 2007 14:53:00 BRT  
Anonymous Richard Lins disse...

Não discordo de K. Marx, mas, se assim for, bastaria termos uma elite comprometida com a construção do Brasil para que o resto do povo acreditasse.
Isto já aconteceu no passado (governos Vargas e JK).
Por isto, mais importante ainda é o papel de Lula, não "sendo" de elite, em fazer valer este compromisso com o desenvolvimento e o bem estar de todos os brasileiros... e não apenas dos "pobres". Seria a excessão que confirmaria a regra: quando as classes dominadas tomariam um rumo diferente da elite e levariam a uma mudança no pensamento nacional que acabaria substituindo a antiga elite por uma nova, alinhada com os novos ideais.
Porém, ao contrário, Lula está pondo "pobres" contra "ricos", dividindo o Brasil para conquistar o poder absoluto.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007 16:00:00 BRT  
Blogger Guilherme disse...

@arranhaponte:

Quase parei no seu primeiro parágrafo: se eu ganho 100 e roubo 10, sou mais corrupto que alguém que ganha 1000 e rouba 15? Isso acaba descambando para o "Fulano rouba mas faz".

O que acaba acontecendo, e o que penso que a pesquisa mostra, é o seguinte: nossas classes mais educadas (a elite), apesar de dominarem o cenário político e econômico no Brasil, são incapazes de gerarem um sentimento de unidade com a parcela "não-elite" da população. Ou, mais claramente, as elites (que segundo a revista Veja, deveriam liderar o país), cada vez mais separam-se da maioria com menor nível educacional.

Para alguém que prega igualdade e democracia, não deveríamos estar andando no sentido oposto?

quarta-feira, 22 de agosto de 2007 17:38:00 BRT  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

Guilherme, você não é mais corrupto se ganha 100 e rouba 10 e o outro ganha 1000 e rouba 15. Não foi isto que eu quis dizer. O que eu quis dizer é que se você só tem condição de roubar 10 e rouba 10, e outro só tem condição de roubar 1 milhão e rouba 1 milhão, a propensão a corromper dos dois é a mesma, isto é, vocês roubam tudo o que for possível roubar. É claro que analisando individualmente o que roubou 1 milhão é mais corrupto, porque roubou muito etc. Mas não é isto que a pesquisa tentou medir, isto é, não é o volume de corrupção por classes, mas, indiretamente (por meio das atitudes em relação à corrupção) a propensão a ser corrupto nas classes, ou melhor, nos diferentes níveis educacionais.

Em outras palavras, se você só pode roubar 10 e rouba 10, é provável que você roubasse 1 milhão se pudesse roubar 1 milhão.

O que o Alon indiretamente apontou é que quem rouba menos (independentemente de quanto lhe foi dado de oportunidade de roubar) não só é menos corrupto, no sentido individual quantitativo, mas é menos propenso a roubar, é moralmente menos corrupto (isto é, se pudesse roubar 1 milhão, não roubava, porque só roubou 10 quando só tinha 10 para roubar - lógica furada)

É curioso ver a resistência que as pessoas têm à idéia de que a educação faz bem às pessoas, até moralmente

quarta-feira, 22 de agosto de 2007 18:48:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Sou representante comercial e conheço muitos diretores, compradores e produtores gráficos de agências de propaganda que são grandes "boleiros", i.e, corruptos. Todos muito educados e endinheirados. Seria muito interessante a publicação de um dossiê sobre a corrupção no setor privado, e sobre o perfil dos corruptos nesse setor.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007 22:29:00 BRT  
Anonymous Carlos Frederico disse...

Um monte de gente bla-bla-blá e ninguém parou para questionar o "ponto-chave" da pesquisa: ela pretende definir como o brasileiro "pensa" e não como ele "age"! Para a pesquisa, pensar e agir são coisas facilmente separáveis. Só que a pesquisa poderia, para ganhar o mínimo de credibilidade científica, tentar definir o que é "pensar". Pensar é o quê? Segundo a pesquisa, pelo que parece, pensar = dar uma resposta consciente. Isso soa minimamente científico para alguém?

Aí o entrevistado fala que é contra a corrupção, mas sonega imposto de renda há quatro anos, comprou a carteira de motorista pelo telefone. Bacana. Qual o viés para descontar a hipocrisia dessa resposta?

Mas o pior é a própria hipocrisia da pesquisa e de seus intérpretes, porque é muito sintomático que ninguém tenha parado para pensar que a pesquisa quer demonstrar, de qualquer jeito, passando inclusive por cima de qualquer verificação com a realidade, que os pobres são mais adeptos da corrupção. É isso que a "pesquisa" quer vender. E ninguém acha que isso tem a ver com as origens sociais do presidente e, principalmente para o atual momento, com as origens sociais dos votos que o elegeram?

Sejamos claros e vamos ler o enunciado: a pesquisa afirma que pobre que não vai à escola é mais corrupto. Ora, ora, meus caros, como diria o Henfil: disc-jóquei e cientista, é no jabaculê!

quinta-feira, 23 de agosto de 2007 01:47:00 BRT  
Blogger Frodo Balseiro disse...

Alon
E a corrupção baixo nível, não conta?
Quem é que faz "gato" na eletricidade, na agua encanada, na tv por assinatura?
Quem é que compra atestado médico na Praça da Sé para não ir trabalhar? Quem compra certificado de conclusão do curso de madureza?
Quem é que faz as mutretas para fraudar o bilhete único do transporte?
Acredito que não seja a elite não!
E esses crimes são muito mais correntes do que a alta corrupção que envolve na verdade, pouca gente, mas com grande apetite!

quinta-feira, 23 de agosto de 2007 07:05:00 BRT  
Anonymous paulo araujo disse...

Jose Augusto

Os temas e as questoes que o Alon suscita no blog nao sao simples. Isto e, para serem contestados (no espirito do blog) exigem grande atencao do comentarista e, sobretudo, poder de sintese.

Estou sem tempo e muitas vezes escrevo de modo intempestivo. Ai escrevo muito masi bobagens do que escrevia antes. Por iso escolhi dar um tempo nos comentarios.

Sobre a escorregada do Alon, e evidente que ela esta na construcao do texto. Se a grana da corrupcao esta nos cofres publicos ela nao pode, ao mesmo tempo, estar no bolso da elite conomica. Ou esta num lugar ou esta noutro. Essa e uma lei da fisica.

Por outro lado, e revelador que o nosso querido jornalista de esquerda confunda-se quando se trata de tocar num tema tao caro aos esquerdistas.

Enfim, eu desconfio quando o discurso da esquerda aciona as suas palavras chave para explicar o real. Existem varias palavras. A que esta em questao e elite.

Voce ja deve ter lido Lenin teorizando sobre o partido da classe operaria. Esta clarissimo nesse pensamento que somente a elite do proletariado (classe para si) podera organizar e conduzir o proletariado (classe em si) na realizacao da sua tarefa historica, que e destruir a sociedade burguesa para implantar a sociedde socialista, da qual deveria emergir o comunismo. Na dialetica dos comunistas, o comunismo e um devir historico, ou seja, esta inscrito como necesidade no curso da Historia. Nesse sentido, tudo o que afasta a historia desse devir e o mal. Tudo que a aproxima e o bem.

Isto posto, concluo:

1.O termo elite possui uma origem aristocratica. Elite e a palavra que designa os melhores entre um grupo. E nenhum pais se faz grande sem suas elites. Lenin sabia muito bem disso. Concordamos, Lenin e eu (hehe), nisso.

2.O termo elite, no discurso da esquerda oficialista brasileira, foi acionado como uma especie de embreagem do discurso.

Explico. Quando estamos numa subida forte, temos que pisar na embreagem para trocar de marcha e permitir que o nosso carro continue subindo. No caso do discurso (nao importa se de direita ou esqueda) algumas palavras sao acionadas como se fossem as embreagens. Por exemplo, quando petistas sao flagrados com dolares na cueca, o discurso da esquerda oficialista aciona a embreagem (elite) e engata o "condenar os companheiros com dolares na cueca e fazer o jogo das elites". Desse modo, desfocam do essencial (os dolares na cueca eram licitos ou nao licitos) e partem para os costumeiros sofismas.

O assunto e apaixonante, ao menos pra mim. Mas paro por aqui.

abs.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007 10:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Paulo,

O $$ vem dos cofres públicos, passa pelo bolso da elite e uma (pequena) parte dele é destinada à corrupção. Acho que não dá para contestar isso, não é?

quinta-feira, 23 de agosto de 2007 10:55:00 BRT  
Anonymous paulo araujo disse...

Concordo. Mas desde que voce tambem inclua na elite os sindicatos, as ongs, as burocracias partidarias.

Quem mete a mao no dinheiro publico sao empresarios estado-dependentes em conluio com burocratas e politicos corruptos, icluidos os do PT.

Assistimos a marcha das margaridas em Brasilia. De onde saiu a grana que financiou o evento? Dos cofres publicos e de uma empresa estatal de capital aberto. Como sempre, ganharam as empresas de onibus, hoteis, restaurantes, industria da confeccao. Tambem o nosso presidente, que nao perdeu a oportunidade para fazer ali mais um discurso contra as elites.

Ou seja, um evento particular financiado com dinheiro publico.

De minha parte, acho condenavel que os dinheiros do Estado brasileiro sejam uitlizados de forma ilicita. O licito e o ilicito sao, para mim, e para o Estado de Direito, aquilo que esta escrito nas leis. Simples. Roubou, vai preso, seja pobre ou rico, seja esquerdista ou direitista.

Eu preferia os comunistas de antes. Uma gente que lia muito e sabia do que falava. Desafio qualquer esquerdista a me mostrar uma passagem sequer nos textos de Marx e Lenin que acionam o termo elite como categoria analitica. Do que conheco, suas analises estao fundamentadas em conceitos objetivos e claramente apresentados: capitalismo e classes sociais, no caso: burguesia e proletariado.

Esta vendo anonimo? Minha formacao esquerdista foi classica. Se hoje eu recuso o pensamento classico dos meus formadores, o que voce espera que eu dedique ao arrivismo esquerdista que veste Prada, fuma Cohiba, vai a restaurantes dos vinhos caros com carros da moda, putaria de luxo, etc.?

Notou como progrediu o patrimonio da elite sindical petista? E o que dizer do estupendo sucesso empresarial do filho do presidente? Acha que a TELEMAR entrou nessa de gratis?

Nosso Estado, meu caro, com Lula ou sem Lula, e o mesmo Estado patrimonialista de sempre, dominado e utilizado pelas velhas e novas oligarquias.

Cara, estou muito velho pra aceitar que dolares na cueca sao um bem.

abs.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007 11:52:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Paulo Araújo, está na cara que os jornalistas usam "elite" porque se usarem "burguesia" eles podem perder o emprego. Os jornalistas são gramscianos, precisam escrever obliquamente para escapar da patrulha.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007 15:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
Há alguns textos imperdíveis da Marilena Chauí sobre a questão da ideologia. O mais elementar é daqueles textos de iniciação chamado Oque é ideologia, no qual ela define de forma sintética, porém brilhante, esse tema. Vale a pena. Além disso há um testo muito interessante sobre a formação do mito fundador do Brasil (não melembro agora do nome e eu não estou em minha casa).
Basicamente ela coloca que a ideologia para ser eficaz tem que ser totalizante, ou seja dar uma resposta que permita ao sujeito se inserir num determinado contexto, compreender-se a partir desse contexto. Por exemplo, a noção de pátria: rigorosamente falando que identidade pode existir entre uma família de banqueiros e um morador da favela? A idéia de patria serve para identificá-los e,mais do que isso, para eliminar as diferenças entre eles: ambos são brasileiros. Será que isso significa, de fato, alguma coisa? e vai por aí a fora.
Nesta perspectiva a ideologia tem uma função: esconder a realidade (de que não há nenhuma identidade) e criar uma identidade "teórica". Por isso pode-se afirmar que embora a ideologia esconda ou camufle a realidade ela o faz não recorrendo à mentira mas realizando certos deslizamentos semanticos om que as palavras definem muito mais uma aparencia do que uma realidade. E vai por aí a fora.
Gostei do seu texto por isso cometo esta resposta.
Abaço,
Juan

quinta-feira, 23 de agosto de 2007 18:01:00 BRT  
Anonymous paulo araujo disse...

Anonimo

Gramsci obliquo? Nem quando ele estava na cadeia.

Atribuir a Gramsci tal esperteza nao me parece correto. Volte aos seus textos, que sao de uma clareza e objetividade a toda prova. Clareza e objetividade direcionadas para determinados fins, com os quais eu nao concordo.

abs.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007 22:52:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

No "muito além do cidadão kane" está lá o general da hora a dizer o que se esperar do Brasil: "...que os ricos sejam mais ricos para que os pobres, graças aos ricos, sejam menos pobres". Você não é o único Alon. Sou representante comercial e conheço por dentro algumas empresas e empresários. Se o termo "elite" serve aos melhores humildemente me recuso a usar o termo "elite econômica". Prefiro considerar, romanticamente, como verdadeira elite brasileira, Augusto dos Anjos, Paulo Leminski, Chico Buarque, Vinícius, Sérgio sampaio, Raul, Chico Mendes...

Wilson Cunha Junior

sábado, 25 de agosto de 2007 11:50:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Elite= funcionarios públicos , principalmente do legislativo e do judiciário, aposentados ou na ativa.

sábado, 25 de agosto de 2007 22:16:00 BRT  
Blogger Guilherme Rodrigues disse...

Uma boa avaliação do livro de Almeida foi produzida por Fabrício Fialho e publicada pela Revista Brasileira de Ciências Sociais (http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-69092008000100015&script=sci_arttext).

Eu, particularmente, concordo com Alon no tom das críticas, mas não no conteúdo delas. A questão, ao meu ver, é de insuficiência teórica, metodológica e empírica do trabalho realizado por Almeida. Portanto, Alon, A Cabeça do Brasileiro não é merecedor de críticas que tomem suas conclusões como verdadeiras.

Enfim, considero o trabalho realizado por Almeida como fraco, embora polêmico e instigante.

Obrigado

Guilherme Alberto Rodrigues

terça-feira, 27 de janeiro de 2009 20:56:00 BRST  
Anonymous Carlos disse...

Parabéns pelo excelente post e pelo blog!!
Abraços

sábado, 5 de setembro de 2009 15:26:00 BRT  

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