sexta-feira, 3 de agosto de 2007

É fácil. É só dar aos negros brasileiros o que os negros cubanos já têm (03/07)

O multiblog do Ancelmo Gois traz, volta e meia, posts de um Didi de Araras. No último dia 27, a propósito do desempenho brasileiro no Pan, o Didi postou a seguinte dúvida:

Estamos lutando desesperadamente para superar o número de medalhas de... Cuba, uma ilha miserável, com menos de 10% da nossa população, submetida a um embargo econômico há mais de 40 anos. Será que é tudo o que o nosso esporte pode almejar?

Não tive tempo para me debruçar detidamente sobre o desempenho do Brasil na tábua de medalhas no Rio 2007, mas essa pergunta do Didi ficou na minha cabeça. Meu primeiro impulso foi responder atribuindo a superioridade esportiva de Cuba sobre o Brasil a uma possível superioridade do miserável (segundo o Didi) socialismo cubano sobre o rico capitalismo brasileiro. Como não tenho elementos para, objetivamente, comprovar essa hipótese, deixei-a de lado momentaneamente. Não quero ser acusado de enviesar ideologicamente o debate. Resolvi então enveredar pela demografia. Pois sempre me intrigou o fato de a maioria dos atletas de ponta de Cuba serem negros (na foto, Víctor Moya, campeão do salto em altura) . Pelo menos é o que parece a quem, como eu, assiste a Pan-Americanos e Olimpíadas pela tevê, comendo pipoca. Aí fui na Wikipedia para saber qual é a proporção de negros e mulatos entre os habitantes de Cuba. Na minha busca, achei até uma página com os números detalhados de um censo recente naquele país. Olhe na tabela abaixo, retirada da Wikipedia:

Cuba
Brancos - 7,2 milhões (65% da população)
Negros - 1,1 milhão (10%)
Mulatos/Mestiços - 2,8 milhões (25%)


Não é incrível? Os negros, mulatos e mestiços em geral somam pouco mais de um terço da população cubana. Eu esperava que a proporção fosse maior, a partir da observação dos atletas que aparecem ganhando medalhas. Aí eu fui checar os números brasileiros. Segundo o IBGE, são os seguintes:

Brasil
Brancos - 92,0 milhões (49,9%)
Negros - 11,6 milhões (6,3%)
Mulatos - 79,6 milhões (43,9%)
Ameríndios - 1,3 milhão (0,7%)

Ou seja, a proporção de negros e mulatos é bem maior no Brasil do que em Cuba. Considerando que tem mais branco brasileiro do que branco cubano ganhando medalha em competições internacionais, eu concluí que um bom jeito de o Brasil passar a miserável (segundo o Didi) Cuba nas próximas vezes é dar aos negros e mulatos brasileiros as mesmas condições alimentares, educacionais, médicas e sanitárias que Cuba dá aos seus mulatos e negros. Além, naturalmente, das mesmas oportunidades esportivas. Com essas medidas simples e fáceis de adotar, adquiriremos uma grande vantagem sobre os cubanos. Até porque, em números absolutos, temos muito mais negros e mulatos do que o país de Fidel Castro. E não deverá ser difícil alcançarmos o nível adequado de proteção social aos negros e mulatos, pois Cuba, um país miserável segundo o Didi, conseguiu. Poderíamos talvez começar esse projeto pela população negra e mulata das favelas que orlam a Zona Sul do Rio. Acho que o Didi não vai se opor, ainda que ele seja de Araras (em São Paulo, suponho).

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14 Comentários:

Anonymous paulo araujo disse...

Alon, senao vejamos.

Veja o Popo. Um menino pobre que ganhou uma grana lutando.

Melhor esta o Popo. Nao esta?

abs.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007 22:56:00 BRT  
Blogger Edgard Pina disse...

Só que Cuba não é misarável apenas segundo Didi....é miserável mesmo! O fato de ter saúde e educação de qualidade, não a torna menos miserável, apenas com mais vergonha na cara do que o Brasil, mas, ainda, miserável. As causas dessa miséria, podemos discutir depois, mas, negá-la, nunca!

sexta-feira, 3 de agosto de 2007 23:02:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Peraí, Pelé, Ronaldinhos, Jairzinho, João do Pulo, Claudiomiro, Valdomiro, Didi, Edu, não tiveram sucesso em suas carreiras esportivas? Quer ver negros ganhando medalhas, tem que ter grana de premio, ascensão social, prestígio. Não é ´problema racial só o futebol poder trazer isto para os atletas pobres do país.

sábado, 4 de agosto de 2007 00:44:00 BRT  
Anonymous JOAO disse...

Se é miserável mas tem saude, educação e por consequinte não passam fome e ainda por cima dão um banho de medalhas no .. no...rico e abençoado por Deus que é o Brasil cuidado que isso pode despertar ideias e a imaginação1

sábado, 4 de agosto de 2007 02:29:00 BRT  
Anonymous Rafael disse...

A resposta é mais simples, na verdade. Cuba faz um investimento massivo em esportes, desproporcional para um país do seu porte, devido a obsessão por fazer propaganda do regime. Andava decadente nos últimos tempos, o dinheiro secava até para os esportes. Mas com a ajuda do companheiro chavez injetando dinheiro nos últimos anos, o governo cubano pôde voltar a velha forma, e continuar a fazer sua propaganda.

sábado, 4 de agosto de 2007 08:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, até agora não vi nenhuma repercussão do caso dos atletas cubanos que serão deportados. Sou socialista e humanistas, porque não fazem uma campanha pela permanência dos atletas no Brasil?
Sob Fidel, com certeza a vida deles será um inferno. Eles serão considerados traidores do regime e ficaram anos presos nas masmorras do regime.
Cadê os humanistas brasileiros. E o movimento negro, não vai fazer nada?

sábado, 4 de agosto de 2007 09:37:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Para o Anônimo: os dois querem voltar para Cuba. Veja:

Boxeadores cubanos que fugiram da Vila do Pan serão deportados

Luiza Duarte
Da Agência Brasil

Rio de Janeiro - Os dois boxeadores da equipe cubana que participou dos Jogos Pan-Americanos no Rio e deixaram a Vila Olímpica foram presos ontem (2), em Araruama, região dos Lagos do estado. De acordo com o delegado federal Felício Laterça, que investigava o caso, os dois serão deportados. Segundo a Polícia Federal, os dois atletas deixaram a Vila Pan-Americana no último dia 22 para comprar equipamentos eletrônicos na companhia de dois supostos empresários alemães, que teriam prometido aos cubanos um contrato para lutar na Alemanha.
Os boxeadores não têm mais autorização para permanecer no Brasil, uma vez que os vistos foram concedidos apenas para o período dos Jogos Pan-Americanos, além de estarem sem documentos, o que, de acordo com o delegado, é motivo suficiente para a deportação.
“Foi oferecido a eles a opção do refúgio. Perguntamos se eles gostariam de permanecer no Brasil e se tinham receio de retornar ao seu país de origem. Eles disseram que não, pois eram amantes de seu país e se consideravam personalidades em Cuba, e que essa era a razão de seu retorno”, disse Laterça.
Os atletas aguardarão a deportação em liberdade vigiada. Eles estão em um hotel sob vigilância de policiais federais.
A data do retorno a Cuba depende, agora, da emissão de documentos e passagens pelo governo cubano.

sábado, 4 de agosto de 2007 11:09:00 BRT  
Blogger Julio Neves disse...

Alon, esqueça o sonho de um Brasil olímpico. Pelo menos agora. Ainda somos o país do futebol, somente. E o volei? É um acidente...

Quer um exemplo de que esportes olímpicos não são prioridades? Então descubra quem vai ser o responsável pelo magnífico estádio olímpico do Engenhão.

sábado, 4 de agosto de 2007 17:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Oi Anônimo,
Os cubanos estão sob liberdade vigiada e não deram qualquer entrevista à imprensa, então é difícil saber a verdade sobre o desejo de ambos de retornar à Cuba. Eu, pessoalmente, não acredito, porque na volta ao seu país, eles serão apontados como traiadores do regime e serão repudiados pela população. Tomara que algum parlamentar brasileiro acompanhe de perto esta história.
Considero-me de esquerda e humanista, por isso a preocupação com o destino dos atletas.

sábado, 4 de agosto de 2007 19:08:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

No momento onde pululam as informações científicas de que raça não existe, qualquer coisa que façam será atribuída a brasileiros. Investiu-se em atletas brasileiros. E neutraliza-se quem pelas praçsa não terás nome. Depois de anos a fio esculhambado com tudo o que existia de pior, a mensagem que passa não é tanto a inexistência de raças: prevalece a mensagem de que não existe negro. Em suma, cria-se um vazio para a exploração demagógica.
Sotho

domingo, 5 de agosto de 2007 15:10:00 BRT  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon: Legal, você identificar Araras em SP. Prá mim, veja que ignorância, referia-se à bucólica e privilegiada região vizinha à Itaipava no RJ. Um abraço.

domingo, 5 de agosto de 2007 16:20:00 BRT  
Anonymous trovinho disse...

A Daiane é produto do investimento social do PT em Porto Alegre. O Robinho era mais um "invocadinho" do Bitarú e favela México 70 em São Vicente, mas a prefeitura do PSB (dep. fed. Márcio França) recuperou um estádio decadente e implementou um projeto com alimentação e estudo que nos presenteou esse craque. Robinho tem devolvido o investimento com apoio a projetos relevantes na cidade. Acho que as crianças com câncer de São Vicente não acreditam no americano que disse ser inevitável não existir refeição grátis.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007 04:01:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Então, por que a direita não obriga o Brasil a fazer "um investimento massivo em esportes" para fazer propaganda do regime capitalista? É porque o capitalismo gera tanta riqueza assim para seus beneficiários que a propaganda do regime se torna dispensável?

*

"Cuba faz um investimento massivo em esportes, desproporcional para um país do seu porte, devido a obsessão por fazer propaganda do regime."

segunda-feira, 6 de agosto de 2007 10:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Calma, Alon. Chegaremos lá. Como é muito mais barato financiar uma elite olímpica do que investir na infra-estrutura, o governo Lula vai proporcionar um desempenho nunca antes visto nestepaiz durante a Olimpíada de Pequim. ficaremos iguazinhos à Cuba: uma ditadura com um povo subnutriso e sem perspectivas. Aliás: não é curioso que Cuba não tenha equipes de natação e de esportes à vela (iatismo)? É que todos os que sabiam nadar e velejar fugiram para Miami.
Sds., de Marcelo.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007 11:17:00 BRT  

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