quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Bravata e dinheiro (02/08)

Do Painel, da Folha de S.Paulo:

Sinal verde. Em reunião da coordenação política, Lula se manifestou a favor da abertura de capital da Infraero. Usou a Petrobras como exemplo bem-sucedido do modelo.

Dois posts atrás, eu fiz pouco da bravata de Luiz Inácio Lula da Silva, que anteontem no Mato Grosso ameaçou colocar gente na rua para responder às vaias e às manifestações antigovernistas. Lula também deu um recado no MT aos empresários que se opõem ao governo dele: esses empresários deveriam pensar duas vezes, pois nunca ganharam tanto dinheiro quanto estão ganhando agora. Por que eu descreio da ameaça de Lula de colocar o povo na rua? Por que trato a ameaça como uma bravata? Por causa de coisas como essa que foi publicada hoje pelo Painel. Lula não está em condições de chamar o povo (o povo verdadeiro) para a rua, por limitações clássicas em situações como essa: 1) o governo dele pouco tem a oferecer para massas radicalizadas que se disponham a ir às ruas para defendê-lo, 2) ninguém deve pôr o povo na rua sem ter um bom plano a respeito de como tirá-lo de lá -e Lula sabe disso. Errar na combinação desses dois fatores pode ser fatal para aprendizes de feiticeiro. E, convenhamos, um partido (PT) e um governo que só se lembram de mobilizar as pessoas quando sentem o próprio poder ameaçado pelos adversários não estão a fim de confusão. Ou de marola. Estão mais é a fim de deixar a coisa quieta. E de ir levando numa boa. Por tais motivos singelos é que Lula talvez prefira responder às vaias e passeatas não com outras passeatas, mas com mais dinheiro para os que nunca ganharam tanto dinheiro quanto agora, nas palavras dele, Lula. Trata-se, pelo ângulo de quem está (e quer continuar) no poder, de separar os ricos da classe média, de tirar o oxigênio da classe média, de fechar a janela midiática para a classe média descontente -que o empresariado, sabidamente, mobiliza quando lhe convém pressionar o poder. Talvez por isso é que vem aí, com a venda da Infraero, uma nova oportunidade de se ganhar dinheiro. Naturalmente, para os que nunca ganharam tanto dinheiro como agora, sempre segundo Lula.

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18 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon,
essas massas são só de manobra. Onde está o ex-presidente da CUT? No Ministério do Trabalho. Isso só comprova que alguns movimentos, como CUT, MST, UNE, estão atrerlados ao governo pelos seus dirigentes. A base segue seus líderes. Eles irão para a rua se assim lhes for comandado. E voltarão para suas casas quando for oportuno para o governo. É o vestíbulo da chavização.
Sds., de Marcelo.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007 10:55:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Se privatizar a Infraero o controle aéreo vai junto. como é que o controle militar vai funcionar dentro de uma propriedade privada? Essa vai ser barba e cabelo. E aterrissou antes do horário previsto.

Um exame das caixas-pretas revelaria que era exatemente essa a conversa dos comandantes desde o princípio dessa crise. E olha que eu nunca fui um defensor ferrenho do controle aéreo pela Aeronáutica. Mas a ética nunca deixei de defender.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007 10:58:00 BRT  
Anonymous Frank disse...

Eu reafirmo o que escrevi em outro post aqui no blog do Alon:

O maior perigo à democracia, no Brasil de hoje, não é o comportamento "golpista" da mídia, mas o comportamento "anti-golpista" do governo e seus seguidores – a bravata recente de Lula é só mais um capítulo da novela.

Algumas definições:
 Golpismo da mídia = publicar matérias que desagradam ao governo, compreendendo:
o Matérias corretamente produzidas cujo conteúdo desabona a conduta governamental
o Matérias fajutas - com meias-verdades ou de teor opinativo disfarçado de notícia - com o mero intuito de espinafrar o governo
 Anti-golpismo do governo e seguidores = a título de preservar (garantir ou restabelecer) o equilíbrio da cobertura jornalística, promover um clima de enfrentamento que oporia os anti-Lula (elites) aos lulistas (o povo).

quinta-feira, 2 de agosto de 2007 11:36:00 BRT  
Anonymous Fernando Silva disse...

Pobre classe média, Alon, sem ter quem a represente. Que País terrível, Deus do céu...e ainda temos que ouvir que somos da elite branca e reacionária. Além de golpistas, é claro.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007 12:05:00 BRT  
Blogger Vera disse...

Quer dizer que toda manifestação de apoio a Lula é sinal de chavização, mas toda manifestação que grite "Fora Lula" é democrática, apartidária e legítima. Sei.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007 13:09:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Na realidade, a maioria da "base" está ocupada trabalhando e não tem tempo livre para manifestações de rua. Nenhum líder manda mais neles do que seus patrões.

"A base segue seus líderes. Eles irão para a rua se assim lhes for comandado. E voltarão para suas casas quando for oportuno para o governo. É o vestíbulo da chavização."

quinta-feira, 2 de agosto de 2007 14:54:00 BRT  
Blogger Na Prática disse...

Eu não sei se a INFRAERO deve ter seu capital aberto, mas não acho que devemos nos opor à idéia por princípio.

Fique até positivamente surpreso, porque mostra que Lula está sacando que o problema é a capacidade de financiamento do Estado, independente de qualquer mudança de comando nas agências, essas coisas que se discutem após o acidente.

E, afinal, não é porque alguém ganharia dinheiro com a abertura de capital que a proposta é ruim. Se os caras ganharem dinheiro mas o nível da infra-estrutura melhorar proporcionalmente, está ótimo.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007 14:57:00 BRT  
Blogger Nehemias disse...

Pessoal,

Eu questiono a representatividade do "Cansei". Seis mil pessoas na rua, não é uma grande manifestação. Não são 600 pessoas, mas também não são 60 mil. Contudo, a imprensa colocou a manifestação na 1ª pagina da 2ª feira.

Agora, é dado a todos, inclusive a "elite branca" se manifestar. E o fato de ser a "elite branca", ou as "dondocas enfadadas da paulista", não tira a legitimidade de algumas reinvindicações. Que houveram erros na condução do "cansei" é fato. Mas até ai, os movimentos chamados populares tbém vivem "botando o pé na jaca" (vide MLST). É possível que a classe média pode estar servindo de massa de manobra da oposição, mas as pessoas que participaram de manifestações da UNE, do MST, da CUT tbém não foram? Alías, quem nunca foi massa de manobra na vida, que atire primeira pedra.

Alías, o grande problema do governo atual (e olha que eu votei nele) é que ele tem medo de oposição. Não estou nem falando em Chavismo ou coisa do gênero (acredito que não é o caso). Mas é aquele medo de que se a oposição juntar 30 mil pessoas na rua, ou se a popularidade do Lula cair 5 ptos no Ibope, o governo vai cair. As vezes dá impressão que o governo vive como se fosse muito fraquinho, um vazinho de porcelana que qualquer solavanco mais forte fosse suficiente para quebrar, e não como o governo de um presidente que foi reeleito com 60 % dos votos, sob cobertura geralmente negativa da mídia (algumas vezes com razão), a menos de um ano.

Nehemias

quinta-feira, 2 de agosto de 2007 15:24:00 BRT  
Anonymous jv disse...

Perfeito Alon, cuidado com a raiva petista. Vera, sim, perpetuar Lula é chavismo, querer derrubá-lo nas próximas eleições é democracia.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007 15:52:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Vera,
não são todas as manifestações e apoio ao Lula que podem ser chamadas de chavismo. Só aquelas promovidas por movimentos sustentados com verbas oficiais e liderados por membros da tropa de choque petista (ou seja quase todos). Aliás, não há nada de novo no método. O Getúlio usou e abusou dele.
Sds.
de Marcelo.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007 16:22:00 BRT  
Blogger Vera disse...

JV, quem falou em perpetuar Lula? O PT, Lula? E movimento de "fora Lula", desde agora, para impedir que se chegue às eleições de 2010 é o quê? Democracia?

quinta-feira, 2 de agosto de 2007 18:22:00 BRT  
Blogger Vera disse...

Do ponto de vista do anônimo aí de cima, é vedada toda e qualquer manifestação de apoio ao governo, porque viciada por princípio, é isso? Considerando-se que partidos ligados ao governo, sindicatos de trabalhadores e patronais ligados por lei ao Ministério do Trabalho, ONGs que recebem dinheiro legalmente do governo, etc, quer dizer "quase tudo" que se organiza neste país tem alguma ligação com algum órgão ou agência governamental - inclusive as TVs que são concessões públicas, os jornais e tevês que recebem anúncios de órgãos do governo, as empresas que tomam empréstimos subsidiados dos bancos estatais, etc. - tudo isso é proibido sob pena de ser considerado pelo ilustre leitor como manifestação chavista. Sobrariam apenas os condomínios privados, algumas organizações de moradores, comerciantes, empresários enquanto pessoas físicas, etc. - e essas manifestações privadas certamente não teriam nada a ver com uma venezualização do Brasil, não é mesmo?

quinta-feira, 2 de agosto de 2007 18:38:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Alon, gostei da provocação (no sentido de provocar posicionamentos) que tem no seu texto.
Mas eu acho que dá para ver diferenças de outros pontos de referência:

Nas manifestações de descontentamento do lado conservador tem um balaio de interesses diversos:

1) Lobbie de interesses econômicos fazendo pressão para aumentar sua influência sobre o governo (como você escreveu).

2) A imprensa oligárquica sempre acostumada a ser bem remunerada para publicar notícias boas. Inclusive, má imagem de governos costuma induzí-los a gastar mais com propaganda institucional.

3) As eleições de 2008 que coloca em jogo a sobrevivência do DEM como partido grande e ameaça os projetos Tucanos. Ambos tem seu eleitorado de classe média, mas que vota com a mão no bolso, e serão seduzidos a votar no PMDB, PR e outros, engajados numa agenda otimista (governista), ao verem parentes e amigos se empregarem, conseguirem trocar de carro, comprar a casa própria, consumir mais eletro-eletrônicos, viajar ao exterior com o dólar barato, etc.

4) Os segmentos golpistas "constitucionais" que acham viável criar um ambiente para julgamento político de impedimento por algo abstrato como falta de decoro.

5) Os saudosistas de uma ditadura que pegam carona no "fora Lula", mas querem de fato o fora políticos (todos).

6) Anti-lulistas fanáticos.

Por outro lado as manifestações de apoio governista, não é apenas para sustentação a todas as políticas governamentais. Também tem interesses diversos:

1) Idem ao item 1 acima, porém com sinal trocado. Puxando a influência no governo para a agenda social.

2) Resistir às relações de troca de apoio por dinheiro imposta pela imprensa oligárquica. Ao mesmo tempo lutar pela verdadeira imprensa livre, que dê voz plural à todos os segmentos representativos da sociedade, e publique notícias pelo interesse público que os fatos despertam sem editorá-las segundo critérios de custo-benefício político.

3) Se é pra colocar o bloco na rua da eleição 2008, então que todos mostrem suas propostas e quem está por detrás delas. Todos nós sabemos que nos regimes democráticos o instrumento de chegar ao poder chama-se partido político. Essa falácia de campanhas contra o governo apartidária, usando narizes de palhaço, não engana o distinto público politizado.

4 e 5) Os paranóicos que vêem o ovo da serpente de derrubar o presidente sem motivo jurídico (com ou sem ditadura). Mas no mundo competitivo de hoje, dizem que só os paranóicos sobrevivem.

6) Os Lulistas fanáticos.

Como se vê, os dois lados tem seus interesses quase sempre legítimos, inerente ao processo político. E mobilização de um lado cataliza mobilização do outro. Radicalização de um lado cataliza radicalização de outro.

Lula tenta fazer um governo trabalhista e conciliador. Em alguns países chamam de "revolução" (?) prudente, que está levando o Brasil a ser uma potência mundial.

Na minha opinião a direita deveria se vestir com essa bandeira da "revolução prudente" e do "Brasil potência" e correr por fora tentando emplacar um candidato com cara de terceira via.

Ao despertar reações mais radicais, acabará por obrigar o governo Lula a guinar à esquerda (porque para à direita é inócuo, seis meses depois vem nova onda de ataques mais forte). É a velha lenda de matar a galinha dos ovos de ouro, por querer demais.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007 00:05:00 BRT  
Blogger Na Prática disse...

Vera, assim como é errado acusar de golpismo tudo que for oposição ao Lula, você tem razão de que há mesmo uma corrente intelectualmente preguiçosa que acha que o Lula ganhou porque a população é analfabeta, e deduz disso que são anti-lula por serem excepcionalmente esclarecidos. É triste.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007 10:16:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Até os Repórteres Sem Fronteiras enviaram carta ao Lula e ao PT. Nunca antes neste País...

sexta-feira, 3 de agosto de 2007 12:21:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Nao provoca Alon...... É obvio que Lula prefere a paz e que a elite o deixe chegar ao fim de seu mandato, sem que seja ameaçado a todo momento, por uma minoria, de golpe. Mas se for elvado ao extremo, respondera com radicalismo. Lula deve ter aprendido muito de 2005 para cá. Primeiro, ele nunca sera aceito pela classe rica - 1% que detem 53% da riqueza - que o despreza e, no maximo, o atura. Nao adianta se Lula mantem o status quo dessa gente, que ganharam como nunca ganharam na vida. A elite tem nojo de Lula, por sua origem. E odio porque Lula ocupa um cargo que entende a elite, lhe seja de direito. E a todo momento tentarao apea-lo do poder, pois querem retoma-lo. Parte da classe merdia, pautada pela midia, vai de reboque, mesmo se perdendo ate as calças, bem que, nunca viajaram tanto de aviao e compraram tanto carro novo.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007 13:03:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O poder do presidente é dado por preceitos constitucionais. Não será por ausência de grooving ou presença de grooving que será ameaçado. O momento ruim não é ter quem queira brincar com a Democracia. É ter quem goste de brincar com a paranóia, transformando-a em tática política. Como amealhar recursos privados para a Infraero, se ela não é a proprietária dos aeroportos? Onde está a atratividade?
Sotho

domingo, 5 de agosto de 2007 14:57:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É isto mesmo, Alon. Colocar povo na rua não é assim tão simples. Tirá-lo, então, seria mais difícil ainda. Só que tem quem pense o contrário. Bravatear só deixa isto à mostra. Seria interessante ouvir uma convocação destas. Lembra o que ocorreu no período Collor, quando foi feito um apelo às massas descamisadas: as camisas e bandeiras pretas suplantaram de longe as camisas e bandeiras brancas. Talvez haja ainda quem pense que a história possa ser mudada.
Sotho

domingo, 5 de agosto de 2007 15:03:00 BRT  

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