sexta-feira, 6 de julho de 2007

Terrenos na lua (06/07)

Luiz Inácio Lula da Silva pegou o avião presidencial e foi à Europa vender terrenos localizados na lua. Ou seja, foi vender o que não tem para entregar. Lula tenta convencer os europeus de que a expansão maciça da área plantada com cana de açúcar para a produção de etanol no Brasil vai se dar 1) sem desmatamento, 2) sem expulsão de pequenos agricultores de suas terras, 3) sem atingir terras indígenas e 4) sem reproduzir as degradantes condições de trabalho associadas historicamente à monocultura acucareira no Brasil. Se os europeus vão engolir essa conversa já é outra história. Um "argumento" do presidente chamou especialmente minha atenção. Diz Lula que a Amazônia não oferece terras propícias para o cultivo da cana. Para "provar" sua tese, ele lembrou que os portugueses quando vieram plantar cana no Brasil fizeram-no em terras litorâneas, e não no interior. O argumento não resiste a um sopro. Hoje a cana se espalha por todo o interior brasileiro. Se séculos atrás isso não acontecia, a causa deve ser buscada nos altíssimos custos, naquela época, do transporte de bens do interior para o litoral. Que eu saiba, a Companhia das Índias Ocidentais não era uma entidade benemerente (na imagem, o retrato de Maurício de Nassau). Os bandeirantes só se embrenharam nas matas do Brasil quando foi para buscar ouro e pedras preciosas. Possivelmente por duas razões: 1) pedras preciosas e ouro não são obtidos a partir do cultivo, mas da extração; ou seja, não dá para plantar ouro ou diamantes e 2) pedras preciosas e ouro eram e continuam sendo mercadorias cuja exploração se dá com altíssima rentabilidade, que absorve custos potencialmente altos de produção e comercialização. Acho que o presidente tem se habituado a enrolar platéias com frases feitas e já se esqueceu do que é sofrer oposição. Infelizmente, a oposição no Brasil, por suas origens políticas e e sociais, está associada ao governo federal e aos grandes empresários na festa do etanol. Mesmo partidos nominalmente de esquerda, como o PT, o PSB e o PCdoB, que passaram a vida toda atacando a monocultura como uma das raízes da degraça social do Brasil, parecem inclinados a esquecer o que escreveram e disseram a respeito. E essa talvez seja a maior tragédia produzida pela conversão da esquerda brasileira ao "culto do etanol": a orfandade político-partidária dos sindicatos e dos movimentos sociais, cuja mobilização e luta poderiam, pelo menos, arrancar da insensível elite nacional concessões que minimizassem os danos ambientais e sociais do novo ciclo monocultor. E uma última observação sobre o que o presidente disse aos europeus: ainda que não dê para plantar cana na Amazônia, dá para cultivar soja e criar gado. Escrevi sobre o assunto em Governo vegetariano e terras finitas, em abril. Melhor buscar novos argumentos, presidente.

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16 Comentários:

Anonymous José Augusto disse...

Alon, o argumento do Presidente não está tão errado, pois na Amazônia ocorreu o ciclo da Borracha, e depois de esgotado não houve nem ciclo do Café, nem novo ciclo do açúcar/álcool. Mesmo durante o pró-alcool na década de 70, quando houve programas de colonização da Amazônia e a reforma agrária foi dirigida para lá, não houve cultivo de cana.
Mesmo assim, considero infeliz essa argumentação do presidente. Melhor dizer que reservas florestais e indíginas devem ser tratadas como tal, e seu desmatamento ou invasão são crime, independente da viabilidade econômica; da mesma forma que uma construtora não pode construir um edifício em uma praça pública, por mais viável economicamente que o empreendimento seja.

Quanto a expulsão de pequenos agricultores de suas terras, há tendência de arrendamento (aluguel da terra para usinas). Mas enquanto o país for capitalista e houver o direito de propriedade, ninguém pode proibí-los de vender suas terras às usinas.
A reforma agrária precisa sair um pouco do romantismo do pequeno lote de terra, e pensar na cadeia produtiva como um todo. Uma lei incentivando (ou mesmo obrigando) a participação dos trabalhadores rurais como acionistas das usinas distribuiria muito mais renda e patrimônio, e muito mais rapidamente, do que a distribuição de lotes de terra nua.
Outra coisa viável seria a aplicação de leis anti-truste à terra, evitando demasiada concentração de propriedades.

Quanto à solução ao trabalho degradante, além da já citada pulverização de acionistas, é mais fácil sindicatos rurais conseguirem melhor renda e condições de trabalho onde há riqueza do que onde não há. O restante a fiscalização e justiça do trabalho deve cuidar.

sexta-feira, 6 de julho de 2007 12:03:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É preciso lembrar que existem já na Amazônia milhões de hectares de terras degradas que podem ser usadas para cutlruas como a cana-de açúcar. O problema é sustrentar a fiscalização para que não haja derrubada de floresta virgem. Usar terras já atinfgidas pela ação do homem para atividades econômicas que devem , obviamente seguir a legislação existente em todos os seus níveis é uma iniciativa correta. O que não é possível é não defender a atividade econômica sob a alegação implícita de que a legislação trabalhista, ambiental, de proteção aos índios e às comunidades tradicionais, não vai ser seguida. Com esse raciocínio fecha-se até a padaria da esquina.

sexta-feira, 6 de julho de 2007 13:56:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
a fisiologia da cana-de-açúcar, pelo menos das veridades atualmente disponíveis, não é adequada para o plantio na região amazônica. O clima é impróprio para o seu desenvolvimento e produção de sacarose. A argumentação do Lula, como de hábito, é grotesca. O que vai acontecer é que a cana deslocará da região Centro Sul a produção de carne a pasto e também de outros cultivos, que podem se direcionar (eles sim) para a amazônia. Os pequenos e médios proprietários estão perdendo rentabilidade em seus sistemas de produção. Eles estão sendo pressionados para vender suas terras (pequenas áreas) bem situadas para comprar largas extensões (baratas) em lugares mais distantes. Ou migrar de vez para cidades, vivendo de renda fixa (CDB do próprio governo). Falta uma política de preservação dos pequenos e médios produtores, antes mesmo de falar em reforma agrária.
Em tempo: aquela frase sobre a cana e os colonizadores portugueses é cômica. Não foi uma boutade, foi burragem mesmo.
Sds.,
de Marcelo.

sexta-feira, 6 de julho de 2007 15:07:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Sutilezas devem ser consideradas.Lula, quando se refere a utilização agro-pecuária da Amazônia,o faz, lembrando a Amazônia Legal.Esta acolhe investimentos bem diversificados,ainda que se faça confusão,propositada,com a geografia da região.Por outro lado,o desconhecimento dos europeus, não surpreende: "...não queremos o etanol sujo do Brasil...",desconhem as fronteiras agrícolas,a legislação ambiental , e a tecnologia que cerca a produção do complexo da cana.Manufaturas à parte, o primeiro mundo ,produz igualmente, uma ignorância de qualidade.

sexta-feira, 6 de julho de 2007 15:58:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Na minha opinião, o argumento do Lula foi uma brincadeira com os Portugueses, anfitriões do evento. Logicamente, é possível produzir cana na Amazônia. Alon, entretanto, não concordo com a sua posição. Acho perfeitamente possível agregar a produção de biocombustíveis com a de alimentos, de maneira ambientalmente sustentável. O grande xis da questão é como fazê-lo. Então, devemos dar um voto de confiância ao governo e esperar para ver. O Brasil, com os biocombustíveis tem uma chance de ouro, não devemos desperdiçar. E não se esqueça que o potencial de preservação ambiental dos biocombustíveis, por conta de sua natureza renovável, é muito maior que o potencial de degradação ambiental.
Infelizmente, acho que este debate está muito politizado. Alguns grupos de esquerda (e eu sou de esquerda) se colocaram contra a produção de biocombustíveis por estes estarem, fuldamentalmente, na mão de grandes usineiros, muitos representantes de uma elite conservadora de direita. Mas este deve ser um debate técnico. Se bem conduzida, a produção de combustíveis a partir de vegetais como a cana, soja, mamona, girassol, babaçú, entre outros, trará preservação ambiental, como dito, pela sua natureza renovável e pela realização de um correto zoneamento agro-ecológico, trará inclusão social, pelo envolvimento da agricultura familiar na cadeia produtiva (o que o governo já iniciou) e trará grande desenvolvimento econômico.
Alon, a fome no Brasil e no mundo nunca foi decorrência da produção insuficiente de alimentos, mas uma questão econômica, falta de dinheiro para comprar comida.
Abraços, devo dizer que sou fã do seu blog.

Cristiano Medri
Biólogo - doutorando em ecologia e genética

sexta-feira, 6 de julho de 2007 16:46:00 BRT  
Anonymous Maurício Galinkin disse...

Alon,
Concordo inteiramente com seu comentário. Para conhecimento de seus leitores, especialmente José Augusto,Marcelo e Cristiano (já que aos anônimos não dá para dedicar), reproduzo abaixo a notícia publicada hoje no site dos Amigos da Terra -Amazônia Brasileira.
Um abraço a todos.

Lula erra em Bruxelas ao negar cana-de-açúcar na Amazônia - 06/07/2007
Fonte: Amazonia.org.br
Link: http://www.amazonia.org.br

Presidente diz que plantação do país "fica muito distante da Amazônia, região que não se presta à cultura"

Altino Machado

Caso lessem os relatórios do seu próprio governo, conhecessem as ações de seus próprios ministérios e dos governos estaduais administrados por seu próprio partido, os assessores poderiam contribuir para dar ao presidente Lula e ao Brasil mais credibilidade quando ele fala no exterior. Não foi o que ocorreu ontem, em Bruxelas, quando Lula fez um pronunciamento na Conferência Internacional sobre Biocombustíveis, para uma platéia formada por ministros, empresários e ONGs do mundo inteiro.

Lula disse que o cultivo da cana-de-açúcar no Brasil ocupa menos de 10% da área cultivada do País, ou seja, menos de 0,4% do território nacional. "Essa área – é bom que se diga – fica muito distante da Amazônia, região que não se presta à cultura da cana", afirmou, tendo acrescentado que "se a Amazônia fosse importante para plantar cana-de-açúcar, os portugueses que introduziram a cana-de-açúcar no Brasil, há tantos séculos, já o teriam feito na Amazônia". Lula chegou a agradecer aos antepessados de uma dupla portuguesa presente na solenidade "por não terem utilizado a Amazônia para produzir álcool nem açúcar".

Mal assessorado, Lula gera constrangimento com declarações desencontradas quando repete frases de assessores da Casa Civil. Na Amazônia, já existem usinas de porte expressivo em Presidente Figueiredo (AM), Ulianópolis (PA), Arraias (TO), além de meia dúzia no Mato Grosso. De acordo com o último levantamento oficial da Conab, um órgão do Ministério da Agricultura, de maio deste ano, na safra passada houve mais de 19 milhões de toneladas de produção de cana-de-açucar na Amazônia Legal, entre Mato Grosso, Tocantins, Maranhão, Amazonas e Pará.

Ainda não consta no documento a produção do Acre, isto é, da agroindústria Álcool Verde, pertencente ao Grupo Farias, que os políticos petistas do "governo da floresta" consideram como o grande trunfo de investimento. Uma antiga usina, que jamais havia produzido álcool, foi revitalizada com dinheiro público e privado. O investimento já atinge mais de 2 mil hectares de cana-de-açúcar plantados ao longo da BR-317. O ex-governador Jorge Viana, que preside o Fórum Empresarial do Acre, já anunciou que uma segunda usina será instalada na região.

É falso o mito de que o cultivo da cana-de-açúcar é inviável na Amazônia. De acordo com o relatório da Conab, a produtividade média na região amazônica é de 70 toneladas por hectare, bastante próxima à media nacional de 79 toneladas, e muito superior àquela de estados como Alagoas e Pernambuco, que são grandes produtores tradicionais de cana, e que apresentam, respectivamente, produção de 63 e 52 toneladas por hectare.

Um dia antes de afirmar que o cultivo de cana fica muito distante da Amazônia e que a região não se presta à cultura da mesma, o jornal Diário do Pará noticiou a assombrosa quantidade de pessoas libertadas numa única operação de repressão ao trabalho escravo no país. Blitz do Grupo Especial Móvel encontrou 1.108 trabalhadores em condições degradantes de trabalho em uma fazenda de propriedade da empresa Pagrisa (Pará Pastoril e Agrícola S.A.), em Ulianópolis. Os trabalhadores dormiam em alojamentos superlotados e trabalhavam na colheita de cana-de-açúcar.

sexta-feira, 6 de julho de 2007 23:25:00 BRT  
Blogger Julio Neves disse...

Pior seria se o Lula dissesse que iria distribuir terra para o MST...

Caramba, 400 anos depois estamos falando em cana-de-açucar. Quem disse que somos o país das bananas? Somos o país da cana.

sábado, 7 de julho de 2007 00:16:00 BRT  
Anonymous trovinho disse...

O zoneamento patina há décadas no estado mais desenvolvido e auto-intitulado melhor gerido;por exemplo: o inventário de resquícios de Mata Atlântica é feito por voluntários, o costeiro nem acabou! Como a produção brasileira de etanol é 2% da gasolina no planeta, teremos dificuldade de responder à demanda com qualidade ambiental devido ao atropelo da falta de investimento pretérito.

sábado, 7 de julho de 2007 04:32:00 BRT  
Blogger Briguilino disse...

Se formos seguir os "conselhos" dos ambientalistas(?) o Brasil já teria parado a muito tempo, eles só querem atrapalhar o desenvolvimento do país. Não sei a serviço de quem.

sábado, 7 de julho de 2007 11:06:00 BRT  
Anonymous Maurício Galinkin disse...

Amigos,
mais um estudo sobre cana-de-açúcar na Amazônia, e vem da Esalq, conceituadíssima na área agrícola. Está na coluna da Miriam Leitão, hoje, sábado, em O Globo, que reproduzo abaixo. Boa leitura!
O Globo, 07.07.2007
MIRIAM LEITÃO - Página 34
Em se plantando
Miriam Leitão
 O presidente Lula garantiu aos europeus que, na Amazônia, não dá para plantar cana. Um estudo da Esalq diz o oposto: que as áreas aptas ao cultivo da cana no Pará podem ser quase o dobro da área cultivada de São Paulo, e o estado tem potencial para ser um dos maiores produtores de etanol. Só na terra já desmatada, a área própria ao cultivo pode chegar a 9 milhões de hectares.

A notícia é de animar os produtores e apavorar os ambientalistas. Só de áreas aptas ao cultivo, depois de analisados solo, temperatura e regime de chuvas, pode ser uma vez e meia todo o espaço ocupado pela cana hoje no Brasil. O estudo foi encomendado, no ano passado, à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) pelo então governador do Pará, Simão Jatene.

Na época, ele queria saber exatamente qual o tipo de pressão que poderia se abater sobre o Pará com a chegada da era dos biocombustíveis. A Esalq, por sua vez, ficou restrita às terras já desmatadas e encontrou todo esse potencial.

O estudo “Produção de etanol: uma opção competitiva para o aproveitamento das áreas alteradas no Leste do Pará”, feito pela equipe coordenada pelo professor Weber Antônio Neves do Amaral, chega a conclusões animadoras e assustadoras. Animadoras, porque eles argumentam que o uso do solo já desmatado pode ser uma boa opção de geração de renda para o cidadão e de riqueza para o estado e, ao mesmo tempo, pode conter o desmatamento. Assustadoras porque a dinâmica da ocupação da terra no Brasil indica que isso levará a mais desmatamento.

A cana-de-açúcar vai para a área já desmatada e hoje ocupada pelo rebanho, e os pecuaristas entram mais floresta adentro.

A indústria da grilagem vai na frente, tomando a propriedade pública, desmatando e queimando a floresta.

“O Pará possui uma vasta região de alta aptidão para produzir cana-de-açúcar: 9 milhões de hectares (o Brasil planta hoje 6,6 milhões de hectares). A produção de etanol no Pará tem boas condições em produtividade, custos de mão-de-obra, de terras e de logística para tornar-se uma das mais competitivas plataformas de exportação do Brasil”, diz o estudo.

Segundo a pesquisa, as dimensões do negócio podem transformar o estado social e economicamente “contribuindo com R$ 84 bilhões de investimentos, R$ 36 bilhões de PIB e 2 milhões de empregos”. O estudo conclui: “Esses recursos ajudarão a melhorar o padrão de vida do paraense e reduzir as pressões ambientais em áreas com cobertura florestal nativa, já que este trabalho somente levou em consideração as áreas aptas para cana-de-açúcar já desm a t a d a s . ” O levantamento foi feito na região hoje ocupada pela “atividade agropastoril, predominantemente pecuária extensiva”. As análises de solo, clima, regime de chuvas e declividade do terreno são fundamentais porque a cana-de-açúcar sofre a influência das condições climáticas em todo o curso do ano. Ela precisa, primeiro, de muita chuva para crescer; em seguida, de um período de seca para produzir a sacarose.

As temperaturas extremas não podem ser muito distantes. O solo tem que ter as condições adequadas de retenção de água, e a declividade certa.

Tudo considerado e, descontadas todas as áreas de proteção ambiental das mais diversas modalidades, terras indígenas, e terra hoje com cobertura florestal, é que se chega ao total das terras aptas à produção de etanol.

“De modo geral, a região leste do estado apresentou predominantemente áreas de média a alta aptidão”, diz o estudo. As de maior aptidão estão na região sudoeste, “onde é encontrada terra roxa estruturada, que apresenta boas condições para o desenvolvimento de cana-de-açúcar na maioria dos parâmetros avaliados”.

Cerca de 16,46 milhões de hectares foram considerados como “áreas alteradas com potencial de cultivo de cana-de-açúcar”, mas, de alta aptidão, foram 9,01 milhões de hectares; 54%. Destes, 374 mil hectares são de alta aptidão climática, sem necessidade de irrigação. Isso é equivalente à área hoje ocupada em Pernambuco com a cultura. Se for considerada a hipótese de irrigação apenas para aumentar a produtividade, o total com alta aptidão sobe para 4,03 milhões, superior à área hoje ocupada com a cana em São Paulo, que é de 2,7 milhões, e é o maior produtor brasileiro.

Em outros 4,98 milhões de hectares, as condições de solo, clima e relevo são boas, mas o período de déficit hídrico faz com que seja necessária irrigação.

“Deve-se ressaltar que a Usina Pagrisa (em Ulianópolis) encontra-se nesta faixa de déficit hídrico acentuado e em áreas com condições edáficas (solo e clima) e de relevo favoráveis, mostrando que mesmo nas regiões mais secas o cultivo da cana-deaçúcar no Pará mostra-se viável”, diz a pesquisa.

A propósito: foi exatamente nesta usina Pagrisa que, na última semana, a fiscalização do Ministério do Trabalho flagrou a existência de mais de mil trabalhadores escravos, mostrando bem esses dois lados do Brasil. Segundo a Esalq, dos 49,15 milhões de hectares avaliados, 29,6 milhões estão com cobertura florestal, mas 50% desta cobertura estão localizados nas chamadas “áreas de consolidação e expansão produtiva”. Ou seja, mais de 20 milhões de hectares já estão desmatados, e o que está com floresta está sofrendo a pressão da fronteira agrícola. O texto da Esalq diz que desmatar mais seria “injustificável”.

Mas, no Brasil, o injustificável acontece.

sábado, 7 de julho de 2007 13:33:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,outro dia assisti em um jornal(se não me engano da Globo)uma família de agricultores na Amazônia que plantava mandioca e ganhava 120 reais por mês.Essa família hoje cultiva dendê e vende toda a produção pra uma usina de biodiesel,e ganha 2.500 reais.
Vocês falando de cana na Amazônia e eu aqui em Minas posso afirmar que o que não falta é terra diponível pra plantar cana.
O que eu quero dizer com isso é que a verdadeira ameaça à floresta é a soja.Cana vai ser cultivada aqui em baixo.

sábado, 7 de julho de 2007 13:47:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Miriam Leitão, e outros "missivistas", tropeçam nas sutilezas
da linguagem política -diplomática.
Discursos e pronunciamentos, no foro,
qual Lula participou,não cabem
precisões técnicas,muito menos imposições.Os anfitriões portugueses, consideraram simpática e bem humorada a citação;quanto à Amazônia,se consideramos a chamada de Legal,só ali é possível e permitido a implantação do complexo de cana.

sábado, 7 de julho de 2007 18:56:00 BRT  
Anonymous Maurício Galinkin disse...

Alon,
embora sinta alguma dificuldade em dialogar com "anônimos", acho importante esclarecer que desinformação nada tem a ver com diplomacia. Quem sabe os anônimos se animam a assinar seus comentários ao ver que é possível ter um diálogo respeitoso e informado com os freqüentadores do Blog do Alon?
Conheço bem tanto a linguagem política quanto a diplomática, bem como o momento certo de usar cada uma delas (que são diferentes).
Gafes como o Reagan descer em Brasília e discursar que está encantado de chegar "à Bolívia" chocam no momento, mas passam rápido. Problemas com a dosagem dos remédios para esclerose, é o que todos deduzem.
Um chefe de governo mostrar-se desinformado acerca de seu próprio país passa muito bem, na hora, mas as assessorias dos outros governantes vão mostrar a eles, depois, que o conteúdo do discurso não refletia a realidade, surgindo duas opções: 1- desinformado porque sua assessoria é de má qualidade, não sabe escolher assessores, ou 2- houve desejo de passar uma informação que não corrresponde à realidade para atrair apoios políticos e investimentos, que não ocorreriam se a verdade fosse dita. Em qualquer das hipóteses, há o desgaste político e a perda de confiança.
Gracinhas para agradar anfitriões, em especial da "terrinha", os que aqui aportaram e tomaram as terras dos indígenas para trazer o "progresso", são sempre bem-vindas e por todos nós acolhidas com a maior simpatia.
Mas não vamos misturar isso nem entrar em um debate dicotômico rotulando ou sugerindo que quem faz críticas ao atual presidente da República é alguém que necessariamente quer desqualificá-lo ou apeá-lo do Poder. Nada disso. Eu, por exemplo, confesso que fiz campanha e nele votei, na eleição de 2002, e apoiei seu governo até março de 2003, quando legalizou a ilegalidade do plantio de trangênicos, cujas sementes foram contrabandeadas da Argentina. Duas ou mais infrações graves à lei (contrabando e plantio de material exótico sem a devida autorização, no mínimo), e ele toma uma decisão para salvar a Monsanto da falência (não exatamente os produtores ilegais gaúchos) com uma canetada, abrindo o mercado brasileiro aos transgênicos sem qualquer estudo sobre os riscos ambientais. Aí, sua atitude me jogou na oposição. Mas estive na oposição ao FHC todo seu governo, que diferença faz?. Aliás, outra "confissão", cá entre nós: ao passar a não mais apoiar o governo do ex-metalúrgico comecei a me sentir, além de marxista, praticamente um anarquista, já que desde que comecei a votar sempre estive em oposição aos governos federais, exceto esses três meses de 2003... Mas, o Presidente tendo sido eleito e reeleito, tem que cumprir seus mandatos até o fim, com todo meu apoio para isso (embora nada signifique em termos de poder...), salvo se algo muito grave (o que, particularmente, não acredito que ocorra) for efetivamente comprovado, e os devidos procedimentos legais realizados.
A constatação de que mais de 1.000 pessoas estavam trabalhando em condições de vida degradantes, em situação análoga ao de trabalho escravo, na semana passada, em diligência do Ministério do Trabalho deste governo, foi numa usina de açúcar e álcool no Estado do Pará, dentro do bioma da Floresta Amazônica (que é diferente da Amazônia Legal, pois esta inclui os Cerrados de Tocantins, p. ex.).
Vamos nos ater aos fatos, caros, e não ao que desejamos ver ou a interpretações dos fatos.
Um abraço

domingo, 8 de julho de 2007 00:27:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

O Maurício Galinkin nos atualizou muito bem sobre o quadro real da Amazônia. E que bom que o Min. do Trabalho tenha autuado e liberto esses trabalhadores em condições degradantes. Tomara que essa fiscalização continue implacável. E eu acho positivo que a Amazônia tenha opções de explorar suas riquezas. É bom ter a opção do álcool em áreas de cultivo legal. É sempre melhor decidir com opções do que sem elas.
Eu só reafirmo que o mais importante é o Brasil fazer valer o zoneamento onde é reserva florestal, indígena e onde pode plantar, e o que pode plantar (transgênicos ou não) em cada área.
Os EUA tem lá seu programa de Etanol do Milho, que está pressionando os custos até de alimentos, e ninguém questiona se isso vai ou não desmatar o parque nacional de Yelowstone e outros.
Temos que pensar e agir da mesma maneira.

domingo, 8 de julho de 2007 01:34:00 BRT  
Anonymous Maurício Galinkin disse...

José Augusto,
É isso mesmo: ninguém nem pensa (pois não admitem) que Yellowstone possa ser invadido, desmatado e usado para plantar milho ou qualquer outra coisa. Há vigilância, invadiu vai preso na hora, é condenado rapidamente e cumpre pena, independentemente de ser joão-ninguém ou Rockfeller...
Dentro das minhas possibilidades vou tentar atualizá-los nas questões que acompanho profissionalmente, que conheço mais, como, aliás, o Alon já havia me sugerido faz algum tempo, mas andei meio sem tempo para escrever comentários, passando diariamente aqui apenas (egoisticamente) para ler e aprender.

domingo, 8 de julho de 2007 12:58:00 BRT  
Anonymous Paulo Lotufo disse...

Alon, já que você enveredou por esse caminho, veja outra opinião que saiu ontem no The Washington Post e, hoje está no Slate.

http://www.slate.com/id/2169867/nav/tap1/

segunda-feira, 9 de julho de 2007 14:53:00 BRT  

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