terça-feira, 17 de julho de 2007

Refrescando a memória de Lula (17/07)

Levei uns dois dias para encontrar na internet um discurso de Luiz Inácio Lula da Silva que me incomodou na época em que foi feito. Demorou mas achei. O discurso de Lula é de 25 de fevereiro de 2005, num evento sobre a reforma do ensino superior. A íntegra está no site da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). A passagem que ficou na minha cabeça é quando Lula conta sobre uma uma vaia que impediu certo sujeito de discursar num comício na Praça da Matriz em Florianópolis (SC). No trecho que transcrevo do discurso de Lula de dois anos atrás, o presidente se dirige a Ana Lucia Gazzola, presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), e a Enio Candotti, da SBPC. Diz Lula:

Eu me lembro de um episódio, Candoti e Gazzola, eu estava num comício uma vez, em Florianópolis, e chamaram um companheiro de um partido político para falar. Tinha umas 10 mil pessoas naquela praça da matriz lá em Floripa, e quando um cidadão foi falar, todo o plenário começou a pedir para ele não falar e começou a vaiá-lo, e gritavam: ‘fora, fora’. Ele pegou o microfone e ficou gritando: ‘vocês não são democráticos, vocês não querem me ouvir, eu preciso falar’. Eu pus a mão no ombro dele e falei: ‘companheiro, não é possível que você não entenda o que é democracia. Tem 10 mil pessoas querendo que você não fale e você quer que as 10 mil te ouçam, isso é democracia!’ Democracia é você entregar o microfone, permitir que chamem o próximo orador, e agradecer ao povo, ainda, por esse gesto de bondade.

Clique aqui para ler a íntegra do que Lula disse dois anos atrás. Na semana passada, quando desistiu de falar na abertura dos Jogos, Lula foi coerente com seu ponto de vista manifestado no discurso de fevereiro de 2005. Antes do Pan, Lula achava aceitável que, em algumas circunstâncias, o público impedisse um político de falar, pela força das vaias. Pela força do barulho e do constrangimento que elas produzem. Eu sempre discordei de Lula e de quem pensa como ele. Eu acho inaceitável que claques organizadas tirem a palavra de quem quer que seja. Aliás, nunca é excessivo recordar que o PT costuma hostilizar em comícios até gente que foi lá para apoiar os candidatos do PT. Lula está magoado com a vaia que tomou no Maracanã. O presidente viu no episódio uma manifestação de grosseria e de falta de espírito democrático de uma claque. Eu recebo a mágoa presidencial como uma autocrítica. Se não racional, ao menos emocional. E a saúdo, de coração.

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2 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

É isso aí, Alon!
Pimenta no dos outros é refresco. Daí se entende o que dizia uma antiga professora que tive: democracia é regime de países maduros e educados. Enquanto o Brasil não for nem uma coisa nem outra, nossa democracia vai ser essa coisa...
Sds.,
de Marcelo.
E pode vaiar, que é democrático, como disse o Lula.

terça-feira, 17 de julho de 2007 19:51:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Ausente nos comentários, mas sempre presente na leitura.

Neste episódio, venho registrar a minha antiga lembrança das vaias ao Caetano Veloso:

É PROIBIDO PROIBIR
(Caetano Veloso)
Intérprete: Caetano Veloso

A mãe da virgem diz que não
E o anúncio da televisão
E estava escrito no portão
E o maestro ergueu o dedo
A além da porta há o porteiro
Sim
E eu digo não
E eu digo não ao não
E eu digo é proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir

Ao ser vaiado na apresentação da canção de sua autoria É Proibido Proibir, Caetano Veloso improvisa, aos gritos, um marcante discurso contra o Júri e a platéia presentes na eliminatória do III FIC:

"Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder! Vocês têm coragem de aplaudir este ano uma música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado! São a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem... Vocês não estão entendendo nada, nada, nada. Absolutamente nada!... O problema é o seguinte: estão querendo policiar a música brasileira. Mas eu e o Gil já abrimos caminho... Não fingimos aqui que desconhecemos o que seja festival, não. Ninguém nunca me ouviu falar assim, entendeu? Só queria dizer isso, baby, sabe como é? Nós, eu e ele, tivemos coragem de enfrentar em todas as estruturas e sair de todas. E vocês? E vocês? Se vocês em política forem como em estética, estamos feitos!" (Caetano Veloso/Setembro de 1968)para

A minha fala para a ocasião:

«Vocês têm coragem de vaiar este ano o Lula que vocês não teriam coragem de vaiar no ano passado! São o mesmo povo que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem...»

abs.

quarta-feira, 18 de julho de 2007 00:20:00 BRT  

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