terça-feira, 10 de julho de 2007

Querem escândalo? Eis um de R$ 131 bi (10/07)

Da Agência Brasil:

Governo quer definir negociação de dívidas agrícolas até domingo, diz ministro

Rio de Janeiro (09/07) - Os ministérios da Agricultura e da Fazenda e a Comissão de Agricultura do Senado Federal devem definir até domingo (15) as condições para a renegociação das dívidas de agricultores. Segundo o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, este é o prazo para que eles possam obter empréstimos para a safra de verão, que começa em agosto. “Deveremos ter regras que não se constituam impedimento para a obtenção de recursos para a próxima safra”.
Uma das soluções em estudo seria jogar 80% das dívidas a vencerem este ano para o final das prestações, de modo a deixar o produtor adimplente. “É preciso encontrar uma fórmula para tornar o agricultor adimplente novamente. Estamos estudando adiar para o final dos empréstimos as prestações que não foram honradas por causa da situação desfavorável do setor em safras passadas”. O ministro disse que as dívidas do setor agrícola com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e com o Banco do Brasil chegam a R$ 131 bilhões, incluídas as dívidas que vêm sendo renegociadas desde a década de 90 e cujo prazo de vencimento é nos próximos 20 anos. “A maior parte desta dívida tem prazo de vencimento de até cinco anos, mas você tem dividas que vêm sendo prorrogadas por até 20 anos e que vêm desde o início da década de 90. Causadas por fatores diversas que vão da seca aos planos econômicos”.

Eis um escândalo bilionário. O agronegócio deve R$ 131 bi para o BNDES e o Banco do Brasil. Segundo a reportagem, "incluídas as dívidas que vêm sendo renegociadas desde a década de 90". Agora, o ministro da Agricultura propõe mais uma benesse, "jogar 80% das dívidas a vencerem este ano para o final das prestações". Pois eu tenho uma idéia melhor: executar as dívidas a partir de um certo valor. O agronegócio brasileiro sustenta-se num tripé: 1) prosperidade privada, 2) dinheiro público barato, na modalidade de empréstimos que não necessariamente precisam ser pagos e 3) recordes anuais de produção e também de choradeira. Querem capitalismo? Pois então que tenhamos capitalismo. Deve e não pagou, a dívida será executada. Aposto que não vai faltar terra para a reforma agrária. Talvez a coisa resvale em algum dos novos amigos de infância do presidente da República e de seu partido. Mas não se faz omelete sem quebrar ovos, não é?

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12 Comentários:

Anonymous Maurício Galinkin disse...

Alon,
Isso é mais que escândalo. Envolve todos os governos que tivemos, pois mesmo quando a indústria começou a prevalecer nas esferas governamentais com a atuação do Roberto Simonsen, décadas de 1940/50, os grandes fazendeiros permaneceram com um bom naco de poder.
Abaixo transcrevo o comentário à notícia, que fiz ontem em minha "mailing list" da Articulação Soja -Brasil (quem quiser passar a receber, são até quatro comentários diários, enviados em forma de "cópia oculta" -para evitar cair na mão de terceiros e virar um "spam" - é só enviar um email para mauriciogalinkin@terra.com.br):

montanha de dinheiro que vicia a agricultura",afirma pesquisador do IPEA

Car@s,
Finalmente aparecem dados que há muito eram guardados a sete chaves: quanto nos custa a renegociaão das dívidas dos fazendeiros, sempre forçada pelo peso político da bancada ruralista.
De acordo com informações divulgadas hoje no jornal Valor Econômico, "o programa de securitização (para empréstimos até R$200mil) gerou um gasto de R$ 8,5 bilhões aos cofres da União desde 2001". "No programa de
saneamento de ativos (Pesa), criado para alongar débitos acima de R$ 200 mil, a União absorveu R$ 1,93 bilhão
entre 2000 e 2006. Iniciado com R$ 11,3 milhões, o Pesa chegou a custar R$ 1,13 bilhão em 2005."
E ainda acham pouco!
A mesma fonte diz que "sucessivas rolagens de dívida custaram aos cofres públicos R$ 10,43 bilhões ao longo da última década."
Para aliviar um pouco, diz-se que "agricultura familiar (Pronaf) custou, sozinha, R$ 5,95 bilhões aos cofres públicos desde 1997"

terça-feira, 10 de julho de 2007 12:49:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Mas Alon, se o negócio é ter capitalismo, então porque não executar as dívidas em 100%, da mesma forma como qualquer cidadão a cada dificuldade trazida pela restrição orçamentária? A cada renegociação, protela-se e chega-se a mais renúncias fiscais, contingenciamentos etc.
Sotho

terça-feira, 10 de julho de 2007 12:56:00 BRT  
Anonymous Caetano disse...

Já que queremos capitalismo, é um contrasenso economizar executando as dívidas e dando terra de mão beijada a agricultores de duvidosa competência...

terça-feira, 10 de julho de 2007 14:07:00 BRT  
Anonymous Artur Araujo disse...

Volto a citar um conhecido comum: "No dia em que se implantar o capitalismo no Brasil, milhares sairão às ruas, capitaneados por FIESP, FIRJAN, SRB, UDR e quejandos, em furioso protesto contra esse modo de produção que arrasa os nossos capitalistas. Há, até, risco de luta armada."

terça-feira, 10 de julho de 2007 15:12:00 BRT  
Anonymous Lau Mendes disse...

Concordo,certo seria executar as dívidas. Se o Zé da quitanda na esquina não paga seu fornecedor é executado,perde tudo. Este é o risco que ele assumiu. Parece simplório? Não é.Várias e grandes empresas já fecharam e fecham todos os dias. Com muito choro e esperneio,mas fecham. Porquê o mega agricultor seria merecedor de benesses maiores do que as já conquistadas(jrs. baixíssimos,prazos a perder de vista). Esta história de que contribuem com grande parte do PIB não é desculpa,se fosse cada categoria de trabalhador teria a sua.

terça-feira, 10 de julho de 2007 15:19:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Bem, talvez uma idéia fosse utilizar essas proprieddes para implantar a reforma agrária. Uma vez que são terras produtivas o melhor seria que elas fosses dadas a título de pagamento e colocadas à disposição dos trabalhadores que lá existem para que os mesmos as possam administrar (cooperativas ou outra forma de propriedade coletiva). Seria uma forma de não criar desemprego, não acham?
Juan

terça-feira, 10 de julho de 2007 16:38:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Bem, talvez uma idéia fosse utilizar essas proprieddes para implantar a reforma agrária. Uma vez que são terras produtivas o melhor seria que elas fosses dadas a título de pagamento e colocadas à disposição dos trabalhadores que lá existem para que os mesmos as possam administrar (cooperativas ou outra forma de propriedade coletiva). Seria uma forma de não criar desemprego, não acham?
Juan

terça-feira, 10 de julho de 2007 16:38:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Qualquer produtor cauto planeja um ciclo produtivo por uns 4 anos. Se tiver quebra de safra de 1 ou 2 anos, ainda dá para compensar nos 2 outros anos e o produtor não quebra.
Quando o dólar estava acima de 3 reais, quase 4, todos que tiveram lucros exorbitantes, teriam condições de compensar a valorização do dólar hoje.
No Brasil, finge-se que só planeja a safra do ano.
Quando a safra é ruim, os produtores incautos, que gastaram tudo da outra safra boa com caminhonetes, carros, casas, dão o calote e exigem renegociação.
Os produtores cautos, que guardaram os lucros, fingem-se quebrados também, entrando no lobbie do calote.
Somente exercendo o capitalismo, e cobrando as dívidas judicialmente é que conseguiremos moralizar essa cultura.

quarta-feira, 11 de julho de 2007 02:08:00 BRT  
Blogger Julio Neves disse...

Cada idéia. Dos individados, você sabe quantos são pequenos ou médios agricultores, Alon?

Aí, toma a terra dessa gente e manda tudo pra cidade aumentar ainda mais o número de favelas.

Outra questão, você sabia que os agricultores são obrigados a produzir para que a terra não seja considerada improdutiva? Com uma empresa é diferente, pois para se diminuir o prejuízo, se diminui a produtividade. E ninguem fala em estatizar a empresa.

No outro post você usou o argumento "que é muito mais barato e eficaz construir escolas do que construir prisões". Para a agricultura é diferente? É melhor tomar a terra dos agricultores e encher as cidades?

Como ironizou o Caetano, então a melhor solução é "executar as dívidas e dar terra de mão beijada a agricultores de duvidosa competência". Aí, o agronegócio quebra, o país vai pro buraco, deixa esquerdistas felizes, e tudo bem...

Pense melhor no que disse, Alon. Verá que não é tão fácil assim sua idéia...

quarta-feira, 11 de julho de 2007 05:44:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Puxa, eu vou insistir numa idédia que ninguém quer considerar: penso que as terras do agronegócio inadimplente ou "endividado" devem ser usadas para a reforma agrária, beneficiando os empregados que já estão produzindo nela. É algo assim tão abusurdo?
Juan

quarta-feira, 11 de julho de 2007 12:22:00 BRT  
Anonymous Maria de Fátima Pereira disse...

Fui conferir o estoque da dívida, primeiro. Não localizei os R$ 130 bi. As informações indicam que a soma das dívidas ao tesouro totaliza 80 bilhões. Este seria o total reconhecido, inclusive, pela CNA.

É altíssimo, na minha avaliação, mas não entendi o post porque você classificou tudo como escândalo. Acho que deve ocorrer a toda pessoa sensata que produtores sérios, que realizam o seu trabalho direito, podem ter dívidas porque tiveram problemas com suas colhietas, com o tempo, com as sucessivas políticas econômicas de juros nas estratosfera, erros do BC no câmbio etc.

Se tem algum escândalo? Deve ter. O que não me parece razoável é essa generalização, esta certeza que todos os porodutores são bandidos, caloteiros. Em todos os países, a agricultura é fortemente subsidiada. Na Califórnia, na França, Alemanha, etc. Aqui, você cobra capitalismo da agricultura sem jamais ter escrito uma linha sobre o subsídio de outros setores da economia, caso da indústria automobilística esta sim, rentável e saudável no mundo inteiro. Os consórcios são aceitáveis?

Sou filha de agriculores honestos, passei toda a minha infância na roça e fico muito indignada com a forma de trato dispensada ao setor agrícola. Tem trabalho penoso em usina? Tem. Tem trabalho similar à escravidão? É um absurdo, tem der ser combatido com a fiscalização pesada do Estado, como tem ocorrido. Tem muita injustiça com quem produz? Tem. O MST diz a verdade sobre a reforma agrária? Não. Falar em reforma agrária de forma séria, com prazos, metas e resultados com qualquer dirigente do MST é o mesmo que mostrar crucifixo a vampiro. Agricultura familiar resolve? Não.

A economia brasileira depende dos grandes produtores, a agenda da reforma agrária é passadista, um atraso de de vida. Agricultura familiar e/ou dinheiro para acampamentos é assistencia social. Deve ser feita, mas não vale como referência de desenvolvimento. A reforma agrária garantiu o desenvolvimento? Mentira. Os países que se desenvolveram excluíram seus pobres. De forma truculenta, seja por meio de guerras civis, seja pelo exílio para outros continentes em verdadeiros navios negreiros, ao tempo que até no Brasil não havia mais escravidão. O desenvolvimento em todos os países foi feito com a exclusão de 30%da população, exatamente a mais desvalida e vulnerável. É a história, não vale camuflar fatos.

Sei que estudamos em livros diferentes. Temos referências diferentes. Aprendi a respeitar diferenças (fora uma mesa de bar ou um leito conjugal, que graça tem concordar com quem já concorda conosco?) e sinto muito o preconceiuto contra o setor rural. Minha irmã é fazendeira e costuma dizer que o brasileiro, desde a colônia, considera o setor rural jeca e o trata muito mal. Não há aqui, como em outros países, a história dos que abriram as estradas, desmataram sim, mas plantaram, colheram e sustenteram (e ainda sustentam) nossa economia. Acho que não lhe custa ouvir os argumentos dos produtores, antes de classificar tudo como escândalo. Sou advogada, não trabalho no ramo, mas reconheço que só com muita vocação e esforço se faz uma roça. Para ganhar dinheiro sim, porque produtor não é abstração, tem problemas que são reais e que são traduzidos em moeda, mas não podem ser medidos por uma régua tão curta. Desculpe se escrevi demais, mas a palavra escândalo me deixa realmente mordida.

Maria de Fátima Pereira

quarta-feira, 11 de julho de 2007 13:23:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
em geral, a maioria desses caloteiros é formada por grandes fazendeiros, usineiros de álcool e açúcar incluídos. A minoria foi, de fato, prejudicada pela variação cambial e fenômenos da natureza. Só estes deveriam receber algum benefício. Aos demais: hasta pública. Vendam para quem pretende de fato produzir e não viver das tetas oficiais. Isso vale para os sem-terras sem-vergonha.
Sds,
de Marcelo.

quarta-feira, 11 de julho de 2007 14:52:00 BRT  

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