quinta-feira, 5 de julho de 2007

Libanização (05/07)

Há meses o Líbano vive em estado de quase guerra civil. O que não chega a ser novidade. Há um gabinete de viés ocidentalizante, combatido por um presidente cristão, Émile Lahoud, aliado da Síria e do Hezbollah. Nos últimos tempos o Hezbollah tem promovido mobilizações populares pela derrubada do gabinete do premiê Fouad Siniora. A milícia quer antecipar as eleições. Para esse objetivo tentou desestabilizar o governo com a renúncia coletiva dos seus ministros e dos aliados. Até aí nada de mais. O problema é que no Líbano a luta política exibe ingredientes algo mais sangrentos. Parlamentares são mortos em atentados. O que, na ausência de suplentes, implica alterações na composição das forças no parlamento. Sendo mais objetivo, tenta-se obter maioria parlamentar matando deputados adversários. Leia uma reportagem interessante da Agência Estado, de junho. Outro dia discuti aqui a campanha que grassa contra os suplentes de senador, em O golpismo e o vice preventivo. Eu sou favorável à existência dos vices e dos suplentes. Expliquei por que no post:

Pensando bem, num país como o nosso, em que o golpismo é o esporte preferido dos sem-voto, a existência do vice serve como fator de dissuasão.

No Brasil é inútil mandar matar o titular, pois quem assume é o vice (ou suplente). Claro que sempre há a hipótese de o próprio vice (ou suplente) ter a idéia de acabar com a vida do titular. Mas ficaria muito óbvio e, portanto, constituiria operação de alto risco. Por que não exportamos a solução vice/suplente para o Líbano? Luiz Inácio Lula da Silva deveria mandar uma carta a Lahoud e Siniora sugerindo o modelo brasileiro de suplência como antídoto para a violência política no Líbano. Matou o deputado, assume um suplente com a mesma orientação partidária. A mensagem de Lula deveria, é claro, ir redigida em linguagem cuidadosamente diplomática. Para não ser interpretada como ingerência indevida nos assuntos internos libaneses. Até porque seria desagradável receber uma resposta atravessada vinda de Beirute:

Caro presidente Luiz Inácio Lula da Silva:

Permita-nos o tratamento coloquial. Recebemos correspondência de V. Excia, datada de julho passado, com sugestões para a reformulação do sistema político de nosso país. Agradecemos a preocupação de V. Excia e de seu governo com os assuntos internos libaneses, preocupação que recebemos no contexto da sólida amizade que sempre uniu e continua a unir ambos os povos. Submetido à análise de nossos especialistas, verificou-se, entretanto, que o modelo de vice (ou suplente) apresentado por V. Excia como possível solução "para evitar ou ao menos reduzir o morticínio de parlamentares no Líbano" (nas suas palavras) ainda carece de comprovação, ao menos quanto à eficácia. Percebemos que no seu próprio país as sentenças de morte política têm sido ferramenta corriqueira na luta pelo poder. Ainda que, naturalmente, o processo seja menos cruento do que o nosso, ao menos nas aparências. Nossos brazilianistas da Universidade de Beirute já nos explicaram: o brasileiro é um homem muito cordial. Característica que admiramos, mas que, infelizmente, não adquire viabilidade em situações como a libanesa. De todo modo, caro presidente, talvez haja mais semelhanças do que diferenças entre os nossos respectivos ambientes políticos. Em países normais, quem perde a eleição se ocupa principalmente de tentar descobrir como ganhar a próxima. Já em situações como as do Líbano e do Brasil a atividade política é muito mais emocionante. Ou menos entediante, se V. Excia assim preferir.

Afetuosamente,

Émile Lahoud, Fouad Siniora.

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3 Comentários:

Anonymous trovinho disse...

Além desse caráter de continuidade dos vices ocorre uma abertura para acomodação de forças políticas complementares. A burguesia coloca vices como moderador da cabeça de chapa, veja que o Itamar é emblemático quando retoma a fabricação do fusca depois da desmoralização das carroças.

sexta-feira, 6 de julho de 2007 05:31:00 BRT  
Blogger Julio Neves disse...

Alon, não precisa ir lá pro Líbano. Aqui perto, na fronteira, o grupo terrorista FARC também mata deputado.

Não se esqueça de adicionar na sua teoria que há sempre o risco de sair uma Marina e entrar um Sibá.

sexta-feira, 6 de julho de 2007 11:35:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, Você precisar fazer uma retificação: o homem cordial brasileiro está morto e enterrado nas balas perdidas, na violência generalizada, e na intolerância cada vez maior e mal disfarçada de todos nós.

sexta-feira, 6 de julho de 2007 20:24:00 BRT  

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