sábado, 7 de julho de 2007

O embaixador do aumento do preço da comida (07/07)

Quem deseja informações isentas sobre os processos eleitorais na Venezuela pode encontrá-las no site do Carter Center, do ex-presidente americano Jimmy Carter. Aliás, nem o governo dos Estados Unidos, com quem o presidente Hugo Chávez vive às turras, ousa dizer que as eleições na Venezuela não são democráticas. Mas o que nem a Casa Branca tem coragem de externar já é dito sem peias no Brasil. Clique aqui para ler a íntegra da transcrição de discursos feitos no Senado na última quarta-feira. É triste que o nosso parlamento tenha se tornado um foco de agitação antivenezuelana. Sem que os senadores da esquerda oponham resistência significativa. Peço que me mostrem uma atitude ou ação do governo venezuelano que possa ser interpretada como ofensiva ao Brasil. O problema está no sentido oposto: as crescentes provocações políticas partidas daqui contra a Venezuela. Sem que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva ou o PT reajam. Você acha que estou sendo injusto? Veremos então qual vai ser o desfecho da crise atual, se o governo brasileiro vai se empenhar ou não pela entrada da Venezuela no Mercosul. Se estou errado, corrigir-me-ei no devido tempo. Amigos que conhecem bem a Venezuela me dizem que os movimentos recentes de Chávez, de afastamento, têm a ver com a resistência de setores empresariais daquele país, que temem o concorrência de produtos brasileiros num eventual mercado comum. O empresariado venezuelano teria concluído que a adesão deles ao Mercosul interessaria mais ao Brasil do que a eles próprios. Já o Brasil, sabe-se, é permanentemente pressionado a colocar os interesses brasileiros em segundo lugar, logo depois dos interesses americanos. Incrível é um governo do PT não tenha conseguido romper com essa lógica. A diplomacia brasileira parece ter se tornado refém dos bons negócios projetados pela iniciativa brasileira de transformar o etanol em biocombustível global. Eu até compreendo que o governo brasileiro e o PT estejam, digamos assim, sensibilizados pelos fortes argumentos dos empresários do etanol, nacionais e estrangeiros. Esses argumentos têm sido bons o suficiante para fazer o Brasil aderir à estratégia americana de ocupar maciçamente, para produção de biocombustíveis, terras que produzem comida. O que vai reduzir a dependência estadunidense do petróleo. Venezuelano inclusive. Que coisa. O mesmo Lula que começou seu ciclo no poder vendendo-se como o embaixador do combate à fome, especialmente na África, transformou-se no embaixador da redução da dependência americana do petróleo. O que o faz acumular outro papel: embaixador mundial do aumento do preço da comida. O que vai prejudicar especialmente os mais pobres. Principalmente na África. E aumentar a fome. Claro, você sempre pode acreditar que as oportunidades de negócios criadas pelo novo ciclo monocultor vão representar a libertação dos povos explorados e oprimidos, principalmente na África e na América Central. Você e a Velhinha de Taubaté, se ela já não tivesse morrido.

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12 Comentários:

Anonymous JV disse...

Põ Alon, lamentável é você não notar, lamentar, se dar conta, da disposição ditatorial do Chavez.

domingo, 8 de julho de 2007 18:16:00 BRT  
Blogger Biruta do Sul disse...

O Secretário de Relações Internacionais do PT publicou artigo a respeito da atitude acanhada dos senadores do PT quanto ao affair Venezuela. Atitude que desde o início do século passado atendia por "cretinismo parlamentar".
**
Quanto aos biocobustíveis, temo que o "nosso" pensamento único asfixie o exame real do assunto. Vale ver a entrevista de Lester Brown na FSP 02/07/07, dizendo que os biocombustíveis poderão deflagrar a disputa épica entre os donos de carros e 2 bilhões de famintos no mundo.
Abraços,
Jeferson
Parece

domingo, 8 de julho de 2007 20:45:00 BRT  
Anonymous Maurício Galinkin disse...

Alon,
na Venezuela a oposição golpista consegue ser pior que o também ex-golpista Chavez (que agora representa a Legalidade...). Nessa área eles estão em situação bem pior que a nossa, mas isso não é vantagem alguma pra nós...
Quanto aos preços dos produtos agrícolas, tivemos um estudo da FAO e OCDE divulgado no último dia 5, e abaixo reproduzido para a informação dos colegas, que indica a tendência inexorável de alta dos preços devido à entrada da produção de biocombustíveis.
Abraços,

Biocombustíveis elevarão preços agrícolas, diz OCDE
Estudo em parceria com a FAO alerta para alta de até 50%
PARIS e LISBOA. O rápido crescimento da indústria global de biocombustíveis vai manter os preços dos produtos agrícolas em alta na próxima década, devido à demanda maior por grãos e açúcar. A conclusão é de relatório divulgado ontem pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). Segundo o estudo, os biocombustíveis terão forte impacto na agricultura entre 2007 e 2016 — argumento já usado pelo presidente de Cuba, Fidel Castro, para criticar o etanol.

— A bioenergia tornou-se um fator-chave no funcionamento dos mercados agrícolas — afirmou Loek Boonekamp, representante da OCDE, acrescentando que, a médio prazo, os preços agrícolas ficarão acima da média dos últimos dez anos.

Segundo Boonekamp, os preços de produtos agrícolas, principalmente grãos, devem subir entre 20% e 50% na próxima década. Ele disse que já haveria uma alta em decorrência da queda na produção em muitos países.

O relatório estima que essa alta terá reflexos nos preços das carnes, por causa da alimentação dos animais.

Petrobras fabricará biodiesel para empresa portuguesa
De acordo com o estudo, o Brasil é um dos países onde a produção de biocombustível mais cresce, devendo atingir 44 bilhões de litros na próxima década, ou 145% a mais que em 2006.

Nos EUA, a produção de etanol, baseada no milho, deve crescer 50% este ano e dobrar até 2016. Em conseqüência, diz o estudo, o uso do milho para produção de combustível passará de um quinto da colheita em 2006 para 32% em 2016.

Já na China, que também faz etanol a partir de milho, OCDE e FAO estimam que a produção atingirá 3,8 bilhões de litros em 2016, contra 1,5 bilhão no ano passado.

O relatório também afirma que a produção e o consumo de produtos agrícolas em geral crescerão mais nos países em desenvolvimento do que nas nações ricas — principalmente carnes bovina e suína, manteiga, leite desnatado e açúcar.

Além disso, os países da OCDE perderão uma fatia das exportações de quase todas as commodities agrícolas.

Confirmando essa tendência, a Petrobras e a portuguesa Galp Energia assinaram ontem um termo de compromisso para a produção de 600 mil toneladas por ano de óleos vegetais no Brasil. Metade irá para as refinarias da Galp e a outra metade será processada pela Petrobras, que depois exportará o biodiesel resultante para Portugal e outros países da Europa.

domingo, 8 de julho de 2007 23:19:00 BRT  
Anonymous Rodrigo disse...

Chaves venceu 6 eleições em 9 anos, e vem alguém ainda falar em ditadura na Venezuela? E no Brasil? Como são distribuidos os canais de TV e rádio? Brincadeira!
Quanto ao nosso senado, basta ver como ele é composto por empresários, baicharéis, doutores e banqueiros. Como podemos ver são setores muito representativos da sociedade brasileira, não é mesmo? E viva a democracia brasileira, onde somos obrigados a votar em quem não queremos e nossos canditados a presidente são escolhidos em jantares à quatro!

segunda-feira, 9 de julho de 2007 00:14:00 BRT  
Anonymous trovinho disse...

Conheci três estudantes americanos que faziam intercâmbio na Ciências Sociais da USP no início dos 90. Um deles (afro-americano) revelou que alguns donos de restaurante não cobravam a conta quando descobriam suas origens. Esse capachismo faz lembrar a frase "O que é bom para os EUA é bom para o Brasil". Onde estão nossas TV's para exibirem nossos conteúdos e um currículo de escola pública pluralista criarem alguma auto-estima para que não votemos pândego?

segunda-feira, 9 de julho de 2007 04:19:00 BRT  
Anonymous luiz lozer disse...

Queridos

acho esses alertas sobre os preços dos alimentos importantes e necessários, porém prefiro acreditar que com um pouco de planejamento e bom senso, possamos aproveitar essa excelente oportunidade que são os bio combustíveis.

o programa do biodiesel tem sim um cunho social fantástico, tínhamos que conseguir o mesmo com o álcool.

quanto ao resto, nada como um zoneamento agrícola e uma fiscalização ambiental atuante. Sem isso, vai virar zona.

segunda-feira, 9 de julho de 2007 09:14:00 BRT  
Blogger Carlos Goldstein disse...

Alon,

Existe um elemento essencial para a política externa de qualquer país que é denominado "poder brando". Em termos simplistas, ele denomina a capacidade de fazer com que outro QUEIRA o que você quer - em contraposição ao poder tradicional, no qual você faz com que outro FAÇA o que você quer. É uma ligação quase sentimental, emocional.

Até o malfadado bolivarianismo, os interesses brasileiros na América do Sul eram colocados e atingidos sem que fossem vistos como "imperialismo tupiniquim". Depois do mesmo, viramos o "pequeno satã" ocidental.

A Venezuela teve eleições democráticas. Ninguém discute isso. O que se discute é se democracia é só isso.

O que discute é se os "pesos e contrapesos" necessários à tripartição dos poderes estão estabelecidos por lá. Ora, claro que não.

A Venezuela é um país onde o Vice-Presidente é indicado pelo Chávez. Onde todos os Ministros da Suprema Corte foram indicados pelo Chávez. Onde o Fiscal General de Justicia foi indicado pelo Chávez. Podendo ser, ademais, destituídos, caso tomem posições "burguesas" demais.

Na Venezuela a máquina oficial é claramente utilizada para propaganda partidária. O sitio do Despacho de la Presidencia apresentava, há pouco tempo, propaganda institucional do PSUV.

O conceito que temos de democracia é aquele em que, além de respeitada a vontadade da maioria, deve existir um limite para que as minorias não sejam esmagadas/mortas/perseguidas/torturadas/desrespeitadas. J.S. Mill...

O interessante é ver que esse foi o argumento para que a "esquerda" brasileira se opor à cláusula de barreira...

segunda-feira, 9 de julho de 2007 11:04:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Bem vindo o aumento de preços da agricultura. Nada mais é do que mera redistribuição de renda.

O PIB mundial está dividindo assim:
agricultura: 4%
industria: 32%
serviços: 64% (2004 est.)

Ou seja, os consumidores de alimentos nas cidades pagam mais para a indústria dos alimentos e serviços (atacadistas, super-mercados, serviços financeiros), do que para os próprios agricultores.

Assim como o petróleo barato era solução para o 1o. mundo, e impunha a pobreza para os países produtores, o mesmo acontece com os produtos agrícolas.

Os bio-combustíveis podem conviver muito bem com a produção de alimentos, assim como sempre conviveu o cultivo de algodão, café, chá, fumo, celulose e madeira, que também não são alimentos.

Os países do 1o. mundo que já fazem agricultura com alta tecnologia é que estão com a capacidade de produção saturada.

A pressão de preços nos alimentos fará os países pobres terem suas mercadorias agrícolas mais valorizadas, e receberem mais renda e investimentos para irrigação, fertilizantes, etc, aumentando sua produtividade, ainda longe da capacidade do 1o. mundo. Assim como aconteceu com o petróleo, a partir da década de 70.

Com mais renda e investimentos, finalmente as populações desses países pobres terão mais dinheiro para comprar alimentos (muitas vezes produzidos no próprio país), o motivo real da fome / subnutrição.

segunda-feira, 9 de julho de 2007 15:51:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

No meu comentário anterior, faltou discordar de mais uma coisa:
Não acho seja o Brasil quem está aderindo aos EUA no que diz respeito aos bio-combustíveis, e sim o contrário.
A história de 30 anos do carro a álcool no Brasil não deveria deixar dúvidas quanto à isso.
O governo Lula já era entusiasta do bio-diesel e de retomar o pró-álcool, bem antes dessa adesão de Bush.
Nada mais natural do que apoiar interesses brasileiros onde houver convergência com os EUA.

Quanto à concorrência com o Petróleo Venezuelano, qual a alternativa? O Mundo precisa consumir menos petróleo por razões ambientais, então a mistura de álcool à gasolina é uma opção imediata, já que a conscientização da mudança nos padrões de consumo do 1o. mundo deve acontecer concomitantemente, mas de forma mais lenta.

segunda-feira, 9 de julho de 2007 16:05:00 BRT  
Anonymous trovinho disse...

Para alguém conseguir expressar-se e com consistência precisa de "contrapesos" antiignorância (direitos de 2º geração) como casa, comida transporte, escola, saúde, segurança, roupa, trabalho, além de direito
`a antena, à coluna de leitores e tudo o mais que a maioria dos classe média que eu conheço já naturalizou e não valoriza de tão freqüente que é em suas vidas. Mas não é a regra para os pobres. A OMS já reconheceu desenvolvimento de alguns "contrapesos" desse tipo, como saúde, na Revolução Bolivariana. Aqui pelo Brasil, o fato da cúpula do sistema judiciário e tribunais de contas serem nomeados e depois serem partícipes de governo, não causam constrangimentos como é o caso de São Paulo com o Marrey.

terça-feira, 10 de julho de 2007 03:41:00 BRT  
Anonymous Maurício Galinkin disse...

Car@s,
Só pensando alto, ou melhor, por escrito para poder dividir essa inquietação com os colegas:

O fato do atual governo ter ou poder ter em futuro próximo a maioria dos membros do STF, por ele nomeados, não pode levar -em uma situação crítica, limite, em que a política ou economia do governo vá a julgamento fatal daquela suprema esfera judicial - a uma situação semelhante à da Venezuela de Chavez, onde ele nomeou todos os membros da suprema corte?
Qual seria a diferença?

terça-feira, 10 de julho de 2007 12:58:00 BRT  
Anonymous trovinho disse...

A superestrutura jurídica é condicionada pelas relações de produção, daí a Venezuela ter emplacado, através de mecanismos mais plebiscitários que representativos, um formalismo mais afeito às mudanças exigidas pelo ascenso dos marginalizados. Não vejo essa realidade por aqui. Nossa burguesia sempre precisou ser mais articulada e os nossos trabalhadores não tiveram social-democracia (Venezuela, Argentina, Uruguai e Chile universalizaram o ensino nos 50's). Nosso "nazi-fascismo" escravista foi numa dose bem acima dos venezuelanos. Concretamente: a produção de ouro por dragas na fronteira emprega preferencialmente brasileiros, porque aceitam mais extorsão da mais-valia que os venezuelanos. Não sou otimista a curto prazo, acho que a nossa burguesia vai conseguir reagrupar-se e continuará usando o formalismo jurídico até a exaustão. Hoje, gastamos R$95bi/ano em segurança e não mudam o disco.

quarta-feira, 11 de julho de 2007 04:51:00 BRT  

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