quarta-feira, 11 de julho de 2007

Circo sem pão (11/07)

O termo desregulamentação fez muito sucesso nos anos 90 do século passado como sinônimo de solução para diversos problemas econômicos. Com o tempo a expressão acabou saindo de moda, também como conseqüência do esgotamento da onda liberal que se seguiu ao colapso da União Soviética. Ultimamente o consenso parece ter sofrido uma inversão: a moda está em reconhecer o papel do estado como agente regulador nas diversas esferas da atividade humana. Um sintoma da mudança é os próprios liberais não mais defenderem o estado mínimo, mas o que eles agora chamam de estado enxuto e eficaz. São as sístoles e diástoles da História. No Brasil, porém, há uma área em que a regulamentação nunca fez muito sucesso. É a política. A política é um ramo de atividade que adquire mais teores de democracia conforme aumenta sua taxa de regulamentação. Quando uma sociedade aceita que determinadas regras bem objetivas e fáceis de compreender valem para todos na política, do simples eleitor ao chefe do governo, esse grupo social dá um salto qualitativo em direção à democracia. Não é certamente o nosso caso. Qualquer observador isento percebe que ainda somos pré-históricos na política. O primitivismo é facilmente verificável a partir da observação diária: para resumir, aqui quem pode mais chora menos. Aliás, quem pode muito no Brasil pode quase tudo. Há, é claro, os candidatos a lunático. Como eu, que volta e meia escrevo sobre o que considero agressões ao estado de direito nos processos políticos, nos processos de cassação de mandatos. Pior, já cansei de escrever aqui que vejo a simples existência de "processos políticos" como uma selvageria. Por um motivo simples: qualquer processo em que se possa condenar alguém sem provas é uma modalidade de selvageria. Mas eu admito que a minha posição não tem eco. Por uma razão facilmente compreensível. Por que uma mãe que teve o filho morto numa chacina cujos responsáveis nunca serão punidos deveria defender os direitos humanos de políticos acusados de corrupção? Não é mais razoável que a lei da selva seja estendida também aos políticos, aos poderosos? Pois eu tenho uma má notícia para quem pensa assim. Olhe em volta e perceba. Os donos do poder no Brasil são os maiores estimuladores da violência política (ainda quando embalada em cordialidade retórica ou em apelos à ética). Porque numa sociedade em que o que vale mesmo é a força o mais forte tem uma chance enorme de acabar se dando bem. Ainda que de tempos em tempos a elite precise queimar um dos políticos dela na praça principal para que a turba acredite na existência de alguma forma de justiça. E para que o populacho volte ao lar saciado, para continuar vivendo sua miserável existência. Enquanto isso os banqueiros no Brasil continuam cobrando 10% ao mês de juros no cheque especial (para uma inflação de 3% ao ano) e praticando extorsão nas tarifas, sem que o cidadão comum possa reagir contra o cartel dos bancos. Enquanto isso latifundários devem bilhões aos bancos públicos com a certeza de que nunca precisarão pagar as suas dívidas. Enquanto isso metade da força de trabalho do país não tem qualquer direito (além, é claro, do direito de vender a sua força de trabalho), sendo que a receita apresentada pelos sabichões para enfrentar o problema é retirar direitos de quem os tem. Enquanto isso o mesmo governo que diz não ter terras para democratizar a estrutura fundiária mais injusta do mundo afirma que elas estão sobrando para acolher o capital financeiro interessado em investir no etanol. Enquanto isso, mais de um século depois do fim da escravidão, os descendentes de escravos ainda não adquiriram na prática o direito à propriedade -e quando lutam por isso são acusados de atacar o sacrossando direito à propriedade. Enquanto isso o filho do pobre passa anos na escola pública sem ter aulas dignas do nome e assiste ao filho do rico ganhar de presente a vaga na universidade pública e gratuita. Nenhuma dessas coisas é tratada entre nós com escândalo. Nada disso é motivo para campanhas furiosas e obsessivas. Não à toa somos uma das sociedades mais reacionárias do planeta. Paro por aqui. Eu invejo os romanos. No tempo deles o circo pelo menos vinha acompanhado do pão. Já o Brasil do século 21 é o país em que a falta de pão se compensa pelo excesso de circo. Sem que as pessoas percebam uma verdade simples. Ditadura e arbítrio não reduzem a corrupção. A única forma de combater eficazmente a corrupção é haver democracia e justiça. Inclusive justiça para os corruptos. O Brasil é o país em que o político corrupto perde o mandato, torna-se inelegível e vai para casa gastar o dinheiro que tomou indevidamente. Eu preferiria que fosse diferente. Que ele mantivesse o mandato obtido e que a fúria popular pressionasse a Justiça para, com base em provas, devolver ao público o que foi roubado (ou furtado, em linguagem técnica). E que a Justiça colocasse o corrupto atrás das grades por uma temporada. Mas isso ninguém quer. E estão certos. Afinal, para que mudar algo que funciona tão bem?

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7 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Não entendi onde vc. quer chegar com esse texto. Mesmo a área política no Brasil tem regras a dar com pau. É código eleitoral código de ética, regimentos internos, leis orgânica e o escambau. Mas só são aplicadas a favor deles. Como de resto, temos leis de mais e enforcement de menos.
Sds.,
de Marcelo.

quarta-feira, 11 de julho de 2007 18:12:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Olá

Belíssimo post Alon. Mas aqui em Florianópolis a partir da deflagração pela PF da Operação Moeda Verde, em menos de dois meses dois vereadores foram cassados e eu não consideraria de forma alguma uma injustiça, nesses casos, o "processo político".

Um abraço

quarta-feira, 11 de julho de 2007 19:59:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Alon, se você começar a se preocupar com as injustiças cósmicas, vai ficar doidinho...

quarta-feira, 11 de julho de 2007 21:00:00 BRT  
Blogger Sidarta Cavalcante disse...

Penso que o povo não se sente dono do que é público. As pessoas em geral só sentem-se donas das suas próprias coisas em suas vidas particulares. Elas não aprenderam a olhar para uma praça e entenderem que aquilo foi construído com o dinheiro delas. Será que isso não influencia a nossa falta de "fúria popular", que acontece quando temos um relógio roubado, por exemplo?

quarta-feira, 11 de julho de 2007 21:14:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
o uso de cheque especial não é crédito. Na verdade é sinistro, pois é usado como um seguro para um uso que deveria ser inesperado. Ou seja, o banco cobra mais pelo uso inesperado de seu recurso. A minha dúvida é: qual é a taxa de juros de "cheque especial" no exterior com relação a taxa básica?
Ou melhor, existe cheque especial lá fora, ou isso é uma jabuticaba brasilis?
Sds,
Sol

quinta-feira, 12 de julho de 2007 07:42:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,

Vc está tristemente correto em tudo. Somos um país selvagem e reacionário e todas as tentativas de mudar esse estado de coisas foram cruelmente esmagadas pelo poder da minoria que sempre mandou no Brasil.
Não faltam exemplos na história, alguns só pra ilustrar: quilombo dos palmares, revolta da chibata, guerra do contestado, canudos. Mais recentemente, as guerrilhas urbanas e no Araguaia, todas esmagadas impiedosamente. E vamos que vamos!

quinta-feira, 12 de julho de 2007 10:33:00 BRT  
Blogger Cesar Cardoso disse...

Algumas observações...

Alon: não é só na política que O Brasil é o país em que o político corrupto perde o mandato, torna-se inelegível e vai para casa gastar o dinheiro que tomou indevidamente.. Na economia também funciona dessa maneira: empresa falida, empresário rico. Melhorou muito com a nova Lei de Falências, é verdade, mas ainda assim a lógica continua.

sidarta: no Brasil, "público" significa "não é de ninguém".

quinta-feira, 12 de julho de 2007 11:28:00 BRT  

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