sábado, 16 de junho de 2007

Uma missão bizarra na França (16/06)

Eu tenho uma sugestão para os que se opõem às reparações dadas à família de Carlos Lamarca e às homenagens prestadas ao guerrilheiro morto em 1971 (leia Reconhecer o patriotismo alheio). Formem um grupo representativo das pessoas que pensam como vocês e embarquem imediatamente para Paris. O clima na capital francesa nesta época do ano é uma beleza. Quanto estiverem bem acomodados em um dos muitos bons hotéis parisienses convoquem uma entrevista coletiva. Para anunciar o lançamento de uma campanha de opinião pública com o objetivo de revogar as condecorações dadas aos comunistas que combateram na Resistência Francesa. Afinal, eles eram majoritariamente "stalinistas" e seu objetivo estratégico era implantar um estado socialista, uma ditadura do proletariado. Depois da coletiva vocês poderiam ir ao parlamento francês para tentar convencer algum deputado a apresentar projeto de lei nesse sentido. Um projeto de lei para revogar as condecorações dadas a todos que combateram contra o nazi-fascismo mas não eram liberais. Vocês poderiam, por exemplo, sugerir aos franceses a revogação da Legião de Honra dada a Apolônio de Carvalho. Vejam o que está escrito sobre o revolucionário brasileiro no site da Rádio França Internacional:

Apolônio de Carvalho foi condecorado com a Legião de Honra da França por ter devotado parte de sua juventude às ações da Resistência francesa, durante a Segunda Guerra Mundial. (...). O herói das três pátrias – Brasil, França e Espanha – [é] relembrado pelos franceses como oficial das Brigadas Internacionais, que lutaram junto aos resistentes para derrotar o nazismo. Apolônio de Carvalho comandou a libertação em três cidades francesas: Toulouse, Nîmes e Albi.

Apolônio saiu do PCB nos anos 60 do século passado para ingressar na luta armada, pelo PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário). Na imagem que ilustra este post, o velho Apolônio mostra nos seus últimos anos de vida um poster com o retrato dele na época da guerra. Não vai ser fácil os franceses aceitarem fazer essa desfeita com o Apolônio (que se foi em 2005), mas vocês podem tentar. E, enquanto tentam reescrever a História da França (e se sobrar um tempinho), quem sabe vocês dão uma olhada na biografia do dirigente comunista francês Maurice Thorez (1900-1964), que comandou o Partido Comunista (PCF) de seu país de 1930 até morrer. Quando a França foi invadida pela Alemanha, em 1940, o PCF tinha sido colocado na ilegalidade. Por causa do Pacto Ribbentrop-Molotov, de não-agressão entre a Alemanha de Adolf Hitler e a União Soviética de Joseph Stalin. Thorez desertara do Exército francês, fora condenado à morte e estava exilado em Moscou. Com a mudança nos rumos da guerra, depois do ataque alemão contra a URSS em julho de 1941, a nova situação política impulsionou o PCF a organizar na França a resistência à ocupação nazista. Os comunistas franceses estavam habituados à clandestinidade e foram a primeira corrente política a adotar a guerrilha contra o ocupante hitlerista e os colaboracionistas. Logo após a libertação, graças ao prestígio acumulado na resistência, o PCF tornou-se o maior partido francês e o "desertor" Thorez foi nomeado vice-premiê. E a vida seguiu. Mas vocês podem também, quem sabe?, buscar assinaturas na rua para que Maurice Thorez seja postumamente jogado pelos franceses na vala comum dos traidores como Philippe Pétain e Pierre Laval. Ou vocês podem se lançar numa tarefa ainda mais ousada: convencer os franceses de que Pétain e Laval devem ser reabilitados. Pois, no fundo, só teriam buscado preservar a unidade da pátria francesa, impedir que ela fosse aniquilada pelo nazismo e pelo comunismo. E Pétain e Laval contribuíram, ainda que indiretamente, para combater o inimigo vermelho soviético. Claro, pois a França de Vichy, ao tentar oferecer aos alemães paz política e militar, ajudava os boches a concentrarem os esforços de guerra no combate à URSS. Mais ainda: subam num banquinho em alguma praça de Paris e digam em voz alta que a França só foi invadida pela Alemanha porque era uma aliada tradicional da Rússia. Bem, o único risco de vocês nessa missão é serem enxotados de lá da França. É um país muito cioso de seus heróis, à parte as disputas políticas internas. Querem um conselho? Quando forem para essa difícil e bizarra missão em território francês levem junto uma segurança reforçada. Vocês vão precisar. Vocês, acreditem, não serão bem recebidos nem nas reuniões da Frente Nacional. Quando vejo e leio as reações despertadas na direita pelas homenagens a Carlos Lamarca e a sua família reforço minha convicção de que um dos graves problemas brasileiros é a inexistência de uma direita fortemente nacional. Problema que a França não tem (leia O au revoir e as lágrimas). Mal de que tampouco padecem os Estados Unidos e o Reino Unido. São três nações nas quais, em algum momento, os filhos da elite tiveram que lutar, sofrer e morrer junto com os filhos do povo pela afirmação soberana do país. São países nos quais, também por isso, a unidade e a reconciliação nacionais são valores permanentes. O macartismo, por exemplo, passou à história americana como uma caricatura. Vou parando por aqui. Não sem antes lembrar que entre os atuais detratores de Carlos Lamarca estão enfileirados muitos que apoiaram a derrubada de João Goulart pela força em 1964. E que silenciaram diante do AI-5. Quando não se beneficiaram dele. Hoje, essas viúvas do autoritarismo têm a pretensão de monopolizar os méritos da luta pela democracia nas duas décadas que se seguiram ao golpe. É muita cara de pau.

Obs: Este post é inspirado pelo texto Prêmio ao facínora desertor, editorial de hoje d'O Estado de S.Paulo.

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33 Comentários:

Anonymous Fernando Trindade disse...

Caro Alon, O seu enérgico e belo (o termo é esse mesmo - belo)'post', me faz refletir que uma das importantes funções que um 'blog' pode cumprir (e o seu cumpre tal função,como também o do Mino Carta, entre outros)é o de recordar fatos da nossa história que a ideologia dominante se esforça para apagar ou distorcer. E a importância de avivar a memória aumenta à medida em que a maioria da nossa população (e com certeza dos internautas) está numa faixa de idade mais distante de eventos como a 2ª Guerra ou como a própria Ditadura daqui. Pois, pois, quantos de nós aprendeu na escola (ou fora dela) que o seu compatriota Apolônio Carvalho é um dos heróis da Libertação da França da ocupação nazista? Quantos sabem que além de Apolônio outros comunistas de formação militar também lá lutaram (de memória recordo de Davi Capistrano, deputado constituinte em Pernanbuco (1946),depois "desaparecido" em 1974/75 e o carioca de Vila Isabel, Dinarco Reis, de quem tenho a honra de guardar um livro autografado). Atenciosamente, Fernando Trindade

sábado, 16 de junho de 2007 17:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Mutio bem. Muito bem. Eu que já ia beber em homenagem ao Schenberg em Berna, agora, vou tirar umas fotos na sede do PCF (de preferência junto a uma foto do Thorez). Sede, aliás, projetada pelo Oscar Niemeyer, outro impenitente comunista universal, projeto pelo qual ele nada cobrou.
Anônimo

sábado, 16 de junho de 2007 17:43:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O HISTORIA TEM SIDO TRATADA COMO ESTORIA.
PRECISAMOS UTILIZAR ESPACOS COMO ESTE PARA RELEMBRAR ESTAS COISAS. ESTES MILITARES, ESTAO SEMPRE SE ESCONDENDO EM CASERNAS E SE BENEFICIANDO DAS BENECIAS QUE O CARGO LHES OFERECEM SEMNADA DAR EM TROCA. A HISTORIA SE NAO REPASSADA, NEM ESTORIA VIRA. NAO PODEMOS ESQUECE-LA.
ATENCIOSAMENTE
DJSC

sábado, 16 de junho de 2007 19:03:00 BRT  
Blogger Cláudio Ladeira disse...

Tem razão o leitor aí acima: mais do que correto, o post é belíssimo. Palavras de primeira contra a histeria revanchista, o espírito regressivo e a retórica do ódio. Quanto à França, poderia incluir a notícia, divulgada após as presidenciais francesas, de que Sarkozy pretende tornar obrigatória a leitura, nas escolas, de uma carta redigida por um jovem militante do PCF prestes a ser executado pelos nazistas pelo crime de participar da resistência. Objetivo: despertar o espírito cívico.
As palavras do Antônio Lavareda e o editoral do Estadão são a prova do quão intolerante é, na média, nosso "liberalismo". Mais parecem uma espécie de ritual de magia política para invocar o espírito beligerante da guerra fria.

sábado, 16 de junho de 2007 20:13:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Onde você viu essa história da carta do jovem do PCF?

sábado, 16 de junho de 2007 21:25:00 BRT  
Anonymous Caetano disse...

Lamarca era patriota? Suponho que sim, pois lutou por seus ideais e para o bem de seu país, na sua visão. Mas, seguindo esse mesmo raciocínio, não se deu o mesmo com os militares na época da ditadura? Com a anistia, perdoaram-se crimes de ambos os lados, e nada há a indenizar. Agiu por idealismo, e não deve haver recompensa monetária para essa atitude.

sábado, 16 de junho de 2007 21:26:00 BRT  
Anonymous Mauricio disse...

Dessa indenização ai que vão dar pra viuva não sobra nada pra familia do gerente e do vigia que ele assassinou no assalto a banco ?

domingo, 17 de junho de 2007 00:16:00 BRT  
Blogger Julio Neves disse...

Este post dá a impressão de ser uma pegadinha. Ou seja, quem é contra Lamarca é a favor da ditadura militar.

Não posso ser contra a ditadura e também contra o Lamarca?

O Lamarca se tornou um bandido. Era patriota? O Marcola, por exemplo, pode até ser mais patriota que ele. Mas, é bandido.

Agora, quem tem Cuba como um país ideal, vai ver no Lamarca um herói mesmo. E herói de uma causa perdida, pois hoje o Brasil é uma democracia. Por enquanto, uma democracia. Tomara que sempre uma democracia.

domingo, 17 de junho de 2007 01:56:00 BRT  
Blogger Cláudio Ladeira disse...

A referência ao projeto de Sarkozy, ao qual me referí acima, pode ser vista aqui:

http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe.asp?ID_RESENHA=338480

domingo, 17 de junho de 2007 04:16:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Aliás, volte a falar de reforma agraria depoiis da entrevista do |Stedile, estou aguardando.
E os controladores de vôo (acidente da Gol) , já estão presos?

domingo, 17 de junho de 2007 12:21:00 BRT  
Anonymous Artur Araujo disse...

Alon, "tu as faît mon dimanche"! Parabéns!!

domingo, 17 de junho de 2007 14:34:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Editoriais como este do Estadão e expressões como "bolsa-terrorismo" cunhado pela Veja em nada contribui para a compreensão da História recente.

Eu vejo uma parte da esquerda que reconhece alguns valores de projeto nacional no governo militar, e tira lições dele. Reconhece que o governo Médici agiu com grandeza quando lutou e conquistou as 200 milhas marítimas. Reconhece a política externa independente de Azeredo da Silveira. Reconhece o multilateralismo de Geisel que procurou estabelecer relações políticas e econômicas abertas para o oriente, incluindo China, Japão e Oriente Médio. Reconhece altivez na busca de domínio tecnológico nuclear, espacial e de infra-estrutura energética, de transporte e de telecomunicações.

E não vejo a mesma capacidade analítica de boa parte da direita, de suas responsabilidades sobre a situação da má educação popular, pobreza e subdesenvolvimento nacional, comparado a países que eram bem mais pobres na década de 70, como a Coréia do Sul. Nem do alto custo da simples exclusão das teses de esquerda nos debates políticos, a começar pela consequente situação de insegurança que vivemos.

No caso específico de Lamarca, para que ele fosse um Maurice Thorez faltou a figura do invasor estrangeiro. É falsificação histórica dizer que os Generais Brasileiros eram mera marionete dos EUA, como Philippe Pétain era da Alemanha. Os generais brasileiros eram alinhados aos EUA no contexto da guerra fria, mas eram nacionalistas. Assim como Fidel Castro é um nacionalista cubano, mas era alinhado à URSS.

Haviam dois projetos nacionais inimigos: um à direita, que foi conduzido por militares nacionalistas (aceito pela elite econômica, em grande parte com interesses mais corporativos do que nacionais, como persiste até hoje), e outro à esquerda, dos quais alguns setores enveredaram pela luta armada, como Lamarca.

É preciso reconhecer o papel de Lamarca e demais guerrilheiros, mesmo não concordando com ele. Foi um militante de um projeto nacional alternativo e proibido na época. Se cometeram excessos, os militares também o fizeram via tortura e desaparecimentos. Os guerrilheiros tinham o atenuante de serem perseguidos, terem o aparelho do Estado voltado contra si. Os militares tiveram o agravante de terem o aparelho do Estado em suas mãos, por isso poderiam escolher agir dentro do Estado de Direito, com a Itália agiu contra as Brigadas Vermelhas.

O Estadão, Veja e correlatos não precisam louvar Lamarca, mas não deveriam querer denegrí-lo com construções simplistas. E deveriam deixar seus seguidores homenageá-lo em paz.

Quanto à questão indenizatória, o que denigre a imagem dos indenizados é o valor das indenizações situarem na faixa de pessoas ricas, de acordo com as estatísticas brasileiras. A renda per-capta dos brasileiros é próximo de R$ 1.000,00 mensais. Quem lutou por igualdade deveria defender que todos recebessem isso. Quem recebe a mais está contribuindo para tornar a renda de outro brasileiro menor do que a sua. Está contrariando tudo aquilo pelo qual lutou.

domingo, 17 de junho de 2007 15:32:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Se, depois do fim da guerra fria e da paranóia vermelha, o Estado de São Paulo ainda pensa assim é caso de internação mesmo. Velho tudo bem mas caduco e na ativa não dá...

domingo, 17 de junho de 2007 15:42:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Eis a carta de que falou o Cláudio, introduzida por uma explicação:

A primeira medida do recém-eleito presidente francês, Nicolas Sarkozy, confessadamente de direita, foi no sentido de preservar a memória da resistência ao nazi-fascismo. Determinou que no início de cada ano lectivo se lesse a carta de despedida de um jovem de 17 anos, que o exército hitleriano fuzilou em Outubro de 1941. Vale como registo para a nossa Assembleia da República, que no final do mês se espera venha a votar a petição do Movimento.
O compromisso político de Guy surgiu em 1939, quando o seu pai, deputado comunista, foi deportado para a Argélia. Tinha 16 anos e decidiu inscrever-se nas Juventudes Comunistas.
Um ano mais tarde, com a França já invadida pelas tropas do III Reich, foi preso quando andava a distribuir em Paris comunicados clandestinos. Apesar de ter sido absolvido, foi considerado politicamente suspeito e, como tal, transferido para o campo de concentração de Châteaubriant (Loire-Atlantique).
Guy Môquet foi fuzilado no dia 26 de Outubro de 1941, com mais 26 outros prisioneiros do campo, em atitude de represália pela morte de um oficial alemão. Antes de morrer, escreveu uma carta aos pais, onde expressa o sentimento de que a sua morte não venha a ser em vão.
Após a libertação de Paris, em Agosto de 1944, a sua memória foi exaltada e o seu nome inscrito numa estação do metro parisiense.

Para que não se esqueça, aqui fica a carta de adeus de Guy Môquet, transcrita de Le Monde do passado dia 17 de Maio.

Mãezinha querida
meu adorado irmãozinho
meu amado paizinho
Vou morrer! O que vos peço, em especial ti, mãezinha, é que sejas corajosa. Eu sou-o e quero sê-lo do mesmo modo que o foram outros antes de mim. Claro que preferia viver. Mas o que do mais fundo do coração desejo, é que a minha morte tenha um sentido. Não tive tempo de abraçar o Jean. Mas abracei os meus dois irmãos [de luta] Roger e Rino. Quanto ao verdadeiro, não o pude, hélas! Confio que todos os meus pertences vos sejam enviados, eles certamente ainda podem servir para o Serge, que estou certo se sentirá orgulhoso de os poder um dia usar. A ti, paizito, se te dei, assim que à mãezinha, não poucas preocupações, aqui fica esta minha derradeira saudação. Fica sabendo que fiz o melhor que pude para seguir a via que me traçaste.
Um último adeus a todos os meus amigos, ao meu irmão de que gosto muito. Que ele estude com afinco para mais tarde ser um homem.
17 anos e meio, a minha via foi curta, mas não alimento qualquer arrependimento, a não ser o ter de vos deixar. Vou morrer com Tintin, Michels. Mãe, o que te peço, o que quero que me prometas, é que serás corajosa e saberás ultrapassar o desgosto.
Não posso escrever mais. Deixo-vos a todos, a todas, a ti mãezinha, a ti, Sérgio, a ti, pai, aqui vos fica o grande abraço com todo o carinho infantil que me banha o coração. Coragem!
Do vosso Guy que tanto vos ama
Guy

Último pensamento: vós que ficais, sede dignos de nós, os 27 que vamos morrer!

domingo, 17 de junho de 2007 16:23:00 BRT  
Anonymous Ricardo Corrêa disse...

Alon, eu não entendi o seu post. Ora, o Brasil não estava invadido, nem Lamarca estava resistindo a nenhuma força estrangeira. O governo era exercido por generais nacionalistas - truculentos a seu modo. Criticar Lamarca não é ser favorável à ditadura. Rubens Paiva, Herzog são exemplo de pessoas que morreram sob tortura do estado brasileiro de maneira inaceitável e covarde. Acho que qualquer pessoa identifica a diferença no caso de Lamarca. Que queria implantar a sua ditadura socialista. Não lutava pela democracia, de jeito algum. Os comunistas e liberais lutaram juntos contra um objetivo comum que era expulsar os alemães e vencer a guerra. Eu sinceramente não entendo o paralelo com o Brasil da década de 1970. Sou a favor de indenizações para pessoas que morreram sob tortura não só na época da ditadura, mas também nos dias de hoje. Acho que o estado tem essa responsabilidade civil. Mas pagar pensão para guerrilheiro? Uma pessoa que voluntariamente fez tal decisão de pegar em armas. Quando se pega em arma, corre-se riscos, Alon. Ele morreu. Mas no Brasil, além de capitalismo sem risco, criamos o socialismo sem risco, que acaba em pensão revolucionária.

domingo, 17 de junho de 2007 18:03:00 BRT  
Anonymous Luiz Lozer disse...

Alon,

BRAVO!! BRAVO!!

A referencia ao Apolônio foi belíssima, e precisa como um tiro de fuzil manuseado pelo campeão de tiro Capitão Lamarca.

A indenização é café pequeno, consolo sem importância, é a face prática do verdadeiro fato importante, o reconhecimento de Lamarca como Herói Nacional.

Outro que merecia promoção póstuma era o tenente Osvaldão, herói do Araguaia.
Honrar o nome desses SOLDADOS (ou combatentes, tanto faz) é tarefa de primeira grandeza. Deviam estar nos livros de história de nossas escolas.

Devemos isso a eles!

domingo, 17 de junho de 2007 18:59:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Cai a máscara. Depois de louvar o "patriotismo" dos dois lados, compara-se as forças armadas brasileiras ao General Petain.
Bonito, bonito.

domingo, 17 de junho de 2007 19:01:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Os comunistas da Resistência são considerados heróis (com justiça) por combaterem os nazistas invasores , em uma época que o colaboracionismo reinava. Se tivessem assasssinado militares e funcionários de banco franceses e inocentes em nome da causa de Moscou, iriam para o lixo da História como merece Lamarca. A comparação é absurda. Colocar Apolônio neste mesmo balaio é um absurdo maior. Que vergonha, Alon !

domingo, 17 de junho de 2007 21:42:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Alon, faça-me um favorzinho. Me diga o nome de um, mas só de unzinho mesmo, guerrilheiro que tenha pegado em armas contra os militares de 64, que não foi marxista-comunista. Um só.

segunda-feira, 18 de junho de 2007 11:43:00 BRT  
Anonymous Rodrigo disse...

Eu sempre achei que nossa elite (ou nem tão elite assim) era composta por "Europeus" exilados em um inferno tropical. No mais o livro "1964: a conquista do estado" explica como foi a tomada do poder pela elite financeiro industrial por meio dos militares. Mostra como nossos "liberais" jogaram a democracia para o alto quando viram que não tinham apoio popular (ou seja, não iam conseguir ganhar nada no voto). Querer isolar os atos do Lamarca da ditadura que reinava no país é de uma desonestidade incrível.

segunda-feira, 18 de junho de 2007 13:45:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Fato é: até agora, como pode-se ver nos comentário, você não explica o "heroísmo" num sujeito que praticou terrorismo contra inocentes. Não se tratou de um resitente à ditadura, mas um terrorista que aproveitou a existência da ditadura para buscar sua própria. Ambos merecem o lixo da história, e não milhares de reais nossos.

segunda-feira, 18 de junho de 2007 15:21:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Comentário sobre os comentários. Os tempos verbais têm função definida. Leiam o que eu escrevi:

Quando a França foi invadida pela Alemanha, em 1940, o PCF tinha sido colocado na ilegalidade. Por causa do Pacto Ribbentrop-Molotov, de não-agressão entre a Alemanha de Adolf Hitler e a União Soviética de Joseph Stalin. [Maurice] Thorez desertara do Exército francês, fora condenado à morte e estava exilado em Moscou.

O uso do pretériro mais que perfeito é porque Thorez desertou ANTES da invasão alemã. Vejam o seguinte trecho, em francês, da Wikipedia:

Pour la vie quotidienne des communistes, le fait majeur à partir du 26 septembre 1939 est qu'on ne peut plus être communiste que mobilisé, clandestin ou emprisonné. Cette règle restera en application jusqu'à la Libération, en août 44, à ceci près qu'à partir de juin 40, le choix se réduira à la dernière alternative, clandestin ou emprisonné, et on ne parle pas des fusillés. En septembre 39, tous les hommes jusqu'à 40 ans sont mobilisés. Maurice Thorez, donc, en est. Jacques Duclos, Benoît Frachon et Charles Tillon ont passé la limite d'âge. Pour ces responsables qui ne sont pas mobilisés, mieux vaut ne plus dormir chez soi. Ceux qui ne sauront pas appliquer cette consigne de sécurité se feront cueillir. Ainsi, la moitié du Comité central et trois membres du Bureau politique, Marcel Cachin, Pierre Sémard et François Billoux, se retrouveront incarcérés. Malgré le petit nombre de défections au sein de l'appareil, le Parti, dans son ensemble, se retrouve complètement désorganisé. Il semble bien que l'hypothèse de la mobilisation n'ait pas été envisagée dans la mise en place de l'appareil clandestin. C'était, on se souvient, une condition de l'adhésion à l'Internationale, de maintenir en place un appareil clandestin avec des planques, des caches de rechange, des imprimeries. Ainsi, même si le Parti pouvait mener une vie légale, ce qui était le cas avant septembre 39, il devait pouvoir supporter l'instauration d'une dictature de type fasciste ou plonger de lui-même dans l'action illégale. Mais la plupart des responsables étaient des hommes jeunes qui s'en allèrent peupler les casemates de la ligne Maginot. La conjonction de la mobilisation et de la dissolution du Parti provoqua cette désorganisation que la mise sur pied d'un appareil clandestin avait précisément pour vocation d'éviter.
L'Internationale avait décidé de regrouper l'appareil du Komintern et l'essentiel de la direction française en Belgique. Fried y était déjà installé le 23 août 39, Ceretti reçut le premier l'ordre de le rejoindre, et par la suite Maurice Thorez, Jacques Duclos, Arthur Ramette et Maurice Tréand. Un ordre officiel de Dimitrov, transmis par Mounette Dutilleul enjoignit à Thorez l'ordre de déserter. Il passa la frontière belge, et, de là, gagna Moscou.


Desculpem pelo francês, mas o texto é cristalino. Thorez desertou do exército francês atendendo a um comando da Internacional. Antes da invasão da França pela Alemanha. Mesmo assim, após a guerra foi guindado à posição de vice-premiê. A luta de Thorez contra a (posterior) ocupação nazista se sobrepôs ao seu ato de desertar ANTES da invasão. Ou seja, a França acolheu um de seus filhos porque reconheceu que sua luta em defesa do país se sobrepunha ao resto. Entenderam agora?

segunda-feira, 18 de junho de 2007 16:49:00 BRT  
Anonymous Gabriela Nardy disse...

Olá,

Sou editora do Jornal de Debates (www.jornaldedebates.com.br), um jornal colaborativo na internet que toda a semana propõe debates sobre temas da atualidade. Essa semana, uma das nossas discussões é: "Carlos Lamarca: herói ou desertor?".
Encontrei um post no seu blog sobre o assunto (
http://blogdoalon.blogspot.com/ ), e gostaria de convidá-lo a escrever um artigo para nós, ou mesmo permitir que publiquemos seu post.

Qualquer dúvida, entre em contato.

Grata
Gabriela Nardy
gabriela@jornaldedebates.com.br
www.jornaldedebates.com.br

segunda-feira, 18 de junho de 2007 18:19:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Gabriela, autorizada a publicação pelas regras do Creative Commons. Um abraço.

segunda-feira, 18 de junho de 2007 18:25:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Os fatos protagonizados por Thorez são claríssimos. Tendo que escolher entre sua pátria e o internacionalismo ele, como bom comunista, não exitou.

Posteriormente, quando Thorez retornou para a França para combater o nazismo ele também o fez como comunista, seguindo a nova orientação da Internacional.

Aliás, como você bem escreveu no post:

"Com a mudança nos rumos da guerra depois do ataque alemão contra a URSS, em julho de 1941, a nova situação política impulsionou o PCF a organizar na França a resistência à ocupação nazista. Os comunistas franceses estavam habituados à clandestinidade e foram a primeira corrente política a adotar a guerrilha contra o ocupante hitlerista e os colaboracionistas. Logo após a libertação, graças ao prestígio acumulado na resistência, o PCF tornou-se o maior partido francês e o "desertor" Thorez foi nomeado vice-premiê".

Thorez não combateu os nazistas na França por nacionalismo ou patriotismo. Combateu porque essa foi a orientação da Internacional para os comunistas franceses. Aliás, os comunistas de sua época eram profundamente críticos dos conceitos de nação ou pátria. O que não é novidade, sobretudo para quem leu os escritos de Marx e Lenin. Nunca li nesses escritos elogios ou apostas revolucionárias no nacionalismo ou patriotismo. Ao contrário, lendo estes autores eu aprendi que o proletariado, assim como o capital, não tem pátria. Dai o chamamento revolucionário para o internacionalismo revolucionário no Manifesto Comunista ("proletariado de todo o mundo, uni-vos").

Penso que não devemos misturar o caráter dessas pessoas com as ideologias que defenderam. Como não reconhecer que Apolonio foi um homem de bem? Quem sou eu para questionar o seu caráter, sua integridade ou suas motivações interiores? O mesmo para Lamarca ou Marighela. O que posso e devo fazer é criticar as ideologias que essas pessoas defenderam. O que posso e devo fazer é dizer que, seguindo o que escreveram Marx e Lenin, essas pessoas nutriram um grande desprezo pela democracia, que para eles era apenas uma das formas da dominação burguesa.

Sim, o revisionismo "gramsciano" (no meu modesto entendimento Gramsci nunca deixou de ser um leninista) desta interpretação foi feito pelos comunistas italianos. E até onde sei, os comunistas italianos e Gramsci eram desconhecidos ou ridicularizados pelos comunistas que pegaram em armas no Brasil.

No que toca ao imprudente desfecho do caso Lamarca, concordo bastante com as ponderações do José Augusto. Para mim, isso foi uma provocação revanchista e ressentida aos militares. lembro que recentemente assistimos a mesma provocação no episódio dos controladores, quando estimulo-se subordinados militares a insurgirem-se contra seus superiores. Para que isso, Alon?

Penso que a luta armada no Brasil foi um grande equívoco cometido pela esquerda. Penso, ainda, que essa tentativa da esquerda de reescrever a história da luta armada como um movimento de resistência democrática é apenas uma boa desculpa para que ela não assuma de público os seus equívocos. Posar de vítima da ditadura é bem melhor.

Não há só bandidos e mocinhos nessa história. A esquerda pegou em armas porque quis e porque na ideologia comunista as ações violentas são necessárias, posto que a revolução não se faz pacificamente.

Todos melhor faríamos se virássemos de uma vez por todas essas páginas negras da nossa história. O que há de ensinamento neste triste episódio da nossa história é muito mais o exemplo sobre caminhos que nos conduziram, como país, a lugar nenhum. Que ele sirva de exemplo às novas gerações sobre o que é preferível, à esquerda e à direita, não fazer.

abs.

segunda-feira, 18 de junho de 2007 18:54:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Gostei, Paulo Araujo. Mas você tem que convencê-los a aceitar suas culpas. Sem exceção, se acreditam santos.

terça-feira, 19 de junho de 2007 15:40:00 BRT  
Anonymous Rodrigo disse...

Thorez arriscou a vida dele contra o exército alemão. Não foi nenhuma discussão de blog não. Acho que não apareceu nenhum francês falando que ele não podia lutar por ser comunista. Que pena. Ele arriscou a vida dele e a França o reconheceu como herói.

PS.Que estória é essa de se respeitar o exército? Que eu saiba eu não votei pra general nenhum, mas pra presidente sim. Eu ainda vou viver para ver um ato de contrição do nosso glorioso exército brasileiro por causa do golpe de 64. Se militar quer se meter em política que saia das forças armadas. Deu pitaco, é rua, simplemente isso. Os militares de 64 agiram contra lei, derespeitaram a vontade do povo depondo um presidente eleito, agiram como bandidos. E esta é uma das poucas coisas que eu discordo do Alon, o Brasil deveria ter "comitês de desnazificação" como teve a Alemanha depois da 2ª Guerra Mundial, ou dos tribunais que ocorreram na África do Sul ao fim do apartheid. Eu acho que a conteporação pode ser o ovo da serpente para crises futuras e o exército não tem até hoje nenhuma restrição clara ao o que aconteceu em 64, melhor dizendo, ele não se arrependeu.

terça-feira, 19 de junho de 2007 16:28:00 BRT  
Blogger josé disse...

Você acredita sinceramente que a situação do Brasil à época do Lamarca se compara a da França na epoca da ocupação nazista?

quarta-feira, 20 de junho de 2007 09:49:00 BRT  
Anonymous Rodrigo disse...

Eu acho, a democracia foi abolida, não podia haver demonstrações contra o regime e a ordem vigente era mantida à força.

quarta-feira, 20 de junho de 2007 11:25:00 BRT  
Blogger Ranzinza disse...

Alon,

Mas não podemos confundir guerrilha com terrorismo. E não podemos confundir a luta contra o nazismo, um invaso totalitário estrangeiro na França com a luta pela derrubada de uma ditadura local.

Uma coisa é atirar em militares inimigos, outra bem diferente é fazer como a Al Qaeda e matar inocentes em atentados.

Mesmo se não classificarmos Lamarca como terrorista, mas como guerrilheiro, você não acha estas indenizações excessivas? Quem paga é o pobre contribuinte brasileiro.

Para mim os valores em si são um escândalo. Vamos comparar o Brasil com qualuqer outro país? Onde há indenizações tão elevadas assim? Ainda mais em um país pobre como o nosso?

quarta-feira, 20 de junho de 2007 15:24:00 BRT  
Blogger Olimpio disse...

Pô, Alon, você sempre me surpreende.
Adorei a lucidez do texto. Fico pensando no velho Passarinho, que admite que respeitava o velho Prestes pelo simples fato de ele ter sido o primeiro da turma na Escola Militar, mas considera Lamarca um medíocre. Claro que não vou entrar no mérito das palavras do nosso bravo ex-senador - mesmo que mandou os escrúpulos às favas -, mas o problema é aguentar Estadão e Folha, apoiadores do golpe nessa visão estreita dos benefícios concedidos pela comissão de anistia.

quinta-feira, 21 de junho de 2007 22:59:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O que me produz especial asco nestas defesas de torturadores e golpistas é sua insistência em falar nas "vítimas do terrorismo" - quase todas pobres coitados, agentes da repressão destreinados e despreparados, que a ditadura expos diante ao desespero da luta armada e que depois de mortos tiveram as famílias abandonadas a sua sorte com pensões burocráticas, enquanto os chefões da tortura estavam incólumes, bem protegidos nos seus gabinetes refrigerados...

domingo, 24 de junho de 2007 10:22:00 BRT  
Anonymous alex disse...

antes ser um lamarca e apolônio do que ser um lucien lacombe ou o bandido marcola.precisa estar no olho do furacão para saber de que somos feito,como vivemos e o que fazemos.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007 18:09:00 BRST  

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