sexta-feira, 29 de junho de 2007

Uma diferença sutil (29/06)

Depois de uns dias agitados, trato do assunto da empregada doméstica agredida e roubada pelos rapazes no Rio. O que o caso teria a ver com as explicações clássicas para a violência no Brasil? Nada. Estão ausentes os ingredientes da pobreza, da opressão social e da falta de oportunidades. Está, em resumo, ausente o pretexto da exclusão social que explicaria o ato violento. Eu fico matutando como seria se os rapazes fossem menores de dezoito anos. Eu estaria aqui lamentando a inimputabilidade deles, mas desta vez não poderia ser contestado com argumentos "sociais". Aliás, o que leva um jovem bem colocado na vida a agredir e roubar alguém que ele julga ser uma prostituta? Ou um homossexual? Ou um travesti? Ou um negro? Ou um índio? Eis a questão. Faltam justificativas. Prevalece o espanto. Talvez porque o uso abusivo do sociologismo em explicações para a criminalidade e a violência emburreça. Tampouco acho que num caso assim ajudem muito os apelos por mais educação ou mais vida familiar -como eu próprio faço de vez em quando. A questão não é quantitativa. O problema são os valores que a criança e o jovem recebem em casa e na escola. Ou não recebem. Não creio que alguém aprenda em casa ou nos bancos escolares que é bonito espancar e roubar quem quer que seja. Mas quem sabe esteja faltando dizer o contrário, que é feio espancar e roubar quem quer que seja. Por qualquer motivo que seja. A diferença é sutil. Mas talvez decisiva. Pois uma sociedade leniente com a violência por determinadas razões, e em determinadas circunstâncias, dá ao indivíduo espaço legítimo para tentar justificar os próprios atos violentos. Como não podemos abolir o livre arbítrio, a conclusão é que a excessiva sociologização das análises sobre a violência conduz, necessariamente, a mais violência. E quem perde com isso são os mais pobres, que têm menos meios de proteção. Foi o que tentei defender aqui no caso do menino João Hélio Fernandes. Infelizmente, o caso da doméstica espancada veio a reforçar o argumento.

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14 Comentários:

Blogger Cesar Cardoso disse...

Alon, esse não foi o primeiro caso dessa gangue de pitboys. Já fizeram outras vezes, já espancaram outras pessoas antes.

E não é a primeira gangue de pitboys a atacar na Barra da Tijuca, apesar de não haver no Rio um caso como o do índio Galdino.

O assustador da história é que nessas quadrilhas militam alguns dos filhos da elite brasileira. Mesmo que seja novos-ricos, como é o caso da Barra.

sexta-feira, 29 de junho de 2007 12:55:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Pois é Alon, concordo com sua postura desde o inici. Acrescento que a liberação dos costumes, tão cara a certos setores da esquerda, e uma preocupação dos conservadores, é uma involução da civilização. Civilizar é preciso, civilizar é doloroso e difícil.

sexta-feira, 29 de junho de 2007 13:54:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
alguma coisa está errada. Dessa vez concordo inteiramente com você. Estudei um pouquinho de criminologia e, até onde fui, a única certeza é a seguinte: não existe uma explicação racional para a violência atual. Nem mesmo a pobreza serve de argumento, porque transformaria todos os pobres em criminosos, o que não é verdade, obviamente. Apesar disso, a impunidade e a leniência da sociedade com os criminosos (alguns até viram letra de música ou roteiro de filme) com certeza estimulam o aumento das manifestações violentas, como foi o caso desses estúpidos filhinhos de papai do Rio. Beccaria que me perdoe, mas umas chicotadas bem dadas podiam ajudar...
Sds.,
de Marcelo.

sexta-feira, 29 de junho de 2007 15:05:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Alon,

Você está insinuando que a sociologia não tem respostas para a violência dos ricos e que os burros somos nós?

Burros que somos, devemos concluir que a sociologia sueca não explica os skinheads, certo? Ou que a americana nunca entendeu a Ku Klux Klan.

sexta-feira, 29 de junho de 2007 15:44:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Só vou acrescentar um ingrediente nesse comentário, no caso específico da violência desses jovens que surraram a doméstica.
Esses rapazes claramente abusavam da lei do mais forte. Atacam em grupo, em maioria e não poupam mulheres. Escolhiam vítimas a dedo, parece haver predileção por classes sociais mais baixas e marginalizadas, como prostitutas.
Vejo uma coisa que involuntariamente contribui no aumento da violência: os pais que comentam com os filhos no jantar durante o Jornal Nacional, que trabalham 4 ou 5 meses por ano para pagar o "bolsa-esmola", que por sua vez mantém este governo no poder, estão dizendo aos filhos que os pobres são um inimigo político a combater, para manter seu alto padrão de consumo. É um ovo de serpente essa pregação preconceituosa contra os mais pobres (muitas vezes regionalizada, contra nordestinos). "Educam" semeando ódio contra as classes mais baixas e marginalizadas, ainda que involuntariamente.

Paradoxalmente, esses mesmos jovens abastados que espancaram, recebem susbsídios do governo através da renúncia fiscal via deduções no Imposto de Renda. São deduções por dependente, por gastos com educação e saúde privada, até 24 anos.
É incoerente utilizar-se desse benefício social do Estado em valor muito maior, e querer negar a complementação de renda mínima para uma família muito pobre, e para crianças até 15 anos (querem aumentar para 17) via bolsa-família, enquanto os filhos de classe média recebem incentivos fiscais até 24 anos.
Acho que uma boa autocrítica nas melhores famílias também faria bem.

sexta-feira, 29 de junho de 2007 16:53:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Nçao sei se cai no sociologismo emburrecedor ou no ideologismo que entorpece. O que salva do fato? A simplicidade da Senhora agredida, sem rompantes de raiva ou humildade forçada. Transparece apenas um Ser Humano, com suas forças e com suas fraquezas. Perdoa os covardes agressores, mas quer punição a eles. E a clareza do Delegado que tipificou, enquadrou e por óbvio, com autorização judicial, enviou o grupelho para a Polinter. Duas coisas que estão escassas nos dias que correm, simplicidade e clareza. Ao final, pode não dar em nada, mas alvíssaras caso as duas atitudes logrem influenciar em algo ou alguém. Sem que o substantivo vire adjetivo.
Sotho

sexta-feira, 29 de junho de 2007 18:57:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Este caso dos filhinhos de papai,
agredindo uma pobre moça,mostra
uma outra face da nossa sociedade :
falta de autoridade ,tanto dos
pais quanto da polícia,que não
pode mais dar umas boas borrachadas.
Seria "truculência" ,"desrespeito
aos direitos humanos" e por ai vai!

sexta-feira, 29 de junho de 2007 20:10:00 BRT  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon: Corretíssimo. Um abraço.

sexta-feira, 29 de junho de 2007 23:17:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, você não podia mesmo deixar passar essa oportunidade, ela é mais rara porque tem menos chance de vir a público, agora se sabe que o grupo tinha um histórico de contravenções impune. Concordo também com a terapêutica que você recomenda: educação daquela que deve ser ministrada em casa. Apenas vou um pouco mais longe: não basta dizer que é feio, é preciso punir desde cedo (sem agressão, mas firme). Também no que toca ao recorrente uso da “sociologia”, vou um pouco além da sua posição: não se trata de abuso, se trata de confusão, não é questão de sociologia, mas de direito. Um bom uso da sociologia, ou da psicologia social, seria explicar essa obsessão de nossas classes privilegiadas em justificar a violência pela pobreza: parece-me a conseqüência de uma má consciência decorrente da falta de justificativa dos privilégios de que desfruta, dentre os quais está também a impunidade. Trocando em miúdos, é como se dissessem: “eu perdôo o criminoso pobre para compensar os injustificados privilégios que desfruto, inclusive a minha impunidade”. Mas não deixam de cobrar a própria impunidade: vi o pai de um dos agressores na TV dizendo que os pais não podem ser responsabilizados, e que é um absurdo deixarmos presos jovens que estudam e trabalham. Também li em algum lugar na imprensa que um dos pais teria justificado a agressão dizendo que “eram crianças”, que tal elevar a maioridade penal Alon? Mas há o outro lado, esses jovens são maiores e não possuem prisão diferenciada por terem curso superior (!), encontram-se em uma “brecha” de nosso sistema legal (do ponto de vista da classe que ele existe para proteger). Podem acabar de fato sendo punidos por outros presos, é a incapacidade de garantir a integridade física desses jovens a que se referiu o Ministro Marco Aurélio de Mello, ao justificar ser contra a redução da maioridade penal. Não é raro encontrar comentários na internet de pessoas que se vêem vingadas por essa punição extralegal. A confusão ideológica em que vivemos esta de bom tamanho, ou alguém quer mais?

sábado, 30 de junho de 2007 11:35:00 BRT  
Anonymous trovinho disse...

Estudei Ciências da Terra, portanto não sou credenciado para ultrapassar pobres palpites. Percebo que vivemos uma situação contínua de frustração de desejo independente de consumirmos. O pobre aprendeu na porrada que a Ilha de Caras não é pro bico dele e sofre menos; já o remediado, ainda mais quando drogado, devaneia e se frustra. As tchuthucas de classe média esperam desses proto-banqueiros que intermedeiem seus serviços sexuais como no Nove e Meia Semanas e Amor. Daí fica difícil. Se os tontos tivessem grana pro michê eles estariam mansinhos, né Reich?

domingo, 1 de julho de 2007 05:53:00 BRT  
Anonymous Rodrigo disse...

Pois é Alon, e se eles fossem menores de 16 e tivessem matado a empregada. Haveria o mesmo clamor popular para diminuição da maioridade? Eu acho que na verdade, mais do que a violência, o rico tem é medo de pobre.

segunda-feira, 2 de julho de 2007 10:32:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Os casos de agressões contra professoras devem ser considerados pelos jovens vestibulandos. Para o seu próprio bem-estar e segurança, eles devem evitar se inscrever nos cursos de licenciatura. Ninguém pode garantir que haverá um policial militar em cada sala de aula protegendo o(a) professor(a). Ver:

http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL60154-5605,00.html

http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL55906-5605,00.html

http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL59470-5605-59,00.html

http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,AA1572051-5598,00.html

http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL58175-5605,00.html

http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL60860-5605,00.html

http://www.bomdiasorocaba.com.br/index.asp?jbd=2&id=108&mat=82707

segunda-feira, 2 de julho de 2007 11:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

José Augusto,
a dedução de gastos para educação do IR não é renúncia fiscal. O valor deduzido, mediante comporvação dos gastos, é irrisório, banca menos de dois meses de uma escola particular. A idéia seria a de evitar a bitributação. O contribuinte paga para manter a rede pública, mas não a utiliza, por isso recebe de volta esse dinheiro. Em países sérios, os contribuintes recebem de volta valor correspondente ao custo médio do serviço público que não usou. É justiça, apenas.
Sds.,
de Marcelo.

terça-feira, 3 de julho de 2007 17:58:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Marcelo,
A dedução do IR é irrisória comparada ao custo da escola privada, mas é um valor elevadíssimo comparado ao repasse pelo bolsa família (R$ 15 por aluno), portanto, na contabilidade do Estado não é irrisório.

Seu argumento de bitributação não se sustenta em alguns casos.

Se existe escola pública universal até o ensino médio (ainda que a qualidade do ensino seja ruim), quem recorre à escola particular está exercendo uma opção de consumo, então não deveria haver dedução no IR (salvo se não conseguisse vaga na rede pública).

Quem tem mais de 18 anos (até 24 anos), se escolhe estudar em vez de trabalhar, provido pela família, não cabe ao Estado fazer qualquer tipo de compensação por essa escolha. É somente a família que deveria arcar com os custos desta dependência econômica.

quarta-feira, 4 de julho de 2007 16:33:00 BRT  

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