quinta-feira, 28 de junho de 2007

Um shadow cabinet dentro do cabinet (28/06)

Um dos mitos fundadores do segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva é que agora a política econômica é diferente da adotada no primeiro mandato. O mito serve para dar lastro às posições de partidos e grupos políticos que adoram apoiar o governo e usufruir de ser governo mas precisam manter uma grife "oposicionista" para continuar cativando e cevando bases criadas ao longo de anos na "luta contra a política econômica neoliberal". Pois eu quero saber, então, no que exatamente a política econômica do segundo mandato é diferente da do primeiro. Na dureza fiscal certamente não é. Do site da revista Exame:

Saldo do setor público é o melhor para meses de maio

Por Fabio Graner e Gustavo Freire

(Agência Estado) O chefe do Departamento Econômico (Depec) do Banco Central (BC), Altamir Lopes, informou hoje que o superávit primário (diferença entre receitas e despesas, excluindo o pagamento de juros) de R$ 9,295 bilhões do setor público (governo Central, governos regionais e estatais) em maio foi o melhor para o mês desde o início da série do BC, em 1991. (...) Ele informou ainda que os governos regionais também tiveram melhor resultado primário para o mês de maio na série do BC, puxados pelos Estados, que também registraram saldo recorde refletindo melhorias na arrecadação. Segundo o chefe do Depec, o superávit de R$ 1 bilhão das estatais federais também foi recorde para meses de maio. (...) Outro patamar histórico está no superávit primário acumulado no ano, que, com R$ 60,027 bilhões (6% do PIB) foi o melhor para o período em toda a série do BC
.

Clique aqui para ler o texto completo. Penso que a notícia não requer explicações adicionais. Bem, mas quando a realidade se choca com a ideologia passamos a ter um problema. Ou pelo menos uma realidade partida em dois, já que a ideologia também faz parte da realidade. Ou, como diriam os antigos, as condições subjetivas são parte das condições objetivas. Vejam que situação. Como explicar que estivemos certos antes e estamos certos também agora, se o que fazemos agora é diferente do que dizíamos antes? A solução que o governo Luiz Inácio Lula da Silva adotou para a meta de inflação é sintomática dessa esquizofrenia, como escrevi em Dois governos. Haverá uma meta de infalação oficial, de 4,5%, mas que não servirá para nada. Corrijo: servirá pelo menos para que o ministro da Fazenda continue dizendo que é "desenvolvimentista" e que combate "a política conservadora do Banco Central". Já o Banco Central, que precisa cuidar de coisas mais palpáveis, buscará uma meta de 4,0%, ou menos até. Faz sentido, dado que o rígido controle da inflação é talvez o principal ativo político do presidente (junto com seus atributos de líder popular). É uma situação um pouco parecida com a descrita em As crianças estão bincando lá fora. Daquela vez eram o etanol e a visita de George W. Bush. Agora é a meta de inflação. Será que vai virar um método? Se vai, será divertido. O governo brasileiro poderá, inclusive, patentear a novidade: um shadow cabinet dentro do próprio cabinet. E mais uma vez o mundo se curvará ao Brasil. Em matéria de criatividade, como se sabe, somos mesmo imbatíveis.

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6 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Realmente está-se atingindo a perfeição estratégica: fixa-se meta de 4,5% e sinaliza-se com 4%. Para calibrar juros caso haja pressão por mais crescimento? Ou menos, caso os preços tendam a fugir da meta? É a formulação monetária do pode ser. Ao memso tempo, sinaliza que, com os parâmetros 4% (+ ou - 2) ou 4,5% (+ ou - 2), há espaços para pressões altistas nos preços. Quanto a política econômica ser diferente do primeiro mandato: é a mesma, só que com aprofundamento dos princípios implementados no período 1994/2002 e jurada com a Carta ao Povo Brasileiro.
Sotho

quinta-feira, 28 de junho de 2007 13:39:00 BRT  
Blogger Dourivan Lima disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

quinta-feira, 28 de junho de 2007 20:24:00 BRT  
Anonymous Dourivan Lima disse...

Alon,

Mesmo que desnecessário, faço o esclarecimento de que, no décimo parágrafo, a palavra "você" é usada não como pronome pessoal, mas no sentido coloquial de um pronome indefinido: tipo, o personagem do qual se está falando.

quinta-feira, 28 de junho de 2007 22:45:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Dourivan, permita-me. O ponto de virada na geografia política mundial realmente ocorreu: um tido como radical, conseguiu criar um ambiente propício ao investimento de curto prazo de capitais internacionais; ao mesmo tempo, colocou formas de proteção e de integração social sem provocar o surgimento de irrupções mais profundas, vindas de tendências historicamente alinhadas com o partido no poder hoje. O pano de fundo foi e é, a demonstração de responsabilidade com a emergente economia capitalista brasileira. Ou seja, ortodoxia capitalista, trazida das experiências anteriores e aprofundadas até com quadros de governos anteriores. Dai a necessidade de uma ampla vitória eleitoral e a blindagem contra os solavancos ocorridos desde 2005.
Sotho

sexta-feira, 29 de junho de 2007 09:14:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pois é! Quem te viu, quem te vê, como dizia a música do Chico.

sexta-feira, 29 de junho de 2007 15:08:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, este post acertou em cheio. Em um comentário anterior eu havia dito que a política monetária deixara a pauta, apenas não supunha que perdida a proeminência estivesse desponível a ser desfigurada por essa esquizofrenia ideológica que você aponta com perfeição. Não faria muita diferença decidir por manter os 4,5% como meta ou deduzi-la para 4%, o BC gostaria de reduzir a meta porque acredita alcançá-la sem mudar sua atitude atual, mantidos os 4,5% teria de acelerar o corte dos juros (se não quer fazê-lo não é por sadismo, mas porque não sabe – repito, não sabe! – como reagirá a inflação quando retomar uma tragetória de crescimento, e gostaria de então poder elevar as taxas tão lentamente quanto agora as reduz). Por outro lado, exprimentar uma política monetária mais agressiva também não provocaria nenhum desastre, se falhasse teria algum custo sua correção, mas o custo maior do combate à inflação ficou para traz. Mas entre as opções colocadas pela política monetária optou-se por dispensar igual afago às vaidades do Ministro da Fazenda e ao Presidente do Banco Central. Aguardemos o barulho que virá quando a inflação repicar. Essa esquizofrenia porém não é nova, o “fogo amigo” do PT vem desde o início do primeiro governo, nem caracteriza o governo atual, o “anti-malanismo” de parte do PSDB fez barulho durante todo o governo anterior. Eu diria que é uma caracteristica essencial da política brasileira. Todos são a favor (e contra) das mesmas coisas, muitas vezes conflitantes de fato mas consiliáveis no papel, como nessa decisão de política econômica, o que diferencia um lado do outro é o carisma do lider, é aquele político que eu quero escolher pelo nome.

sábado, 30 de junho de 2007 10:34:00 BRT  

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