segunda-feira, 11 de junho de 2007

Um outro ponto de vista sobre a autonomia universitária - ATUALIZADO (11/06)

O ótimo blog O Biscoito Fino e a Massa, do Idelber Avelar, publica um post do autor contestando minhas críticas à autonomia universitária. Vale a pena ler. Algumas obervações. Não faz sentido usar a autonomia que a universidade deve ter na esfera acadêmica como biombo para a falta de transparência na administração. Ou seja, não vale se esconder atrás dos professores de sânscrito para encobrir a farra com o dinheiro que o povo coloca na universidade. São duas coisas diferentes: 1) a liberdade de pesquisar e ensinar e 2) a liberdade de gastar o dinheiro do povo como bem entender. Quando a primeira passa a ser pretexto para justificar a segunda é porque algo vai mal no debate. Outra coisa estranha é dizer que a universidade pública já é fiscalizada pelos tribunais de contas. Não é disso que se trata. Os tribunais de contas fiscalizam irregularidades com o dinheiro público. Por exemplo, se há superfaturamento nas passagens aéreas adquiridas para as viagens dos professores. Mas se cada universidade decidisse, por exemplo, pagar a cada professor uma viagem mensal à Europa, os tribunais de contas nada teriam a ver com isso -desde que, é claro, as instituições de ensino conseguissem bons preços na compra das passagens. Outra coisa que parece ter incomodado foi a minha referência ao Nobel. As reações foram essencialmente duas. Segundo alguns, há brasileiros historicamente injustiçados por não terem recebido o prêmio. Segundo outros, tem gente que ganhou o prêmio e não merecia. Isso me lembra alguns debates sobre futebol e campeões morais. Pelo visto, temos agora candidatos a uma lista de campeões morais do Nobel. A minha questão é outra, colegas. Ou vocês acham que o Nobel não tem nenhuma importância (e isso pode certamente ser um ponto de vista), ou vocês precisam explicar por que não ganhamos nenhum até agora. Zero. Vejam que não falo de estatísticas, falo de números absolutos. Não falo de produtividade científica medida estatisticamente, mas de excelência qualitativa. De todo modo, esse é um debate muito difícil, reconheço. Não é fácil enfrentar a aliança entre a esquerda recém-convertida a (alguns e conveninentes) princípios do ultra-liberalismo e a burocracia universitária, tão ciosa de suas prerrogativas.

ATUALIZAÇÃO (12/06, às 18h59): Leia Autonomia vs. automania universitária, a intervenção do Hermenauta no debate.

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13 Comentários:

Anonymous Idelber disse...

Caro Alon, muito obrigado pela leitura e pela réplica. Uma das grandes novidades da blogosfera é a possibilidade desses debates abertos e em boa fé. Abstenho-me de treplicar por enquanto, curioso por ver o que os seus excelentes leitores dirão sobre o tema. Já fiz uma atualização do post convidando uma visita à sua réplica. Um abraço,

segunda-feira, 11 de junho de 2007 14:19:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
li o comentário do outro site (Biscoito fino) e concordo em parte com ambos.
1) O Avelar está certo (minha opinião) quanto à importância relativa do prêmio Nobel. Já disse isso, é um indicador ruim. Ele citou exemplos na área da literatura, eu citei o do Cesar Lattes, não por tupiniquinismo, foi por memória mesmo.
2) Você está certíssimo em relação á transparência. As universidades prestam contas, do ponto de vista contábil. Entram xis reais, saem xis reais em tais e tais rubricas, com recibos devidamente arquivados. Formalmente, Ok. Mas isso não significa que o dinheiro está sendo bem aplicado.
O Paulo Araújo muito bem explicou que a autonomia ainda não foi regulamentada por lei. Há os decretos estaduais e do MEC (para as federais). Talvez a regulamentação, se é que virá, possa confirmar a autonomia universitária, mas imponha certos índices de qualidade e produtividade, inclusive com a exigência de retornos sociais relevantes.
Sds.,
de Marcelo.

segunda-feira, 11 de junho de 2007 14:56:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ok. Ok.
Mas que o Nobel é uma loteria, isso lá é. Além disso, não é a única honraria.
Lembro-me de Mário Schenberg. Contam que quando a ditadura o prendeu, pelos idos de 67, ele estava sendo esperado em um congresso de matemática (olha ela aí de novo), e os matemáticos todos, lá no Japão, mandaram um recado: não começariam o congresso enquanto ao Shenberg não chegasse. O general não teve outra saída a não ser mandar soltar o homem. Sei lá se ele ganhou algum prêmio, mas parece que o Einstein, em uma carta, disse que era o único cara que poderia continuar suas idéias. Em homenagem aos dois, beberei uma cerveja no bar que o Albert frequentava, no próximo dia 23 de julho, em Berna, pertinho da estação central. E também em homenagem à autonomia universitária (acadêmica, por supuesto).

segunda-feira, 11 de junho de 2007 15:01:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Agora está um pouco mais clara a argumentação sobre manter a autonomia no ensino e pesquisa, e haver controle sobre gastos. Porém como controlar gastos sem interferir na priorização de verbas?
Eu não tenho dúvida de que a comunidade acadêmica tem maior competência do que a comunidade política para ditar os rumos (inclusive gastos) da Universidade que melhor atende aos interesses da sociedade. O que a comunidade Acadêmica precisa é apenas de algum controle externo para evitar o corporativismo (inclusive de grupos acadêmicos hegemônicos sobre os demais).
Por isso defendo que a Universidade tenha maior contato com a sociedade civil, via conselhos populares (onde haveria a inferência política). Não para esses conselhos decidirem, mas sim para trazer as necessidades e expectativas sociais.

Quanto ao Nobel, tem suas injustiças como qualquer prêmio dado por uma comissão julgadora. Mas temos que reconhecer que a participação brasileira tem pouquíssimas indicações (o que acho bem mais grave do que não ganhar o prêmio em si).
O Brasil tem uma produção tecno-científica pífia comparada ao tamanho de sua economia, de sua população total e mesmo de sua população Universitária. Gostaria de saber em relação ao que se gasta comparado à outros países.
Então a Universidade precisa aceitar pressões sociais, fazer sua autocrítica também e exigir de si a excelência que apregoa ter.

Por fim, cabe uma pergunta: se Deputados da ALESP pudessem fazer emendas parlamentares sobre como gastar com pesquisas e ensino na USP e na UNICAMP, quantos prêmios Nobel viríamos a ganhar com isso?

segunda-feira, 11 de junho de 2007 15:42:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

"Mas se cada universidade decidisse, por exemplo, pagar a cada professor uma viagem mensal à Europa".

Francamente, parece até que você nunca frequentou uma Universidade. Você tem um amigo, dos tempos de estudante, que fez brilhante carreira acadêmica. Pergunte ao Paulo Lotufo como funciona a liberação de bilhetes de avião para professores da USP. Aproveite para informar-se sobre as formas de controle e prestação de contas vigentes nas universidades. Ele deve ter uma visão crítica bem mais acurada do que qualquer um de nós aqui.

Universidades públicas somente liberam seus professores (são funcionários que cumprem jornadas de trabalho) para ausentarem-se de suas funções docentes mediante apresentação de projetos. Por exemplo: Congressos, participação em bancas, visitas de estudo ou pesquisa, intercâmbios.

Não existe a menor possibilidade da universidade sair por ai distribuindo bilhetes de avião ao bel prazer de quem os solicita.

abs.

segunda-feira, 11 de junho de 2007 15:57:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Alon,

Parece que você está tentando dizer alguma coisa, só não dá pra entender bem o que.

É óbvio que a liberdade acadêmica não pode servir para encobrir a má versação do dinheiro público. Faz tempo que você vem afirmando aqui que os estudantes e outros interessados estão querendo impedir a transparência das contas públicas. Mas, até agora, não entendi de quem você está falando. Nessas horas é preciso dar nome aos bois, senão ninguém entende o que você quer dizer.

segunda-feira, 11 de junho de 2007 16:10:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Usar o Nobel como indicador de excelência universitária não vai te levar muito longe nesta questão da autonomia.

Consegui reencontrar um texto do Roberto Romano escrito em 1999, na FSP, sobre a questão do controle externo sobreas universidades.

Sua crítica ao texto anterior (Autonomia Universitária) foi tremendamente injusta ao conteúdo. Neste outro texto (Universidades: autonomia ou morte?), destaco as passagens nas quais o professor Romano sugere aos seus pares a criação de uma instância democrática de avaliação e controle externo, sem que para isso tenhamos que agredir o princípio constitucinal da autonomia universitária:

"Tempos atrás, analisando as universidades paulistas, fiz a proposta de criar uma comissão integrada por membros dos três Poderes políticos, pela própria universidade e por segmentos civis para exercer o acompanhamento e o controle externo das verbas públicas em todos os campi, públicos e privados. A idéia era simples: a comissão se reuniria anualmente, antes de a proposta orçamentária receber uma forma definitiva. Tendo em mãos o plano de pesquisa, docência e extensão de todas as instituições acadêmicas e conhecedora das planilhas de custos, a comissão julgaria cada uma das universidades em que verbas públicas fossem alocadas. As que justificassem seus gastos, segundo o plano coletivo de atividades apresentado à comissão, receberiam parecer positivo antes que o Orçamento do Estado fosse definido. As que não pudessem dar razões convincentes sobre seus gastos teriam sanção negativa. A transparência, a isonomia no trato dos três Poderes com a universidade, a presença de representantes da vida civil e dos próprios universitários garantiria um estatuto digno e autônomo às instituições de ensino superior.

De fato, entre as facetas negativas da universidade brasileira está o mimetismo por ela assumido em face do Executivo político. O estilo, imperante nos campi, de controle quase absoluto das reitorias sobre os conselhos permite muito arbítrio e desperdício de verbas. A cada quatro anos, um novo reitor estabelece seus planos, sem considerar os antigos, e desativa projetos para aplicar recursos em outros -não raro, por motivos pouco nobres de política universitária. Se o governo está de fato interessado em promover uma melhor gestão financeira nas universidades sem cometer um crime contra a autonomia
universitária, algo semelhante à comissão de controle externo deveria ser pensado. Na trilha que está sendo aberta pelo Ministério da Educação, entretanto, é mais provável que a segunda hipótese constitua a verdade. É tempo de apelar para a prudência dos Poderes, para que nossas universidades saiam da indefinição institucional em que se encontram sem caminhar para seu puro e simples aniquilamento."

http://robertounicamp.blogspot.com/2007/05/leiam-por-favor-os-ultimos-do-artigo.html

A proposta da "comissão integrada" e a crítica "às facetas negativas da universidade" param em pé? Notou que a crítica "às facetas negativas" segue caminho parecido com a que você fez naquele post sobre "oligarquização da política e hipertrofia do executivo"?

abs.

PS: Fui aluno do Prof. Roberto Romano e mantenho até hoje grande admiração pelo seu pensamento e conduta acadêmica. Afastei-me da universidade há mais ou menos 15 anos. O que faço hoje para ganhar a vida nada tem a ver com a universidade. Portanto, estou completamente à vontade para defender uma causa que não me traz nenhum benefício de caráter pecuniário ou de prestígio social.

segunda-feira, 11 de junho de 2007 17:26:00 BRT  
Blogger Paulo C disse...

Alon, às vezes sua teimosia dá um certo trabalho. Mas vamos lá. Ter um Prêmio Nobel então é a medida padrão da eficiência da autonomia universitária?

Bem, olhando a lista por país mais de perto, é fácil ver que a correlação "autonomia universitária - Nobel" é meio fraca. Primeiro, se retirarmos os prêmios sem relação com pesquisa acadêmica (Paz e Literatura), sobram muito poucos premiados fora do eixo Europa-EUA.

Se formos além e examinarmos as carreiras dos premiados a coisa fica mais dramática. Por exemplo, nenhum dos prêmios de Física (3) e Medicina (1) atribuídos à China se deve a pesquisas realizadas em universidades chinesas, mas a cientistas chineses trabalhando nos EUA. A situação da África do Sul é similar.

Na verdade, se você somar os prêmios recebidos por todos os países menos por EUA, Grâ-Bretanha, França e Alemanha, o número não chega nem perto da quantidade de premiação destes quatro. Mal chega nos prêmios dados a norte-americanos.

Toda esta discussão me parece irrelevante para a autonomia - qual é mesmo a proposta, atrelar as verbas universitárias à obtenção de prêmios Nobel? Ou comparar o investimento histórico da Europa e dos EUA em pesquisa básica com o do Brasil? Ou simplesmente declarar a USP desnecessária, visto que em 70 anos de existência ainda não obteve o prêmio?

segunda-feira, 11 de junho de 2007 17:52:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Há uma grande confusão, as vezes acho que proposital, a respeito deste tema.
Autonomia em relação a quê, mesmo?
Autonomia em relação às leis do país?
Em relação aos ditames da Igreja Católica, ou outra?
Em relação à vontade do político de plantão?
Em relação aos contribuintes?
Em relação à indústria nacional?
Em relação ao que se considera sanidade mental?
Enfim, vários assuntos são misturados num só, para que a universidade continue adolescente que recebe mesada e não quer dar satisfações ao papi.....

segunda-feira, 11 de junho de 2007 21:50:00 BRT  
Blogger Patrick Gleber disse...

Alon,

Louvável a atitude do blogueiro. Mas nem por isso posso deixar de concordar com você. Afinal, você é meu mestre, hehe!

terça-feira, 12 de junho de 2007 09:29:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Mais uma vez entra a síndrome da relativização. A questão do Prêmio Nobel soa neste diapasão, só que misturada com a autonomia universitária. Não é importante o Nobel? Então, a pesquisa é desimportante? A universidade não tem um Nobel? Então, a universidade pode ser descreditada, desqualificada? Tudo isto porque um ínfimo número de desavisados resolveu tomar posse da Reitoria? Autonomamente? Oras...
Sotho

terça-feira, 12 de junho de 2007 10:39:00 BRT  
Anonymous Hermenauta disse...

Alon,

Acho que Idelber e você estão simultaneamente certos e errados. Como não quero alugar sua caixa de comentários, te convido a ler meu post sobre o assunto.

abçs

terça-feira, 12 de junho de 2007 17:13:00 BRT  
Anonymous Matheus disse...

Parabéns pelo blog, muito bom mesmo!

quinta-feira, 10 de novembro de 2011 21:46:00 BRST  

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