terça-feira, 12 de junho de 2007

Um movimento importante para o Brasil (12/06)

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) está reunido em Brasília para seu 5º Congresso Nacional. O MST é personagem recorrente neste blog. O que eu penso sobre o MST está resumido num trecho de A histeria midiática contra [Hugo] Chávez, de janeiro:

(...) voltemos ao estudo da separação entre trabalho e propriedade. Você já se deu conta de que a organização mais radicalmente anticapitalista da sociedade brasileira, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), é um movimento que pede apenas a democratização do capital terra? Incrível, não é? Eu, por exemplo, fico espantado toda vez que alguém acusa o MST de ser contra a propriedade privada. Eles são tão a favor da propriedade privada que a querem para todo mundo. O problema é saber se o capitalismo, como sistema, vai conduzir a uma sociedade em que todo mundo seja proprietário.

O MST é o mais importante movimento social do Brasil porque tem representatividade e questiona na base o maior problema nacional: a desigualdade recorde de renda. Pois o que está na raiz da sociedade mais injusta do mundo é maior concentração de propriedade no mundo. Escrevi aqui neste blog e no Correio Braziliense, em Esquerda e direita, sócias, em abril:

Entre os grandes países em território, o Brasil é o único no qual a questão fundiária permanece como um problema nacional sem solução. Tal peculiaridade se deve ao nosso histórico de modernizações conservadoras. Somos uma nação que obteve a independência sem revogar a escravidão e proclamou a República sem fazer a reforma agrária.

Eu acrescentaria: sem tampouco fazer a reforma urbana. E o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não tem representado uma ruptura com esse padrão conservador. Ele está quantitativamente "à esquerda" do governo anterior (mais dinheiro para o Bolsa Família, mais dinheiro para o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar -Pronaf, mais dinheiro para bolsas de estudo para pobres e negros), mas qualitativamente reproduz e amplia a aliança estratégica entre o poder e o latifúndio, uma triste marca registrada da História do Brasil. E a situação tende a priorar, com os planos brasileiros de alavancar acriticamente o etanol extraído da cana de açúcar como biocombustível global. O tema também tem sido objeto de considerações neste blog. Está, por exemplo, em Duas medidas simples para evitar as más companhias, de março:

A indústria do açúcar e do álcool talvez seja a síntese mais acabada dessa insistente modernização conservadora (prussiana), que amarra os nossos pés há séculos. A herança do latifúndio está lá, na concentração da propriedade territorial. As marcas da escravidão também estão, nas condições desumanas de trabalho e na baixa remuneração dos trabalhadores nos canaviais (não em relação a outros colegas pouco qualificados, mas em relação à riqueza produzida). Esse quadro é especialmente dramático no nordeste brasileiro. E, como corolário de tudo, vem o dano ambiental. Ninguém deseja que o Brasil fique fora da caravana mundial do etanol proposta pelos Estados Unidos. Ela representa para nós uma oportunidade de crescer, de gerar emprego e renda, de avançar no domínio de conhecimentos essenciais para o progresso humano. Precisamos, porém, fazer esse movimento de maneira diferente da habitual. Se vamos inovar na tecnologia e na ciência [e espero que o Brasil saia desse ciclo com uma poderosa indústria alcoolquímica, e não apenas como exportador de energia barata, como transferidor de capacidade fotossintética], que inovemos também, e principalmente, na organização social do trabalho e na distribuição mais democrática dos benefícios do progresso. O ramo sucroalcooleiro, definitivamente, já produziu desigualdade suficiente no Brasil. Com isso, cresceu e enriqueceu. Ótimo para eles, mas agora chegou o momento de distribuir.

Eu não me alinho ideologicamente ao MST, mas reconheço o movimento como pólo dinâmico que pressiona por uma mudança no padrão de desenvolvimento capitalista no Brasil. Pressiona pela democratização do capitalismo brasileiro. E a importância do MST cresce na medida que os partidos tradicionais da esquerda (PT, PSB, PCdoB) se acomodam no poder e reduzem, com isso, seu ímpeto transformador. Num país em que a esquerda tomou a expansão da indústria sucroalcooleira como sua bandeira para acelerar a inserção da economia nacional na economia global é altamente saudável que alguém com músculos reme contra a corrente. Como disse, eu tenho cá minhas diferenças com o MST. A principal delas é como vemos a expansão da fronteira agrícola e os movimentos pela integração da Amazônia ao Brasil (de volta a Esquerda e direita, sócias). Infelizmente, o MST e outras correntes da luta social no campo brasileiro estabeleceram nos últimos anos uma sólida aliança com o ambientalismo global (veja o post anterior, Comendo poeira). Por isso, um movimento que poderia estar na vanguarda da ocupação da fronteira norte do Brasil (com um novo modelo de desenvolvimento rural, baseado na agricultura familiar) permanece de pés amarrados no sul e no sudeste. E também acho que está na hora de o MST rever sua posição radical contra os transgênicos (leia A boa notícia que vem da CTNBio, de maio). Até porque, como mostra a experiência gaúcha da soja transgênica, o uso de organismos geneticamente modificados na agricultura pode representar uma importante ferramenta para a viabilidade econômica da pequena e da média propriedade rural.

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17 Comentários:

Blogger César disse...

Alon, não concordo com suas posições sobre transgênicos e as fronteiras agrárias, mas gosto muito do seu estilo argumentado de abordar temas importantes, e também muito de ter minha visão da nossa sociedade clareada pela sua análise serena.

terça-feira, 12 de junho de 2007 21:00:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Alon, o capitalismo é o únuco sistema onde é possivel a propriedade privada, no socialismo é do estado, no feudalismo do suserano. Logo, paises socialistas e feudais (Cuba) náo admitiriam um movimento como o MST>
A concentração de terras é um fenomeno de paises ricos no mundo inteiro (migração para as cidades). Reforma agrária ´que nem curso de datilografia, já foi útil um dia, hoje ninguem mais se interessa.

terça-feira, 12 de junho de 2007 22:29:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Alon, o foco do MST está errado, eles tinham que lutar por educação suficientemente boa para viverem na cidade. A chave do problema brasileiro da desigualdade economica, é porque é causado principalmente pela desigualdade na educação.
E não é só educação escolar, mas a baixa qualidade intelectual das familias de baixa renda. Na minha opinião o único movimento que consegue avanços nesta área é o das igrejas protestantes.

terça-feira, 12 de junho de 2007 22:57:00 BRT  
Anonymous trovinho disse...

JV, aprendi no PCB, no início dos 80, que Marx não condicionava a propriedade privada ao Modo de Produção Capitalista e sim ao que o hegemoniza. Nos 60/70's, trabalhadores poloneses endividaram o país com seus negócios privados, porém os renovadores húngaros foram melhor sucedidos. Os comunistas iugoslavos receberam grana do Plano Marshal. Keynes curtia seus amigos comunas na Universidade e salvou o Capitalismo remando contra o Mercado. Acho que deu prá ver que a discussão é antiga.

quarta-feira, 13 de junho de 2007 04:14:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Caçar as velas, leme a estibordo, arribar a proa!

quarta-feira, 13 de junho de 2007 07:48:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Leiam reportagem do Stedile no O Globo de hoje (deve estar em outros jornais) Ele concorda comigo, que surpresa, né? Se o chefe da malta messetiana acha que a reforma agraria é inutil , inadequada, ou desnecessaria, quem sou eu para dizer o contrario.

quarta-feira, 13 de junho de 2007 10:35:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Discussão antiga e que se situa nos limites da dissonância cognitiva.
Eu, legítimo filho do Pontal do Paranapanema, amigo de um importante presidente da UDR, fico sempre pasmo com as paixões que suscita o tema. Tenho, inclusive, dificuldades várias de entendimento. Sorte que nunca frequentei as fazendas de meus coleguinhas de escola, todas bem equipadas com cavalos e piscinas e submetralhadoras Uzi, pois se fosse assim, muito provavelmente estaria do lado de lá.
Mas o que me espanta é gente que não tem nenhum motivo para defender os latifundiários e mesmo assim o faz.
Sugiro para esses um exercício bem básico: pegue um mapa múndi, recorte diversos países pequenos, como Bélgica, Dinamarca, Estônia, Letônia e Lituânia, Não se esquecendo de Luxemburgo e Lichtenstein, pegue outro mapa, inteiro e mais detalhado, com as divisas das fazendas (serve o Google Earth). Se a terra for maior que metade desses países (ou que o país interio, caso de Lux e Licht), merece ser desapropriada para reforma agrária, mesmo que seja produtiva (nunca será). A lista das propriedades a desapropriar pode ser batida numa máquina de escrever Remington, pra ficar mais parecidinha com os títulos de propriedade do grilo.
Anônimo, e delirando

PS. Obrigado pela aula, Alon.

quarta-feira, 13 de junho de 2007 11:41:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Também acho o MST um movimento importante. Mesmo quando erra, é melhor que o conformismo.
Apenas acho que a própria reforma agrária precisa ser reformada. Não faz muito sentido se opor com críticas pouco fundamentadas à monocultura da cana e a todo e qualquer transgênico. Aliás a reforma agrária deveria passar a charmar-se reforma do agronegócio.
O objetivo da reforma agrária deveria ser tornar a riqueza acessível também aos trabalhadores rurais. A pequena propriedade é um caminho, mas não é o único.
Então se parte do dinheiro do Estado que seria usado em algumas desapropriações fosse usado para financiar mais produção intensiva (o que existe demanda, e onde dá dinheiro), exigindo em contrapartida que os trabalhadores tivessem participação societária nos empreendimentos rurais, poder-se-ia obter melhores resultados.

quarta-feira, 13 de junho de 2007 12:54:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Confirmando o que escreveu o jv, também saiu no Estadão que Stédile considera ultrapassado o modelo de reforma agrária que ele mesmo defendeu por mais de vinte anos.
JV, eu só discordo com vc. no seguinte:
"a baixa qualidade intelectual das famílias de baixa renda". Meu caro, só a delas? Não são os pobrezinhos que lêem a revista Caras, my friend...
Sds.,
de Marcelo.

quarta-feira, 13 de junho de 2007 15:30:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Em tempo:

Manter a quilha - e a Amazônia - à salvo da soja gaúcha - transgênica ou convencional.

Que a genética se concentre nos biocombustíveis e resolva se vamos morrer de fome, intoxicação ou contaminação.

Alon, parece que você nunca experimentou o suco de uva orgânico produzido pelos jovens agricultores das velhas colônias alemã e italiana da serra gaúcha.
Tente. É uma delícia e você vai ficar saudável e corado como eles. Em São Paulo custa R$ 10,00 o litro e mesmo assim vende como água.

Em Brasília talvez só se encontre vinho. Compreende-se. É a Roma de Bacco nos trópicos.

quarta-feira, 13 de junho de 2007 16:35:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Meu caro, falando do baixo nivel intelectual das familias de baixa renda, não conclui que as outras familias tem alto nivel intelectual. Mas de qualquer modo, as familias de baixa renda que citei, nem ler Caras conseguem,só vem as fotos, daí que de acordo com sua ideia, cocluo que sim, existe nivel intelectual mais baixo que o dos leitores de Caras.
Mas......Caras não se propoem a nivel intelectual algum, é uma revista de ...caras.....fotos, imagens. Pergunto a você, é atestado de ignorancia ter uma revista Caras na mão? Eu não acho, as vezes na sala de espera de algum lugar folheio a Caras sim senhor.
E não fico mais burro por causa disto.

quarta-feira, 13 de junho de 2007 16:39:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Aí sou forçado a concordar com jv. A revista Caras é ótima, assim como a Contigo e a Veja. A Época também já está atingindo o mesmo nível, tudo praticamente a mesma coisa. Varia a abordagem, mas a desinformação, aliada à profusão de fotos de gente como Sharon Stone, Paris Hilton, Naomi Campbell, sem contar as nossas que também são ótimas (mulheres, eu digo), transforma a leitura, ou o folheio, em um ótimo refrigério para os olhos do cristão (ou do judeu ou do islâmico mais secular, este preferindo a giovana Antonelli).
Melhor que andar a cavalo na fazenda com piscina dos meus amigos lati, só se tiver uma Caras na cadeira ao lado. (Nem vou falar de Playshop, Photoboy e outras que tais, porque o que eu vejo lá também passa na propganda de cerveja. Prosit!)
Anônimo, delirante e embevecido (ou seria embebedado?)

quarta-feira, 13 de junho de 2007 17:07:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Jv,
na minha modesta opinião, o despreparo moral e intelectual da nossa elite é mais responsável pelo atraso brasileiro do que a ignorância do povão. E, note bem, essa idéia não é exatamente original... Desculpe se a menção à Caras de alguma forma lhe ofendeu, não foi intencional.
Sds.,
de Marcelo.

quarta-feira, 13 de junho de 2007 17:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
O trecho mais importante do seu post é a acomodação dos petistas. Concordo, de partido combativo, militância aguerrida, sobrou apenas a acomodação e a luta por cargos no governo.
Dezenove cortadores de cana morreram de trabalhar, como os escravos, e não vi uma manifestação de répúdio, passeata, ato, nada, por parte do PT.
O MST tem importância, mas não ameaça ninguém; querem a reforma agrária, e esta nunca vai sair do papel. O Lula é tão conservador quanto os governos anteriores. Tem medo de mexer no vespeiro que é a questão dos latifúndios no Brasil.

Li que a maioria dos dep. petistas fecharam questão em torno da reforma política, tão defendida pelo Dirceu,, afastando o povo da escolha dos seus representantes e aumentando a distância entre a política partidária e a sociedade.

É, vc tem razão, só sobrou o MST.

quarta-feira, 13 de junho de 2007 19:45:00 BRT  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

Alon, eu prefiro bem mais o MST se explicando do que você explicando o MST. O MST tem a grande vantagem de não empregar abstrações eufemísticas e ir direto ao ponto.

O discurso do MST é claramente anti-capitalista. O objetivo é acabar com o capitalismo e colocar outra coisa no lugar. Não se sabe bem o quê depois que quase todos os países socialistas reverteram ao capitalismo. Mas é alguma coisa que não seja o capitalismo.

É verdade que eles defendem a pequena propriedade rural, mas isto é o único tipo de propriedade privada que eu jamais vi alguma liderança do MST defendendo. Então digamos que o MST é um movimento anti-capitalista, contra a propriedade privada, que admite pequenas exceções, como a pequena propriedade rural.

É uma atitude típica do que eu chamaria de "intelectual justificador" chamar um movimento anti-capitalista de algo que "pressiona por uma mudança no padrão de desenvolvimento capitalista".

Você diria que os cubanos de Miami "pressionam por uma mudança no padrão de desenvolvimento socialista"?

Não adianta. Para ser a favor do MST você tem que ser contra o capitalismo. Tentar um meio termo aí é uma enrolação que não funciona.

E, por falar nisso, o setor sucro-alcooleiro não é uma categoria sociológico-econômica com a qual se possa fazer macro análises políticas do Brasil atual. Estou chutando, mas não deve empregar nem 1% da força do trabalho, não deve representar nem 3% do PIB. Já foi muito mais do que isso, em outros séculos. Hoje, porém, com toda a badalação do etanol, não passa de um setor entre centenas. Pode não te agradar, como tem gente que não gosta, sei lá, das mineradoras. Mas não serve para fazer análises grandiloqüentes sobre o conservadorismo que perpassa a história brasileira e coisa e tal. Não tem tamanho pra isso.

quarta-feira, 13 de junho de 2007 22:54:00 BRT  
Blogger Julio Neves disse...

"Você já se deu conta de que a organização mais radicalmente anticapitalista da sociedade brasileira, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), é um movimento que pede apenas a democratização do capital terra?"

"Apenas"? Eu não caio nessa. Já vi o MST invadir praças de pedágio. Também se "apropriar" de uma praça pública municipal. Onde está a "terra" nessas invasões?

Vejo o MST apenas como um sintoma do atraso do país. Quanto mais força tiver, mais atrasado o Brasil estará.

Se o modelo agrário do Brasil é ruim, não é o modelo MST a solução.

Toda vez que ouço falar em MST, lembro-me do filme "Os Gritos do Silêncio". E o jornalista nativo sofreu, viu Alon!

quinta-feira, 14 de junho de 2007 12:37:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Mas ninguem fala do texto entrevista do Stedile? O proprio chefe admite que errou e ninguem comenta....

sexta-feira, 15 de junho de 2007 21:55:00 BRT  

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