quinta-feira, 14 de junho de 2007

Reconhecer o patriotismo alheio (14/06)

O capitão Carlos Lamarca (foto) recebeu ontem, simbólica e postumamente, a patente de coronel. Além disso, seus familiares foram indenizados pela Comissão de Anistia. Foi um belo gesto da comissão e um passo importante para consolidar cada vez mais a reconciliação política do Brasil, o maior e mais importante legado do presidente João Figueiredo (1979-1985). Uma biografia de Carlos Lamarca pode ser encontrada no site do Movimento Tortura Nunca Mais. E uma reportagem sobre as circunstâncias da sua morte pode ser lida no banco da dados da Folha de S.Paulo (a reportagem é da época, como o leitor poderá perceber). Incomoda-me que até hoje Lamarca seja brindado com o rótulo de "terrorista" pelos reescritores da História. Lamarca não era terrorista e seus críticos sabem disso. Era um guerrilheiro. Há uma diferença conceitual entre guerrilha e terrorismo. A guerrilha se caracteriza pela disposição de combater assimetricamente uma força armada regular ou um poder constituído. O terrorismo se caracteriza pela disposição de infligir morte e sofrimento à população civil, com objetivos políticos. O Brasil teve um ciclo guerrilheiro na passagem da década de 60 para a de 70 do século passado. O Brasil nunca registrou o fenômeno do terrorismo. Chamar Carlos Lamarca de terrorista é tentar tardiamente dar vida a uma falsificação histórica que nem a ditadura militar (1964-1985) conseguiu impor. Carlos Lamarca desertou do Exército brasileiro, é verdade. Mas de que Exército Lamarca desertou? De um Exército que dera um golpe de estado para derrubar um governo legitimamente eleito e se transformara em partido político de uma revolução. Ou seja, Lamarca desertou de um Exército que já havia desertado de suas (do Exército) atribuições constitucionais. Escrevi em janeiro, aqui, o post Patriotismo:

Depois que vítimas de tortura no regime militar recorreram à Justiça para carimbar como torturadores os seus algozes, agora são ex-militares que pensam em ir aos tribunais para rotular como terroristas os seus então adversários. Estão, ambos os lados, em seu legítimo direito. Mas este post não é sobre direitos individuais, sagrados. É sobre patriotismo. Eu encaro o período da luta armada contra a ditadura como uma época de guerra. No plano estritamente militar, a direita ganhou. No político, não foi bem assim que a coisa aconteceu. Sobre esse assunto, meu pensamento chega a ser simplório. A guerra acabou. O Brasil está em paz. Esquerda e direita disputam democraticamente as eleições, e quem ganha governa. Há muitas coisas de que desgosto no Brasil. Mas eu reconheço no meu país as saudáveis marcas -espero que irremovíveis- da luta democrática da minha geração (leiam Medo e Liberdade, na revista Teoria e Debate de setembro de 1997). Para o meu gosto, está bom assim. Que os historiadores se debrucem sobre aquele período e façam cada um o seu julgamento. Até para o conhecimento das futuras gerações. Repito: todos que desejam resgatar alguma dívida do passado estão em seu sagrado direito. Mas espero, sinceramente, que consigamos superar esta fase e deixar para os nossos filhos um país completamente pacificado.

Eu penso que os patriotas que optaram pela luta armada para combater o regime militar cometeram um erro político. Mas ninguém tem o direito de colocar em questão seu patriotismo, bem como seu heroísmo. Assim como não se pode colocar em questão o patriotismo dos que combateram do outro lado. O reconhecimento do patriotismo alheio é a base sobre a qual se assenta a possibilidade de construirmos, juntos, um país democrático, soberano e mais justo para o nosso povo. Hoje li na Folha uma declaração muito infeliz do sociólogo Leôncio Martins Rodrigues. Segundo ele, a decisão da comissão de anistia "é uma recompensa a quem queria instaurar uma ditadura socialista no Brasil, Lamarca não combateu em nome da democracia". E quem é que teria combatido então "em nome da democracia", professor? O senhor? Vamos falar sério, caro professor Leôncio. Essa sua concepção de uma anistia restrita que excluiria os combatentes da guerrilha e os torturadores foi histórica, política e juridicamente derotada no Brasil. Graças a Deus, pois do contrário seríamos um país de feridas abertas, como alguns de nossos vizinhos. Que não tiveram competência para construir uma reconciliação nacional tão sólida quanto a nossa. Claro que a ninguém pode ser negado o direito do ressentimento. Felizmente, entretanto, aos ressentidos com o presente restam apenas dois recursos: 1) expor em público a sua própria mágoa e 2) tentar reescrever o passado. Não chega a ser, convenhamos, muito glorioso. Que se ressintam em paz.

O Blog do Alon é finalista na categoria Melhor blog de jornalismo e/ou jornalista da Revista Imprensa. Para poder votar, você deve se cadastrar gratuitamente clicando aqui.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog.

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

27 Comentários:

Blogger Cesar Cardoso disse...

A verdade é que tem muita gente dos dois lados que não aceita que o Brasil decidiu por uma anistia ampla, geral e irrestrita.

quinta-feira, 14 de junho de 2007 12:28:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, também tem uma biografia dele no site: www.ternuma.com.br.
Interessante a distinção entre guerrilheiros e terroristas. Com certeza, a família do vigia da Massey Ferguson que foi mnorto no assalto comandado pelo Lamarca ficará muito mais contente em saber que seu parente morreu nas mãos de um guerrilheiro.
No mais, o Leôncio tá certo. Nem o PCB concordava com a luta armada em 68...
Sds.,
de Marcelo.

quinta-feira, 14 de junho de 2007 12:40:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
esqueci...
Ele era um desertor. Vc. acha que a deserção dele era justificada pq. o exército era golpista. Porém, se o Lamarca não concordava mais com as escolhas da força, ele deveria ter pedido baixa. No entanto, desertou e ainda fugiu com armamento de propriedade do Estado Brasileiro. Ninguém vai pedir indenização para os cofres públicos?
Sds.,
de Marcelo.
Aliás, qual era mesmo a causa nobre que Lamarca, VAR e VPR defendiam?

quinta-feira, 14 de junho de 2007 12:58:00 BRT  
Blogger Paulo C disse...

Muito bom, Alon, mesmo.

Acho porca que a tentativa de reescrever a história e rotular de terrorista os (poucos) que tiveram a coragem de combater o governo ilegítimo dos militares.

Até porque, como você nota, para o bem ou para o mal nós fechamos as feridas. A direita parece não entender que existiam, no final da ditadura, condições objetivas para um acerto de contas de conseqüências imprevisíveis. A ditadura sequer se aguentava de pé, sendo (por exemplo) obrigada a ocupar Brasília para forçar a rejeição das Diretas por seus próprios asseclas no Congresso. Ou a falsificar de forma hilariante o IPM do RioCentro para esconder sua própria guerra interna.

O fato é que a velha e nova esquerda aceitaram a anistia. Podiam ter recusado e exigido a capitulação. Podiam ter forçado o impasse, mantido as feridas abertas e levado o jogo para o outro nível. À guerra civil ou à revolução. Mas não foi o que ocorreu. Nós aceitamos a anistia e engolimos a derrota (quase militar) das diretas em troca de uma volta pacífica à democracia.

Só quem é ignorante ou desonesto pode apontar Lamarca e inúmeros outros como "terroristas".

quinta-feira, 14 de junho de 2007 13:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Texto muito corajoso Alon. Principalmente no que tange ao aspecto do legado. Deixar que as gerações futuras herdem um País Democrático, pacífico e economica e culturalmente desenvolvido, seria o que muitos, com tal responsabilidade, deveriam estar pensando ao invés de investir na criação de mistificações e tergiversações. Infelizmente as lições não são aprendidas e muito menos apreendidas com a rapidez necessária para que tal legado seja completado. Triste.
Sotho

quinta-feira, 14 de junho de 2007 13:51:00 BRT  
Anonymous Luiz Lozer disse...

VIVA LAMARCA!!!

Não concordo em quase nada com o que pensava o Capitão, Porém reconheço nele o HERÓI que ele foi, morreu pelo que acreditava, e isso senhores, não tem preço!!!!!!!

Coronel lamarca o capitão do socialismo, :)

PS. parece que os militares estão reclamando, será?

quinta-feira, 14 de junho de 2007 14:34:00 BRT  
Anonymous Luiz Lozer disse...

VIVA LAMARCA!!!

Não concordo em quase nada com o que pensava o Capitão, Porém reconheço nele o HERÓI que ele foi, morreu pelo que acreditava, e isso senhores, não tem preço!!!!!!!

Coronel lamarca o capitão do socialismo, :)

PS. parece que os militares estão reclamando, será?

quinta-feira, 14 de junho de 2007 14:34:00 BRT  
Anonymous Leonardo disse...

Alon, o que você quer dizer com "ninguém tem o direito de colocar em questão seu patriotismo"? Que ninguém pode negar uma declaração espontânea de patriotismo? Parece óbvio! Mas isso não nos impede de avaliar as consequências implicadas pelas condutas de cada uma das partes. Se a luta armada foi um erro político, podemos igualmente classificar como errônea a finalidade a qual servia? E os propósitos que acarretaram o golpe de Estado são, portanto, justos e devemos suspender o juízo quanto aos seus aspectos negativos? (o patriotismo em si não nos diz nada, mas os atos que nele se apoiam podem e devem ser avaliadas segundo suas finalidades)

Reconhecer a eficácia de uma ampla anistia para uma sólida reconciliação nacional não nos conduz ao esquecimento das discrepâncias entre as consequências dos erros de cada uma das partes. Não se trata exclusivamente de direito ao ressentimento, mas de imaginar, com alguma razão, que um julgamento teria feito sobressair os erros millitares. Na pacificidade relativa do nosso tempo podemos declarar que a anistia foi a melhor escolha, mas como saber se teríamos mesmo enveredado pelo mesmo caminho de alguns paises vizinhos? Ou será que essas feridas abertas não tem o caráter terapêutico que parecia ter em mente Adorno quando afirmou que um povo que não aprende com sua história está condenada a repeti-la? Talvez seja preferível sanar feridas abertas a reconciliar um povo sobre o lastro de ressentimento. Por isto acho que a questão é mais complexa do que uma simples questão de direito ao ressentimento.

quinta-feira, 14 de junho de 2007 14:59:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Até onde sei, Lamarca lutou pela implementação de OUTRA ditadura, e portanto, seria tão "herói" quanto os militares. Além disso, matou inocentes no seu terreno terrorista. A família de Lamarca merece o mesmo que os militares golpistas, na minha opinião: nada.

quinta-feira, 14 de junho de 2007 15:42:00 BRT  
Anonymous Caetano disse...

Chamando-o de terrorista ou guerrilheiro, não duvido de seu patriotismo. No entanto, quando pegou em armas assumiu um risco e, para seu azar e de sua família, foi mal sucedido. Veio a anistia, estamos todos em paz, isso é ótimo. Mas como justificar que sua viúva receba mais de doze mil reais de pensão, dinheiro suado de nós, pobres brasileiros, enquanto nossa aposentadoria, no máximo, não chega a um quinto desse valor? É um verdadeiro descalabro termos de pagar por isso! Injustiça inominável!

quinta-feira, 14 de junho de 2007 15:50:00 BRT  
Blogger Patrick Gleber disse...

Poxa, Alon, sacanagem um leitor acima indicar uma leitura sobre Lamarca no site Ternuma.

Se alguém pretende mesmo saber algo verdadeiro sobre Carlos Lamarca recomendo distância do Ternuma!

quinta-feira, 14 de junho de 2007 16:52:00 BRT  
Anonymous Richard disse...

Ainda fico com o epitáfio do Millor Fernandes sobre a Ditadura de 64:
"O pior legado foi ter aniquilado toda uma geração que seria a redenção deste país."
Alon, não construimos nada... apenas não nos preocupamos com isto!

quinta-feira, 14 de junho de 2007 16:56:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

O comentário do Alon esgotou o assunto para mim, e prefiro virar a página.
Virada a página, o fato objetivo de hoje que não concordo, é com o abuso de certas indenizações.
Justamente aqueles que teriam socializado as riquezas e homogeneizado rendas se tivessem vencido, requisitam para si uma renda privilegiada, bem maior do que a da grande maioria da população brasileira.
No Chile houve um projeto semelhante, mas com valores adequados à aposentadoria do trabalhador comum.

quinta-feira, 14 de junho de 2007 18:48:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O texto do Alon é ambíguo porque lida com conceitos igualmente ambíguos. O que é patriotismo? Seria devotar a vida para melhorar o país? Mas o que é melhorar o país? Vejam, isso tudo é subjetivo. Na cabeça de cada um há uma definição diferente. O Lamarca fez o que entendia ser o melhor para o País. O major Cerqueira, que o matou com um tiro, também fazia o que achava mais correto para o País. Então, por esse critério, ambos foram patriotoas. Daí a ambiguidade. Mas, gente, estamos a cinquenta anos desses fatos. Será que não dá para ter um distanciamento metodológico mínimo? Por quanto tempo ainda vamos cultuar ídolos erigidos no altar da iedologia da década de 60? Tenham dó. Querer estudar um fato apenas pelo ângulo que parece ser o dos camaradinhas é inadequado. É mitificação. Vamos crescer?
Sds.,
de Marcelo. (que nem vivo era quando da revolução)

quinta-feira, 14 de junho de 2007 19:03:00 BRT  
Blogger aramis.geral disse...

Queria ver se eu (e o Alon) estaria escrevendo aqui acaso ele tivesse êxito na empreitada.
Duvido muito, portanto aproveitem enquanto é tempo.

quinta-feira, 14 de junho de 2007 21:19:00 BRT  
Blogger Julio Neves disse...

Alon, voce perguntou "quem é que teria combatido então "em nome da democracia?"

E o velho grande Ulisses Guimarães? E o Mario Covas? Não pegaram em armas...

Pedro, o apóstolo, pegou a espada e cortou a orelha de um soldado romano. Tomou aquela reprimenda de Jesus.

No anúncio das boas-novas ao mundo não caberia o uso das armas. Quando se utilizou, quem leu a história sabe...

sexta-feira, 15 de junho de 2007 03:50:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Com todo o respeito, não me parece que seja correta a idéia simplista de que quem combateu a ditadura lutou por democracia. Ao meu ver, muitos dos movimentos que se insurgiram não só contra a ditadura de 64 mas, muito antes, contra o Estado brasileiro, pregava regimes que se revelaram pouco confortáveis com a Democracia. Também não me parece razoável que quem tenha lutado por seus ideais hoje mereça ser recompensado pelo povo brasileiro. O ideal não pode e nem deve ser monetizado.

sexta-feira, 15 de junho de 2007 04:38:00 BRT  
Blogger Na Prática disse...

Concordo com o post do Alon.

O argumento sobre a morte do vigilante é 100% errado, e mostra bem a diferença entre guerrilheiro e terrorista: se a Al Qaeda se limitasse a atacar militares e seguranças, alguém diria que seria a mesma organização que massacra civis desarmados e crianças, DELIBERADAMENTE, isto é, não como efeito colateral (o que sempre é trágico, mas inevitável em toda ação militar), mas como alvo primário? Pode-se considerar que um guerrilheiro e um terrorista são ambos condenáveis, mas não há dúvida de que o terrorista é muito mais cruel; a crueldade do guerrilheiro é a crueldade do militar. A do terrorista é a do assassino.

Quanto à deserção, pelo amor de Deus, o regime militar não era uma ordem jurídica legítima, tendo sido imposta pela força contra as instituições democráticas. Alguém quer punir os resistentes franceses que roubaram armas do exército de Pétain? O Estado Brasileiro democrático NÃO é o Estado que Lamarca desertou. Nossa Constituição, nossa lei maior, é um documento de combate contra aquele Estado.

Claro, outra coisa é dizer que Lamarca era herói; ser herói é diferente de ser bravo, patriota, e mesmo digno, todas essas coisas que Lamarca era. Chamar de herói é aprovar as ações do que assim se chama, e isso é muito mais difícil no caso de Lamarca.

sexta-feira, 15 de junho de 2007 11:11:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Sobre Lamarca e outras pessoas que pegaram em armas para combater a ditadura me parece muito claro que todos eram maiores de idade e sabiam muito bem o que estavam escolhendo. Caso contrário, teremos que aceitar a tese dos "inocentes úteis".

Quanto ao fato da guerrilha não ter combatido por democracia isso não me parece novidade. Quem militou na esquerda no final dos 60 e começo dos 70 sabe muito bem que o objetivo estratégico da luta armada era a ditadura do proletariado, seja na versão maoísta, seja na versão foquista e guevarista. Justiça seja feita ao PCB e outros setores da esquerda que desde sempre manifestaram-se contrários a esse tipo de ação. Não por acaso, Alon, essa turma era denominada com "Reforma" pelos seus adversários.

Eu não justifico nenhum tipo de tortura ou assassinato.

No caso das reparações, penso que são devidas pelo Estado somente aos que morreram sob tortura. Como já foi dito aqui, muita gente está se dando bem com essa história.

Já coloquei aqui um link com entrevista com a mãe do Honestino. Vejam o que ela diz:

Portal UnB – Como foi paga a indenização?
Rosa – Eu detesto falar sobre isso. Não receberia dinheiro nenhum em troca do meu filho. Mas eu recebi o troco. Eu não recebi indenização, mas a Isaura (primeira mulher de Honestino) recebeu. Ela não é a família de Honestino. Só não se separou legalmente porque eles viviam na clandestinidade. E pediu mais, e recebeu mais. Um dia eu estava na fila de banco e um sujeito me parou e disse: "A senhora está boa? Está cheia de dinheiro, ficou rica, está bem de vida". Eu nunca vendi filho nenhum. E se a Isaura tivesse conversado comigo para pedir permissão para entrar na Justiça, eu não daria. O pedido foi feito por ela. Ela entrou com advogado. Se você me perguntar quanto foi, eu não sei. O que foi feito com o dinheiro, não sei. As pessoas tinham inveja de um dinheiro que não recebi e nem receberia. Mãe é mãe e só eu sei tudo o que passei. É muito sofrimento.

http://www.unb.br/unb/historia/entrevistas.php


Lamarca escolheu entrar numa luta que envolvia risco real de morte. Tanto foi assim que houve mortos nos dois lados.

Sobre o episódio recente, minha opinião é contrária a sua. A promoção pós morte de Lamarca me soa como uma grande provocação aos militares. Se há ressentimento, ele existe por parte de setores da esquerda e revela-se nesse episódio da promoção. Qual o sentido, para os militares, dessa promoção? Já parou para pensar? Imaginem a gritaria se alguém resolvesse reabilitar a memória do delegado Fleury e declarar que ele foi um combatente pela democracia, um patriota ou um heroi.

O golpe de 1964 deve sua existência também à ameaça real de quebra da disciplina e hierarquia militar. Tal ameaça unificou os militares em torno do golpe.

Na minha opinião, essa promoção foi um equívoco, como foi equivocada a recente interferência da esquerda no caso dos controladores.

abs.

sexta-feira, 15 de junho de 2007 11:50:00 BRT  
Blogger Livres Reflexões disse...

Parabéns pelo texto.
"Lamarca desertou de um Exército que ele próprio havia desertado de suas atribuições constitucionais"
Pronto muito claro, límpido, transparente...

sexta-feira, 15 de junho de 2007 12:09:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Eu queria que a página tivesse sido virada, por isso preferia passar ao largo de um grande erro da Comissão de Anistia, mas parece que pelas reações da caserna, essa provocação já transbordou.
Foi um grande erro promover (mesmo simbolicamente) Lamarca à patente de Coronel. Gostem ou não, a promoção militar, neste escalão, é atribuição exclusiva de oficiais das FFAA. Quem quiser ter esses poderes que aliste-se e faça carreira militar. Da mesma forma que não queremos militares promovendo políticos a Deputados, Senadores biônicos, Governadores, ou Presidente, existe um Código Militar que dá o ordenamento legal às estas instituições armadas. De acordo com esse código, Lamarca quebrou diversas regras, e por isso foi punido militarmente. A reabilitação, mesmo simbólica, caberia somente à instituições militares decidir. Gostando ou não gostando, militares não podem ter o livre arbítrio de decidir contra quem e contra o quê querem lutar, como fez Lamarca. Quem pensar diferente está defendendo simplesmente a possibilidade de desobediência, de acordo com as convicções ideológicas de cada militar, ao comandante Chefe das Forças Armadas: o Presidente da República.
Lamarca deixou de ser um militar oficial e tornou-se um guerrilheiro político. É uma escolha política válida. Mas é uma escolha fora da carreira e das regras das FFAA, e como tal deve ser tratada. Se civis querem homenageá-lo que lhe atribuam o título honorário até de Marechal, mas Marechal da VPR ou do MR-8, e não do Exército Brasileiro.
Faz sentido a família de Lamarca reclamar indenização como perseguido político, porque no Brasil não existia liberdade de organização política onde ele pudesse atuar e exercer sua cidadania plena. O Partido Comunista era proibido, então só podia atuar na ilegalidade mesmo. Mas reclamar reabilitaçao como militar, somente requisitando às instituições militares.
Setores que chegaram ao governo descontentes com o passado, precisam perder o complexo que querer lidar com as FFAA na base do "você sabe com quem está falando?", só porque setores das FFAA agiram assim no passado não democrático. Isso aconteceu na intervenção direta junto aos sargentos da aeronáutica naquele motim, e está aontecendo agora com este caso de Lamarca. A redemocratização, para o bem de todos, pressupõe tratar aqueles que consideramos desafetos, de forma institucional, e não na mesma moeda arbitrária que fomos tratados no passado.
Da mesma forma que o poder político não quer interferência dos quartéis, não deveria interferir neles.

sexta-feira, 15 de junho de 2007 12:29:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

José Augusto,
isso não é comum, mas desta vez eu concordo com vc. Só no tocante às indenizações eu acho que a visão do Paulo Araújo é mais acertada. Parabéns a ambos pela clareza e conteúdo.
Sds.,
de Marcelo.

sexta-feira, 15 de junho de 2007 14:08:00 BRT  
Anonymous Cesar disse...

Muita gente lutou pela democracia, Alon. O Ulisses, o Tancredo, o Covas o PCB, o PT na década de 80. Pela via pacífica, civilizada, por uma democracia e uma pluralidade de valores que não existiriam caso Lamarca vencesse. Terrorista ou guerrilheiro - isso não importa- ele não lutava por democracia alguma. Mas por uma ditadura maoísta. Não devemos heroicizar os milicos nem tampouco os guerrilheiros como Lamarca.

Concordo com o Paulo Araújo: indenização só para quem foi morto sob tortura nos poroes da ditadura. Mas uma pessoa que pega em armas para atirar em outros e é morta, por favor!

Agora me diga: existe algo mais pequeno-burguês do que ser revolucionário-pensionista do Estado? Só no Brasil. Nem o capitalismo nem o "socialismo" brasileiro conhecem risco.

sexta-feira, 15 de junho de 2007 23:27:00 BRT  
Anonymous sergio disse...

Ressentimentos há.
Deve ser duro olhar o passado e ver que se gastou uma vida defendendo algo que no fim das contas era apenas um dos lados de uma mesma coisa...
É isso, a cisânia só leva mesmo a ressentimentos e um secreto desejo de reviver.
Ah! Se eu soubesse...

sábado, 16 de junho de 2007 06:17:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Alon, a causa de Lamraca não era a da liberdade, a de uma sociedade aberta. Sua sede de poder o fez saltar de um lado a outro para galgar posições de comando mais rapidamente. Se ficasse no exercito em vez de ter desertado, poderia ser um Chaves ou coisa do gênero. Mas tinha pressa.
Aventureiros sempre existirão, e sempre alegarão mil razões para seus atos de violência gratuita. Acreditar neles ou em suas alegadas intenções é que põe em perigo a convivência democrática necessária à vida em uma sociedade livre.

sábado, 16 de junho de 2007 13:11:00 BRT  
Blogger KAUTSCHER disse...

"O Brasil nunca registrou o fenômeno do terrorismo."
Atentado a bomba na OAB+ Lyda Monteiro.
Atentado bomba na Câmara Municipal do Rio de janeiro no gabinete do vereador Antonio Carlos de Carvalho e mutilando o funcionário José Ribamar.
Incêndio nas bancas de jornais no rio.e finalmente o RIOCENTRO.

sábado, 16 de junho de 2007 14:37:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Marcelo,
No meu primeiro comentário eu critiquei as indenizações e pensões elevadas. Quem lutava por regimes marxistas defendia igualdade de renda, e não ficar no topo da pirâmide social.
Concordo em parte com o Paulo Araújo. Além das pessoas torturadas, há ainda as executadas, e houve pessoas que foram perseguidas, perderam emprego e não conseguiam outro, apenas por terem militado antes de 64, escrito livros, dado aulas, por terem parentes militantes, sem sequer terem uma atuação direta após o golpe.
Essas pessoas acho que mereciam reintegração ou indenização conforme o caso. E mesmo assim só acho que deveriam ter direito a indenização ou pensão quem tivesse insuficiência de renda e de patrimônio, porque muita gente alavancou carreira política, artística ou profissional sob o rótulo de estar do lado de combater a ditadura.
No caso de Lamarca não tenho idéia formada se é realmente justa uma indenização (nunca a patente de Coronel, como disse). Às vezes me parece certo, dentro do conceito de resistência: se você pertence à uma instituição militar, e essa instituição pratica atividades para-militares, e você não tem instrumentos legais para combater essas práticas, só lhe resta a dissidência para não ser conivente.
Por outro lado, às vezes me parece que a atitude de Lamarca é semelhante à de alguém que abandona o emprego para apostar tudo numa carreira política. Como não chega ao poder, se sente injustiçado, e quer reparações.
Para mim, seria preciso conhecer o caso mais profundamente para fazer melhor juízo.
De qualquer forma, como cada um tem sua opinião e ninguém é dono da razão, a atitude mais pacificadora seria fazer valer a anistia, e não permitir pensões e indenizações muito elevadas, como faz o Chile. Assim, mesmo que o mérito de uma pensão ou indenização fosse controversa, dado o seu valor não ser elevado, não seria um acinte.

sábado, 16 de junho de 2007 14:56:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home