terça-feira, 5 de junho de 2007

O que fazer? - ATUALIZADO (05/06)

A ocupação da reitoria da USP foi um dos pontos do Roda Viva (TV Cultura) de ontem, no qual entrevistamos o professor Roberto Romano, da Unicamp. O tempo foi infelizmente curto para aprofundar o debate sobre o tema. A conversa girou em torno da autonomia universitária e logo terminou. Pena. Houvesse mais tempo e teríamos polemizado sobre a raiz da ocupação: uma feroz luta pelo poder na universidade. Inicialmente, como se sabe, a reitoria estimulou a mobilização estudantil. O objetivo do establishment universitário era usar os estudantes como massa de manobra para emparedar o governador José Serra e levá-lo a atenuar os controles estatais sobre a execução orçamentária nas universidades públicas. Ou seja, no começo era reitoria + ocupantes versus governo estadual. Realisticamente falando, essa aliança obteve do governo uma concessão parcial, com o decreto declaratório que assegurou formalmente a autonomia das universidades e dissipou as preocupações dos reitores. Com seu próprio objetivo atingido, a reitoria trata agora de pacificar politicamente seus ex-aliados ocupantes. Endurece com eles. Mas se o programa minimalista da reitoria foi alcançado o mesmo não se pode dizer do programa maximalista dos ocupantes, que desejam 1) a revogação pura e simples dos decretos que aumentam o controle administrativo do estado sobre as suas universidades públicas e 2) a derrubada do poder constituído na universidade e sua substituição por uma "estatuinte". Ultrapassada a fase "liberal-burguesa" da ocupação, os ocupantes são tentados pelo "assalto aos céus". Entretanto, a fase da luta política já é outra: os ocupantes enfrentam agora a aliança entre a reitoria e o governo estadual. Pois para a reitoria basta a autonomia universitária. Já está de bom tamanho. Para os ocupantes, ao contrário, a luta de nada terá servido se eles próprios não conquistarem mais poder na universidade. Por isso é que os líderes do movimento de ocupação estão num mato sem cachorro. Deixaram passar a chance de declarar vitória quando alcançaram o programa mínimo e agora não têm força para impor o programa máximo. Não contam mais, tampouco, com as simpatias da imprensa que já os apoiou na cruzada "autonomista" -e que, alcançado o objetivo "liberal-burguês", tirou o time junto com os reitores. Em revoluções, o custo de errar politicamente é sempre alto (vejam o caso da RCTV na Venezuela). Erguer a bandeira da autonomia universitária quando não se tem o poder na universidade (nem perspectiva de alcancá-lo) é, como venho dizendo, engrossar as fileiras do atraso e do conservadorismo. Eu preferia quando o movimento estudantil pedia uma universidade voltada para os reais interesses da população, para os objetivos nacionais e aberta ao controle democrático da sociedade. Mas eu respeito os que hoje ocupam a reitoria da USP. São lutadores e têm o seu valor. Ainda que, circunstancialmente, possam estar servindo a quem deveriam combater. Por que? Porque se numa instituição como a USP faltam professores, falta moradia, faltam bons prédios e falta boa comida é porque talvez esteja na hora de aumentar -e não diminuir- o controle externo sobre como é gasta a montanha de dinheiro que o povo coloca todo ano na universidade.

ATUALIZAÇÃO (06/06, às 10h43): Faltou escrever que a reitoria da USP, satisfeita com os resultados obtidos, deseja sabiamente empurrar para o Palácio dos Bandeirantes os custos políticos de uma eventual desocupação manu militari.

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22 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon,

Concordo os alunos avaliaram mal o seu poder de fogo. A hora de terminar o movimento foi quando o Serra publicou o novo decreto no Diario Oficial. Faltou maturidade para os estudantes. Eles teriam saído por cima. E poderiam cantar vitória; agora não, o momento é outro e o governo espera vencê-los pelo cansaço.

terça-feira, 5 de junho de 2007 20:24:00 BRT  
Blogger Julio Neves disse...

Se os professores da USP agissem como o professor Abdalla, e os alunos grevistas como os alunos do professor, teríamos uma universidade diferente.

Os alunos e professores não precisariam pegar exemplos de Harvard pra justificar seus atos. Seria a universidade americana que viria ao Brasil buscar alternativas para um êxito maior.

Delírio? Não, pois a educação no Brasil ainda esta na fase dos sonhos.

quarta-feira, 6 de junho de 2007 01:22:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Peraí, tem valor porque são lutadores, mesmo se lutam a luta errada. Não entendi seu racicinio. Lutar por lutar tem algum valor? Rebelde sem causa tem algum valor?

quarta-feira, 6 de junho de 2007 08:54:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Quem está num mato se cachorro são os cidadãos que veem seu dinheiro ir para o ralo. E de lambuja obrigados a ver, mais uma vez, uma instituição, no caso a Universidade, ser desqualificada e desacreditada. Política de terra arrasada, comemorada com drinques de toddynho e quadrilhas ridículas. Com o dinheiro dos outros é fácil. Ah, o caso Calabouço aconteceu faz tempo. Tem coisas que não se repetem, exceto como galhofa.
Sotho

P.S. Julio Neves, quem está delirando é esse pessoal que pensa estar criando algo bom. É provável que sejam os novos cacarecos eleitorias, apenas com uma invasão no curriculum.

quarta-feira, 6 de junho de 2007 08:57:00 BRT  
Blogger Angelo da C.I.A. disse...

Está muito claro que os universitários perderam a noção. Eles já nem sabem contra o que estão protestando, não têm objetivo, não têm soluções.
Para piorar, José Serra foi muito mole com a bagunça. Há quanto tempo ele já não poderia ter feito cumprir o mandado judicial e tirado os alunos de lá? Eu sei que é isso que eles querem, que no dia seguinte acusem a "Polícia do Serra"por ser truculenta, etc... Mas não adianta, quando não se aplica a Lei, quando ela não é respeitada você cria mais incentivos para novas transgressões.
Eu não sei porque Serra continua lidando com a situação desta forma frouxa. A população toda está contra esta manifestação, todo dia aqui no serviço ou com meus amigos eu só ouço as pessoas criticarem a ocupação da Reitoria.

quarta-feira, 6 de junho de 2007 10:25:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

"Eu preferia quando o movimento estudantil pedia uma universidade voltada para os reais interesses da população, para os objetivos nacionais e aberta ao controle democrático da sociedade."

Foi isso que Roberto Romano esclareceu muito bem. Uma universidade voltada para os interesses nacionais pode significaria, por exemplo, dedicada à fabricação da bomba atômica, conforme o governo de plantão. foi por causa de perigos assim que ela lutou, e conseguiu, alguma autonomia. O "controle democrático da sociedade", no entanto, nem de longe se confunde com a "accountability" (ai!)apontada por Romano. Isso é prestação de contas, contabilidade aberta, pura e simplesmente, que o governo como um todo cumpre muito mal. Até avançamos nesse sentido, mas o acesso e a análise continuam muito restritos, em todos os campos.

"Porque se numa instituição como a USP faltam professores, falta moradia, faltam bons prédios e falta boa comida é porque talvez esteja na hora de aumentar -e não diminuir- o controle externo sobre como é gasta a montanha de dinheiro que o povo coloca todo ano na universidade."

Esse necessário controle administrativo também é pura contabilidade aliada à plena informação pública. O investimento em pesquisa e desenvolvimento (essa era a secretaria anterior das universidades, não era?), o principal interesse da sociedade, é muito mais importante e difícil de ser decidido publicamente. E esse é o verdadeiro nó da questão.

Acho que os estudantes não querem ver a universidade trabalhando para a Bayer e a Monsanto, sem nem mesmo saber qual será a próxima baía de Minamata. Eu também não quero. E os admiro por tentar dizer não, mesmo errando, sofrendo e, quem sabe, perdendo.

Estava na hora de alguém dizer não, de qualquer jeito. Tudo tem limite, inclusive o autoritarismo. Os estudantes podem sair da reitoria com uma lição - de borracha, até - mas terão também nos deixado uma lição de resistência que há muito estava dormente.

quarta-feira, 6 de junho de 2007 10:27:00 BRT  
Blogger Francisco disse...

A aventura continua e se espalha: "Estudantes invadem reitorias de três universidades federais do país" - http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u302328.shtml

quarta-feira, 6 de junho de 2007 11:03:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Subscrevo o comentário de Jura acima.
A Universidade pode até necessitar de maior controle externo, para moderar o corporativismo. Mas duvido que o melhor caminho seja centralizar essas decisões sob as mãos hierárquicas do governador, para promover o tão afamado "choque de gestão" na Universidade.
Daí a proposta de "estatuinte" não ser tão absurda. Aliás mudanças no estatuto parece que estão sendo discutidas desde 2005.
Eu acredito que uma forma de aperfeiçoar a democracia (no sentido de participação e controle popular) é a implantação da participação direta da sociedade em assembléias e câmaras setoriais. Isso acontece em municípios que implantaram o orçamento participativo.
Algo semelhante, conciliado com os interesses nacionais de longo prazo de ensino e pesquisa, poderia ser feito na comunidade acadêmica, com a inclusão de setores da sociedade civil.
Por mais que os estudantes errem, vejo como muito positiva a mobilização. O engajamento dessa juventude no processo político, significa preocupação com os rumos da Nação, da Universidade e da Sociedade. É bem melhor do que a apatia que víamos, diante do desmonte do Estado que vinha sendo feito nas últimas décadas, nas áreas de educação, saúde e segurança.

quarta-feira, 6 de junho de 2007 12:37:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Senhores,
tenho algumas dúvidas quanto ao real objetivo desses estudantes que invadiram a reitoria da USP. Do ponto de vista comum, a hora certa de acabar com a invasão foi a da publicação do decreto explicativo. Mas, é possível que esse grupo queira se firmar como alternativa ao comando PCdoBista da UNE, que foi desautorizada e desprezada por eles. Registre-se que a UNE não liderou essa invasão. As invasões da atual semana, lideradas pela UNE, foram comunicadas e autorizadas previamente pelo Lula. Talvez esse grupo queira unir um público mais à esquerda que a UNE e, por isso, prolonguem a invasão. Ou é um erro, ou uma tática (que talvez seja errada também). Quem sabe?
Sds.,
de
Marcelo.

quarta-feira, 6 de junho de 2007 12:41:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Obrigado, José Augusto. Isso não é subscrever, é reeditar. O seu texto ficou bem melhor que o meu, que saiu cheio de erros.

Enfim, você quer mais democracia. Eu também. E o Alon, pelo último post (6 de abril, sobre a reforma política), também. Sem intimidações.

quarta-feira, 6 de junho de 2007 15:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O único lugar do mundo onde funciona alguma coisa parecida com democracia direta é em Genebra. Só lá. As pessoas de bem têm mais o que fazer, ou não tem saco, para ficar horas a fio em assembléias discutindo temas que nem sempre lhe dizem respeito. Por isso elegem representantes e os remuneram. O Brasil precisa de uma reforma política para, como disse o Alon, acertar a proporcionalidade de representação de todos os eleitores do país e aproximar eleitos de eleitores. Só quero ver quem vai pôr o guizo no pescoço do gato, pq. a maioria dos nossos congressistas não seria reeleita nesses critérios.
Saudações,
de MF.

quarta-feira, 6 de junho de 2007 16:50:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Penso que aqui estão se misturando coisas distintas.

1. Autonomia universitária

2. Prestação de contas sobre como, quando e onde as universidades paulistas gastam ou investem os dinheiros repassados por lei.

Lembre-se do comentário do Roberto Romano sobre a Física na época da ditadura receber mais investimento porque os militares tinham interesse em pesquisa nuclear. Recentemente, tivemos o caso da EMBRAPA, aparelhada por grupos ligados ao petismo e que resolveram parar pesquisas em nome da ideologia: "agricultura familiar".

A autonomia, sobretudo, protege a pesquisa, evitando que interesses estranhos à universidade venham dar palpite onde não devem.

Por último, lembro do lisenkysmo, esse caso clássico do comunismo. Não há uma ciência burguesa em contradição dialética com a ciência do proletariado. Aliás, dialética só existe no plano do pensamento, da idéia. Desafio qualquer a me provar que a dialética exista na natureza. Alguém sabe da existência de uma dialética da matemática? Alguém ai conhece uma física dialética?

Permitir, por exemplo, que semi-analfabetos venham dar palpite sobre autonomia universitária é abrir as portas para que outros Lysenkos venham nos dizer que esta ou aquela ciência são reacionárias e lacaias do imperialismo. Em 1948, Lysenko denunciou Mendel como "reaccionário e decadente" e declarou os mendelistas "inimigos do povo Soviético." Sua ideologia, travestida de ciência, foi aprovado pelo Comité Central do Partido Comunista. Os cientistas russos tiveram que escrever cartas publicas confessando os seus erros e reconhecendo a sabedoria do Partido. Os que não o fizeram, ou foram demitidos ou enviados a campos de trabalhos forçados.

Isso é um exemplo extremo sobre os danos que a Razão de Estado pode causar a um povo.

quarta-feira, 6 de junho de 2007 18:41:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Quando eu me referi à democratizar as decisões Universitárias, com criação de assembléias e câmaras setoriais, não imagino que todos devam ter poder de deliberação direta por voto.
Acho que até analfabetos tem o direito de opinarem (afinal, estão fora da Universidade, mas podem e devem pretender que seus filhos venham a estar dentro no futuro), porém escolhendo entre proposições diferentes elaboradas pelo meio acadêmico qualificado, de notório saber.
Quero lembrar, que a democracia direta não obriga a todos a participar de tudo, e sim permite que quem queira, participe daquilo pelo qual se interessa.
Já existem Conselhos Municipais de Saúde, de Educação, de Segurança, da Infância e Adolescência, que interagem com o poder público, mas tem autonomia para eleger seus membros, fazer suas assembléias. São conselhos para subsidiar e fiscalizar políticas públicas, mas não tem poderes de governança.
Talvez com o tempo e amadurecimento venham a ser mais significativos.

quarta-feira, 6 de junho de 2007 20:07:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

José Augusto

Hoje estou um tanto azedo. Se lhe sobrar paciência, leia.

Não tenho, a princípio, nada contra Conselhos com as funções descritas no seu comentário. Sou um municipalista convicto e admiro, por exemplo, a autonomia dos americanos na administração das suas cidades.

Num país como o nosso, que historicamente ocupou e ocupa a periferia em relação aos centros hegemônicos do capitalismo, o desenvolvimento científico e tecnológico é estratégico. Eu não vejo como levar o nosso país para uma posição histórica diferente sem ativar aqui os conhecimentos científicos e tecnológicos criados nos centros hegemônicos.

Na miserável América Latina ainda predomina o ideal romântico da meia dúzia de revolucionários e suas espingardinhas na luta contra o imperialismo. mas se no futuro alguma potência resolver anexar a amazônia vamos fazer o quê. Apelar para a solidariedade do proletariado internacional? Faremso manifestações de rua? Explodiremos bombas molotov nas portas das representações diplomáticas do país inavsor? Acionaremos homens-bomba?

Como escrevi antes, o fato da pesquisa em C&T ser basicamente financiada pelo Estado não é um defeito (vício), é uma necessidade. Ou seja, como escreveu brilhantemente a Profª Maria Sylvia em artigo que transcrevi num outro comentário, a carreira universitária, num país como o nosso (periférico), é carreira do Estado. Governo nenhum pode intrometer-se. Vocês da esquerda tem essa tendência leninista a confundir governo e Estado. Na democracia, governos são passageiros, ou seja, o que melhor caracteriza um Estado Democrático de Direito é a alternância no poder. Se não existe alternância, não existe democracia.

Veja o disparate: Lula saudou os novos heróis da cana, mas não disse sequer uma palavra sobre o fato da pesquisa de melhoramento das variedades e demais tecnologias terem nos colocado na ponta do etanol. Não disse nada sobre isso ter sido obra da Universidade. A indústria da laranja só se tornou viável depois que uma pesquisa da UNICAMP resolveu o problema do cancro cítrico. E a soja? E o algodão que foi erradicado por conta do bicudo e voltou agora? E o trigo, que até recentemente quase não podia ser plantado no Brasil? Tudo isso saiu da Universidade e dos Centros de Pesquisa. Faça as contas. E se você for honesto terá que concordar que a relação custo/benefício é altamente favorável ao país. Somente atribuo à ignorância os ataques que se fazem atualmente às Universidades.

Penso que o pior defeito (compreensível) de Lula é valorizar a sua ignorância. O que eu simplesmente não suporto é o antintelectualismo militante de amplos setores da nossa classe média esquerdista e não esquerdista. Não tolero a burrice. Sobretudo, não tolero a burrice arrogante.

Eu fico impressionado com a absoluta falta de informação sobre a relevãncia da pesquisa brasileira. Há duas coisas (citarei essas) que funcionam muito bem no Brasil: a pesquisa em C&T e o Itamaraty. Podem ser melhorados, óbvio que sim.

Só quem não faz a idéia do que seja pesquisa pode pensar que gente desprovida de conhecimento pode opinar sobre ciência e tecnologia. Essa mistificação esquerdista do "saber popular" é uma grossa bobagem. Nas ciências não existem opiniões. Opiniões de nada valem nas ciências. Opinião a gente pode e deve ter sobre os fatos da vida política e social. Qual a relevãncia de uma opinião sobre o uso de células tronco pela medicina? Se a maioria das opiniões for contrária, então não se faz a pesquisa?

A esquerda tem essa mania de querer sempre ouvir o que o povo pensa. O problema é que quando viram poder rapidinho abandonam essa bandeira e burocratizam ou aparelham as tais instiuições do socialismo democratico. Aliás, socialismo e democracia são, no meu entendimento, incompossíveis. Mas essa é outra discussão.

abs.

quinta-feira, 7 de junho de 2007 11:33:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Paulo Araújo,
Na questão da autonomia Universitária, acho até que concordamos bem mais do que discordamos.
Você traduziu com perfeição que carreira Universitária é carreira de Estado, e não de governo. Eu também defendo que pesquisas em Ciência e Tecnologia devem ser geridas por especialistas do meio, sem ingerência direta de leigos, nem do governo, nem da população. Não defendo que estranhos à comunidade científica tenham influência nos rumos de pesquisas. A pesquisa não costuma ter retorno mensurável imediato para ser avaliada em balanços de custo / benefício de um governo, mas é o caminho da geração de riquezas futuras (e consequentemente da eliminação da pobreza), como você bem colocou.
Vou além, com um exemplo: as leis da física de Newton e Galileu (e seus seguidores, é claro) da mecânica clássica, ao embasar a construção de edifícios de apartamentos no mesmo terreno, fez mais pelo socialismo do solo urbano, do que muitos teóricos socialistas, e mais do que qualquer movimento de sem tetos. Pesquisas agrícolas são fundamentais para a segurança alimentar e a viabilização da bioenergia, como você citou.
O que defendo em termos de participação popular é que a Universidade ouça a sociedade quanto à políticas que sejam direcionadas ao benefício mais imediato dela. Vou dar um exemplo claro: durante o governo Alkmin em SP foi criada a USP Leste na Capital. Vi na TV que, pelo estatuto da USP, não poderia haver 2 cursos iguais na mesma cidade (mesmo em uma metrópole de mais de 10 milhões de habitantes). Isso fere diretamente aos interesses da população da Zona Leste (e de todo o Estado). O campus criado ficou ser cursos de Medicina, de Engenharia, e outros importantes onde ainda existe carência de bons profissionais no Brasil, ficando limitado a cursos novos, prejudicando tanto a melhor ascenção social via mercado de trabalho, como também e principalmente, os interesses da sociedade na formação de mais agentes qualificados como médicos e engenheiros em áreas carentes de melhorias, como saúde, moradia, energia, transportes, urbanização, etc. É nesse tipo de decisão sobre a ampliação do ensino, sobre a interação da Universidade com a sociedade, que eu defendo que haja participação de conselhos populares para serem ouvidos também. Mas mesmo nestes assuntos, qualquer decisão precisa ter como base o conhecimento da comunidade acadêmica que vive e conhece o dia a dia de seus problemas e soluções, senão, como disse em outro post, as pessoas leigas de baixa renda, com base em seus conhecimentos e suas necessidades imediatas, reclamariam que a Faculdade de Medicina funcionasse apenas como um pronto socorro e computadores de centros de pesquisa fossem deslocados para cursinhos profissionalizantes de informática de inclusão digital.
Só discordo de você, ao querer imputar à todo pensamento de esquerda, uma falta de visão científica. A ex-URSS, a China sempre fizeram investimentos maciços em Ciência e Tecnologia (e com centralismo de decisão nada democráticos), tanto quanto as potências ocidentais. Realmente existem setores sectários, mas isso existe também na direita que fazem lobbies por verbas em pesquisas que produzam lucros mais imediatos para si.

quinta-feira, 7 de junho de 2007 13:35:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

José Augusto

Não conhecia essa limitação do estatuto da USP.

O que defendo é a autonomia para as Universidades gerirem seu orçamento. Isso é principio. Se São Paulo quer mais uma escola de medicina na Capital, então que solicite às Estaduais. O que não pode é o executivo retirar recursos, por exemplo, da FFLCH para cobrir os custos de uma nova escola de medicina.

Os cidadãos têm todo direito de saber se os recursos destinados
às universidades estão sendo bem aplicados. Defendo a publicidade na prestação de contas.

O que precisamos decidir como país é se vamos ou não parar com o falatório ideológico e investir pesadamente em ensino e pesquisa de C&T. E se após exame das contas das universidades concluirmos que a montanha de dinheiro é um montículo? Então se a zona leste quiser uma escola de medicina ela tem que pressionar o legislativo de SP para aumentar o repasse de recursos para a universidade que vai implantar o curso novo. Vir com essa conversa mole que a USP é elitista, não dá. Eu me recuso a entrar nesse tipo de discussão fascistóide.

Veja que absurdo: professores universitários de SP não têm um fundo de pensão. O absurdo é que suas aposentadorias são bancadas com os recursos repassados pelo executivo. Ou seja, parte do dinheiro que as estaduais recebem do Estado de SP é destinada a pagamento de aposentadorias!

abs.

PS: Sem dúvida concordamos muito mais que discordamos. Me desculpe pelo azedume

O professor Roberto Romano publicou hoje um artigo a respeito da autonomia universitária. Vale a pena ler

http://robertounicamp.blogspot.com/2007/06/autonomia-universitaria.html

quinta-feira, 7 de junho de 2007 16:08:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Paulo, li o artigo do professor. Ele retoma aquele irritante hábito de tratar o caso Lysenko como se fosse emblemático de uma suposta mediocridade soviética na técnica e na ciência. O argumento não pára de pé quando confrontado com as conquistas científicas e econômicas do socialismo. Quantos Nobel tem a autônoma USP?

quinta-feira, 7 de junho de 2007 18:13:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Não sabia dessa proeza da Unicamp em relação ao cancro cítrico. Já faz bem uns dez anos que não acompanho os cítricos, mas a indústria da laranja cesceu e ficou forte apesar do cancro cítrico. O controle profilático sempre deu bons resultados.
Sds.,
de Marcelo. (reconheço que o exemplo indevido não invalida a tese apresentada, com a qual concordo)
Em tempo: a limitação de a USP não poder abrir outros cursos idênticos no mesmo município é norma protetora dos bolsos dos contribuintes e também a manutenção da qualidade das unidades esxistentes. Imaginem se dois excelentes professores brigam e um deles consegue apoio do governador par abrir uma faculdade só para ele e seus cupinchas. Seria muito desperdício.

sábado, 9 de junho de 2007 17:15:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Marcelo

O problema de esecrever comentários no blog é que na pressa cometemos erros ou imprecisões. Até onde sei, o problema do cancro cítrico não está resolvido. Se não me engano, a UNICAMP realiza pesquisa sobre o cancro cítrico desde o final dos anos 80 ou começo dos 90. Lembro que nessa época e particpando de uma dessas discussões sobre a autonomia universitária (o tema é antigo) um professor referiu-se a trabalhos realizados por pesquisadores da UNICAMP e que contribuíram para o boom laranjista em SP. Atualmente, sei que a FAPESP patrocinou ou patrocina projetos de sequenciamento genético. Sei de um trabalho de sequenciamento da Xylella Fastidiosa que foi publicado na Nature. Correndo o risco de ser novamente impreciso, parece que a pesquisa brasileira nesse campo está na ponta.

Apesar do equívoco, mantenho a afirmação que os investimentos do Estado na pesquisa são altamente recompensados.

O que me irrita profundamente é essa mania subdesenvolvida de menosprezar a inteligência brasileira

abs.

sábado, 9 de junho de 2007 19:50:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Marcelo,
Apesar de suas considerações, que considero válidas para Municípios médios, mas não para áreas Metropolitanas. A Zona Leste de SP tem uma população bem superior à de Ribeirão Preto, que tem sua Faculdade de Medicina da USP. Então a USP Leste deveria ter esses cursos de Medicina, Engenharia, Odonto, etc, mesmo já existindo na Cidade Universitária. Afinal é outro campus, do outro lado de uma Metrópole.
Se formos pensar em proteger os contribuintes de caprichos de professores dissidentes amigos de governador, o estatuto não protege de "jogadas" políticas, porque poder-se-ia abrir o novo campus sob denominação de uma nova Universidade Estadual, em vez de criá-lo como expansão da USP.
Aliás, se o estatuto da USP não pudesse ser mudado, Alckmin teria feito melhor se tivesse criado o campus Leste como expansão da Unicamp ou Unesp (por exemplo), com os cursos de maior demanda de interesse social.

domingo, 10 de junho de 2007 01:58:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Paulo,
como disse antes, concordo com vc., só tinha dúvidas quanto ao exemplo citado. Fui ver na internet e descobri que as três universidade paulistas uniram esforços e sequenciaram duas bactérias do gênero Xanthomonas, causadoras do cancro. Isso foi feito em 2002, portanto, depois de os laranjais já terem crescido.
No tocante aos investimentos em ciência e tecnologia, o Brasil realmente investe muito pouco (o indicador é e proporção do PIB, no Brasil é baixa, perde para todos os outros de mesmas características). Isso acontece pq. as universidades públicas têm um pudor tremendo de negociar projetos com a iniciativa privada. No caso do cancro, houve um forte apoio do Fundecitrus (indústria da laranja) e da Fapesp, por isso foi em frente. Talvez seja preciso criar centros de pesquisas com participação paritária entre o poder público e empresas para aumentar o investimento em C&T.

José Augusto,
acho que a demanda por vagas no ensino superior deve ser suprida por faculdades privadas, sobre as quais o governo deve manter um rigoroso controle de qualidade. Infelizmente, as escolas públicas estão dominadas por correntes sindicais e politiqueiras. São ralos de dinheiro. E também defendo que a escola pública cobre mensalidade de quem possa pagar. Quem não puder, deve trocar o custeio por dois anos de serviço obrigatório para o estado, com remuneração baixa. E o jubilamento de alunos relapsos.
Sds.,
de Marcelo.

segunda-feira, 11 de junho de 2007 11:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Quase me esqueci!
Depois das reportagens do Estadão de domingo, a invasão da reitoria da USP perdeu completamente a moral. São apenas um bando de universotários fazendo um joguinho político de partidecos esquerdistas que perderam o prestígio para o PT. Leiam o Estadão de domingo antes de atirar as pedras.
Sds.,
de Marcelo.

segunda-feira, 11 de junho de 2007 11:36:00 BRT  

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