terça-feira, 5 de junho de 2007

Nem sempre o que é bom para os Estados Unidos interessa ao Brasil - ATUALIZADO (05/06)

Como os parlamentares e a imprensa no Brasil reagiriam caso o Congresso da Venezuela (que só tem partidários de Hugo Chávez, já que a oposição não quis concorrer às eleições) aprovasse uma moção contra renovar a concessão de uma rede brasileira qualquer de rádio ou tevê? Ou se os legisladores venezuelanos manifestassem formalmente seu apoio à criação da tevê estatal em gestação no governo de Luiz Inácio Lula da Silva? Veríamos e ouviríamos certamente discursos inflamados contra a "ingerência do chavismo" na política interna brasileira. Contra a intromissão estrangeira num assunto que diz respeito só a nós. Também por essa razão soa bizarra a campanha da oposição e de parte da imprensa para deteriorar as relações diplomáticas entre o Brasil e a Venezuela, usando como pretexto a não renovação da concessão da RCTV, a tevê venezuelana de maior audiência e que ficou do lado errado na tentativa de golpe de estado contra Chávez em 2002. Os novos "internacionalistas da liberdade" são os mesmos que meses atrás foram tomados de furor patriótico quando a Bolívia decidiu nacionalizar seu gás. Eu reafirmo que a renovação ou não da concessão da RCTV, dentro dos marcos legais, é assunto interno da Venezuela (assim como o direito de a Bolívia explorar soberanamente o seu subsolo é problema só dos bolivianos). Assunto sobre o qual cada um de nós tem sua opinião. Mas sobre o qual não cabe aos poderes constituídos brasileiros qualquer manifestação oficial. A não ser que o sujeito pretenda fazer da diplomacia brasileira uma ponta-de-lança da estratégia americana de isolar a Venezuela (junto com a Bolívia e o Equador). Eu acho que isolar os países onde estão no poder movimentos de origem nacionalista e nativista não é bom para a estabilidade da América do Sul. E não ajuda a integração continental -elemento chave para a consolidação regional da democracia. A oposição brasileira talvez ainda não tenha percebido, mas nem sempre o que interessa aos Estados Unidos é também bom para o Brasil.

ATUALIZAÇÃO (06/06, às 09h01): Leia Venezuela: mídia e RCTV, hoje e no golpe de 2002, de Bob Fernantes, do Terra Magazine.

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14 Comentários:

Blogger Patrick Gleber disse...

Alon,

Primeiramente, parabéns por sua participação no Roda Viva. Seu último questionamento ao professor Romano sem dúvida foi um ato de coragem. Mostrou ser muito coerente. Quem lê este blog sabe do que estou falando.

Mas sobre o post. Você fala em "marcos legais". Eu não considero esses "marcos" não tão legais assim. Chávez toma suas decisões sempre com um único fim: auto-beneficiação.

terça-feira, 5 de junho de 2007 17:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Patrick,

hoje em dia, haverá alguém que tome decisões sem finalidade, como vc diz, "auto-benficiação"? Pense se sua afirmação não é uma manifestação de preconceito.

terça-feira, 5 de junho de 2007 18:19:00 BRT  
Blogger César disse...

Sua posição é sensata. Obrigado por cuidar de trazer luz onde muitos só produziram calor.

terça-feira, 5 de junho de 2007 18:27:00 BRT  
Blogger Cesar Cardoso disse...

Patrick: 'dentro do marco legal', sim, porque a RCTV não foi cassada. A concessão dela expirou e o poder concedente (o Executivo) achou por bem não renovar. É um ato discricionário, mas o ato de concessão de espectro eletromagnético (o que uma concessão de TV é, no final) é também um ato discricionário.

Quanto aos 'internacionalistas da liberdade', sim, tem muita gente que adoraria que o Brasil fosse um 'menino de recados' da diplomacia americana, tal como a Argentina foi sob Menem. Imagino, até, que no fundo estejam torcendo para que o delírio chavista da invasão americana da Venezuela (que não vai acontecer) seja verdade; ou seja, estão às portas do delírio.

terça-feira, 5 de junho de 2007 18:27:00 BRT  
Blogger Julio Neves disse...

Neste momento me sentiria ultrajado se o Congresso Venezuelano aprovasse alguma moção contra o Brasil. O Congresso brasileiro pode ter seus "larápios" como já disseram alguns, e até bancadas "apagadas" e submissas. Mas, é muito melhor que o do país vizinho.

Na verdade, neste momento o Brasil não corre esse risco, pois o Congresso venezuelano pegou férias de uma ano. O ditador concedeu férias pra eles.

A não renovação da concessão da RCTV foi um ato legal. Porém ilegítimo(aqui está a briga). Foi autoritário. Só ditaduras agem assim.

Eu queria saber "o que interessa aos Estados Unidos" e não "é bom para o Brasil." O beisebol? Eu gosto de beisebol.

Ah, os venezuelanos tambem gostam, hehehe... Conhece o técnico Ozzie Guillen?

terça-feira, 5 de junho de 2007 18:29:00 BRT  
Anonymous F.Arranhaponte disse...

Se fosse o Lula falando, concordaria plenamente. Mas os parlamentos são uma instância que se manifesta mais livremente sobre questões diversas, ou não (não sou especialista em política como você, então me corrija se eu estiver errado)?

Aliás, o Congresso brasileiro não passou algum tipo de moção contra os golpistas que tentaram derrubar o Chávez, na ocasião? Além disso, o Congresso brasileiro, ao contrário do venezuelano, é pluripartidário, portanto não pode ser considerado como uma extensão do Executivo. E um ponto final: o Congresso não foi agressivo na sua posição, tanto que não propriamente criticou o Chávez, mas fez um apelo para que ele reconsiderasse a decisão.

Dito tudo isto, o Chávez não exagerou? Não poderia ter respondido, se fosse o caso de responder, com algo como "eu compreendo a preocupação do Congresso brasileiro com a iberdade de expressão, mas no caso eles estão totalmente equivocados já que na Venezuela blá-blá-blá..."? Precisava sair quase xingando?

Agora, imagina se o Congresso venezuelano aprovasse uma moção contra, sei lá, a posição do Brasil no Haiti, e aí o Lula viesse a público xingar o Congresso venezuelano de, digamos, "fantoche do Executivo", ou coisa que o valha? Acho que os venezuelanos iam ficar p. da vida, ou não?

terça-feira, 5 de junho de 2007 18:47:00 BRT  
Blogger Renato disse...

Como vai Alon,
Muito oportuna suas colocações. Concordo que antes e acima de tudo, deve sempre prevalecer o bom senso, entretanto, tudo que vem do Sr.Chaves, é sempre discutível. Opinarmos é uma coisa, aconselharmos oficialmente é outra. Ficou evidente nesse episódio, que a oposição brasileira alimentou uma interferência em assuntos internos que não nos dizem respeito. É de se perguntar: como reagiriam os que se manifestaram contra a decisão do Sr. Chavez, se o governo brasileiro resolvesse ampliar as atividades da Petrobrás e, políticos externos fossem contra? Certamente diriam, não admitiremos interferências nos assuntos internos do Brasil.

terça-feira, 5 de junho de 2007 19:06:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Acho que quem criticou Chavez, o fez calculado, porque sabia que seria respondido. São pessoas experientes demais na política, inclusive externa.
Acho que quiseram se fazer de escoteiro, e conduzir aquela senhora, de nome crise, para Caracas.
Além disso, demarcar território no noticiário.

terça-feira, 5 de junho de 2007 19:41:00 BRT  
Blogger Edivan Dias de Assunção disse...

Parabéns pelo cometário, fantástico. Vi o programa mesa redonda, com o Hugo Chavez e lá, isso no ano passado, ele falou sobre o dono da RCTV, que em uma viagem diplomática com o Chavez, pediu ao mesmo para colocar no Ministério das Comunicações, uma pessoas ligada a ele, que tinha interesses. O Chavez disse não! Ele então insulflou a povo venezuelano para implantar o Plebiscito. Penso que deveria ocorrer o mesmo no Brasil, mas com a Globo!!!

Edivan Asunção

terça-feira, 5 de junho de 2007 23:21:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Sempre trazem a tona o assunto "quintal dos EUA". Acho que pensar assim é ter uma visão mesquinha do mundo. Vejam exemplos como o de Dubai, mas vejam por todos os angulos um pais que mesmo menor que o Brasil consegue ter mais turistas.
Chavez em minha opiniao, nao prejudica somente a venezuela,prejudica a américa do sul como um todo a longo prazo, disseminando insegurança de ir e vir e uma mordaça que aos poucos vai perdendo a discrição. Mil vezes ser capacho dos estados unidos e ser "independente" como CUBA ou a CHINA, ainda bem que muitas ainda pensam como eu.

quarta-feira, 6 de junho de 2007 00:03:00 BRT  
Blogger Luiz Augusto disse...

Será que a concessão da Globo é "inexpugnável" ? E o Senador Arthur Virgílio, que teve apenas 5% dos votos do Amazonas, não teve a sua "concessão" cassada, democraticamente, pelo povo do Amazonas ?

quarta-feira, 6 de junho de 2007 03:02:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Mas, Alon, o presidente do país amigo já meteu pitacos aqui dentro quando em visita, com claques e a imprensa daqui foi criticada lá no país vizinho. Com ampla cobertura da grande mídia. De todo modo, a famosa máquina de moer carne já está todo vapor novamente: preconceitos, histeria, golpismos etc. Toda velha receita do dedo apontado para culpabilizações, expiação de pecados. Conceder ou não é ato soberano do Estado, tudo bem. O ato de criticar também é válido, na Democracia, bem entendido. Existem leis para inibir exageros. Só que alguns insistem em criar suas próprias leis: a da espada numa mão e o pão em outra. Trocar de mensageiro, sem avaliar a qualidade da mensagem não parece ser o caminho para que se consolide a integração regional da Democracia. Estas coisas parecem meio que um lusco-fusco. Vale aquele velho ditado: quem criou que engula e não coloque a culpa nos outros.
Sotho

P.S. Voto em eleições proporcionais ou majoritárias não absolve de crimes e nem caduca concessões. Estão forçando um pouco a barra.

quarta-feira, 6 de junho de 2007 10:48:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
em relação à legalidade do comentário do senado brasileiro à não-prorrogação da RCTV, faltou menciou que existem tratados internacionais sobre liberdade de expressão de pensamento. Aqui nas Américas há o tratado da OEA. A defesa da liberade de manifestação cabe a todos os países membros e pode até, no extremo, justificar ações militares. Veja o caso do Haiti, por exemplo (lá foram várias as violações contra direitos humanos, é um extremo). Portanto, não se trata apenas de um problema de ordem interna da Venezuela.
Sds.,
de Marcelo.

quarta-feira, 6 de junho de 2007 12:15:00 BRT  
Blogger Rebert Lima disse...

Legal!

quarta-feira, 29 de abril de 2009 12:43:00 BRT  

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