quinta-feira, 21 de junho de 2007

E tome confusão (21/06)

Em janeiro escrevi Envergonhem-se, sobre os desdobramentos do acidente de setembro último em que um Boeing da Gol caiu com 154 passageiros depois de se chocar no ar com um Legacy pilotado por dois americanos:

Meus pêsames aos controladores de vôo que, em busca de suas legítimas reivindicações, surfaram no complexo de inferioridade tupiniquim para vender ao país a idéia de que o acidente aconteceu por causa de falhas no nosso controle de tráfego aéreo. Se os pilotos eram americanos então, logicamente, a incompetência não deve ter sido deles, não é? Meus pêsames ao lobby que luta para retirar da Força Aérea Brasileira a atribuição de controlar o tráfego aéreo. Meus pêsames também ao lobby que defende a privatização da Infraero. Coisa feia, querer usar os cadáveres dos passageiros da Gol para alavancar bons negócios.

Depois veio o ápice da crise aérea, em março/abril, movimento acompanhado intensamente neste blog. Você pode ler os posts daquela semana decisiva (30 de março a 6 de abril) em A crise aérea e militar. Há algumas semanas, quando finalmente o Ministério Público e a Polícia Federal denunciaram os pilotos e os controladores de vôo como responsáveis pelo acidente de setembro, escrevi Lá vêm eles de novo:

Como era previsível, os controladores de vôo não gostaram de ter seus colegas denunciados pelo Ministério Público e pela PF, junto com os pilotos do Legacy, como responsáveis pelo choque do jatinho com o Boeing da Gol em setembro do ano passado. Sintomaticamente, recomeçaram nos últimos dias as reportagens sobre as "falhas estruturais" no controle do tráfego aéreo nacional. Preparemo-nos para mais uma rodada de confusão nos aeroportos. Até quando o governo e a FAB vão tolerar a mistificação?

Em resposta à evolução do Inquérito Policial Militar (IPM) sobre o motim de 30 de março o quadro vem se agravando. Voltaram as operações-padrão dos controladores de vôo (que antes eram vendidas à imprensa como "falhas estruturais" no sistema) e parecem finalmente ter começado as punições aos responsáveis pela anarquia militar nos aeroportos. Mas a origem do problema continua lá, na esplanada dos ministérios. Por meses, desde o acidente de setembro, o ministério da Defesa operou como um elemento de desestabilização da disciplina na Força Aérea Brasileira (FAB). Por meses, o Brasil assistiu a uma aliança informal entre as autoridades civis e os sindicatos de controladores pela "demilitarização" do controle do tráfego aéreo. Eu, também há meses, manifesto minha curiosidade sobre quais bons negócios se escondem atrás da "desmilitarização". Já os controladores têm um desejo mais ambicioso: querem passar para uma carreira pública civil, onde teriam melhores salários e poderiam fazer greves à vontade, sem temer as conseqüências. Seria, por certo, um dos melhores empregos do país. O problema, para os controladores, é que o país parece não estar disposto a deixar o controle do tráfego aéreo nacional inteiramente por conta dos humores e das vontades dos sindicatos deles. As dúvidas que poderia haver sobre a inconveniência de entregar o sistema aos sindicatos de controladores foram dissipadas quando estourou o motim de 30 de março. Tanto que o Palácio do Planalto teve que parar de brincar de assembleísmo militar e devolveu correndo a autoridade ao comando da Aeronáutica. Mas na briga entre o mar e os rochedos quem se arrebenta é o marisco. E o recuo do Planalto deixou os controladores de vôo com a brocha na mão. A nova confusão tem na raiz um fato simples. Os controladores estão isolados politicamente mas mantêm capacidade operacional suficiente para causar confusão. E tome confusão.

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10 Comentários:

Anonymous Vladimir disse...

O governo mostrou-se em um primeiro momento disposto ao diálogo.Os controladores entenderam isto como uma quebra da hierarquia e aproveitaram para conturbar o ambiente.Perderam agora o diálogo e ficarão somente com as leis militares.Não sei se a desmilitarização é um grande negócio para a privatização mas,com certeza muitos acham que é,tanto é assim que aqueles que hoje a operam não querem largar e,aqueles que não a operam fazem tudo para pegá-la.No meio ficam os usuários sem ter a quem reclamar.

quinta-feira, 21 de junho de 2007 11:16:00 BRT  
Anonymous Richard disse...

Alon, faltou comentar o fundamental: qual é o projeto, documentado, que o Governo do Presidente-que-está-fazendo-um-bom-trabalho Lula formulou para resolver a crise que se arrasta a tantos meses?!
Vou chutar: NENHUM!

quinta-feira, 21 de junho de 2007 13:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É caso de sempre: políticas que andam de lado, palmilhando mal o terreno e andando, qual caranguejo, na praia. Desde o início discursos superaram a racionalidade de gestão: era só a classe média dazluniana que reclamava, insuflada pela mídia conservadora das 08h00 antes da novela, mídia conservadora semanal etc. e bazófias do tipo. O caso é de segurança de pessoas. Ponto. Qualquer gestor deveria ter isto na ponta da língua. E, até onde consta não é crime, punível com grave acidente de avião, ser pessoa mais ou menos aquinhoada. Quanto a ser bom ou mal negócio o controle de tráfego aéreo: o melhor negócio é investir em pessoas. Outro bom negócio nos dias que correm: entender que a natureza dotou o ser humano com dois ouvidos, dois olhos, duas narinas e apenas uma boca e apenas uma língua. A sabedoria da natureza está sendo colocada em suspeição também. Parece que realmente está-se atingindo a perfeição.
Sotho

quinta-feira, 21 de junho de 2007 14:29:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Curioso que enquanto alguns políticos fazem discurso de terra arrasada na infra estrutura aérea, todas as empresas aéreas estão investindo na expansão da frota. Devem saber com o que estão lidando, pois não comprariam aviões para ficarem parados.

Do G1:
O presidente da Fundação Liberdade e Cidadania, entidade ligada aos Demos, o ex-senador Jorge Bornhausen (DEM-SC), defendeu as privatizações. “Os aeroportos só são mau negócio na mão do governo. Na da iniciativa privada, são um excelente negócio”. O senador Demóstenes Torres (DEM-GO), relator da CPI do Apagão Aéreo, foi enfático sobre a questão. “Tem que privatizar tudo e trazer dinheiro de PPP”.

Falta combinar quem ficará com os "excelentes negócios" dos aeroportos deficitários de cidades menores, e dependentes do transporte aéreo, como na Amazônia.

Apesar de não saber o que fazem, tenho pena de alguns controladores desavisados. Se o sistema for privatizado, haverá aceleração na automação do controle, reengenharia, e demissões em massa.
Os sargentos que permanecerem na Aeronáutica serão realocados em outras funções militares, ou continuarão nas bases aéreas. Mas e os civis que ficarem obsoletos no novo sistema?

quinta-feira, 21 de junho de 2007 16:26:00 BRT  
Anonymous JV disse...

É, na briga entre o mar e o rochedo se ferra o marisco e quem leva a culpa são os gringos....

quinta-feira, 21 de junho de 2007 19:35:00 BRT  
Anonymous JV disse...

...e mais Alon, eles não criam confusão, cometem crimes.

quinta-feira, 21 de junho de 2007 19:37:00 BRT  
Anonymous jv disse...

Lula, agora, liberou a Aeronáutica para reprimir os controladores. Um dos líderes já foi preso. Pois é... Quem não se lembra da sapiência do Apedeuta, cantada em prosa e verso, quando desautorizou o comandante da Aeronáutica e negociou com os amotinados? De lá para cá, quais foram os passos concretos que o governo deu para evitar uma nova crise? São desconhecidos.

Como não há plano B, os controladores sabem que o governo é seu refém. A punição, não tenho dúvida, é correta e já vem tarde. Mas é preciso um pouco mais do que isso, não? É preciso normalizar a situação nos aeroportos. Como vimos, o setor consegue ser engabelado pela chicana de controladores que alegam falha na tela do radar, ainda que o técnico chamado não detecte nenhum problema. O nome disso? Desordem.

São as dores da prosperidade. Hora de relaxar e gozar.

sexta-feira, 22 de junho de 2007 10:28:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Olha o comentario do Lula , que errou feio, mas ao contrario de você, admite:

Indignado com a suspeita de operação-padrão por parte dos controladores aéreos, o presidente foi enfático no tratamento que a Aeronáutica deve dispensar a eles.

"Eles [os controladores] vieram para as Forças Armadas por livre e espontânea vontade. Têm de cumprir o regulamento e respeitar as leis", disse.

sexta-feira, 22 de junho de 2007 19:48:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Mas que presidente reacionário, devem estar pensando os petistas..

Apagão: ato de 'terroristas'
O presidente Lula bateu o martelo, aprovando um plano de emergência elaborado pelo comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, que determina o afastamento e, se preciso, a prisão de até cinqüenta sargentos controladores acusados de sabotar o tráfego aéreo nacional. Lula deu seu aval até à decisão da Aeronáutica de enquadrá-los como "terroristas", caso isso seja considerado necessário. Eles poderão ser expulsos com desonra.

sábado, 23 de junho de 2007 01:34:00 BRT  
Anonymous Richard disse...

Ô Jv, e liga... não expulsam nem PM que mata criança dizendo que é traficante, vão expulsar milico?!?! Lula tá é passando a responsabilidade para o brigadeiro-japa. Se der certo, Lula agiu com autoridade (nunca neste país...). Se o caos continuar, ou ocorrer um outro grande acidente, o Saito contará com todo apoio do presidente... por umas duas semanas até ser sumariamente dispensado... com todas as honras!!!

segunda-feira, 25 de junho de 2007 18:30:00 BRT  

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