terça-feira, 26 de junho de 2007

Diz-me com quem andas (26/06)

Se você leu O cerco da cidade pelo campus e De mãos dadas com o liberalismo na revolução proletária, pare um pouco e leia isto:

Bolívia: Constituintes do Movimento ao Socialismo e representantes do Comitê Executivo da Universidade Boliviana assinam acordo que garante autonomia das universidades.

20/06 – Constituintes do partido governista Movimento ao Socialismo (MAS) e representantes do Comitê Executivo da Universidade Boliviana (Ceub), órgão central do sistema universitário da Bolívia, assinaram um acordo que garante a autonomia das universidades. Segundo o documento, caberá às universidades estabelecer mecanismos de participação social de caráter consultivo e sem poder de decisão, substituindo-se, assim, a proposta de controle social apresentada pelo MAS na Assembléia Constituinte, que determinava a inclusão de representantes de organizações sociais com capacidade decisória na estrutura administrativa dos centros universitários. O receio de que a atuação destas organizações restringisse a autonomia das universidades levou, desde meados do junho, a uma série de manifestações de universitários e docentes contra a proposta do MAS. Pelo menos duas pessoas morreram nos protestos. O acordo entre o MAS e o Ceub foi bem recebido em Santa Cruz pelo reitor da Universidade Autônoma Gabriel René Moreno (UAGRM), Alfredo Jaldín. Para o vice-presidente da Assembléia Constituinte e membro do MAS, Roberto Aguilar, o acordo permite que a autonomia universitária seja incluída no texto da nova Carta Constitucional.

O trecho foi retirado do mais recente Painel OPSA, do Observatório Político Sul-Americano, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ). Ou seja, na Bolívia o governo de esquerda de Evo Morales tentou incluir "representantes de organizações sociais com capacidade decisória na estrutura administrativa" dos centros universitários. Eu tenho perguntas a fazer.

1) A tentativa do MAS de incluir representantes de movimentos populares nas instâncias decisórias universitárias é de esquerda ou de direita?

2) A resistência de estudantes e professores a essa proposta é de esquerda ou de direita?

Supondo que você respondeu "de esquerda" à pergunta 1 e "de direita" à pergunta 2, e supondo que você participou da (ou apoiou a) tomada da reitoria da USP, eu concluo que você não vê a autonomia universitária como um valor universal. Ou seja, você vê a autonomia apenas como uma bandeira tática útil quando se trata de travar a luta política contra um governo ao qual você faz oposição. Foi o que escrevi em Duelo de inteligências, Autonomia, Três perguntas sobre autonomia, Tática ou oportunismo e O que fazer? -e também nos posts citados no começo deste. Santa Cruz de la Sierra é o centro da resistência "branca" ao governo Morales na Bolívia. É núcleo de uma tão delirante quanto estéril agitação separatista. Pessoalmente, eu me incomodaria se me flagrassem na companhia desse pessoal. Em Tática e oportunismo escrevi literalmente que

Estivesse o Palácio dos Bandeirantes ocupado por um pessoal mais do agrado, a bandeira do movimento [da USP] seria [não a autonomia, mas] aumentar a participação popular e o controle governamental sobre a universidade.

Não estava tão errado assim.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog.

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

10 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

As respostas já foram dadas no próprio post. A defesa da autonomia, autonomia mesmo, passou ao largo dessa ocupação da Reitoria. O resultado foi bem palpável: descrédito na universidade. Se este foi o objetivo, trazer descrédito a mais uma instituição, parabéns aos bravos rapazes que chegaram saudáveis e saíram saudáveis da aventura. Criaram mais uns hectares de terra arrasada.
Sotho

terça-feira, 26 de junho de 2007 17:00:00 BRT  
Blogger Paulo C disse...

Alon, quando você fez jornalismo você por acaso passou o semestre em que tinha Introdução à Lógica em greve?

Vamos lá: o partido no governo da Bolívia recua de uma posição contra autonomia universitária. Daí conclui-se que todos os que apoiaram a ocupação da reitoria da USP acham que a atitude do MAS era de esquerda e a dos estudantes bolivianos de direita. E portanto a autonomia universitária não é um valor universal, mas apenas um bandeira de luta contra o governo Serra. E assim conclui-se que os mesmos estudantes que ocuparam a reitoria ou apoiaram a ocupação na verdade aceitariam "aumentar a participação popular e o controle governamental sobre a universidade." se o governo fosse outro. E que você não estava errado.

Agora leia de novo o parágrafo anterior e note que sua lógica tortuosa parece não se importar com a absoluta falta de relação entre os passos que levam à conclusão. Você na verdade escreveu "O MAS aceitou a autonomia nas universidades bolivianas portanto a esquerda da USP deseja maior controle governamental sobre a universidade". Não há linha de raciocínio possível, apenas talvez um vago desejo de embaralhar as cartas segundo categorias pouco úteis.

terça-feira, 26 de junho de 2007 17:48:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Teorias de esquerda é um dos meus pontos fracos, mas vou palpitar.

Eu acho que a opção 1 pode perfeitamente ser interpretada como sendo mais de direita, porque a simples participação popular sem a devida consciência do próprio papel nessa participação, é uma tese idêntica à de mercado. Seria como se os consumidores (não pagantes) da Universidade escolhessem o que fosse melhor para seu consumo.

Me parece que a esquerda marxista prega um certo governo científico, onde o acesso ao poder é democrático do ponto de vista que qualquer um pode chegar ao poder independente de sua origem, mas quem se habilitar precisa fazer uma escalada de conhecimento e ascenção no partido comunista (único) semelhante a carreira hierárquica militar ou acadêmica.

Na verdade os governos mais marxisas são mais parecidos com a gestão univestária autônoma, do que os governos democráticos liberais.

terça-feira, 26 de junho de 2007 18:15:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Novamente, vamos distinguir soberania de autonomia.

Se o Estado boliviano é um Estado socialista, então ele é soberano para determinar a submissão da universidade boliviana à ideologia socialista, seja ela branca, preta, marron, amarela ou furtacor. Aliás, acho divertidissima essa novidade de atribuir ao socialismo um caráter étnico. Tudo indica que a esquerda deu um solene adeus ao internacionalismo proletário. Ao que parece, a nova face da ancestral luta histórica é étnica. Está sendo assim ao sul do equador e também nas festivas e chics academias europeias e norte-americanas. Notou que não existem mais comunistas? Hoje o que vemos são ecologias, minorias e difusos altermundialismos.

Onde andará a contradição fundamental da sociedade capitalista que antigamente expressava-se na luta inconciliável entre burgueses e proletários? Estará ela subsumida no interior de conflitos étnicos? Nas paradas gays? Na luta contra o aquecimento global? No ideal coletivista e comunitarista das cidadezinhas do interior e avesso ao individualismo e ao cosmopolitismo das grandes cidades?

Voltando ao tema explícito do post, se o Estado boliviano é democrático, então ele é soberano para conceder à universidade a autonomia necessária para que no seu interior todas as correntes filosóficas e todas as pesquisas possam existir. Num Estado democrático com universidades autônomas a oposição direita\esquerda convive em conflito. Nos Estados totalitários a divisão(oposições), que é constituitva do Estado democrático e de direito, é anomalia ou doença a ser cirurgicamente estirpada do corpo social pelos doutores da ocasião.

O pior nos socialistas é ter que aguentar, em nome e em defesa da democracia, a sua arrogância finalista e salvacionista, a saber, a sua retórica repleta de um grandiloquente humanismo e misturada com um profundo desprezo contra o seu outro não socialista.

abs.

terça-feira, 26 de junho de 2007 22:41:00 BRT  
Anonymous JV disse...

acho que de modo geral o Alon foi muito feliz neste post.

terça-feira, 26 de junho de 2007 23:45:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Alon,

Você pensa com o lado direito ou esquerdo do cérebro? Com que mão você escreve? Com que perna você chuta?

Leio no Estadão de hoje que a USP de São Carlos desenvolveu um software que permite o diagnóstico do câncer de mama que elimina a biópsia em 80% dos casos. Tanto na mama esquerda quanto na direita.

Se a tecnologia continuar evoluindo será possível detectar quais pensamentos são de esquerda ou de direita.

Na página A9 do mesmo jornal de hoje leio que "Lula e Serra trocam gentilezas em SP". Isso me deixa mais preocupado, porque não dá para perceber quem bate melhor com a esquerda ou com a direita.

quarta-feira, 27 de junho de 2007 10:49:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Jura,

Tento pensar com os dois, pois seria desperdício deixar um lado inteiro do cérebro desativado. Chuto com os dois pés, mas não simultaneamente, para não cair. Mas, infelizmente, não escrevo com as duas mãos. Um abraço.

quarta-feira, 27 de junho de 2007 11:33:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Nesse caso, tomara que você seja canhoto!

Abraço com ambos os braços, sem punhal.

quarta-feira, 27 de junho de 2007 15:55:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Jura

Alon, pelo que sabia e sei e pelo o que tenho lido aqui desde que aqui cheguei, é um entusiasta ambidestro. Quanto a punhaladas, a mão do Alon que aqui afaga, quando apunhala, é a mesma que apedreja, sem papas na língua e nos punhos.

quarta-feira, 27 de junho de 2007 22:43:00 BRT  
Blogger Vera disse...

O que tem a ver o governo boliviano com os estudantes da USP?

quinta-feira, 28 de junho de 2007 09:32:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home