sexta-feira, 15 de junho de 2007

Cantos escuros e ocultos (15/06)

O calvário do senador Renan Calheiros tem o mérito de lançar luz sobre cantos normalmente escuros e ocultos da alma nacional. O presidente do Senado é acusado de ter despesas pessoais pagas por um lobista de empreiteira. Segundo a acusação, o lobista dava mensalmente dinheiro para a mãe de uma filha do senador fora do casamento. Renan diz que o dinheiro era dele mesmo e que o lobista funcionava apenas como mensageiro. Eu tenho a curiosidade de saber, por exemplo, como o lobista pegava o dinheiro com o senador para repassar à mãe da menina. Ele ia pegar na residência oficial na Península dos Ministros? Ou o presidente do Senado entregava pessoalmente na casa do lobista ou no escritório da empreiteira? Ou mandava por um portador? Nesse caso, quem era o portador? Vejam que eu apontei agora um caminho para a definitiva comprovação da tese da defesa de Renan Calheiros. Tragam o portador que mensalmente levava dinheiro do senador ao lobista e o assunto estará liquidado. Até porque eu acho que o presidente do Senado não cometeria a insanidade de ir pessoalmente entregar dinheiro num escritório de empreiteira ou na casa de um lobista. Ou de ter um lobista saindo periodicamente da residência oficial portando maços de dinheiro vivo. Mas, infelizmente, o senador escolheu uma linha de defesa mais complexa. Ele vem lutando para provar que tinha dinheiro para os pagamentos que afirma ter feito. O que é que isso tem a ver com a acusação? Nada. O sujeito pode muito bem ter recursos para fazer determinado pagamento e mesmo assim pedir dinheiro a outras pessoas para honrar o compromisso. Para não ter que tirar do próprio bolso. Da minha parte, se não aparecer alguma prova de que Renan Calheiros recebia dinheiro da Mendes Júnior ele não pode ser acusado de quebra de decoro. E a investigação no Conselho de Ética tem que ser arquivada. O ônus da prova cabe a quem acusa. Mas no país tortuoso e torturado em que vivemos essas coisas não são bem assim. Quando o sujeito entra numa sinuca política o ônus da prova se inverte. O acusado passa a ter que provar a sua própria inocência. Sorte que sempre resta o velho e bom "você sabe com quem está falando?". No Brasil, um santo remédio é provar que se tem dinheiro. Ter dinheiro é bom em qualquer circunstância. Mas no nosso país ser rico não é só bom. De vez em quando chega a ser vital. Imaginem se o presidente do Senado fosse um homem pobre. Nesta altura do campeonato sua carreira política estaria morta e enterrada. Ele estaria cassado, apesar de não haver uma única prova de que, efetivamente, tenha recebido vantagens indevidas em conseqüência do cargo que ocupa. São os cantos escuros e ocultos da alma e da política nacionais.

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14 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon
Se o presidente do senado fosse um homem pobre seria mais fácil acreditar no que ele diz.
Eu também acho que a denúncia é frágil. Ele deve ser indiciado mesmo é como sonegador confesso.

sexta-feira, 15 de junho de 2007 19:57:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É isso aí, Alon. Onus probandi ei qui dicit incumbit. E não deveria se inverter conforme a visibilidade do cara. Mas é sempre assim, pelo menos sempre que a imprensa está envolvida. O caso da Escola Base deveria ser exautivamente estudado, do primeiro ao quarto ano do curso de jornalismo. Deveriam fazer cultos sacrificiais ao caso da Escola Base. Poderiam tomar de uma jornalista virgem, bonita, morena e metida a espertinha e submetê-la a uma bateria de acusações de envolvimento com homens poderosos, trazendo até uma filha e afirmando que foi ela que deu à luz a menina. Tudo isso ao som de atabaques, regado a whisky importado e com videos ao fundo projetando lindas paisagens de Barcelona. Depois das libações cerimoniais, com todos os tipos possiveis de acusações, passaar-se-ia a acusações mais genéricas, com grosseiras referências aos hábitos sexuais da dita virgem, e ao fim todos escreveriam suas próprias versões dos fatos, com uma proibição: não poderiam fazer referência a esses fatos, que afinal nada importam.
Adiantar não sei se adiantaria, mas que o curso ficaria mais animado, isso ficaria. E seria algo como um contraponto aos cultos à razão da Revolução Francesa, aliás um momento em que a atividade jornalística teve um papel crucial, não necessariamente falando a verdade, como sói acontecer desde que o mundo é mundo.
Anônimo

sexta-feira, 15 de junho de 2007 22:48:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Por outro lado, sua sacada quanto ao portador é ótima. E pensar que vc não cursou quatro anos e nove mese de Direito (rs)...
Anônimo, de novo

sexta-feira, 15 de junho de 2007 22:50:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon,

Mas a corrupção é em geral quase impossível de ser provada. É por isso que atitudes suspeitíssimas por parte de homens públicos devem ser sim esclarecidas pelos acusados.

Sem provas eles não podem ser presos mas podem ser cassados por perder a confiança do congresso.
Não se pode receber dinheiro de lobista de empreiteira e ser presidente do senado.

Não é correto assim?

Abraços,
Flavio

sexta-feira, 15 de junho de 2007 23:56:00 BRT  
Blogger Marcelo disse...

Pense bem. Um senador teve um caso extra conjugal do qual nasceu uma criança (Tudo bem isso é problema pessoal).Mas, durante a gravidez e o processo de pensão alimentícia, certas quantias de dinheiro eram pagos a mãe para subsistência através de um LOBISTA. LOBISTA tem como trabalho influenciar agentes públicos para aprovar obras e recursos para determinada empresa. Sr. ALON voce acha mesmo que isso se trate de uma ajuda inocente? Voce acredita mesmo que tudo isso e paranóia do papai noel e da mula sem cabeça para desestabilizar o governo LULA?

sábado, 16 de junho de 2007 07:20:00 BRT  
Blogger popaula disse...

Alon:

O que me intriga é que bastava ao Renan, ao ser acusado de receber dinheiro do lobista pela Veja e pela Mônica, dizer: provem!


Se não disse, é porque teve receio de que elas existissem.

Acabou atolado nesta novela onde a mídia já chafurda nos recibos das
muxibas de suas vaquinhas.

sábado, 16 de junho de 2007 10:55:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Marcelo, você usa "através". E pergunta se o Alon "acredita". O que ele coloco para debate é o seguinte: Qual é a prova de que a Mendes Júnior efetivamente dava dinheiro a Renan Calheiros? Nenhuma.

sábado, 16 de junho de 2007 11:24:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Se o presidente do Senado fosse um homem pobre... é possível que ele não tivesse esse tipo de problema com essas jovens bonitas.
O que eu não consigo entender nessa denúncia toda são 3 coisas:
1) Porque a denúncia é focada no lobista e pouco se fala na Mendes Jr? Pelo curso do noticiário, presumo que nossa imprensa investigativa se dará por satisfeita se o Senado punir o Senador. Porém, parece pouco importar o motivo real da suposta generosidade da empreiteira. Já avançaram bastante na investigação dos bois e fazendas do Senador, mas nas obras públicas da empreiteira, nada.
2) Pelo que sabemos (e pelo que disse o Sen. Ney Suassuana - que todo mundo levava uma "beirada" nas emendas), os supostos deslizes de Renan denunciados são quase regra, e não exceção. Porque ele? É um precedente perigoso para quase todos os outros, que também tem vulnerabilidades pessoais e/ou financiadores de campanha mal explicados.
As denúncias contra Renan não atingem diretamente Lula, pelo contrário, mantém o noticiário afastado do Planalto. Porém não interessa ao governo ter o Congresso paralisado com crises, nem o país com ambiente de denuncismo, nem correr riscos (mesmo que pequeno) de uma nova eleição no Senado. A oposição tem pouca chance de tomar a cadeira da presidência do Senado, para querer desestabilizar Renan. O PT não tem nenhuma chance, se cai Renan, o novo presidente do Senado seria outro do PMDB governista.
Quem sai vitorioso com a derrocada de Renan? Tirando Heloísa Helena (e o atualmente discreto Collor), cujos interesses eleitorais em Alagoas justificam, não consigo ver quem sai ganhando de fato com isso tudo, pelas dimensões tomadas.
3) O que fez Renan contra a Rede Globo e a Veja para merecer tanta "dedicação" da emissora e da Revista? Distinção que outros ilustres políticos (incluindo governadores e ex-governadores) envolvidos em valores muito mais altos nas operações Navalha e Octopus não tiveram?
Como cidadão eu até fico satisfeito com a exigência de padrões de condutas elevados de nossos homens públicos pela imprensa. Mas é muito curiosa a seletividade do foco em Renan Calheiros, havendo tantos escândalos maiores por aí.
Realmente, Alon, tem muitos cantos escuros e ocultos que não tem chegado ao nosso conhecimento pelo noticiário.

sábado, 16 de junho de 2007 14:21:00 BRT  
Blogger Geraldo disse...

Tudo bem, se não ficar provado o pagamento pela Mendes Junior, o senador Calheiros não poderá ser acusado de ter recebido. É de uma clareza fantástica esse raciocínio. Mas eu faço uma pergunta: Ainda que não haja provas, o presidente do Congresso Nacional pode, impunemente, conviver com lobistas que trabalham para empresas beneficiárias de verbas que o senador recomenda? O que quero dizer é que, independente de provas, a moral do senador não está condizente com o cargo que ocupa. E isso é muito preocupante e entristecedor.

sábado, 16 de junho de 2007 17:48:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Fernando Collor caiu (entre outras coisas) porque teve um Fiat Elba comprado por seu amigo, que suspeita-se atuava como lobista, não apenas de um, mais de vários interesses. Nesse caso, Renan já confessou o uso de um lobista para pagar contas pessoais e uma estranha relação com Zuleido. Se isso não é problema, o ex-presidente Collor tem razão em reclamar de sua condenação. Vamos aguardar agora a avaliação do Sr. e da Sra. Cafeteira.

sábado, 16 de junho de 2007 23:33:00 BRT  
Blogger Marcelo disse...

Para anônimo. O senador Renam confessou isso. Disse que "dava o dinheiro para o LOBISTA e ele repassaria para a JORNALISTA todo mês". Somente isso já é algo irregular. Um senador não pode ficar devendo favores para um LOBISTA.

domingo, 17 de junho de 2007 00:21:00 BRT  
Anonymous Hermenauta disse...

"Imaginem se o presidente do Senado fosse um homem pobre."

Nessa frase é que reside o mais escuro dos cantos escuros da política nacional e, para ser mais justo, de um grande número das democracias modernas.

domingo, 17 de junho de 2007 13:24:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Eu não sei qual foi o papel de Renan no episódio, mas alguém saberia dizer se o súbito interesse na moralização do Senado (quero dizer, de uma cadeira do Senado), encarnado no dossiê Renan Calheiros, tem a ver com a derrota da PEC 55/2004 do Sen. Maguito Vilela, em dezembro último, cujo interesse direto era das emissoras de TVs?

domingo, 17 de junho de 2007 15:49:00 BRT  
Blogger Nehemias disse...

Se o Senador Renan Calheiros fosse um homem pobre, seria difícil explicar como ele arrumava R$ 9 mil por mês para "bancar" Dona Mônica e sua filha. Se ele apenas recebesse o salário de Senador, a pensão deveria ser muito mais modesta.

Acho que esse é um caso típico de mirar no que se vê e acertar no que não se vê. É claro que alguém que tem em sua fazenda 1.100 cabeças de gado (o que mesmo o JN reconheceu) não deve ter muita dificuldade em pagar uma pensão polpuda.

Agora, sério mesmo são os indícios de uso de notas frias e operações com empresas fastasmas e laranjas. Eu acredito que os bois foram vendidos, mas este é um típico expediente para fugir de tributos. Se for verdade, teríamos falsidade ideológica, sonegação fiscal e, até, lavagem de dinheiro.

É por isso, que se confirma a tese que essa história de quebra de decoro não da certo. Se o Conselho for rápido, é pizza. Se o Conselho se detiver na análise dos documentos, com perícia contábil, investigação séria, de forma prudente, correta, com direito a contraditório e ampla defesa, e eventualmente demorar para dar seu veredito, vão dizer que é "operação abafa". Se Renan for absolvido o Senado estará desmoralizado. E só punido, isto tem que ser feito rapidamente (como um linchamento).

O certo seria o fim da im(p)unidade parlamentar juntamente com o fim de cassação por quebra de decoro. O fim do foro privilegiado seria um opcional (desejado) do pacote.

Funcionaria assim, surge a denúncia, qualquer cidadão ou partido poderia pedir uma investigação ao ministério público, seria aberto um processo amplo onde tudo seria investigado e o parlamentar teria ampla defesa, se o acusado fosse julgado culpado ele iria em cana, como acontece com qualquer um de nós.

Nehemias

segunda-feira, 18 de junho de 2007 16:28:00 BRT  

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