sexta-feira, 25 de maio de 2007

Tática ou oportunismo? (25/05)

É fascinante esse debate sobre a autonomia universitária. Em sua edição de hoje, a Folha de S.Paulo traz um artigo (para assinantes da Folha ou do UOL) de três estudantes da USP, líderes da ocupação da reitoria. Em síntese, é o que segue.

-Lutamos por melhores condições de ensino e permanência na universidade. Portanto, somos contra que o governo do estado interfira na destinação das verbas que o estado manda para a universidade. Por quê? Porque nós achamos que o governo estadual é privatista e privilegia o mercado em vez do social.

Leiam e vejam que meu resumo é bem adequado. Fico feliz que o artigo de hoje na Folha tenha confirmado meus posts dos últimos dias. Os estudantes que ocupam a reitoria, bem como seus aliados entre professores e funcionários, defendem a autonomia da instituição diante do governo estadual por uma única razão: porque não gostam do governo estadual. Não se trata de uma questão de princípio. Estivesse o Palácio dos Bandeirantes ocupado por um pessoal mais do agrado, a bandeira do movimento seria aumentar a participação popular e o controle governamental sobre a universidade. Os mais rigorosos dirão que essa conduta configura oportunismo político. Eu, sempre flexível e tolerante, prefiro caracterizar o visível contorcionismo intelectual do movimento estudantil (ME) da USP como pura tática. Os ocupantes da reitoria da USP defendem taticamente a autonomia universitária para ter uma bandeira ao mesmo tempo simpática e compreensível para o grande público -e para ampliar suas alianças potenciais na guerra política que travam contra o governo do estado. Do que vi até agora (e do que li no artigo da Folha), concluí que os ocupantes não acreditam de coração na autonomia universitária nem a defendem com radicalidade. Ainda bem. No artigo, a trinca de líderes do movimento protesta por a USP não garantir "políticas de ações afirmativas para afro-brasileiros e indígenas". Vamos supor, apenas por hipótese, que o Congresso Nacional aprove um sistema de cotas para afrodescentes e povos originais nas universidades públicas. E suponhamos que, diante da nova lei, alguém da USP tenha a idéia de propor um plebiscito entre estudantes, professores e funcionários para decidir se a USP irá ou não reservar parte de suas vagas para alunos negros e índios. Assinale a alternativa correta:

a) Os atuais ocupantes da reitoria defenderiam o plebiscito, em nome da autonomia universitária.

b) Os estudantes citados na alternativa anterior ocupariam novamente a reitoria, agora para exigir que a USP se submetesse à decisão do Congresso Nacional.

A resposta certa é a "b". Eles não iriam pregar a desobediência civil contra as cotas. Certamente defenderiam que a lei, por valer para todo o país, deveria vigorar também na USP. Numa situação dessas, eu cerraria fileiras com os bravos colegas estudantes na luta pela subordinação do poder universitário ao poder democrático da República. E você? Iria conosco para o combate ou ficaria aferrado a essa coisa liberal-burguesa de autonomia universitária, que visivelmente só serve para impedir o avanço do processo histórico e da luta dos trabalhadores e oprimidos?

O Blog do Alon é finalista na categoria Melhor blog de jornalismo e/ou jornalista da Revista Imprensa. Para poder votar, você deve se cadastrar gratuitamente clicando aqui.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog.

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

15 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Segue abaixo um post do blog da professora Marta Bellini sobre a quantas anda a autonomia universitária no estado do Paraná

"Ontem postei duas MÁS notícias no meu blog da UOL. No Paraná todos se sentem livres para BOTAR suas mãos nada leves nas Universidades Estaduais Públicas. Mãos vorazes, mãos que matam, mãos que mancham. Na gestão LERNER, considerado um governador erudito, culto (afinal é arquiteto), as Universidades quase foram vendidas via famoso Projeto 32/2002. Os empresários da cidade agitaram-se como moscas presas em teias de aranhas. Eufóricos ficaram. AGORA na segunda gestão do governador do PBMD, Reiquião, a repetição de faz: estamos presos a um conjunto de deputados que querem marcar as datas dos vestibulares das universidades públicas. MAIS: o governador PROIBIU AOS PROFESSORES a saída para outros estados em eventos, bancas...feudalismo? A lei pode-se chamar ODE AOS PROFESSORES! O governador ODEIA intelectual. Que bom! Sinal de que somos diferentes dele."

Para quem interessar-se em saber mais sobre o processo de desmonte em curso nas estaduais paranaenses:

http://martabellini.blog.uol.com.br/

Para quem quiser saber quem é a professora Marta Belline, segue link para o seu currículo do sistema de currículos Lattes

http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4789452J4

PS: Não sei se lá no Paraná os estudantes mobilizam-se ou não emdefesa da autonomia universitária

abs.

sexta-feira, 25 de maio de 2007 20:33:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Alon, estou surpreso com sua surpresa. V. nunca frequentou gremio estudantil? Nunca conheceu estas "pecinhas" durante sua juventude?

sexta-feira, 25 de maio de 2007 21:15:00 BRT  
Blogger Paulo disse...

Alon, de novo acho sua interpretação tendenciosa. Como disse em outro post, a defesa da autonomia não é "contra" este ou aquele governador, é contra qualquer governador. Senão a Universidade fica à mercê dos interesses do político da vez (aliás, é exatamente para esta direção que os decretos de Serra apontam).

O fato deles citarem um viés deste governador particular me parece só uma indicação a mais de que este governo tem lá seus motivos para enfraquecer a autonomia universitária.

Em tempo, o Blog da Ocupação da Reitoria está fora do ar. Não me surpreenderia se o Terra, empresa que pertence ao Grupo Telefônica, tiver simplesmente apagado o blog. Sem querer ser conspiratório, a Telefônica tem muitos interesses em São Paulo. Deviam ter usado o Blogger - o Google costuma resistir bem a pressões externas.

sexta-feira, 25 de maio de 2007 21:20:00 BRT  
Anonymous Roberto Baginski disse...

Prezado Alon,

seus comentários sobre autonomia universitária estão indo ao coração da questão. Uma universidade pública não pode ser uma ilha isolada da sociedade que lhe custeia. Permita-me ir além e sugerir uma mudança na forma como são escolhidos seus dirigentes. Não faz sentido que o governador (eleito) seja obrigado a escolher entre os nomes de uma lista tríplice gerada internamente. A tal lista deveria servir apenas como uma sugestão e nada impediria que outras listas fossem submetidas ao governador. Os estudantes, se quisessem, poderiam enviar uma lista de nomes ao governador. O sindicato dos professores também. Os moradores da São Remo (aquela favela que fica do outro lado do muro da USP) também. Qualquer um de nós poderia enviar uma lista ao governador e ele que escolhesse. É tarefa do governador pesar a importância das diversas sugestões recebidas. Comentário semelhante se aplica ao processo de escolha do Ministério Público. Não é republicano obrigar o governante (eleito) a escolher entre as opções oferecidas por um subconjunto da sociedade.

Atenciosamente,
Roberto

sexta-feira, 25 de maio de 2007 23:18:00 BRT  
Anonymous Leonardo disse...

Seu argumento é preciso no que toca as figuras do movimento estudantil. Como JV observou, estas "pecinhas" só não são mais manjadas que o próprio discurso que elas sustentam.

O problema está no passo seguinte: "Os estudantes que ocupam a reitoria, bem como seus aliados entre professores e funcionários, defendem a autonomia da instituição diante do governo estadual por uma única razão: porque não gostam do governo estadual."

Desde Hume estamos embaraçados com essa coisa chamada indução, desde então sabemos que ela é incapaz de produzir verdades no sentido necessário pra suportar generalizações. Só a preço de um esvaziamento do discurso de todos os outros componentes é possível sustentar esse nivelamento -- passar da impressão de 3 estudantes para uma afirmação sobre a natureza de um movimento apoiado por algumas dezenas de pessoas. Por mais homogêneas que elas seja, convenhamos, parece anti-intuitivo.

Acho que você está certo, grande parte do conteúdo dessa peleja tem fins estritamente "partidários". Mas querer identificar intenções neste caldo é discutir o sexo dos anjos. Talvez tudo isso tivesse fim se os estudantes publicassem um carta aberta alegando as razões para a ocupação, -- não sei se é verdade, mas li sobre o descaso da reitora que enviou um preposto (pois ela estava viajando) que não compareceu ao encontro com os estudantes, depois eles foram impedidos de falar com o vice-reitor, o que teria dado origem a ocupação -- expondo seus pontos e sobretudo as interpretações acerca do decreto do governador. Mas como, de fato, o combate acontece no campo político, melhor mesmo deixar de lado a possível demonstração da falta de fundamento jurídico e administrativo para os receios. A obscuridade é quase sempre o melhor terreno para as relações humanas.

sexta-feira, 25 de maio de 2007 23:36:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Uma coisa é a Universidade estar subordinada à leis nacionais, como a exigência de concursos vestibular para ingresso, obediência à cotas, currículo do MEC para os cursos, à própria dotação orçamentária que lhe cabe.
Outra coisa é ter sua gestão centralizada e subordinada às políticas do governador do momento.
Constato uma observação: a maioria dos reitores das boas Universidades teria estatura para ser governador de Estado. Mas são poucos os governadores que teriam estatura para serem reitores delas.
Se os estudantes estão aproveitando a oportunidade para golpear policamente o Governador, Serra também está usando de sua posição de poder para golpear politicamente a oposição, puxando para si concentração de poderes e recursos orçamentários. É o duelo de inteligências que você citou em nota anterior.

sábado, 26 de maio de 2007 01:41:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

Meu caro JV, essas "pecinhas" que o senhor se refere, apenas repetem os passos de tantas outras "pecinhas" ilustres como o atual Governador de São Paulo e outros tantos "ex-ilustres-pecinhas na juventude". Seja um pouco mais compreensivel com os mais jovens e dê-lhes o direito de errar. Afinal de contas nossa geração já não errou o suficiente?

sábado, 26 de maio de 2007 12:02:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Fico pensando se quando a UNE estava sendo reorganizada, pelos idos de 1978, por estudantes nitidamente engajados em partidos como o PCdoB, algum general não teria escrito em seu blo, ops, desculpe, no jornalzinho interno do exército, algo como "esse jovens não querem realmente construir uma entidade, querem mesmo é solapar as conquistas da Gloriosa Revolução de 1964 e seus sagrados postulados".
Qual a utilidade de um posicionamento nacional e de esquerda que repete a pauta da grande imprensa, mesmo ante a evidência incontestável de que o movimento só ganha espaço enquanto o governo, mesmo apoiado por uma expressiva parcela dos jornalistas da nação, além de juízes, desembargadores, e com a polícia a postos, parece preferir negociar?
Ah, sim, democrático também.

sábado, 26 de maio de 2007 14:12:00 BRT  
Anonymous Anônimo2 disse...

Pauta da grande imprensa? Leia o editorial da Folha hoje Anônimo e veja como a grande imprensa tenta desesperadamente achar uma saída para um movimento reacionário que ela mesma insuflou. E do jeito que você escreve você só comprova a tese do Alon: para os invasores da USP ainda vivemos numa ditadura. Para eles o fato de haver um governo eleito democraticamente em SP nada significa. Só aceitam a democracia quando eles estão no comando. Como o Alon bem escreveu.

sábado, 26 de maio de 2007 14:40:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Alon, você não está reduzindo demais essa discussão sobre autonomia da Universidade, ao focar sua análise apenas nos alunos interessados em "sangrar" o governador?
E os professores que também entraram em greve (não apóiam oficialmente a invasão da reitoria)? Será que também são meninos e meninas instrumentalizados por partidos políticos, ou estão realmente interessados em defender a Universidade de maiores ingerências político-partidárias do governador da hora?
Isso está me lembrando do tempo da ditadura em que para quem estava no poder, todo movimento organizado de oposição era osquestrado por lideranças subservivas, e para quem estava nos movimentos, sempre faziam lembrar que minoria não faz greve.

sábado, 26 de maio de 2007 16:46:00 BRT  
Anonymous Daniel disse...

Alon,

Seus posts sobre o protesto na USP são interessantes, mas passam por cima de alguns fatos importantes, não sei se por desinformação ou estratégia.

– A posição dos alunos da USP não é só deles, é dos professores e dos funcionários também, assim como da UNESP e da UNICAMP, e nessas duas é a posição da reitoria também, contra este projeto de suprimir a autonomia.

– O protesto não é contra o governador tucano, é contra a reitoria, por esta não ter se alinhado às outras duas universidades estaduais contra o projeto. Note que eles invadiram a reitoria, não o Palácio dos Bandeirantes. Se fosse contra o governador tucano, eles estariam invadindo a reitoria – ou o Palácio – ininterruptamente há mais de 12 anos.

– A questão da autonomia não tem a ver com transparência da gestão, porque esta já é transparente. As universidades já prestam contas ao governo, sem este interferir nas decisões sobre como gastar o dinheiro.

é isso.

sábado, 26 de maio de 2007 17:39:00 BRT  
Blogger Frodo Balseiro disse...

Alon
Como você bem disse, essa coisa de autonomia universitária foi adotada como "mote" da invasão, por ser um discurso "simpático" e bem assimilavel pela sociedade.
Afinal quem seria contra a autonomia universitária?
Ocorre que em nenhum momento ostais "decretos do Serra" que pouca gente leu, ou entendeu, nem de longe arranha a autonomia.
Prestar contas do dinheiro do contribuinte não é nada mais do que a OBRIGAÇÃO de qualquer ente público, seja ele universidade, legislativo, judiciário, executivo, fundações, o que seja.
Dinheiro não é maná que cai dos céus.
E tem mais, também acredito que não é papel da universidade, dentro de sua redoma intelectual, definir sozinha os rumos, propósitos, objetivos da própria universidade. A sociedade também tem que se pronunciar a respeito! E os governos, que são eleitos pela sociedade para administrar seu dinheiro, também tem sim que dar os eu pitaco.
Isso esta longe de ser intervenção na autonomia universitária.
Não existe no mundo, sistema universitário auto orientador, auto avaliador,auto financiado.
A universidade não é uma entidade divina e sábia que paire sobre a sociedade, desconectada de suas necessidades e objetivos!

domingo, 27 de maio de 2007 07:35:00 BRT  
Anonymous Frank disse...

Eu acho que o Alon, nesse e em outros posts recentes (como aquele sobre a briga de Evo Morales com os holandeses pelos ativos da PETROBRAS), vem exercitando sua verve humorística.

Se o governo federal tenta manietar a repercussão/divulgação da apuração de responsabilidades pelo acidente do vôo da Gol (com o intuito, segundo o Alon, de retirar dos militares o controle de tráfego), é OPORTUNISMO.

Se uns partidecos de Esquerda mobilizam estudantes e professores na USP para azucrinar o governador tucano e, segundo o Alon, "marcar posição", trata-se de TÁTICA.

Alon: qual a diferença entre tática e oportunismo?

domingo, 27 de maio de 2007 16:43:00 BRT  
Anonymous luiz lozer disse...

Alon não sacaneia
certas coisas a gente não fala.

terça-feira, 29 de maio de 2007 13:11:00 BRT  
Blogger Julio Neves disse...

Sugiro que a reitoria da USP envie os grevistas para um estágio em GAZA para que tentem descobrir que tipo de linguagem andam falando por lá no momento.

Os alunos querem melhorar a qualidade da universidade? Se possuem média geral 7, que tal se esforçarem para aumentá-la pra 8?

Quando é que estudante vai começar a estudar nesse país?

quarta-feira, 30 de maio de 2007 05:27:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home