sexta-feira, 4 de maio de 2007

A "tarefa difícil" de Lula e uma inevitável lembrança do Sr. Frias (04/05)

Eu tenho a minha pergunta pronta para a primeira entrevista coletiva de Luiz Inácio Lula da Silva neste segundo mandato. É o cúmulo do governismo: mesmo antes de marcada a entrevista, o pessoal do Palácio do Planalto já vai saber pelo menos uma das questões com que o presidente terá que lidar (se eu for sorteado, é claro). A minha pergunta:

- Presidente, o senhor tem afirmado que a expansão territorial da cana para a produção de álcool combustível não afetará a produção de alimentos nem vai acelerar o desmatamento, pois o Brasil tem terras em quantidade, inclusive degradadas. Mas, presidente, se existe abundância de terras para plantar cana e produzir álcool, por que o senhor vive dizendo que um dos limites para uma reforma agrária mais ampla é o preço da terra? Como é que a terra pode estar cara se há excesso de oferta, presidente?

Minha dúvida não é novidade para quem lê este blog. Eu vivo repetindo a questão aqui, mas ninguém do governo se digna a responder. Por isso é que eu quero ser sorteado para fazer uma pergunta ao presidente na entrevista coletiva. Para que ele tenha a oportunidade de responder em rede nacional de televisão. E, quanto mais demorar a acontecer (a entrevista), mais tempo eu terei para aperfeiçoar a indagação. Ontem, por exemplo, o presidente afirmou em Uberaba (MG), na abertura da ExpoZebu 2007:

- A questão da reforma agrária é uma coisa que me inquieta. Primeiro, porque a gente nunca vai conseguir fazer do tamanho que as pessoas precisam e querem que a gente faça. Segundo, o governo nunca tem dinheiro para compatibilizar a compra da terra com a exigência para fazer com que a terra produza o necessário, para que aquele companheiro que teve a terra possa se transformar em um produtor que viva do seu trabalho (...). Todo mundo sabe que essa é uma tarefa difícil. O Brasil foi o último país da América do Sul a fazer a experiência da reforma agrária.

Clique aqui para ler a reportagem. O governo não tem dinheiro? Que percentual da conta de juros seria necessário para arrumar dinheiro para uma reforma agrária de verdade? Quantos dos R$ 500 bi do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) seriam precisos para tirar a reforma agrária do marasmo? Eis aí outras boas perguntas para a coletiva. Agora, o que mais me chamou a atenção na declaração do presidente em Uberaba foi ele falar de "tarefa difícil". Lembrei de uma daquelas tiradas emblemáticas do Sr. Frias. Na relação direta com ele, os mais espertos aprendiam rapidamente que não era boa política se lamentar sobre as dificuldades da missão. O incauto que inadvertidamente escorregasse para a expressão "tarefa difícil" receberia de volta uma resposta mortal:

- Se fosse fácil, meu filho, eu mesmo faria. Eu não precisaria de você para fazer.

Se fosse fácil fazer a reforma agrária no Brasil, alguém já teria feito antes de Lula se eleger presidente. Aliás, pelo que consta, Luiz Inácio Lula da Silva quis chegar à presidência exatamente para realizar as coisas difíceis que os antecessores não puderam ou não desejaram fazer. Pelo visto, a falta de oposição e de cobrança de resultados anda fazendo muito mal ao nosso presidente.

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7 Comentários:

Anonymous Richard disse...

Alon, seu último parágrafo é a resposta para a minha (e de outros tbm) desilusão com Lula. Passou anos dizendo que tudo era uma questão de "vontade política", agora diz que é difícil, que não vai dar, que as coisas são assim mesmo... Não sei pq vc ainda acha que desta-cartola-sai-coelho?!?!?

sexta-feira, 4 de maio de 2007 12:22:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Não pode-se discordar totalmente do presidente. Hoje, como já ocorrera, há um custo de oportunidade claro entre produzir e arrendar a terra. E o arrendamento, para a plantação de cana, cresce. Tais ocorrências tendem a elevar o preço das terras disponíveis. Outro aspecto a destacar na fala do presidente é o de que começa, numa fala oficial, a dar-se lugar ao reconhecimento da escassez. Talvez seja o início de um olhar colocado no lado real de uma economia emergente, que procura seu lugar no dentro do capitalismo.
Sotho

sexta-feira, 4 de maio de 2007 16:43:00 BRT  
Anonymous JV disse...

De novo Alon? Já te respondi umas 3 vezes: A terra para a cana não é a mesma terra da reforma agraria. Porque? Porque só consegue lucro na agronomia quem tem capital e escala de produção. As propriedades familiares produzem comida que ninguem compra, pois há excesso, e a preços muito acima do mercado. Tanto é assim, que hoje o MST não mais foca invadir fazendas, mas propriedades de grandes empresas muitíssimo produtivas. O MESSETÊ não quer produzir mais, quer que os grandes parem de produzir para que os preços dos alimentos subam e tornem o pequeno negócio viável. A meu ver uma perda de tempo.

sexta-feira, 4 de maio de 2007 20:45:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Eu li na fala do presidente uma constatação de que a Reforma Agrária é uma tarefa difícil, e não propriamente uma reclamação de quem quer se esquivar da tarefa. E parte da dificuldade advém do sectarismo de setores como o MST, que resiste em engajar-se na produção de riquezas onde ela viável.
Outra coisa: até a década de 70, no Norte do Paraná plantava-se café (a Mata Atlântica e as Araucárias já haviam sido desmatadas). Com a geada dizimando o cafezal, houve mudança na cultura (não sei qual, provavelmente deve ter sido soja a preponderante). Hoje a tendência nessa região é plantar cana. Ou seja, houve apenas mudança no cultivo. E café também não é alimento, e grande parte era plantado para exportação.
No Triângulo Mineiro (onde fica Uberaba), está havendo grande troca de criação de gado por plantação de cana. Se o Brasil produzia carne para exportar, que mal há em produzir álcool para exportar?
Além disso, um dos subprodutos da cana pode ser ração para alimentar gado. É possível continuar criando gado confinado, em vez de ocupar pastagens no cerrado de baixa produtividade. A cultura da cana permite também o plantio de alimentos (como feijão) na mesma área durante alguns meses do ano, enquanto a cana colhida cresce de novo. Há muita tecnologia subutilizada.
A reforma Agrária precisa também de um salto qualitativo para empregar bem o dinheiro usado nos assentamentos, e não apenas quantitativo de número de famílias assentadas, mas que continuam improdutivas, incapazes de fazerem riqueza, que seria o objetivo de fato da reforma agrária.

sexta-feira, 4 de maio de 2007 20:57:00 BRT  
Anonymous Caetano disse...

Nunca ouvi falar sobre os índices de produtividade dos assentamentos. Existem valores mínimos? Estão sendo cumpridos pelos assentados?

sexta-feira, 4 de maio de 2007 21:48:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

A reforma agrária hoje é uma não-questão. A reforma urbana, que impacta 90% da população brasileira é que é fundamental para a própria sobrevivência do cidadão. Vide as ocupações urbanas, cada vez mais predatórias, conturbadas, violentas, trazendo insegurança e perda de controle do Estado sobre áreas importantes da população. Recomendo a leitura dos livros dos professores da UFRJ da área de historia que mostram que a terra sempre foi barata no Brasil e na verdade atuou como controle de violência ao longo dos anos. Existem disputas de terra em pontos isolados do país e, quase sempre, é uma disputa política mais do que de expulsão de terra.

Alon, olhe um pouco mais para as periferias e favelas. É aí que está o problema.

sábado, 5 de maio de 2007 18:46:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Ricardo,

Por coincidência, é um dos próximos assuntos do blog. Muito obrigado pela deixa. Quais são os livros? Você, que certamente leu, poderia discorrer sobre o que eles escreveram?

sábado, 5 de maio de 2007 20:40:00 BRT  

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