segunda-feira, 28 de maio de 2007

A realidade pelo avesso. Ou a reação russa a seu Versailles particular (28/05)

O Estado de S.Paulo publica em suas Notas e Informações um editorial exemplar, pela transparência. O título é Sinais de guerra fria. O texto abre assim:

À margem dos horrores no Oriente Médio, um novo foco de tensão internacional vem se expandindo sem cessar nos últimos meses e semanas. Trata-se da acentuada deterioração das relações entre a Rússia e o Ocidente - a ponto de se poder afirmar, sem exagero, que elas nunca estiveram piores desde o desaparecimento da União Soviética. Aliás, eram melhores ao tempo do último líder da URSS, Mikhail Gorbachev. Agora, no entender de muitos, o clima de crispação, motivado por uma escalada de desentendimentos e acusações recíprocas, ressuscita uma expressão que se imaginava sepultada: guerra fria. (...)

Logo depois, o editorial do Estadão explica por que, no seu entender, as coisas vão mal entre a Rússia e o Ocidente:

(...) Na raiz do novo conflito estão os impulsos pavlovianos do Kremlin para, de um lado, se impor aos antigos Estados bálticos vassalos, como a Estônia e a Lituânia - que não só conquistaram a independência, mas aderiram à Organização do Tratado do Atlântico Norte -, e, de outro, influir nas políticas da União Européia (UE), valendo-se do fato de que a Rússia fornece 25% do gás e proporção crescente do petróleo consumidos pelos membros da UE. A isso se soma o problema militar-estratégico criado pela decisão americana de instalar escudos antimísseis na Polônia e na República Checa, com a plena concordância de ambas, a pretexto de neutralizar eventuais ameaças iranianas. (Continua...)

Vejam só. De 1991 para cá, na onda da restauração desencadeada por Mikhail Gorbatchev, a União Soviética deixou de existir e a Rússia emergiu como importante país capitalista da Europa. Qual foi a resposta européia e ocidental a essa conversão russa?

1) A Europa, especialmente a Alemanha, atuou decisivamente para a fragmentação da Iugoslávia e o isolamento da Sérvia, tradicional aliada da Rússia na região. Naturalmente, os Estados Unidos ajudaram no que puderam.

2) A OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) nasceu no âmbito da polaridade Leste-Oeste. A polaridade deixou de existir com o fim do Tratado de Varsóvia, mas a OTAN está aí, adotando uma política agressiva de expansão para o oriente. O capítulo mais recente é a iniciativa americana de instalar escudos antimísseis em países do leste europeu. O que daria aos americanos e aliados uma vantagem estratégica sobre a Rússia.

3) Todo e qualquer movimento anti-russo em países da antiga União Soviética é apoiado abertamente pelos Estados Unidos e pela Europa. Casos mais recentes são a Geórgia, a Ucrânia e a Estônia. Tais movimentos geralmente deitam raízes nas correntes políticas que colaboraram localmente com a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial. Na Estônia, aliás, as autoridades pró-ocidentais vem de remover os túmulos de soldados soviéticos e o monumento em homenagem à libertação do país, pela URSS, no fim do conflito contra o Eixo. A razão para a remoção do bronze e das ossadas é emblemática: de acordo com o governo atlantista de Tallinn, o monumento supostamente contribuía para dividir a Estônia. Num certo sentido é verdade, já que parte das forças estonianas hoje dominantes descente politicamente de correntes que lutaram ao lado das tropas nazistas na guerra.

Afirmar que a Rússia capitalista adota uma atitude agressiva em relação ao Ocidente é uma tese que carece de demonstração, além de carregar boa dose de humor. O editorial do Estadão, infelizmente, substitui a História pela ideologia. O fato é que a Rússia começa a se reerguer do seu Versailles particular, imposto pelas potências vencedoras da guerra fria. É mais inteligente aceitar esse fato do que tentar enxergar o mundo pelo avesso. Como faz o (como sempre, muito bem escrito) editorial do Estadão.

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9 Comentários:

Anonymous Artur Araujo disse...

Impecável. E é interessante notar como o uso do cachimbo entorta a boca: tantas décadas de discurso anti-russo (leia-se anti-soviético e anti-comunista) que nada os faz ver que levam a Rússia para o colo do nacionalismo eslavo-xenófobo e/ou para o do "glorioso" PCR.

segunda-feira, 28 de maio de 2007 13:17:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Taí um belo post. Mereceria tantas repetições quanto aqueles contra a autonomia universitária e o aborto, acrescentando-se também o tema da redução da maioridade penal. Juntos. Pena que Internacional nunca insufle tanto os ânimos quanto os referidos temas.

S.

segunda-feira, 28 de maio de 2007 13:59:00 BRT  
Anonymous Rodrigo disse...

Coitado dos russos, pensaram tanto que seriam bem recebidos no mundo capitalista...

segunda-feira, 28 de maio de 2007 17:45:00 BRT  
Anonymous Sérgio Rodrigues disse...

Caro Alon:
A chamada "guerra fria" foi, na realidade, um baita "conto do vigário"- além de uma tremenda covardia! - fomentado de forma hábil e ardilosa pela Inglaterra - leia-se Churchil e patrocinado pelos EUA - leia-se Truman - em que a maioria do mundo, inclusive progressistas e gente da esquerda cairam feito patinhos.Chegou em boa hora para Kruschev usá-lo a fim de se fortalecer, juntamente com seu grupo, politicamente. Creio que se Stalin fosse vivo jamais entraria nessa!

segunda-feira, 28 de maio de 2007 20:30:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Esse é um daqueles posts irreparáveis do Alon (para quem pensa à esquerda e não como o Estadão, é claro). Nem dá para acrescentar nada.

segunda-feira, 28 de maio de 2007 21:33:00 BRT  
Anonymous JV disse...

O pessoal aqui lamenta a queda da URSS, mas o pessoal da antiga Europa do leste comeu o pão que o próprio diabo amassou. Tudo que eles querem é nunca mais se subordinar aos russos. A esquerda tupiniquim não sabe (eu sei por relatos de amigos poloneses e tchecos) o que é ser explorado.

segunda-feira, 28 de maio de 2007 23:30:00 BRT  
Anonymous trovinho disse...

Um piloto que estava kamikaze comentou, recentemente, com um conhecido o porquê: você não entra no clube dos ricos pela porta, mas forçando a janela. A União Européia não vai potencializar facilmente as vantagens comparativas russas com euros para depois perder o controle do jogo.

terça-feira, 29 de maio de 2007 05:06:00 BRT  
Anonymous Luiz disse...

Muito bom o post. Quase perfeito.
Faltou lembrar que a turma (ou seria gang?) do Putin não é exatamente um exemplo de democracia e transparência.
Mas daí a cair na mesma conversa de 60 anos atrás, a distância é enorme ...

terça-feira, 29 de maio de 2007 08:27:00 BRT  
Blogger rafael disse...

Quer dizer que quem se opõe no Leste Europeu ao domínio russo é nazista? É uma bela forma de ser simplista.

quarta-feira, 30 de maio de 2007 22:31:00 BRT  

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