quarta-feira, 30 de maio de 2007

Londres, Caracas (30/05)

O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, vai deixar o cargo mês que vem, depois de uma década no poder. Não haverá nova eleição para esolher o sucessor. Ele será indicado pelo Partido de Blair, o Trabalhista. É Gordon Brown, também há dez anos ministro da Fazenda. Blair terá permanecido bastante tempo no poder no Reino Unido, mas menos do que a conservadora Margareth Thatcher (quase 12 anos) . Registre-se que Blair vai deixar o governo por causa de sua anemia política. Estivesse forte, não haveria limite para sua permanência, desde que periodicamente referendada nas urnas. Pessoalmente, não gosto de o sujeito ter o direito de permanecer no poder por tempo indeterminado. Eu prefiro o sistema americano, que também vigora no Brasil: dois mandatos de quatro anos, com uma eleição no meio. Aliás, o Brasil poderia copiar dos Estados Unidos um outro detalhe: aposentadoria para o político que completa dois mandatos na Casa Branca. Voltando ao Reino Unido, o país exibe ainda uma vistosa rede estatal de rádio e tevê, a BBC. Ela tem alcance mundial. Bem, não conheço quem esteja disposto a denunciar o Reino Unido como uma "ditadura" por esses dois detalhes, a falta de limites temporais para o exercício do poder e a influência estatal na comunicação social. Portanto, não vejo motivo para, com base em fatores semelhantes, sair por aí dizendo que a Venezuela é -ou caminha para tornar-se- uma ditadura. A Venezuela ostenta eleições periódicas, multipartidarismo, imprensa plural e liberdade de associação. Mas a Venezuela certamente tem os seus problemas. O principal deles é o apodrecimento político de uma elite que saqueou os recursos naturais (petróleo) do país por décadas e reagiu de modo golpista quando a maioria da população, nas urnas, decidiu que era hora de dar um basta no banquete. Recorde-se que só depois de contragolpear vitoriosamente o golpe de estado de 2002 Hugo Chávez conseguiu dissolver e remover a panelinha que monopolizava a PDVSA, a Petrobrás deles. São os fatos. A América do Sul vive um período de transformação. Há quem lamente o colapso das idéias liberais no continente. Eu me incluo entre quem lamenta que a elite liberal sul-americana não tenha conseguido, em séculos, vincular-se ao povo para perenizar as boas idéias que o liberalismo trouxe à humanidade. Mas não concordo que nosso continente esteja assistindo à reemergência de um tal "perfeito idiota sul-americano", como gostam de caracterizar alguns. O que emerge entre nós é o protagonismo de massas populares secularmente esmagadas, especialmente povos indígenas nos países andinos (e outros de colonização espanhola) e negros em países com tradição escravocrata. É preciso lidar com essa nova realidade de modo democrático e tolerante. Nem que seja só por realismo político.

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14 Comentários:

Anonymous Fernando José disse...

Perguntinha chata, Alon: você viu o primeiro dia de programação na nova tv estatal que entrou no lugar da RCTV? Se você acha que aquilo ali é "BBC", sugiro você mudar seus padrões de análise.
Você estava indo muito bem, mas nesse texto você teve uma recaído de esquerdismo que eu já julgava sepultado. Se é tudo tão democrático na Venezuela porque os tanques de guerra para reprimir os manifestantes pró-RCTV?

quarta-feira, 30 de maio de 2007 09:44:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Chavez usou das mesmas prerrogativas do presidente anterior que, no passado, fez a concessão à RCTV.
Quem se diz insatisfeito deveria defender mudanças nos critérios de concessão, em vez de defender os interesses dos donos da RCTV e do coro corporativista que fazem todos os demais donos de concessões de TVs mundo afora.
Discutir se uma concessão deve ser dado a A situacionista ou B oposicionista, é fazer política. E para isso existem os partidos.
Que tal discutirmos como deveriam ser as regras para concessões de TV, livre das prerrogativas do governo do momento?
Porque não em leilão? Imaginem quando a Globo, a Band, o SBT, a Record (e suas afiliadas) tivessem que renovar: teriam que disputar a concessão no livre mercado em leilão.
A concessionária anterior poderia até dispor de alguma opção preferencial, como ter o direito de não participar do leilão e decidir cobrir ou não o maior lance, encerrado o leilão, pagando 5% ou 10% a mais.
O direito de transmissão de Olimpíadas, Copa do Mundo, Campeonato Brasileiro, já é feito em leilão.
Mas esse assunto deve ser bastante indigesto ao bolso dos atuais concessionários, que preferem disseminar jurisprudência de considerar a renovação um direito adquirido, sob falsa alegação de cerceamento da liberdade de imprensa.
Então fica bem mais interessante alardear uma pseudo censura e criticar a qualidade do novo canal, comparado à programação da BBC. E será que a antiga RCTV também era do nível da BBC, para lamentar tanto? Pelo menos, eu nunca ouvi falar da BBC ter participado de um golpe contra sua majestade.

quarta-feira, 30 de maio de 2007 12:08:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Até onde sei, Blair não tentou calar a imprensa anti-guerra ou caçou concessões dos que pediam sua renúncia. Até onde sei, a BBC não faz programas hagiográficos sobre a "revolução bolivariana". Não dá para comparar ser oposição na Venezuela e na Inglaterra. Até porque no primeiro caso, vc pode ser preso.
E o fato da elite venezuela ser ruim não justifica a atuação do ex-golpista Chavez del Ocho. Se for assim, o nazismo se justificaria pela incompetência dos liberais alemães da era Weimar.

quarta-feira, 30 de maio de 2007 12:21:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Fuerwerker, você está de gozação conosco, né? Comparar a democracia da Inglaterra com a da Venezuela? A Venezuela já é uma ditadura. A Inglaterra tem uma constituição (a mesma) há séculos, com limites claros ao poder executivo. A Venezuela tem uma constituição bolivariana há alguns poucos anos, com poderes ilimitados ao Chávez. Não por acaso, foi o Chávez que impôs essa constituição, apoiado pela população estusiasmada pela demagogia e pelo bolsa família dele. Alon, meu caro, processe o teu oculista...
Sds., de Marcelo.

quarta-feira, 30 de maio de 2007 13:35:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Repressão sem tanques seria mais tolerável que repressão com tanques? Ou seria melhor repressão nenhuma, talvez até deixando a elite retomar um canal de TV que é do Estado?
Como bem disse Eugêncio Bucci, em seu peculiar estilo, toda TV estatal é chata, inclusive a BBC. Não há possibilidade de comparação entre uma TV que atua há mais de cinquenta anos e uma que entrou no ar ontem.
O problema é que a imprensa já fechou questão, como fez com a Emenda 3, a "baderna" dos estudantes da USP, a falta de polidez do Lula com o papa (imagine não lhe beijar a mão, se até Carlos Magno o fez!)...
Saudações anônimas,

quarta-feira, 30 de maio de 2007 13:40:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alguns de vcs. estão confundido canal de TV (emissora) com espectro de frequências eletromagnéticas dentro de uma banda determinada. Há frequências de sobra na banda VHF, ainda mais com o controle digital que pode até subdividir uma frequência. O "canal de TV" depende de muitos investimentos em equipamentos e programação, depende de anunciantes e de público espectador. A concessão oficial é para o uso de uma frequência determinada. O canal, a emissora, bem, isso precisa ser montado pelos interessados.
de MaRCELO.

quarta-feira, 30 de maio de 2007 14:03:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caros, aqui neste blog atirar pedras não adianta. Aui as polêmicas não são resolvidas no braço. Eu fiz algumas perguntas que até agora não foram -creio- satisfatoriamente respondidas. A concessão deve ser eterna? Ou quem concede deve ter o direito de não renovar a concessão? Veículos de comunicação que operam concessões públicas devem se meter em tentativas de golpe de estado? Caso sim, o governo que resistiu ao golpe de estado deve ter o direito de -dentro da lei- não renovar a concessão? O debate é prático, não teórico.

quarta-feira, 30 de maio de 2007 18:56:00 BRT  
Anonymous Fernando José disse...

Alon, os venezuelanos fizeram com Chaves o que ele jamais faria pela RCTV: perdoaram-lhe, depois de ele tentar dar um golpe no País. Agora, ele retribui a generosidade da sociedade venezuelana...fechando um canal de TV. Pode ser legal, mas não é legítimo (como vocês de esquerda gostam de dizer he-he).
Ele poderia suspender a programação por uma semana, por exemplo. Felizmente, para o futuro da Democracia, na América Latina ele jogou errado, despertando a ira do povo venezuelano. Caiu sua máscara de ditador. Lá como cá, o povo não pode ficar sem ver o último capítulo da novela...

quarta-feira, 30 de maio de 2007 20:36:00 BRT  
Anonymous Vinícius Tavares disse...

Faço inteiramente minhas as suas palavras, Alon.

quarta-feira, 30 de maio de 2007 21:02:00 BRT  
Blogger rafael disse...

Acho que cabe uma questão preliminar: Cabe a qualquer governo decidir quem pode ou não ter um canal de TV?
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Quanto a comparação entre o Parlamentarismo britânico e o Monstrenguismo bolivariano, acho descabida. O equílibrio entre os poderes na Inglaterra é outro que não existente na Venezuela. Basta ver como está o Judiciário nos dois países.
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Você quer dizer que a emergência dos negros brasileiros resultou em Lula?

Abs,

quarta-feira, 30 de maio de 2007 22:25:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

rafael,

"Cabe a qualquer governo decidir quem pode ou não ter um canal de TV?"

Essa discussão nunca foi levantada pré-Chavez, quando a RCTV e todas as outras GANHOU a concessão, provavelmente por ser dócil e afinada com o governo de então.

A regra valeu para GANHAR a concessão, mas não vale para PERDER?

O mal da direita é que só aceitam as regras que ela mesma faz, enquanto a favorece. Quando a esquerda chega ao poder, e utiliza-se das mesmas regras, querem virar a mesa.

quarta-feira, 30 de maio de 2007 23:30:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Não entendi o paralelo. O Tony Blair fechou algum canal de televisão porque esse lhe fazia oposição?

quinta-feira, 31 de maio de 2007 08:34:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Não, anônimo. Tony Blair não fechou nenhum canal de televisão. Possivelmente porque nenhuma empresa de comunicação tenha tido a idéia de aplicar um golpe de estado no premiê para derrubá-lo do poder. Um abraço.

quinta-feira, 31 de maio de 2007 08:58:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Os meios de comunicação social ingleses descem o pau no Blair, sem a menor piedade. Principalmente pelo apoio que ele deu ao Bush. E nenhum canal de TV teve sua concessão não renovada. Democracia é isso. O resto é ato institucional. Onde um jornalista pode trabalhar com mais segurança e liberdade, na Inglaterra ou na Venezuela?
De Marcelo.

quinta-feira, 31 de maio de 2007 10:01:00 BRT  

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