quarta-feira, 9 de maio de 2007

Joseph Ratzinger (09/05)

Bento 16 está no Brasil. É bom que o nosso país receba a visita de um Papa. É uma oportunidade para que assuntos da esfera espiritual se imiscuam no nosso cotidiano material. Em vez de reforma política, sucessão presidencial e PAC o noticiário vai se deter por alguns dias em assuntos relacionados à vida, à alma e à transcendência. Não sou nem nunca fui católico. Portanto, não estou nem nunca estive sob a jurisdição espiritual dos sucessores de Pedro. Se você tampouco pertence à Igreja de Roma você sabe como é complicado não ser católico no Brasil. O que eu acho ou deixo de achar do Papa não tem nenhuma importância. Mas permitam-me dizer que eu gosto de Bento 16. Ele foi sábio ao reconhecer que Karl Marx lançou luzes sobre o conceito de alienação -ainda que, naturalmente, o Papa tenha advertido sobre as limitações que o materialismo colocava ao pensamento do conterrâneo. Também culpou com todas as letras o imperialismo europeu pela desgraça da África (ponto em que ele está à esquerda de Lula). O antecessor de Bento 16 passou à História principalmente por ter ajudado a derrubar o comunismo na Europa. Mas eu não tenho certeza de que Roma esteja feliz com o que veio depois, com o resultado de sua obra. A Igreja européia está em baixa. No leste do Velho Continente a versão dialética do materialismo foi substituída por aquele outro materialismo, mais popular. Consumismo, hedonismo e racismo estão em alta. Sem o socialismo a amaciar as relações entre Ocidente e Oriente, Bento 16 teve até que dar uma canelada no Islã. É dura a vida do Santo Padre. Eu até entendo que os defensores de uma Igreja mais universal torçam o nariz para a Teologia da Libertação. Tudo bem que é mais fácil o camelo passar pelo buraco de uma agulha do que o rico merecer o Reino dos Céus, mas dividir qualquer igreja entre ricos e pobres é desumano e cruel. Afinal, Deus é de todos -e não é porque o sujeito venceu na vida que ele deva ser condenado ao inferno. Eu compreendo que alguns se preocupem quando a Igreja se mete demais na política. O que eu não entendo é por que os mesmos que pedem mais "espiritualidade" e "despolitização" quando a Igreja pende à esquerda exultem tão vibrantemente quando Roma envereda pelo anticomunismo. Meus respeitos a Joseph Ratzinger. Só uma coisa: seria uma pena se o Supremo Tribunal Federal (STF) se deixasse influenciar pelo ambiente da visita papal e vetasse as pesquisas com células-tronco embrionárias. O Brasil deve rejeitar esse ponto obscurantista da agenda de Bento 16 para nós. Eu gostaria que Luiz Inácio Lula da Silva resistisse a essa imposição vaticana, tão firmemente como resiste o presidente à evidência de que está errada a sua posição sobre antecipar a maioridade penal.

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10 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Já eu, Alon, tenho a certeza de ser católico. Tanto que quando me tornei ateu inscrevi-me no Partido Comunista, a organização mais parecida com a Igreja Católica na minha época. E até hoje pratico coisas como unidade, não-dissensão, pouco debate, etc. Nosso tão comentado Stálin, de uns posts atrás, também era católico, só que ortodoxo, o que é pior um pouco. Por isso agiu como agiu quando assumiu o poder total na URSS.
Entendo que o Bento XVI ainda é uma incógnita, e seu post é sintomático disso; ninguém o entende bem. Além de Marx, citou Nietzsche também; tudo indica que tem uma abertura de espírito maior do que se pode imaginar dada sua passagem marcante pelo cargo de Inquisidor-Mor. Aliás, o próprio Boff reconheceu que sua extenuante conversa com o então cardeal Ratzinger foi permeada pela gentileza do começo ao fim.
Acho que a Igreja não está mesmo contente com o que veio depois do comunismo. Até porque sua ideologia é contrária ao capitalismo desde o início, de forma que se pode dizer que, antes de anticomunista, foi e é anticapitalista, em mais de um aspecto.
O ataque ao islã eu até agora não entendi. Meu pareceu meio fora de propósito, sob qualquer ponto de vista, inclusive o da própria ICAR.
É uma pena que questões tão importantes para a humanidade, como as pesquisas com células-tronco, bem como posições mais aceitas hoje pelas outras religiões monoteístas, como é o caso do aborto, divórcio, etc. ainda mereçam a condenação da ICAR. Mas isso é assim mesmo. Lá pelo século XII não permitiam dissecação de cadáveres, para não conspurcar a morada de Deus, permitindo mortes ridículas, como por apendicite, do mesmo jeito que hoje permitem a expansão da AIDS. (A propósito, para quem gosta de falar mal de islâmicos e comunistas, interessante assistir a um filme tadjique chamado Luna Papa, para ver que as coisas não são tão como se pinta na imprensa hoje.)

Mas acho que o Bento ainda nos fará algumas surpresas. Resta saber se serão mais boas que ruins ou exatamente o contrário.

S.

quarta-feira, 9 de maio de 2007 21:59:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

A maioridade penal que precisa ser antecipada é a dos membros de todo o sistema judiciário, incluindo ai a polícia.

Se eu não estiver enganado, atualmente eles são inimputáveis até os 100 anos. Não há furacão que os detenha.

quinta-feira, 10 de maio de 2007 11:17:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

O que não gosto na pregação do Papa é do lobbie da Igreja (que, aliás, não exclusivo da católica), querendo influir diretamente nas instâncias de Estado para inserir nos códigos jurídicos assuntos da consciência individual ou de grupos extra-religiosos, extra-católicos, como o aborto , sexualidade, divórcio, etc.
A Igreja precisa agir na consciência dos indivíduos, sobretudo de seus fiéis. Esses fiéis, como cidadãos, é que devem votar nos legisladores de acordo com suas convicções.

quinta-feira, 10 de maio de 2007 13:03:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

José Augusto

Comentário certeiro. Foi-se o tempo da inquisição. A Igreja fala de assuntos relativos a sua doutrina. Segue as orientações da Igreja católica quem quer seguir. São assuntos, portanto, pertinentes à consciência do indivíduo e sua fé religiosa.

Por outro lado, parabenizo Lula que acatou a orientação do Itamaraty e esquivou-se de assinar com o Vaticano a tal concordata. Espero em Deus, como cristão católico que sou, que isso nunca venha acontecer.

abs.

quinta-feira, 10 de maio de 2007 15:51:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Fico mais de um mês sem passar por aqui e, quando volto, vejo que você ainda está nessa da maioridade penal (e em um post sobre a visita do papa!!). Ao menos, agora (depois do impacto emocional), há algum argumento sólido para a diminuição?
abs,

quinta-feira, 10 de maio de 2007 16:28:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Alguém sabe me dizer quando foi a última vez que as ruas de Roma foram fechadas para o papa passar?

Lá ele não sai de casa, e só aparece na janela. O papamóvel não sai da garagem. Os romanos não deixam.

sexta-feira, 11 de maio de 2007 10:44:00 BRT  
Anonymous ezequiel vieira disse...

Nao conheço nada na biblia que fundamente a teologia da libertação - até por que por lá tb tem que Deus nao faz acepção de pessoas

Acredito que a pobreza requerida seja muito mais como reconhecimento da ausencia do, vá lá, divino na vida cotidiana, do que propriamente um pressuposto material para entrar no tal do reino dos ceus.

Pela narrativa biblica, os filisteus reconheceram a presença de Deus em Isaque pq tudo o que ele fazia dava certo, multiplicava a cento por um

sexta-feira, 11 de maio de 2007 12:18:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Estudo promovido pelo Centro Americano de Controle e Prevenção de Doenças, publicado no Jornal Americano de Medicina Preventiva, oferece uma perspectiva interessante para se observar - sob o enfoque da saúde pública - os efeitos de se tratar jovens e crianças com remédios para adultos.

Aqui no Brasil, muitos médicos e juristas que acham desnecessária a prescrição de medicamentos pediátricos. Para eles, a dose máxima resolve tudo.

É bom eles conheceram desde já os efeitos colaterais descobertos em outros países. Afinal, dada a nossa insuficiência tecnológica, sempre acabamos tendo que importar nossos remédios - como o efavirenz da Índia, como você observou em outro post.

http://www.nytimes.com/2007/05/11/opinion/11fri2.html?_r=1&th&emc=th&oref=slogin

May 11, 2007
Editorial
Juvenile Injustice
The United States made a disastrous miscalculation when it started automatically trying youthful offenders as adults instead of handling them through the juvenile courts. Prosecutors argued that the policy would get violent predators off the streets and deter further crime. But a new federally backed study shows that juveniles who do time as adults later commit more violent crime than those who are handled through the juvenile courts.

The study, published last month in The American Journal of Preventive Medicine, was produced by the Task Force on Community Preventive Services, an independent research group with close ties to the Centers for Disease Control and Prevention. After an exhaustive survey of the literature, the group determined that the practice of transferring children into adult courts was counterproductive, actually creating more crime than it cured.

sexta-feira, 11 de maio de 2007 13:06:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, segura o homem senão virá por ai um PAC XVI.
Sotho

sexta-feira, 11 de maio de 2007 14:25:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, como você pode ver nos EUA
também existem os utópicos,sonhado-
res e pior :os que distorcem a
realidade dos fatos.
Afinal a "tolerância zero" do
Giuliani,não fez cair de forma
drástica a criminalidade em NY ?

sábado, 12 de maio de 2007 11:43:00 BRT  

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