domingo, 6 de maio de 2007

Hora de nocautear os juros e uma turma que não toma jeito (06/05)

Até eu, um ferrenho defensor da política econômica do governo Luiz Inácio Lula da Silva desde sempre, devo admitir: não há razão técnica que impeça o juro básico de ser fortemente nocauteado nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária. Não há mais por que supor que a derrubada dos juros reais para um paratamar de seis pontos percentuais aceleraria a inflação nas condições atuais. Está em reportagem de hoje d'O Estado de S.Paulo (Enxurrada de dólares invade País e desafia BC):

O risco Brasil praticamente desapareceu em alguns tipos de operações que exploram a diferença entres os juros nacionais e os internacionais. Diante dessa situação, é muito difícil para o Banco Central (BC) se contrapor à enxurrada de dólares que está entrando no Brasil e pressionando para baixo a taxa de câmbio. 'Quanto mais baixo o risco, maior tem que ser a intervenção do governo para evitar que o câmbio se valorize; como ninguém mais tem medo de levar calote, a oferta para esse tipo de aposta (nos juros brasileiros) é muito grande', diz Armínio Fraga, ex-presidente do BC, hoje à frente da Gávea Investimentos. Fraga nota que o prêmio de risco para aplicações de um ano no Brasil, medido pelos swaps de default, está em apenas 0,20 ponto porcentual. 'Não há registro histórico de um risco tão baixo', ele observa.

Assunto resolvido. O que eu não entendi no texto é a ginástica que se faz para justificar o juro alto mesmo numa conjuntura tão benigna. Diz a reportagem:

'É um ataque especulativo doce', diz Beny Parnes, diretor-executivo do banco BBM e ex-diretor da área externa do BC. Há consenso de que a pressão de alta do real não deriva só do juro, mas, sobretudo, dos fundamentos econômicos: uma combinação excepcionalmente benigna da grande valorização das matérias-primas e insumos que o Brasil exporta com um ambiente internacional de imensa liquidez. 'O BC está tentando suavizar a trajetória do câmbio, mas, na atual conjuntura, isso é uma tarefa muito, muito difícil', resume Parnes.

Ora, se os sólidos fluxos comerciais e a liquidez internacional garantem a entrada de dólares suficientes para manter a estabilidade e o crescimento, por que não reduzir os juros? Aliás, se os fundamentos vão bem, é perfeitamente possível rever também o saudável (no período passado) dogma de que não poderíamos em nenhuma hipótese nos endividar mais. Hora de mudar o discurso e a política. O Brasil fez tão bem a sua lição de casa (obrigado, ministro Palocci) que já readquiriu capacidade de endividamento. Ou seja, poderíamos atacar uma eventual pressão de liquidez decorrente da queda dos juros com a emissão de mais dívida. Sem prejudicar o combate à inflação ou o crescimento. Mas a reportagem não poderia, é claro, deixar de apresentar o argumento dos bancos, de que a cautela ainda deve estar em primeiro plano:

Não há, porém, a convicção generalizada de que o ritmo mais intenso de queda dos juros conterá a valorização cambial. Para Octavio de Barros, diretor do Bradesco, 'o que está atraindo investidores é justamente o fato de os juros estarem em queda, abrindo perspectivas inéditas para os negócios empresariais em todos os setores'. Na visão dele, a economia brasileira está migrando do viés rentista (já que os juros caem ininterruptamente desde setembro de 2005) para um foco cada vez maior nos negócios e empreendimentos. Assim, uma economia cada vez mais saudável pode aumentar ainda mais a atração de capitais e a valorização do real. A recomendação de quase todos os economistas ouvidos pelo Estado - que passa longe da agenda atual do governo - é cortar tarifas de importação e reduzir os gastos públicos.

Clique aqui para ler a íntegra da reportagem. Eu achei curioso esse raciocínio do diretor do Bradesco. Quer dizer que não devemos baixar os juros se não tivermos a certeza de que essa queda vai influir decisivamente no câmbio? Mas baixar os juros não é uma coisa boa de per si, desde que não traga mais inflação? É uma dúvida sincera, talvez nascida da minha ignorância econômica. E tem também os "economistas ouvidos pelo Estado", que defendem "cortar tarifas de importação". Essa eu não entendi de jeito nenhum. Ou entendi. A sugestão deles é mais ou menos o que segue. Cortam-se tarifas de importação, as importações ficam mais baratas, importa-se mais, o saldo da balança comercial decresce, diminui a entrada líquida de dólares, diminui a pressão sobre o câmbio. Ou seja, sacrificar ainda mais os empregos no país para que os juros possam continuar altos o suficiente para garantir os gordos rendimentos do senhor Barros, dos amigos com quem ele, possivelmente, joga golfe (simbolicamente falando, é claro) e dos "economistas ouvidos pelo Estado". Essa turma não toma jeito mesmo.

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5 Comentários:

Anonymous JV disse...

Dê uma lida na reportagem com o presidente do BC, nas páginas amarelas da VEJA.

domingo, 6 de maio de 2007 16:08:00 BRT  
Blogger Silvio disse...

A verdade é que a Diretoria do BC perdeu todos os argumentos existentes pra manter a atual política monetária conservadora (chega a ser heterodoxa de tão ortodoxa). Toda e qualquer base na realidade pra sustentar o discurso dos juros altos se foram. A inflação está em queda e ABAIXO da meta, não se pode falar em receios em não conseguir cumprir esta meta. O dólar rompe a barreira dos R$ 2,00 não importanto o quão forte o BC intervenha no mercado de câmbio.

O presidente do BC e representade dos banqueiros, vendo toda esta situação, concede uma entrevista pornográfica a revista símbolo de proteção aos interesses nacionais (Veja). Argumenta que os juros devem cair de forma muito lenta, suave e gradual só pra não contrariar os interesses dos rentistas.

segunda-feira, 7 de maio de 2007 12:01:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Eu também acompanho seus movimentos, Alon. Também defendi a política econômica sóbria do primeiro governo por achá-la uma necessidade técnica, independente de paixões políticas.
Mas agora também já não consigo ver mais álibis possíveis que resistam a manter juros elevados. Na atual conjuntura, abaixar os juros é que parece ser uma decisão necessariamente técnica. Mantê-los altos é decisão política de submissão à lobbies.

segunda-feira, 7 de maio de 2007 13:00:00 BRT  
Anonymous Luis Hamilton disse...

Alon,

Fico feliz por você ter mudado de opinião. Já não existem argumentos técnicos para manter os juros altissimos, desde que a inflação do ano passado ficou em 66% da meta - provando que o risco inflacionário é realmente pequeno.

Abraço,

terça-feira, 8 de maio de 2007 10:57:00 BRT  
Blogger alberto099 disse...

Caro Alon, quisera comentar a questão cambial, a folga que hoje se abre no que tradicionalmente é o principal gargalo ao nosso crescimento, mas parece que a taxa de juros continua sendo o ponto difícil. A política monetária nunca foi tão “técnica” como é hoje, sua administração homeopática decorre justamente de uma limitação técnica inescapável: o instrumental que tenho para dizer que taxa de juros hoje produzirá a meta inflacionária amanhã é muito precário. O ritual em torno das reuniões do Copom serve justamente para dar densidade uma decisão que tem por base previsões algo próximas do chute. Se você caminha no escuro, dentro de um cômodo do qual tem um vago conhecimento, vai sair correndo para bater mais rapidamente na parede? A Selic hoje é a mais baixa de todo o real e continua em queda, mais que isso, a última reunião do Copom sinalizou que pode aumentar a velocidade de redução. Juros, hoje, é assunto fora de pauta, a não ser para os que insistem nos mitos de que o BC obedece a um pequeno grupo de rentistas, ou de que o lucro dos bancos vem do patamar dos juros.

sábado, 12 de maio de 2007 10:44:00 BRT  

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