terça-feira, 15 de maio de 2007

Expectativa de poder (15/05)

Razões profissionais fizeram com que pudesse assistir à entrevista coletiva de Luiz Inácio Lula da Silva esta manhã no Palácio do Planalto. O presidente voltou a invocar a "saúde pública" para explicar por que apóia o debate sobre a ampliação do direito de abortar. Comentaristas deste blog, em posts anteriores, já derrubaram o subterfúgio presidencial. Se o aborto ilegal é mesmo um problema agudo de saúde pública, o governo peca por omissão ao não enviar imediatamente ao Congresso Nacional uma proposta com as alterações constitucionais necessárias para enfrentar o mal. Mas Lula já disse que não vai mandar nenhuma proposta sobre o aborto. Então, necessariamente, ou Lula está se omitindo intencionalmente num assunto grave de saúde pública ou o governo não considera o aborto ilegal um problema de saúde pública que mereça atenção especial imediata. Sinceramente, era melhor fazer esse debate na base do a favor e contra. De modo transparente. Mudando de assunto, a coletiva do presidente foi uma radiografia da situação política do país. Lula está forte. Porque faz um bom governo. Mas Lula não é candidato à sucessão de Lula. E o poder tem certas leis. O poder se enfraquece ao longo de um mandato, enquanto se fortalece a expectativa de poder. A reeleição é boa nesse aspecto. O governante consegue manter agrupadas as forças políticas, porque além de poder ele carrega expectativa de poder. Já escrevi aqui que Lula atravessou o primeiro mandato também porque podia disputar a reeleição. E, portanto, tinha expectativa de poder a oferecer. Mas agora não tem mais, ao menos diretamente. É por isso que o presidente deixou bem claro: vai trabalhar para que sua base política apóie um único candidato em 2010. E vai trabalhar duro para eleger o sucessor. Lula tem uma base parlamentar e política ampla. Ela permanecerá razoavelmente coesa enquanto a proximidade com o presidente representar um passaporte seguro para 2010. Se Lula lograr unir as forças que o apóiam em torno de um único nome para sua sucessão, terá realizado uma gigantesca obra de engenharia política. Mas ele próprio sabe que pode, eventualmente, falhar nessa empreitada. Trata-se, então, de adiar ao máximo a chegada do dia em que os companheiros de viagem dirão adeus -ou pelo menos até logo. Está aí também uma das razões para o inteligente jogo dos tucanos José Serra e Aécio Neves. Ambos operam momentaneamente nas margens da caravana de Lula. Tentam não ficar expostos em campo aberto à mercê das bombas inimigas (ou adversárias, para usar a linguagem amigável do presidente). Divirto-me quando jornalistas (e políticos sem poder) exigem de ambos os presidenciáveis do PSDB que se atirem de peito aberto contra as ainda compactas legiões lulistas. Na política, a sorte sorri mais a quem sabe defender sua própria agenda. Ainda que isso torne mais difícil a vida dos jornalistas. Mas o mundo não gira ao redor dos jornalistas, mesmo que algumas vezes isso nos cause algum desconforto no fechamento.

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10 Comentários:

Blogger Cesar Cardoso disse...

Serra e Aécio sabem que a oposição está desarticulada, o PSDB ainda não se recuperou da derrota, o ex-PFL está 'na muda', os partidos menores da oposição estão sem saber o que fazer; a oposição ganhou duas CPIs de presente da sempre enrolada base governista e está olhando pra elas, como que perguntando 'o que faço com isso aqui?'.

O problema é que a ficha ainda não 'caiu' para os políticos sem poder. Ainda acham que têm algum poder. E essa ilusão de poder é alimentada pelos jornalistas que, dia sim outro também, vão perguntar a eles sobre a vida, o Universo e tudo o mais.

Esse é o problema de Serra e Aécio: precisam calar os políticos sem poder, e para que isso aconteça precisam que a impresa esqueça deles. Mas como?

E essa sua frase final é ótima: "Mas o mundo não gira ao redor dos jornalistas, mesmo que algumas vezes isso nos cause algum desconforto no fechamento." HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

terça-feira, 15 de maio de 2007 20:16:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Não considero subterfúgio invocar a saúde pública no aborto ilegal, é pelo menos, um argumento a mais, inclusive porque o Brasil é oficialmente signatário de documento da Conferência da População da ONU (1994, ainda no governo Itamar Franco), em que o aborto inseguro é previsto como um problema de saúde pública.
Acredito que o Governo Lula tentou fazer um lance de esperteza ao colocar o assunto em discussão na sociedade com maior visibilidade e o menor desgaste possível. O PPS emitiu nota defendendo a descriminalização em seu site. O PFL (a cúpula), que parece encantado com a vitória conservadora de Sarkozy na França, defendendo o fim da era 68, e parece querer trilhar esse mesmo caminho conservador, fechou questão contra o aborto. Os demais partidos parecem ter submergido.
Lula recuou ao dizer que não enviará projeto ao Congresso? Talvez não. No Congresso já existem 19 propostas neste tema. Desde a legalização do aborto em qualquer circunstância até o endurecimento da lei atual, com punição inclusive para os casos de gravidez resultante de estupro (hoje permitida por lei). Dois deles me parecem já atender o que o governo tem proposto:
- nº 1135/1991- Eduardo Jorge - Aborto deixa de ser crime (Comissão de Seguridade Social e Família)
- nº 1494/2004 - Gerson Camata (PMDB-ES) - Convoca plebiscito sobre o aborto (aguardando entrada no plenário do Senado)
Observemos os próximos lances. Se o governo não se empenhar para mobilizar a base governista na apreciação destes projetos, haverá recuo. Do contrário, não haverá recuo de fato, e Lula utilizou-se da língua portuguesa para ficar bem, com a imagem de possível recuo, principalmente diante dos católicos, parecendo ter atendido a um apelo do Papa.
Quanto ao tema central do post, excelente análise da agenda sucessória. E acrescento que além de 2010, ainda há as pretensões eleitorais de 2008 dos não tão presidenciáveis. Qualquer político que tenha chances, não quererá chegar no pleito carregando a bandeira de anti-Lula. É suicídio eleitoral. Anti-Lula na atual conjuntura, só tem sentido para candidatos proporcionais interessados em demarcar território à direita.

terça-feira, 15 de maio de 2007 20:28:00 BRT  
Anonymous Sergio Moreira disse...

Sou seu leitor assíduo e já percebi que sobre determinados temas, como esse do aborto, suas posições beiram a infantilidade, apoiando-se excessivamente em silogismos sem verdadeiro conteúdo.
Já sua análise política não raro é de ótima qualidade. De qualquer modo, desejo que aceite meus parabéns pelo seu trabalho.

terça-feira, 15 de maio de 2007 22:13:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Alon, você viu mais essa? Estão especulando por aí o nome do Henrique Meirelles candidato a sucessão de Lula.
Até o campo da direita está procurando um candidato capaz de apresentar-se ao eleitorado identificado com o governo Lula, fechando o espectro ideológico de pré-candidatos.
Assim está difícil encontrar em 2010 algum candidato viável que antagonize de fato com o atual governo. Pedir a Serra e Aécio que façam esse papel, realmente é muito divertido.
Errata em meu comentário anterior: Anti-Lula na atual conjuntura, só tem sentido para candidatos proporcionais interessados em demarcar território, tanto à direita, como à esquerda (como o PSOL, PSTU, PCO).

quarta-feira, 16 de maio de 2007 12:02:00 BRT  
Blogger Cesar Cardoso disse...

josé augusto: não sei quem propôs o presidente do BC para 2010, mas quem quer que seja, andou consumindo algo 'do bom'. A 'direita lulista' tem, certamente, nomes bem mais consistentes para 2010.

Com relação à questão do aborto, penso que, no fundo, Lula quer que o Congresso aprove um plebiscito. O problema é que o plebiscito da venda das armas ainda está vivo na memória de boa parte da cúpula do governo, particularmente na 'neutralidade' que o governo teve que tomar para diminuir o tamanho da derrota.

E voltando a 2010: no pior caso, o Lula segue o exemplo dado pelas forças que o apóiam em Pernambuco: lança dois candidatos da base. Garante, no mínimo, um segundo turno em que a oposição vai ficar sem a chance de receber votos transferidos.

quarta-feira, 16 de maio de 2007 13:33:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Me permita especular.

Penso que Lula voltou atrás na questão do plebiscito porque não teve como enfrentar as pressões de Bento XVI. Lula dizer-se pessoalmente contra o aborto e, ao mesmo tempo, querer separar sua pessoa da do chefe do executivo para Igreja sempre vai soar como: "um católico que acende uma vela a Deus e outra para o diabo.

Há um fato que vocês não católicos precisam considerar: D. Marisa Lula da Silva levou o terço que usou no casamento para ser abençoado pelo Bento XVI.

Inocentes são aqueles que imaginam que Bento XVI abençoaria o terço apenas pelo "passado de lutas" do nosso presidente. Bento XVI não é "progressista", não é "socialista". Ele é o Papa da Igreja Católica.

A concordata que o Vaticano pretendia assinar com Estado brasileiro é impossível de ser aceita até por católicos. Não são poucos os católicos que defendem a laicidade do estado brasileiro. Acho que foi feito um acordo do tipo: "eu não assino mas em troca eu volto atrás sobre a questão do plebiscito que não será matéria de projeto do executivo".

Não vamos esquecer que Lula conta com apoio de parte importante da Igreja católica brasileira. Não vamos esquecer que esse apoio é importante para o Lula. Vamos imaginar o peso político de uma declaração oficial de condenação a Lula pelos Bispos reunidos em Aparecida. Mesmo a chamada "igreja progressista" deve obediência ao Papa. Quem não entende o significado da hierarquia na Igreja católica não sabe nada sobre catolicismo.

Os não crentes lulistas têm que aceitar o fato que Lula cedeu aos católicos. No entanto, alguém sempre poderá dizer que a "política é a arte do possível" para explicar a situação. Mas o fato é que Lula teve que ceder.

Sobre o assunto das oposições, eu só sei que nada sei. Desisti de entender.

PS: José Augusto, não sei não. Na hora do aperto, os esquerdistas pulam de mala e cuia para o lado do Lula. Na hipótese de uma candidatura oposicionista ganhar força, para que lado você acha que eles penderão?

abs.

quarta-feira, 16 de maio de 2007 13:48:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Parece que 2010 já chegou e estamos ainda próximos dos meados de 2007. Talvez seja o momento de propor uma presidência Dupla, Trina, ou Quádupla,ou Quintúpla, ou...Tal como na Regência, que começou com a Una. Lá houve a maioridade do Principe, que alguns ainda chamam de golpe da maioridade. Agora, parece, almejam dar o golpe da minoridade...Ao País, uma vez que a profusão de regentes tutores não arrefece.

quarta-feira, 16 de maio de 2007 15:53:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Enviei hoje no começo da tarde um comentário que não fere os estatutos da nossa querida gafieira. Não foi publicado.

quarta-feira, 16 de maio de 2007 16:26:00 BRT  
Anonymous Richard disse...

Hesitei em comentar, mas não resisti! Um post seu de março (No comando da própria sucessão) define muito bem os possíveis caminhos disponíveis para Lula.
Como vc previu, ele vai tentar acabar com a reeleição e voltar em 2014 (ou 2015), com ou sem ajuda do "sucessor".
Também, ainda etá atual meu comentário da época: Engraçado é Lula ser tão "inteliente" para este tipo de tramóia enquanto é absolutamente incipiente como Presidente do Brasil. Deve ser aquela ótica do aqui-e-agora, onde o importante é garantir o seu e os outros que se virem.
Isto explica sua posição na questão do aborto! Só espero é que, em 2014 (ou 2015), alguém lhe pergunte pq não tomou nenhuma decisão diante de um assunto tão importante, 10 anos atrás.

quarta-feira, 16 de maio de 2007 18:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Parece-me que colocar 2010 na pauta é coisa dos que não aceitam o resultado "massacrante"(apud New York Times) de 2006. A rigor a oposição não tem um candidato ainda (a guerra dentro do PSDB não pode ser menosprezada, um não sobe no palanque do outro, e torpedeia por baixo), assim como o Governo. Tudo vai depender do desempenho de Lula neste mandato, que mal começou. Daí o desespero de alguns, inclusive de certa mídia, que foram rechachados pelo eleitorado e não encontram um discurso. Exigir consistência ideológica da direita é pedir demais, já que ela age apenas por interesse. E o povão já aprendeu a distinguir quem está (ainda que não muito) ao seu lado daqueles que respondem por décadas de injustiças e corrupção. Vamos devagar, porque muita água vai rolar. E golpe pior que 2005/2006 não vai acontecer. Nem os sargentos querem!

quarta-feira, 16 de maio de 2007 20:26:00 BRT  

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