quarta-feira, 23 de maio de 2007

Duelo de inteligências (23/05)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está acossado por greves múltiplas. As mais vistosas afetam o Banco Central e a Polícia Federal. O governador de São Paulo, José Serra, está às voltas com a ocupação da reitoria da Universidade de São Paulo (USP) por estudantes -apoiados por funcionários. Os grevistas de Lula querem melhores salários e outros benefícios profissionais. Os ocupantes da USP se opõem a que gastos das universidades públicas sejam expostos ao público, além de exigirem investimentos estruturais -que a reitora já aceitou fazer. Haverá sempre quem ache que policiais federais e funcionários do Banco Central ganham bem demais e que as greves não se justificam. E certamente haverá quem ache um absurdo os estudantes da USP lutarem contra mecanismos de transparência que eles mesmo provavelmente defenderiam se o assunto fosse, por exemplo, as verbas indenizatórias dos deputados. O fato é que discutir movimentos sociais apenas à luz de suas reivindicações é um equívoco. Movimentos sociais são, também, instrumentos e mecanismos para o exercício e a busca do poder. Por grupos alijados do poder formal. O movimento pode ser sindical, estudantil, camponês. Ou qualquer outro. Tanto faz. Em outubro, a Revolução Russa (a verdadeira) faz 90 anos. As palavras de ordem dos revolucionários russos eram pão, terra e paz. Mas eles buscavam mesmo era o poder. Por isso é que muitas vezes a dinâmica de certos movimentos parece incompreensível. Tão incompreensível que, a partir de um certo ponto, eles aparentam ter perdido completamente a racionalidade. Bobagem. Os estudantes da USP e aliados que ocupam a reitoria tentam impor uma derrota política a Serra. Porque fazem oposição política a Serra. Querem que o governador recue das medidas de transparência. Ou, pelo menos, querem imagens da "PM do Serra" batendo nos estudantes. Para uso midiático posterior. Os grevistas do Banco Central e da PF querem, além de mais salário nos contracheques, desafiar a intenção do presidente de colocar limites às paralisações de funcionários públicos. Eles fazem oposição política ao Lula que não gosta de greve no serviço público. A ocupação da USP e as greves de funcionários federais são movimentos legítimos. Como diria James Carville, "é a luta política, estúpido!". Não percamos nosso tempo discutindo a legitimidade ou não de movimentos políticos. Todo movimento político pacífico numa democracia é legítimo. Assim como é legítima a resistência dos governos a reivindicações que buscam minar sua força política. Aliás, a política não é em primeiro lugar um duelo de legitimidades -como algumas vezes a propaganda tenta nos fazer crer. A luta política é, antes de tudo, um duelo de inteligências.

O Blog do Alon é finalista na categoria Melhor blog de jornalismo e/ou jornalista da Revista Imprensa. Para poder votar, você deve se cadastrar gratuitamente clicando aqui.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

11 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Discordo em grande parte do que você escreveu. Não vou expor aqui meus argumentos. Seria longo.

Apenas quero lembrar que pessoas geniais que pensavam como você sobre política nada puderam fazer em defesa de suas vidas ou liberdades quando certos agentes políticos inteligentes finalmente tomaram o poder de Estado e rapidinho cuidaram de encarerar ou matar qualquer possibilidade (real ou irreal) de contestação da nova e vitoriosa Razão de Estado. Cuide-se, pois se certos agentes políticos vencerem (tomarem o poder e o exercerem a seu bel prazer) eles, em algum momento, virão pra cima de você.

Para ficarmos apenas no atual ambiente estudantil, o que vejo ali me envergonha como ex-aluno da USP e ex-militante no movimento estudantil. Nunca apoiei métodos fascistóides como forma de luta. Bati boca com vários, mas nunca encostei sequer um dedo em algum professor ou colega.

PS: esse seu post me parece mais uma ode a essa terrível noite relativista em que vivemos e onde todos os gatos são pardos"

abs.

quarta-feira, 23 de maio de 2007 13:06:00 BRT  
Blogger alberto099 disse...

Caro Alon, como você diz, todo movimento social possui mais motivações que seu objetivo imediato e, de uma forma ou de outra, procura ocupar ou direcionar o poder formal. Legítimas, todas as motivações, mas muito diferentes de um caso para outro. Acredito que motivações político-partidárias estejam mais presentes no caso da ocupação da USP, como você bem mostra, mas é importante também o objetivo imediato de defender um “programa social” dos mais antigos do país, voltado para os grupos de maior renda. Já no caso das atuais greves, entender o que se passa vai além de entender os motivos dos grevistas. No ano passado o governo foi leniente com esses movimentos, permitiu greves prolongadas e premiou os movimentos com aumentos significativos. A única motivação que enxerguei então, para o comportamento do governo, foi a reeleição do Presidente, e a importância da mobilização das lideranças sindicais para a campanha. Hoje o governo se complica, tem um projeto de lei sobre greves no setor público e quer estabelecer um teto legal para os aumentos que poderá conceder nos próximos anos (embutido no PAC), porque parece não ter moral para fazer valer as punições mais óbvias contra os grevistas (e que no passado não precisaram de regulamentação específica). Não fez no ano passado, por que faria agora? O presidente disse em pronunciamento recente que greve de 90 dias, sem o desconto dos dias parados, são férias e não greve (cito de memória), mas de quem depende fazer valer o desconto dos dias parados?

quarta-feira, 23 de maio de 2007 14:54:00 BRT  
Blogger Na Prática disse...

Caro Alon,

Achei seu post bem mais lúcido do que a média dos comentários sobre os dois assuntos, mas acho que ele explica melhor o comportamento das lideranças dos movimentos (que agem por interesse político) do que da base (que aderiu, tanto no caso das greves quanto no caso da ocupação). Afinal de contas, as lideranças do PSTU, por exemplo, sempre estiveram prontas a fazer a ocupação, mas só puderam fazer quando houve adesão da base.

E a base provavelmente aderiu por crer, em um caso, na possibilidade de receber aumentos salariais, e, no outro, de reverter uma decisão vista como nociva à autonomia universitária.

quarta-feira, 23 de maio de 2007 15:17:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Você deixou passar, mas o Lotufo não.

http://paulolotufo.blogspot.com/2007_04_29_archive.html

Uma data histórica esquecida: 04 de maio de 1977

Hoje, 04 de maio de 2007 completam-se 30 anos de uma virada histórica no país. No entanto, a data não será destaque em nenhum jornal para lembrar a primeira passeata estudantil nos anos 70. As palavras de ordem, liberdades democráticas, anistia ( e, depois constituinte) se tornariam vitoriosas inaugurando o período mais livre do nosso país. Esse ano foi fundamental começou antes com manifestação exclusiva da USP para aumento de verbas em março que saiu do Butantã até o Largo dos Pinheiros. Em maio, a concentração no Largo de São Francisco foi até o meio do viaduto do Chá e, retornou para o Largo do Patriarca. Depois de São Paulo, as manifestações se espalhariam por todos os campi do país, culminando com o confronto da Universidade de Brasília que foi ocupada em agosto. Em setembro haveria a invasão da Faculdade de Medicina da USP (cuja história um dia será contada), sem vítimas e, um dia depos da PUC com várias vítimas. A luta democrática avançaria depois de maio de 77 em todos os setores da sociedade. Historiadores obreiristas somente reconhecem as greves salariais do ABC em 78 como o ponto da virada, mas elas nada tinham de políticas, como o seu líder fazia questão de deixar bem claro. Jornalistas somente lembram de 1968 e, com certeza daqui a um ano haverá várias reportagens com a famosa foto da Maria Antonia e carros pegando fogo.
Escrevo sem ressentimento, para lembrar um grande momento que vários leitores também compartilharam. Infelizmente, Paulo Mendes de Carvalho, Marcelo Garcia e Celso Máximo de Figueiredo que estiveram comigo em todos os momentos acima, não lerão essa mensagem (0u lerão??) . Aos demais amigos, os parabéns pela vitória.
Lembro que o pior sujeito não é o que não sabe perder, mas sim aquele que não sabe ganhar!

posted by Paulo Lotufo at 09:41 0 comments

quarta-feira, 23 de maio de 2007 16:01:00 BRT  
Anonymous Pedro Carvalho disse...

Alon, concordo com a idéia geral do post, mas faço uma observação:

"E certamente haverá quem ache um absurdo os estudantes da USP lutarem contra mecanismos de transparência que eles mesmo provavelmente defenderiam se o assunto fosse, por exemplo, as verbas indenizatórias dos deputados."

Sou estudante da USP e pelo que tenho conversado com o pessoal que é contra os decretos, a USP já mostra publicamente seus gastos, mês a mês. O que o decreto diz é que as universidades fariam parte de um outro sistema de verificação, que, ao contrário do que se diz, é menos transparente, pois só o Legislativo a o Judiciário teriam acesso. Só não sei se isso implicatria que a USP parasse de publicar seus gastos.

De resto, é bem isso. É muito mais uma batalha política mesmo. Mas mesmo assim, confesso que o post me pareceu meio generalista. Há, sim, muita gente que é contra os decretos e participa da greve (e, num menor número, da ocupação), sem ter nenhuma batlha política em vista.

Abraços,
Pedro

quinta-feira, 24 de maio de 2007 01:22:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É isso, Alon. Parece que a matéria-prima mais escassa hoje em dia no cenário brasileiro é a inteligência. Deveria dizer que faltam estadistas, mas ai seria querer demais. Parece piada, mas sua análise coloca Lula e Serra bem próximos, ao menos em problemas políticos. Interessante.
Sotho

quinta-feira, 24 de maio de 2007 11:43:00 BRT  
Anonymous Frank disse...

Alon, estou com o Paulo Araújo.

Seu raciocínio, no limite, justifica tudo - ah, o tal do relativismo...

E a ordem legal?

Vc argumenta que: sendo o movimento político pacífico, tudo pode.

E se, ainda que pacífico, for contra a lei?

quinta-feira, 24 de maio de 2007 12:01:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O problema desses movimentos sociais é que eles sempre são pilotados por alguém. E quem sabe quais os interesses reais desse agluém? Exemplo: o cabo Anselmo era agitador infiltrado, acabou acelerando a derrubada do Jango.
Além do mais, legitimidade não ajuda. É preciso ver a legalidade e a conveniência dessas ações.
Sds., de Marcelo

quinta-feira, 24 de maio de 2007 12:29:00 BRT  
Anonymous Richard disse...

Indo direto ao assunto, luta política se faz com discursos, propostas, manobras regimentais, mobilização de correligionários, mas tudo é decidido em ELEIÇÕES. Luta política que envolva pessoas que nada tem à ver com fato ficarem na madruga, no frio, sem os serviços de que necessitam, não é luta, é SACANAGEM. Greve política é jogar fora o único argumento que legitima o direito a greve!

quinta-feira, 24 de maio de 2007 12:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Apenas uma pequena retificação, Alon: o aniversário da Revolução de Outubro não é em outubro, é em novembro, mais exatamente no dia 7 de novembro.
Pequena disparidade de calendários que se maneifesta também nas festas católicas, conforme sejam romanos ou ortodoxos os praticantes (ortodoxox russos, eviedentemente; quanto aos gregos, não sei).
Anônimo

quinta-feira, 24 de maio de 2007 14:22:00 BRT  
Blogger rafael disse...

Eu não acho pacífico impedir que estudantes não assistam aulas e que seja gasto mais dinheiro público com desorganização de calendário, fora a perda de semestre, etc...

quinta-feira, 24 de maio de 2007 15:49:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home