domingo, 20 de maio de 2007

Diplomacia conservadora (20/05)

Leiam editorial de hoje do jornal Paraguaio ABC Color. Ele é emblemático de como nossos vizinhos nos vêem. Brasil, um país imperialista e explorador, diz o título. Como equilibrar nacionalismo e internacionalismo em relações tão assimétricas? O nacionalismo progressista num país dominante consiste, em primeiro lugar, em apoiar internacionalisticamente o nacionalismo dos países dominados. Parece contraditório? É. O G1 traz hoje um belo material sobre a popularidade de Evo Morales na Bolívia. Popularidade conquistada, em boa medida, com o endurecimento nas relações econômicas com o Brasil (gás, petróleo). Agora, no Paraguai, a diplomacia brasileira parece seguir um roteiro semelhante ao chove não molha que levou ao impasse com os bolivianos. Em vez de dar apoio decidido à renovação política representada pelo bispo Fernando Lugo, Luiz Inácio Lula da Silva visita o Paraguai com um jeitão de George W. Bush regional: em vez de revisar o injusto tratado de Itaipu, fala em biocombustíveis e pacote de ajuda. Ou seja, além da filantropia, o que Lula propõe aos paraguaios é que estes continuem vendendo a preço de banana a energia de Itaipu ao Brasil e que deixem de plantar comida para abrir suas terras ao biocombustível. Ou, naturalmente, às empresas brasileiras que apostam na expansão dos biocombustíveis. Aliás, é quase um acinte falar em biocombustível num país com o potencial hidrelétrico do Paraguai. Nas relações com o Assunção, a diplomacia brasileira mostra a sua face mais conservadora. Talvez porque o Paraguai seja um país fraco. Tivéssemos no Brasil um governo mais progressista, ele trabalharia decididamente para que, a exemplo da Bolívia, a população paraguaia, historicamente deserdada e submetida ao tacão de regimes ou ditatoriais ou corruptos (ou os dois), adquirisse sua plena soberania política. Aliás, os interesses estratégicos do Brasil estarão mais bem servidos quanto mais profunda for a transformação política democrática e nacional em cada um dos países que nos cercam. Olhem para a Europa. A Comunidade Européia só se formou e só se mantém porque franceses e alemães, principalmente, investiram pesadamente no desenvolvimento e na democracia de Portugal, da Espanha e da Grécia. E do sul da Itália. Falta algo assim na América do Sul.

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8 Comentários:

Anonymous José Augusto disse...

Vamos por partes.
1) Quando o Paraguai quer X pela energia de Itaipu, eles pedem X+Y, negociam dispostos a abrir mão do Y, para conseguir o X. O Brasil começa negociando X-Y, também abre mão do Y. Assim agiu na Bolívia com o gás (nas refinarias a Bolívia não queria abrir mão do Y) e deve agir assim no Paraguai. Se o Brasil entrar aceitando X, eleverá a cobiça. Sobre Itaipu, mais que o valor do KWH, a maior queixa objetiva são os juros que o governo Paraguaio tem que pagar sobre a dívida de Itaipu ao Tesouro Brasileiro (dívida semelhante às dos Estados com a União), subtraída das receitas da venda de energia.
2) Vejo os biocombustíveis como uma política boa para nossos vizinhos. Se os alimentos subirem de preço para os ricos (uma vez garantida a segurança alimentar, inclusive aos pobres), melhor para os países subdesenvolvidos. O mundo sempre plantou tabaco que não é alimento (inclusive em Cuba do crítico Fidel Castro), o Paraguai é grande produtor de maconha, produz-se bebidas alcoólicas e café, planta-se algodão para vestimentas supérfluas e a indústria da moda. Depois de tudo isso, a culpa da fome será dos biocombustíveis?
3) O Paraguai já tem tratamento assimétrico privilegiado dentro do Mercosul, e quem defende isso é Lula e Amorim, e não Kirchner.
4) A Alemanha e França já eram nações desenvolvidas quando auxiliaram Portugal e Grécia na UE. O Brasil ainda tem dentro de seu território populações abaixo da linha de pobreza maiores do que Bolívia e Paraguai juntos. É verdade que o Brasil tem riqueza para resolver isso internamente. Mas se fosse simples vontade política como você diz, Alon, aqui também já estaria resolvido.
5) O paraguaio tem contencioso de hostilidade contra brasileiros, desde a guerra e de uma certa imagem depreciativa que alguns brasileiros cultivam. Lembro de uma propaganda institucional na TV de produto eletrônico que colocava como contraponto à qualidade um paraguaio de forma pejorativa dizendo "La garantia soy io". A diplomacia deve passar por cima disso. O Brasil enriquecendo sempre será visto como imperialista por um bom tempo. Mas, pragmaticamente, o Brasil fraco ou pobre é péssimo para os vizinhos. Só não vale é enriquecermos à custa do empobrecimento dos vizinhos, que seria o verdadeiro imperialismo.
6) Vejo o Itamaraty certo ao procurar aglutinar os países em blocos de interesses comuns, tanto produtivos como de atração de investimentos de fora do bloco (o etanol é um caso), além das preferências comerciais já vigentes no Mercosul. Integrar o continente será pouco eficaz, se for simplesmente um sistema de soma zero: o Brasil fazendo todos os investimentos no Paraguai, com recursos escassos, que faltarão ao Uruguai ou mesmo a outras regiões brasileiras. Há que se ajudar a enriquecer uns sem empobrecer outros.

domingo, 20 de maio de 2007 22:26:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Eu acho que o preço do petróleo e do gas e da energia elétrica estão muito altos. Logo, temos que pagar menos a estes países.

segunda-feira, 21 de maio de 2007 00:52:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, na realidade há um envergonhado processo de garantir o fornecimento de energia para assegurar a tentativa de acelerar o crescimento econômico capitalista brasileiro. Como qualquer país capitalista emergente e com carências visíveis. Neste cenário, falar em solidarismo econômico é preencher o vazio com algo oco. Sem garantia de fornecimento de energia, pode esquecer qualquer tentativa de crescimento. Como querer que a Diplomacia aja de forma diferente?
Por outro lado, deve-se investir na Democracia e no desenvolvimento aqui dentro também, onde há muito a fazer, por aspectos claudicantes ainda. Os paraguaios, como os bolivianos, defenderão seus interesses sem meias palavras, como qualquer país soberano. É disto que se trata.
Sotho

segunda-feira, 21 de maio de 2007 09:48:00 BRT  
Anonymous Rodrigo disse...

Faz o seguinte: o Brasil paga mais pela energia que o Paragaui nos vende e o Paraguai nos paga metade da usina de Itaipu para o Brasil. OK?

segunda-feira, 21 de maio de 2007 11:39:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Boa Tarde Alon!

O assunto não tem relação com o post, mas assisti no sábado o programa Fatos e Versões da Globo News, do qual vc participou, e tive uma surpresa: vc é tímido.

Lendo seus comentários no blog tinha outra visão de vc, alguém com tom de voz mais áspero, não mal educado, não confunda por favor.

Ainda tenho posição e ideologia diferente da sua, mas gosto do modo como vc escreve, já falei isso uma vez, e do seu blog.

Atenciosamente,
L.A.S.

segunda-feira, 21 de maio de 2007 12:52:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O Brasil, além de ter pago toda a construção da usina, ainda compra a energia que seria destinada ao Paraguai.
Sotho

terça-feira, 22 de maio de 2007 09:14:00 BRT  
Blogger alberto099 disse...

Caro Alon, você está certo quando lembra o exemplo da Comunidade Européia, e a importância do envolvimento dos países mais ricos no desenvolvimento das regiões mais atrasadas para a viabilização do bloco. Já o desenvolvimento político é resultado do jogo interno de cada país, a maior contribuição dos vizinhos é manter a estabilidade regional e apoiar soluções que respeitem as regras escritas, na medida do possível. Como se fez na Venezuela. Posso estar errado, mas creio que a quase todo o investimento externo que resgatou paises como Espanha e Portugal foi privado, dentro da lógica de mercado. Além disso, para entrarem no bloco, os países tiveram de se submeter a parâmetros rígidos de disciplina fiscal e monetária para garantir a estabilidade econômica do bloco. De passagem, essa submissão significou ceder ao bloco parte da soberania de cada nação, assunto que o Mercosul parece muito longe de considerar a sério (existe sim um grupo para discutir convergência macroeconômica, tipo para Inglês ver). Mas tudo isso serve de introdução à questão de Itaipu: a queixa paraguaia diz respeito a obrigação de vender a energia que não consome ao Brasil a preço de custo, uma cláusula que parece refletir a ganância do imperialismo brasileiro. Infelizmente, a vida útil de um post não permite levantar a “mágica” financeira que viabilizou Itaipu, nem acredito que venha a ser exposta pelo Itamaraty para justificar uma recusa ao Paraguai (o mais provável é que cedamos alguma coisa, para passarmos ao próximo ponto). O que é evidente é que Itaipu foi construída pelo Brasil para atender a necessidade brasileira de energia, como o empreendimento invadia terras paraguaias o mais transparente seria acertarmos um valor a ser pago a título de “royalties” ao país vizinho. Fizemos melhor, demos parceria paritária: o Brasil emprestou à empresa paraguaia o capital de Itaipu, claro que o serviço dessa dívida não foi contabilizado a “preços de mercado”, e pelo menos parte desse desconto – para que a operação não fosse simplesmente uma esmola milionária do Tesouro brasileiro ao Paraguai – foi esse compromisso de vender-nos a energia a preço de custo. Custa caro esse desprezo pelos parâmetros de mercado: se o Paraguai possui 45% da energia gerada por Itaipu, além da que consome (e abastece 95% de suas necessidades), porque não pode vendê-la a qualquer um, ao melhor preço que conseguir? Aumentar as transferências ao governo do Paraguai não se confunde com investimentos para o desenvolvimento do país. Fica ao menos a evidência de que nossos militares eram de esquerda, historicamente desconfiados dos homens de casaca (políticos e capitalistas), e convencidos que nosso desenvolvimento de daria pela mão firme do Estado.

quarta-feira, 23 de maio de 2007 10:36:00 BRT  
Blogger alberto099 disse...

A propósito, agora percebi que o Rodrigo, em três linhas, já havia dito o essencial do que eu disse acima.

quarta-feira, 23 de maio de 2007 10:40:00 BRT  

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