terça-feira, 29 de maio de 2007

Desgraça e oblívio (29/05)

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), é o alvo da vez. Este post não pretende proferir o veredito definitivo sobre sua inocência ou culpa diante da acusação de ter parte de suas contas pessoais pagas por um amigo funcionário de empreiteira. Em dinheiro vivo. Este post é sobre a situação política do presidente do Senado. O que mantém Renan à tona não é a clássica presunção de inocência. A categoria já foi abolida, há muito tempo, do código político-penal nacional. Corrijo-me. Ela não foi abolida, o que se revogou foi a sua universalidade. Há presunção de inocência para alguns e presunção de culpa para outros. Mas a política, especialmente a brasileira, é assim mesmo: chora menos quem pode mais, e vice-versa. O que mantém Renan à tona é a dúvida, governista e oposicionista, sobre o cenário de uma possível sucessão no Senado. O governo teme perder o controle do processo para a oposição e a oposição teme por um novo "efeito Severino". Recorde-se que a oposição, que elegeu Severino Cavalcanti em fevereiro de 2005 para a presidência da Câmara dos Deputados, tudo fez para derrubá-lo em setembro do mesmo ano. Mas o resultado prático daquela "insurreição de setembro" foi a eleição de um aliado fiel de Luiz Inácio Lula da Silva. O comunista Aldo Rebelo. A unção de Rebelo matou qualquer possibilidade de impeachment do presidente da República e deu a Lula tranqüilidade para disputar e ganhar a própria sucessão. Mas vamos mudar o foco. Minha curiosidade analítica se volta agora para tentar decifrar outro enigma. Por que caminham para a desgraça ou o oblívio todos que no PMDB (e satélites) foram decisivos para Lula atravessar bem o primeiro mandato? E qual é a maldição que pesa sobre os peemedebistas que fizeram das tripas coração para garantir ao nosso presidente mais quatro anos no Palácio do Planalto? Lá atrás, quando o governo empregou a força para derrotar Aldo Rebelo e Nélson Jobim nas disputas da Câmara e do PMDB, eu achei que se tratava apenas de equilibrar o jogo (No comando da própria sucessão, de março). Aquele princípio saudável de o poder não ficar refém de ninguém. Mas a coisa evoluiu para um morticínio de proporções espantosas no tal "PMDB governista", o antigamente poderoso consórcio de credores do poder. Uma mortandade de proporções realmente espantosas.

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13 Comentários:

Blogger Frodo Balseiro disse...

Alon
Interessante, você diz que a oposição elegeu Severino Cavalcanti!
Isso é, no mínimo incorreto!
Os governistas eram maioria na Câmara, portanto quem elegeu Severino, foi a desarticulada base governista.
Tudo bem ter "lado", mas jornalistas devem se pautar pelos fatos! Ou não?
A oposição na ocasião tinha pouco mais de 150 votos, como poderia ter determinado o resultado?

terça-feira, 29 de maio de 2007 12:57:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O raciocínio ficou inconcluso.

terça-feira, 29 de maio de 2007 13:26:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, sua última frase é bem sintomática. Poderia ser colocada de outra forma: não vai sobrar ninguém. Ou ainda: quem é que está sobrevivendo? Ou simples olhos mortais podem enganar-se?
Sotho

terça-feira, 29 de maio de 2007 15:12:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Frodo, você não precisa ter maioria para ser decisivo numa eleição. Você pode ter poucos votos. Basta que eles sejam, como disse, decisivos.

terça-feira, 29 de maio de 2007 16:17:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

o velho ditado , me digas com quem andas que te direi quem és ! o sen Renan preparou sua defesa com um time de um currículo invenjável, depois do circo temos que , acreditar em papai noel e coelhinho da páscoa ......

terça-feira, 29 de maio de 2007 17:58:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Frodo Balseiro tem lá suas razões.

Não se esqueça de que votos governistas petistas no PRIMEIRO TURNO FORAM DECISIVOS para levar o Severino ao segundo turno e, assim, defesnestrar o outro candidato do PT, o Virgílio Guimarães. A turma do PT e agregados que queria o Greenhalg achava que o pior dos mundos para o seu candidato seria um segundo turno PTXPT.

E ainda resta dúvida sobre quantos VOTOS DECISIVOS NO SEGUNDO TURNO dos petistas e agregados pró Vírgílio foram dados a Severino.

Atribuir exclusivamente à oposição a vitória do Severino é uma boa desculpa esfarrapada. Espero viver o suficiente para um dia poder ler as memórias de alguém que efetivamente tenha participado nesse joguinho. Quero saber de quem foi a brilhante idéia de descarregar no primeiro turno uns votinhos pró Greenhalg no Severino, e que foram DECISIVOS pra derrotar o Virgílio.

A opção pelo Severino no primeiro turno para fortalecer o Greenhalg no segundo turno foi um tiro pela culatra que levou a turma do Greenhalg a uma vergonhosa derrota. Lembrando do Garrincha, o pessoal pró Greenhalg esqueceu de combinar com "os russos" a derrota do Severino no segundo turno. E como é difícil e vergonhoso admitir isso, inventaram de jogar na oposição a responsabilidade pelo fato severínico. E sempre com a inestimável ajuda do jornalismo que, citando fontes, encarrega-se de divulgar a versão interessada dos fatos.

Faça as contas (isso já foi assunto de comentário no blog) e veja que sem alguns DECISIVOS votos de petistas e agregados o Severino não iria para o segundo turno e também não ganharia a eleição no segundo turno. Sim, a oposição conribuiu tão decisivamente quanto o PT para a vitória do Severino.

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A questão Renan

Da forma que você a aborda ela é de fato intrigante. Não tenho a menor idéia, pelo seu ponto de vista analítico, que é bem interessante, do que está a acontecer. No máximo, relembro a fábula do sapo e do escorpião. É da natureza dos partidos leninistas (mesmo que edulcorado, como o PT) em algum momento ferroar seus aliados da ocasião. Foi assim com o Aldo, que insanamente carregou escorpião na corcunda. Falha grave, em se tratando de Aldo e seu Partido. Mas isso é lá problemas deles, dos comunistas. Não é assunto que me interessa.

Há também quem diga que não existe conspiração política nesses episódios, mas somente um maior grau de liberdade da PF para investigar e atuar. Não sei. Me pergunto, porquê vazam para imprensa o que é investigação sigilosa? Deve haver na PF algo que desconheço.

Conto com a ajuda dos profissionais da informação e análise da política para entender melhor o que está a acontecer.

abs.

terça-feira, 29 de maio de 2007 18:01:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Vou especular um pouco.
A revista Isto É fez longa matéria sobre a operação octopus da Polícia Federal. A operação octopus envolve o mesmo Zuleido com o governo anterior da Bahia, e tem um processo à parte conduzido simultaneamente pela mesma Min. do STJ Eliana Calmon. Mas tem sido tratada estranhamente com bastante discreção pela maioria da grande imprensa.
Nos vazamentos da operação Navalha aparecem envolvidos em estágios comprometedores bem mais avançados do que Renan Calheiros, mas não tem merecido tanto holofote quanto Renan.
Me lembro que quando o governo Collor começou a sofrer denúncias de corrupção, bem antes do irmão Pedro denunciá-lo, uma denúncia (inofensiva, como depois mostrou-se infundada) de compras de bicicletas superfaturadas pelo Min. da Saúde Alceni Guerra foi amplamente explorada pela mídia, e por aliados de Collor como ACM. Alceni foi sacrificado, como se a corrupção do governo Collor tivesse sido extirpada. As bicicletas do Alceni funcionaram como cortina de fumaça no noticiário, para esvaziar as demais denúncias (como do Motta Veiga na Petrobrás, etc) e o governo seguiu até Pedro Collor abrir a boca.
Esse tipo de ataque como o que ACM desferiu a Alceni Guerra é o que se chama de ataque com precisão cirúrgica. Ataca só o alvo desejado, protegendo os arredores dos danos, mantém o noticiário entretido, e afasta outras denúncias e denunciados das manchetes.
Nada me tira da cabeça que Renan está sendo alvo de um destes ataques e usado como cortina de fumaça. O caso dele é sob medida: estava suspeito por ter relações com Zuleido, mas quem pagava suas contas era ligado à Mendes Jr, que está fora da operação Navalha ao que se saiba. Aparentemente a denúncia traz mais prejuízos políticos do que jurídicos ou policiais, sob medida para "acabar em pizza". O caso Renan não poderia ser mais folhetinesco: envolve sexo, poder, dinheiro e fofocas. É garantia de manter o foco com absoluto sucesso das atenções em tempos de Big Brother Brasil.
Nessa minha teoria de conspiração, só não consegui especular ainda quem são os autores. Minhas apostas tendem para algum beneficiário: os alvos da operação Navalha não ligados à Renan e os alvos da Operação octopus.
Quanto à operação da PF, se continuar assim, acho apenas que o Brasil está a caminho de vir a se tornar um país normal, onde o Ministério Público funciona, e a Polícia Federal não alivia quem tem "pistolão". Onde quem comete atos de corrupção é alcançado pelo braço da lei. Não compartilho com nenhuma tese de estado policial, nem de perseguição política. A lógica não aponta para isso.

terça-feira, 29 de maio de 2007 19:08:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

José Augusto

Muito boa a análise. Renan não mandou recados nas entrelinhas da sua defesa?

Tal ataque funcionou (arrefeceu o ímpeto investigativo do PSDB) na época do mensalão, quando o Eduardo Azeredo teve seus vínculos marcovalerianos revelados.

abs.

terça-feira, 29 de maio de 2007 20:01:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,

É incrível como algumas pessoas tem dificuldade de desenvolver um raciocínio simples. Em relação à eleição de Severino, basta responder algumas questões básicas para verificar que o que você expressou no seu texto ("a oposição elegeu Severino") não passa de senso comum. É inacreditável que alguém possa contestar. As questões básicas a que me refiro são:

1) Havia algum interesse do governo em eleger Severino, tendo dois candidatos do PT?
2) O que o governo ganharia com a eleição de Severino?
3) A oposição votou em massa para a eleição de Severino e contou como a "volatilidade" de parlamentares que, pela filiação partidária, deveriam votar no candidato simpático ao governo?

A resposta para todas as perguntas acima parece óbvia. Para os que insistem em desafiar a aritmética, ganha-se eleição quando se tem maioria. Se o governo tivesse, de fato, maioria na Câmara, teria ganho a eleição. O forte desejo da oposição em derrotar o governo e "volatilidade" dos votos do baixo clero e outros parlamentares escondidos pelo voto secreto, garantiram a vitória de Severino e da oposição. Simples assim.

terça-feira, 29 de maio de 2007 23:34:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

paulo araújo

Está tudo ainda muito confuso como o Alon descreveu. Acho que só vamos saber (se viermos a saber) quando a justiça avançar.

O Renan parece ter dado o recado para preservá-lo. Ele afirma que não vai renunciar, então está blefando em parte (porque ele não tem controle da situação, depende dos desdobramentos), e está desafiando em parte. Parece dizer que se for devassado no conselho de ética, ou se seus colegas municiarem a mídia, não cairá sozinho, vazará segredos dos outros.

Eu separo os escândalos em 3 atos.
A operação em si. Os vazamentos seletivos. E a denúncia do Renan, que, acho, só existiu (pelo menos com essa intensidade de capa de revista) porque a operação Navalha veio a público. Essa do Renan tem todo o aspecto de dossiê que estava guardado ou foi montado por algum político, ou lobista, para ser usado na hora que fosse conveniente. Tanto parece coisa montada, que só mostra a parte inofensiva do ponto de vista jurídico, apesar de devastador politicamente.

Na operação Navalha, se há motivação política, só pode ser de gente de dentro da PF querendo derrubar o governo e a oposição juntos, porque os estilhaços estão atingindo a todos. Normalmente operações policiais com fins políticos tem precisão cirúrgica de atingir apenas os desafetos.

Ou se foi uma operação de algum grupo político, é a típica coisa de aloprados, que perderam o controle.

Já li ou ouvi dizerem que tudo começou com uma denúncia do grupo de Roseana Sarney contra o Reinaldo Tavares, antes da eleição no Maranhão, quando Roseana estava caindo nas pesquisas.

Dentro do próprio PMDB há disputas entre o grupo do Senado e da Câmara por cargos. Então faz sentido um querer enfraquecer o outro. Mas a operação Navalha atinge também o Geddel (em menor intensidade até agora), que é do grupo da câmara, assim como atingiu o Silas Rondeau, que é do grupo do Senado.

Poderia ser a eterna gula do PT, mas também desgastou o Jaques Wagner, e o prefeito de Camaçari foi preso. Então se veio do PT, foram os aloprados reminescentes.

Os vazamentos podem ser de pessoal interno da PF, do Judiciário, ou de advogados, que vazam trechos que afetam os desafetos para desviarem o foco dos protegidos.

No caso do Renan, pode ser até vingança da ex-namorada por não ter conseguido juridicamente a pensão nos valores pleiteados. Às vezes queria dar um pequeno recado via imprensa e a coisa tomou essas proporções.

Mas o que eu suspeito mesmo é na tese da cortina de fumaça por algum grupo envolvido mais gravemente na operação Navalha ou Octopus. Só não sei qual.

E talvez essa Operação Navalha seja apenas desdobramento de outras investigações da PF e do MP que atira no viu e acerta no que não viu, abrindo outra frente de investigações.

Como existe em profusão relações perigosas no mundo político, de financiadores de campanha, famílias políticas, e fornecedores dos governos, quando a polícia trabalha, não deve ser difícil deparar-se com personalidades do mundo político com a frequência que tem acontecido.

Espero que a PF esteja apenas cumprindo o seu dever, como não estávamos acostumados a ver, mas sempre deveria ser assim.
Os policiais federais, hoje, são todos de elite, tem curso superior, tem altos salários, os concursos de ingresso são difíceis e disputados, e tem até blogs na internet.

quarta-feira, 30 de maio de 2007 00:41:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Sinbad canta, as sereias se calam.

É nessas horas que eu mais gosto deste blog.

quarta-feira, 30 de maio de 2007 10:51:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O problema do Renan não começou com a navalhada. Tanto que a empreiteira dele é outra (Mendes Jr. e não a Gautama). Foi a Veja que levantou a bola. Aliás, desde o ano passado a coluna do Cláudio Humberto já falava no caso do Renan com uma jornalista, do qual nascera um filho, reconhecido após teste de DNA. A questão é: quem jogou a bola redondinha para a Veja? Queriam queimar o Renan (provavelmente o PMDB) ou fazer cortina de fumaça para encobrir outros escândalo (talvez o pessoal do PT)? Quem sabe...

quarta-feira, 30 de maio de 2007 16:00:00 BRT  
Anonymous Kitagawa disse...

Espero mesmo que toda a operação Navalha tenha sido feita sem propósitos políticos-partidários. Porque senão, significa que se está atacando um grupo para beneficiar outro. Uma parte dos corruptos morre de medo e outra respira aliviada. Ou seja, em termos de combate à corrupção não se avançou um milimetro sequer.

sexta-feira, 1 de junho de 2007 11:30:00 BRT  

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