sexta-feira, 11 de maio de 2007

Descortesia (11/05)

Tem alguma coisa fora de lugar nesse debate sobre o aborto. O governo federal enveredou para uma guerra santa contra o Papa Bento 16 porque o pontífice é contra o aborto. Eu penso que há duas posições possíveis sobre o tema: a favor ou contra. A terceira, apropriada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é hilária. É mais ou menos algo como o que segue. "Eu sou contra o aborto. Mas, como há muitos casos de aborto ilegal, especialmente entre os mais pobres, o assunto já deixou a esfera puramente individual e passou a ser um problema de saúde pública. Por isso, mesmo sendo contra o aborto, eu sou a favor de legalizar o aborto." Espantoso. Vamos aplicar -num exercício hipotético- esse mesmo raciocínio ao excesso de velocidade no trânsito, sabidamente uma das principais causas de morte violenta entre os jovens. Vejam que beleza. "Eu sou contra permitir que os motoristas corram à vontade. Mas, como os acidentes de trânsito se tornaram muito freqüentes, o assunto já deixou a esfera puramente individual e passou a ser um problema de saúde pública. Por isso, mesmo sendo contra o direito de os motoristas correrem à vontade, eu sou a favor de abolir o limite de velocidade nas vias públicas." O pensamento original de Lula e acólitos poderia ser estendido a muitas outras situações. Deixo para vocês comentarem. O fato é que o presidente freqüentemente imagina ser mais esperto do que os demais. Só que de vez em quando quebra a cara, como agora na Bolívia. Achou que iria cozinhar Evo Morales em colóquios intermináveis com a Petrobrás e acabou emparedado pelo boliviano. Nessa polêmica com o Papa, Lula tratou de encontrar para si próprio um caminho que lhe permita defender o aborto sem precisar assumir compromissos filosóficos ou morais com a defesa do aborto. Aliás, parece que, na falta de coragem ou força política para enfrentar os banqueiros (os lucros dos bancos, as tarifas bancárias, os spreads escorchantes) ou os latifundiários (por que sobra terra para o etanol e falta para a reforma agrária?), o governo brasileiro e o PT resolveram exibir na esfera comportamental o seu empoeirado (e aí tiozão, beleza?) "progressismo". Resolveram fazer pirraça com Bento 16. Isso apesar de o convite para o Papa ter partido do Itamaraty. Para promoverem o festival de descortesia que vêm promovendo, era melhor que o convite não tivesse sido feito. Era melhor que Frei Galvão tivesse sido canonizado em Roma mesmo. A canonização em terras brasileiras do primeiro santo brasileiro é uma deferência singular, feita ao Brasil por uma instituição milenar. Eu nasci judeu e, a rigor, nada tenho a ver com esse assunto da visita do Papa. Não sou católico, mas educação em casa eu recebi. E afirmo que esse climinha de assembléia estudantil criado pelo governo brasileiro e pelo PT em torno da visita de Bento 16 é um comportamento claramente inadequado, nem que seja apenas pelas regras básicas da boa educação.

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23 Comentários:

Blogger Cláudio de Souza disse...

Caro,

O seu exemplo do limite de velocidade não tem pé nem cabeça. A posição do Lula quanto ao aborto é claríssima: ele é a favor de descriminalizá-lo, mesmo tendo, contra ele, reservas de foro íntimo (as quais ele compartilha com a maioria dos seres humanos, aliás). Só que Lula é presidente da República, e não membro de um grupo de pressão "pro-choice". Ele se comporta dentro dos limites do cargo, dando sua opinião quando é perguntado. Até mesmo porque quem vai decidir algo sobre o tema são o Congresso ou o povo mesmo, por meio de plebiscito.

sexta-feira, 11 de maio de 2007 16:49:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Cláudio, o debate sobre o aborto é um debate sobre o direito de matar. Nessa esfera, não há como separar absolutamente a opinião individidual e a ação pública do governante. E eu sou a favor do plebiscito. Mas proponho, como já escrevi, incluir também a antecipação da maioridade penal. Você topa?

sexta-feira, 11 de maio de 2007 16:59:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Essa discussão está enviesada. Ser a favor da descriminalização é diferente de ser a favor do aborto.
Eu me sinto representado pela posição hilária do Presidente, porque também penso da mesma maneira considerada hilária.
Na minha esfera de influência (que é quase insignificante, porque sequer sou mulher para dar a palavra final e conselhos verdadeiramente úteis), no âmbito familiar, se alguém me consultasse para aconselhamento sobre abortar, eu seria contra, mas se a decisão final da mulher fosse pelo aborto, eu respeitaria. Jamais comparo qualquer mulher que tenha recorrido ao aborto com assassinas. Considero isso terrorismo psicológico. Semelhante àquelas pregações religiosas de satanização do que é considerado "pecado".
Respeito o direito da livre pregação religiosa, mesmo a satanizadora. Mas que interajam com a consciência dos fiéis, e não através lobbies das autoridades eclesiásticas nos gabinetes governamentais.

sexta-feira, 11 de maio de 2007 17:22:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Desculpe a decortesia de discordar de você em sua casa, mas, para ficarmos no seu "jogo lógico", a paráfrase do raciocínio desenvolvido por Lula deveria ser: "Eu sou A FAVOR [de se] permitir que os motoristas corram à vontade. Mas, como os acidentes de trânsito se tornaram muito freqüentes, o assunto já deixou a esfera puramente individual e passou a ser um problema de saúde pública. Por isso, mesmo SENDO A FAVOR DO direito de os motoristas correrem à vontade, eu sou a CONTRA A AUSÊNCIA DE limite de velocidade nas vias públicas." O que, convenhamos, a despeito da tortuosidade do raciocínio, não só faz sentido como é o que se esperaria de uma autoridade responsável. Em suma, mais uma vez me desculpando pela descortesia, devo dizer que seu comentário foi de uma infelicidade atroz.

sexta-feira, 11 de maio de 2007 17:24:00 BRT  
Anonymous Richard disse...

BELEZA DE ARTIGO, Alon. Parece que, quando vc fica puto-dentro-das-calças, as palavras rolam melhor. O conteúdo fica direto sem ginástica verbal ou pensamento torto... claro e simples! Seu otimismo exagerado está nublando o ótimo raciocínio lógico!!!!

sexta-feira, 11 de maio de 2007 18:04:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

É isso mesmo, Alon: o direito de matar está em julgamento nesse caso. Somente pessoas de má-fé acham que se trata de uma mera questão de saúde pública (nunca foi - se fosse, deveríamos proibir o consumo de açúcar, sal, cigarro etc, que matam muito mais do que os "abortos clandestinos"). Trata-se sim de uma questão de saber se a mãe/pai (ambos são responsáveis) podem matar o feto antes do nascimento porque não foram responsáveis antes da relação sexual.
Por mais que eticamente seja contra o aborto, acho que a lei brasileira é muito sábia em dar duas condições excepcionais para a prática do aborto. É mais do que o suficiente. Além disso, há outras questões muito mais importantes em jogo atualmente para o governo Lula perder tempo em algo que a população brasileira AMPLAMENTE rejeita.

sexta-feira, 11 de maio de 2007 18:30:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Se o governo conseguir ser valente com a industria de bebidas já está de bom tamanho. Dá até pra aumentar a velocidade nas estradas.

Aborto, pena de morte, maioridade, porte de armas e liberalização das drogas são assuntos que dispensam plebiscito. Por que o povo é claramente contra e porque não há a menor condição de se promover um debate amplo e honesto.

A igreja católica vive da venda do perdão. Portanto, quanto mais pecado, melhor. Na Europa, a freguesia dela acabou. Até em Portugal, Espanha e Itália o aborto já é legal. Sobraram os outros latinos que não têm o mesmo acesso à educação. E olha que aqui a educação é outro grande negócio da igreja católica.

sexta-feira, 11 de maio de 2007 18:35:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Muito bom, Alon, muito bom, tem outras história parecida com a sua que eu recomendo (http://www.c-avolio.com/)

Meramente uma questão de saúde pública

Ok, vamos adotar o ponto de vista do senhor ministro da Saúde:


Eu queria ouvir as mulheres. As manifestações são majoritariamente compostas por homens. Parece que infelizmente os homens não engravidam. Se engravidassem essa questão já estaria resolvida há muito tempo. As mulheres é que sofrem e se vêem sozinhas e as leis são feitas pelos homens", argumentou Temporão.

Para ele, a sociedade brasileira evoluiu bastante nos últimos anos e a discussão sobre aborto não pode mais ser considerada apenas do ponto de vista religioso ou ético e sim do prisma da saúde pública. "Eu tenho tentado há muito tempo tirar essa discussão da questão ética, religiosa, filosófica e do fundamentalismo e trazê-la para o campo real da dor, da morte e do sofrimento", comentou.

Vou adotar esse ponto de vista também e ver as coisas pelo prisma da Saúde Pública e abandonar qualquer visão ética ou religiosa.

Quantas pessoas nestepaís não ficam com seqüelas ou sofrem terrivelmente ao morrer devido a assassinatos mal realizados? É uma vergonha que, por estarmos presos a um dogma religioso ("não matarás"), nós condenemos inúmeros brasileiros à dor e sofrimento. Por isso, sugiro a criação da Secretaria de Execução Pública. O departamento funcionaria assim:

Aquele que tiver algum desafeto deve se dirigir à Secretaria munido de nome completo, endereço e foto do futuro alvo. Um profissional altamente qualificado comparecerá à residência do infeliz e realizará o serviço da forma mais indolor e higiênica possível, reduzindo, assim, as chances de sofrimento, dor e eventuais seqüelas que poderiam ocorrer caso o serviço fosse executado por um pistoleiro qualquer ou pelo próprio interessado. Além de tudo isso, a família do defunto receberá acompanhamento psicológico para superar a perda do ente querido.

O importante nesta questão toda é manter o foco na saúde pública e deixar de fora questões abstratas como ética e religião. Somente aqueles que morreram sofrendo ou ficaram com graves seqüelas sabem que não podemos deixar que dogmas continuem causando mais dor e sofrimento. Tirar das pessoas o direito de serem assassinadas com o acompanhamento do Estado é desumano.

Soa ridículo, não? Por que será?

sexta-feira, 11 de maio de 2007 19:07:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Você foi preciso:

"o debate sobre o aborto é um debate sobre o direito de matar."

A FSP de 15 de abril de 2006 escreveu um editorial (Nem a ciência nem a religião) defendendo o plebiscito. O articulista colocou lá seus argumentos. O conservador Olavo de Carvalho, odiado por legiões de progressistas, escreveu em resposta e com sua lógica irretocável:

"como ignoramos se o feto é um ser humano dotado de vida própria ou apenas uma peça do corpo da mãe, também não sabemos se retalhá-lo em pedaços é homicídio ou não; mas sabemos com certeza absoluta que, no presente estado de empate entre as duas possibilidades, todo aborto é uma aposta cega na inocência de um ato que tem 50% de chance de ser um homicídio. A própria existência da dúvida impõe, COMO DEVER MORAL INCONTORNÁVEL, abster-se desse ato até que a dúvida seja dirimida, se é que algum dia o será.

Mas a conclusão da Folha é simetricamente inversa: 'A única alternativa é deixar que o direito estabeleça o ponto, que será necessariamente arbitrário". OU SEJA: SE IGNORAMOS SE O FETO É GENTE OU NÃO É, O LEGISLADOR PODE FAZER COM ELE O QUE BEM ENTENDA. CORRER OU NÃO O RISCO DE MATAR UM POSSÍVEL SER HUMANO É APENAS UMA QUESTÃO DE GOSTO.

Para uma mente sã, qualquer conduta baseada numa dúvida é dúbia em si mesma; e ninguém tem direito à ação dúbia quando ela põe em risco uma possível vida humana"

http://noticias.cardiol.br/listanotsql.asp?P1=388371

Antes que entremos num novo campeonato de números, regsitro o comentário de um médico patologista:

"Sou patologista em um hospital público. A ginecologia atende as minas que chegam porque 'começaram a ter sangramento'. Aí o feto é eliminado todo esquartejado, e sabemos que foi provocado, mas elas jamais admitiriam. E NÃO PODEMOS colocar no laudo o estado do feto, apenas na descrição do material: "restos placentários e fetais". Na avaliação estatística, apenas o laudo conta. Assim o Ministério [da Saúde] não tem como saber, de maneira nenhuma, quantos são provocados realmente. Esse número é chutado, como tudo no governo, mas a burralha do povo acredita."

Minhas questões:

1.A legalização do aborto vai aumentar aumentar a demanda por abortos no Brasil?

2.O sistema de saúde pública, seguindo a máxima presidencial de que o aborto é questão de saúde pública, tem condição de absorver o aumento da demanda?

3.A legalização do aborto não é um PAC sob medida para as clínicas de aborto particulares?

Sim, sou contrário ao aborto e à pena de morte. Num provável plebiscito seguirei minha consciência e votarei contra.

sexta-feira, 11 de maio de 2007 19:14:00 BRT  
Blogger Cláudio de Souza disse...

Topo plebiscito para tudo!

sexta-feira, 11 de maio de 2007 19:21:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Não gosto da militância desse tema, nem de um lado nem do outro, porque fica parecendo incentivo a realização de abortos, enquanto a defesa refere-se a descriminalização. E quem defende, justamente prega que esse tema seja tirado da esfera pública das leis estatais e levado para a esfera privada da consciência individual, sobretudo da mulher. Por isso até o plebiscito desconfortável para quem é a favor, mas é a única forma seriamente viável de decidir isso socialmente.
Não tenho opinião abalizada de dono da verdade, e respeito quem pensa diferente, assim como gostaria que todos respeitassem as consciências alheias, não criminalizando-as; mas o dia em que algum feto de até 3 meses tiver condições de sobrevivência como um bebê prematuro, eu aceito a tese de comparar o aborto a matar.
Sinto pela ausência de mulheres nos debates deste post.

sábado, 12 de maio de 2007 00:15:00 BRT  
Anonymous Carlos disse...

Olá Alon, eu discordo sutilmente dessa sua posição. Sou católico e, apesar de discordar de muitas posições oficiais da Igreja, compartilho neste caso o ponto de vista dela: sou contra o aborto, em princípio. Mas não compartilho a histeria que se criou em torno do tema. Entendo que há situações particulares em que o aborto pode ser aceitável, embora o ideal seria obviamente que essas situações não ocorressem. O que sou completamente contra é o uso do aborto como método alternativo para planejamento familiar ou coisa parecida. Mas entendo a posição do presidente, e mais ainda a do ministro da Saúde (que a expressou com mais clareza e precisão). No momento em que muitas (não sei quantas) meninas perdem ou comprometem sua vida por culpa de abortos realizados em "clínicas" clandestinas, então é apropriado pelo menos discutir o tema abertamente. Nem que seja "apenas" para difundir mais os temas ligados à a educação sexual, incluindo os métodos contraceptivos.

Infelizmente não há radares para fiscalizar e evitar que meninas engravidem indesejadamente e, pior ainda, se submetam a abortos clandestinos.

Carlos

sábado, 12 de maio de 2007 07:44:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Carlos, este número de meninas que morrem em clínicas clandestinas é puro chute. O problema de descriminalizar o aborto é que isto significa descriminalizar um assassinato. E isto em princípio nada tem a ver com religião ou fé.
A seguir virá a eutanásia, (idosos holandeses fogem de seu país com medo da eutanasia), a eliminação de recém-nascidos com defeitos - se tiverem conseguido escapar do aborto. Como manter a coesão de uma sociedade deste tipo?

sábado, 12 de maio de 2007 11:03:00 BRT  
Anonymous Artur disse...

Alon,o debate sobre o aborto só é um debate sobre o "direito de matar" se for considerado um "direito" genérico de matar células vivas, como os nabos e os escargots.
Não é um dado científico inquestionável que um feto seja um ser humano e a discussão ética e legal,que embasa sua argumentação tortuosíssima, é sobre o direito de matar seres humanos.
Em seus termos há um apriorismo, há uma posição pessoal sem corroboração indiscutível.
Eu, defensor radical da descriminalizição do aborto, e que não considero um feto um ser humano, não vejo no ato algo nem um pouco mais grave, do ponto de vista do Estado, que colher rosas ou esmagar mosquitos.

sábado, 12 de maio de 2007 11:54:00 BRT  
Blogger Antonio José disse...

Sua posição na questão do aborto parece, no mínimo, simplificadora, tipo lógica binária, zero ou um, ou se está certo ou errado, ou se é a favor ou contra, como se entre branco e preto não existissem várias tonalidades de cinza. Sou contra o uso de drogas, mas a favor de sua legalização, sou contra suicídios etílicos, tipo "Despedida em Las Vegas", mas a favor do direito individual de alguém tirar a própria vida se de fato o quiser, posso ser contra a eutanásia, mas admitir que esta decisão é do indivíduo, não de alguma legislação genérica que impeça a todos de exercer um direito sobre a própria vida. Por que não aplicar tal raciocínio ao aborto?
Pode-se sim ser contra o seu uso e ser a favor do direito do indivíduo, no caso a mulher grávida, de decidir a respeito. Sua comparação com a questão do limite de velocidade não me parece legítima porque esta envolve diretamente o direito de terceiros, não somente do motorista obcecado por velocidade, mas de outros passageiros e de outros motoristas. Sua extensão à questão do aborto só tem algum sentido se se define como início da vida o momento da concepção, pois neste caso a legislação estaria garantindo o direito à vida de alguém que não tem o poder de se defender, de um terceiro, portanto. Neste caso não deveria interessar se a gravidez é simplesmente indesejada pela mãe ou, então, se a concepção é fruto de um estupro. Nossa legislação estaria errada já hoje. Mas se, como muitos defendem, a vida só começa quando se inicia a formação do sistema nervoso, então o aborto no início da gravidez não corresponderia a nenhum assassinato de inocentes. Trata-se, portanto, de questão que envolve várias nuances, bem maiores do que você sugere em seu texto.

Atenciosamente,

Antonio Meirelles

sábado, 12 de maio de 2007 13:13:00 BRT  
Blogger Antonio José disse...

Sua posição na questão do aborto parece, no mínimo, simplificadora, tipo lógica binária, zero ou um, ou se está certo ou errado, ou se é a favor ou contra, como se entre branco e preto não existissem várias tonalidades de cinza. Sou contra o uso de drogas, mas a favor de sua legalização, sou contra suicídios etílicos, tipo "Despedida em Las Vegas", mas a favor do direito individual de alguém tirar a própria vida se de fato o quiser, posso ser contra a eutanásia, mas admitir que esta decisão é do indivíduo, não de alguma legislação genérica que impeça a todos de exercer um direito sobre a própria vida. Por que não aplicar tal raciocínio ao aborto?
Pode-se sim ser contra o seu uso e ser a favor do direito do indivíduo, no caso a mulher grávida, de decidir a respeito. Sua comparação com a questão do limite de velocidade não me parece legítima porque esta envolve diretamente o direito de terceiros, não somente do motorista obcecado por velocidade, mas de outros passageiros e de outros motoristas. Sua extensão à questão do aborto só tem algum sentido se se define como início da vida o momento da concepção, pois neste caso a legislação estaria garantindo o direito à vida de alguém que não tem o poder de se defender, de um terceiro, portanto. Neste caso não deveria interessar se a gravidez é simplesmente indesejada pela mãe ou, então, se a concepção é fruto de um estupro. Nossa legislação estaria errada já hoje. Mas se, como muitos defendem, a vida só começa quando se inicia a formação do sistema nervoso, então o aborto no início da gravidez não corresponderia a nenhum assassinato de inocentes. Trata-se, portanto, de questão que envolve várias nuances, bem maiores do que você sugere em seu texto.

Atenciosamente,

Antonio Meirelles

sábado, 12 de maio de 2007 13:20:00 BRT  
Anonymous vladimir disse...

sua comparação com o exemplo do trânsito e do excesso de velocidade ou é muito burra (o que não acredito) ou é absolutamente DESONESTA

você fica querendo atribuir a si próprio a função de "crítico geral da república" e seu narcisismo o leva ao ridículo com construções supostamente engraçadinhas, promovendo analogias absurdas para descaracterizar o discurso dos outros...

e aí, na hora de entrar nas tais discussões filosóficas e científicas, você se recusa... assim fica difícil, né queridinho?

é muito fácil ficar no nível "político" das discussões, num pretenso criticismo sustentado por pitadinhas de sociologismo burocrático

aliás, burocracia é o que não falta no teu pensamento e nos teus raciocínios... uma planilha do excel que aprendeu a digitar sozinha

sábado, 12 de maio de 2007 13:28:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Alon, sua comparação do aborto (em qualquer circunstância) com direito de matar é contraditória com a defesa das pesquisas de células tronco embrionárias (óvulos fecundados) em post anterior.
Se você defende leis de acordo com seu conceito pessoal de início da vida, deveria extender ao pensamento dos clérigos sobre células embrionárias o mesmo direito de querer criminalizá-las, independente do seu conceito pessoal.
Do contrário deveria defender a descriminalização do aborto no início da gestação, mesmo sendo individualmente contra isso.
Ressalva: Se você que já estudou medicina, tiver argumentos científicos, extra-religiosos, que provem que um feto no início da gestação já é uma vida pronta capaz de ser matada, compartilhe conosco, que eu posso mudar de idéia.
Se aceitarmos a visão individual de religiosos do que eles consideram o início da vida, aceitaremos introduzir nos códigos legais conceitos fetichistas. Nada contra os fiéis que obedecem seus próprios conceitos, mas não podem impô-los pela força de leis do Estado aos demais cidadãos não fiéis que tem conceitos diferentes.
Dou razão a todos que conseguem enxergar as nuances sobre essa questão. Nem o mais ardoroso defensor do aborto seria capaz de defender um aborto às vésperas do parto, que seria uma clara eliminação de um organismo já composto e capaz de ter vida própria. Ninguém defende o aborto a partir de determinada semana de gestação, e desconheço alguma legislação em algum país onde o aborto é descriminalizado sem levar em conta o estágio da gestação.
Da mesma forma que o médico que faz transplantando órgãos doados não está matando o cadáver, porque não é mais um organismo vivo, apesar daquele órgão gozar de plenas condições de vida, tanto é que continuará compondo outro corpo vivo; um feto que ainda não constituiu-se em um conjunto orgânico capaz de viver não pode ser matado.
Quem pensa diferente, meus respeitos e decida de acordo com sua própria consciência, que façam sua pregação pelo convencimento, e não pela imposição de códigos legais.

sábado, 12 de maio de 2007 14:12:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Vocês tem que deixar de ser desonestos. Não se chegou até hoje a uma conclusão 100% correta sobre em que idade uterina o feto é considerado um ser humano. Só isso já serve para impedir qualquer justificativa de se praticar o aborto: na dúvida, não ultrapasse.

sábado, 12 de maio de 2007 17:43:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Oi Alon, excelent post. Realmente há algo de muito doente em uma sociedade que dá mais valor a tartarugas do que a fetos humanos. O Ocidente está engolindo a si mesmo com essa visão insana de direitos individuais.

domingo, 13 de maio de 2007 06:06:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Concordo com a linha adotada por Claudio Souza, José Augusto, e outros. Acrescento que também concordo com a opinião principal deve ser a da mulher. A primeira premissa deste debate é a que "todos são contra o aborto". A partir desta etapa se indaga em quais circunstâncias seriam necessárias que uma mulher recorresse ao aborto - discriminização. É importante lembrar que o Supremo Tribunal Federal está para decidir à partir de quando há vida a ser tutelada. Alon, apesar da sua pergunta atravessada, parabéns por mais este debate em seu "mural".

Rosan de Sousa Amaral

domingo, 13 de maio de 2007 21:53:00 BRT  
Blogger Roberto Pinho disse...

Falso Dilema:

A questão do aborto não é um dilema entre matar ou não matar fetos, mas um dilema entre matar fetos ou matar mães.

Entre um feto, ainda sem sistema nervoso central e uma mulher formada, acho mais válido sacrificar o feto que arriscar a vida desta mulher, mesmo que eu não concordasse com a sua prática.

segunda-feira, 14 de maio de 2007 10:11:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Se a discussão sobre o aborto é sobre o direito de matar, o assunto está resolvido. A imensa maioria dos brasileiros é a favor da pena de morte.

Que venha, então, o plebiscito. Mas que seja um só, e não dois.

quinta-feira, 17 de maio de 2007 13:10:00 BRT  

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