quarta-feira, 23 de maio de 2007

Autonomia (23/05)

Por que as emissoras privadas de tevê devem estar submetidas a controles estatais se as universidades públicas devem gozar de completa autonomia? É uma dúvida intelectual que me atormenta. Vocês sabem que eu sou a favor da rede estatal nacional de tevê, em estudo e preparação pelo governo federal. E sou também a favor de que as empresas privadas de comunicação tenham autonomia, dentro da lei, para decidir o que vão ou não veicular. Se a empresa é privada nela deve mandar o dono. Mas se a instituição é movida a dinheiro público o governo democraticamente eleito tem todo o direito de nela meter o bedelho. Você sabem também que volta e meia eu manifesto aqui meu incômodo com uma anomalia: os veículos de comunicação privados querem distância do controle estatal (o que é certo), mas não recusam a publicidade de governos e empresas estatais. Parece-me uma assimetria. Assim como é assimétrica (êta post asséptico, este) a seguinte posição:

- As tevês abertas, por serem uma concessão pública, devem estar submetidas a regras ditadas pelo poder público. Devem, por exemplo, seguir a norma do Ministério da Justiça que proíbe certos programas de serem exibidos em determinados horários (classificação indicativa). Já no caso das universidades públicas paulistas minha posição é que elas devem gozar de completa autonomia. O governo estadual se meter na vida delas representa uma violência inaceitável.

Sacaram? A reitoria da USP está ocupada porque os líderes do movimento querem derrotar politicamente o governo estadual. Não fosse assim, estenderiam sua luta pela autonomia universitária a outras esferas da atividade pública. Deveriam, por exemplo, ser radicalmente contra a ingerência do Ministério da Justiça na programação das emissoras de tevê. Mas não se trata disso. Os ocupantes da reitoria da USP querem o dinheiro do estado mas não aceitam o controle do estado sobre os gastos das universidades. Se essa posição faz sentido, faz mais sentido ainda que os donos dos veículos privados de comunicação exijam dos governos a publicidade oficial e se recusem radicalmente a sofrer qualquer controle externo. Afinal, as universidades públicas são públicas, enquanto jornais, revistas, rádios e tevês são privados. Querem saber? Se o PT tivesse vencido as últimas eleições para governador o mesmo pessoal que hoje ocupa a reitoria e tenta arrancar a fórceps uma greve na USP (em nome de uma suposta "autonomia universitária") estaria provavelmente fazendo fila na porta do Palácio dos Bandeirantes pedindo algum tipo de "controle público" da universidade sustentada com o direito do povo. Devo, de todo modo, admitir que no meu tempo (expressão horrível, essa) era mais fácil. Éramos oposição aos governos federal e estadual. Não tínhamos, como hoje, que praticar certos contorcionismos para tentar justificar no plano puramente intelectual algo cujas motivações começam e terminam no terreno da política partidária. Por isso, devo reconhecer, humilde e realisticamente, que os combativos meninos e meninas de hoje talvez sejam melhores do que éramos há trinta anos (afinal, a espécie evolui). A eles e elas, o meu respeito e a minha admiração.

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12 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Obviamente, vou manifestar minha discordância.

"Por isso, devo reconhecer, humilde e realisticamente, que os combativos meninos e meninas de hoje talvez sejam melhores do que éramos há trinta anos (afinal, a espécie evolui). A eles e elas, meu respeito e minha admiração."

Pergunto:

São melhores como se os paradigmas que orientam esses "meninos e meninas" não mudaram?

Na sua época, as variantes ideológicas acionadas nas exaustivas interpretaçções do "papel do ME na conjuntura política nacional" são as mesmas de hoje, Alon. Na liderança desse movimento estão as mesmas variantes do marxismo-leninsmo e do trotskysmo que informavam as tendências políticas organizadas do ME da sua época.

Nesse sentido, não houve nenhuma mudança. O ME, nesse sentido, é um movimento, ao menos na sua versão militante, profundamente conservador.

Na minha opinião está piorado. Sobretudo se o avaliarmos pelas "formas de luta" preferenciais. Há uma truculência fascistóide que nunca foi estimulada como "forma de luta" pelas tendências políticas que atuavam no ME no qual você foi dirigente.

Você está a par dos episódios de agressão a professores na Física de São Carlos e SP? Vai me dizer que isso é um acidente de percurso? Não creio. Penso que isso é método.

Você é um analista político muito bem informado. Não vê nesses episódios de agressão o mesmo método de certos setores da esquerda? Sim, Alon, estou me referindo aos vandalismos patrocinados pelo MST e quejandos, quando destroi laboratórios de pesquisa e invade como uma horda de bárbaros o Congresso Nacional. Vai me dizer que isso é a forma da luta de classes na fase blá, blá, blá...?

PS: Não existem meninos e meninas nesses episódios. Todos são adultos (infantilizados, talvez. Vide o ridículo que foi a ida das mamães em visita aos combatentes da cidadela vermelha uspiana.). Todos ali são adultos e sabem muito bem o que fazem, o que estão escolhendo fazer.

PS': Artur Araújo

Não por acaso, portanto, eu o escolhi como o meu comentarista comunista preferido.

abs.

quarta-feira, 23 de maio de 2007 19:50:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Os estudantes não estão se opondo à um projeto do governo federal de transformar Hospitais Universitários Federais em fundações auto-sustentáveis? Não estou bem a par deste projeto, mas me parece que a diretriz está coerente com a oposição à redução de autonomia na USP, guardadas as devidas contundências. Acredito que à medida em que o governo federal avançar enfrentará movimentos semelhantes aos da USP.

A classificação indicativa é um tema que deve pertencer à sociedade e não aos donos dos veículos de mídia. Eu sou favorável. Posso discurtir se o Ministério da Justiça é o melhor local para isso ou se teria alternativas melhores. Mas definir horário apropriado para exibição de programas como temática violenta, criminosa ou sexual não é censura, porque o programa pode ser exibido, só que em horário mais tarde. Isso é apenas proteção à infância. Inclusive pais que quiserem liberar aos filhos, podem deixá-los assistir tarde da noite ou gravar e assistir na hora que quiser. O dia em que os transmissores e televisores incluírem dispositivos que permitam aos pais bloquear aos filhos o acesso a programas de violência e sexo (como existe nos browsers da Internet), a classificação por horário pode ficar dispensada.

quarta-feira, 23 de maio de 2007 19:55:00 BRT  
Anonymous Fernando José disse...

Alon, não sei se entendi bem o que você escreveu, mas acho que você foi irônico...a realpolitk dos estudantes de hoje - defendem no Estado o que não defendem no plano federal - é sinal de atraso ou de hipocrisia. Os petistas chamam essa postura de "pragmática" hehehe, eu chamo de incoerente.
No seu tempo, não era assim, fala a verdade...vocês tinha mais vergonha na cara./

quarta-feira, 23 de maio de 2007 20:58:00 BRT  
Anonymous sidneig disse...

Não creio que os estudantes estejam contra a transparência quanto à utilização das verbas das universidades. Podemos perfeitamente ter autonomia universitária com obrigatoriedade de divulgação da maneira que são feitos os gastos, e outras regras para aplicação do dinheiro. Autonomia dentro de regras estabelecida é possivel. O que não pode é ficar na mão do governador de turno as decisões sobre liberação e aplicação dos recursos.

quarta-feira, 23 de maio de 2007 22:24:00 BRT  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon: O quê é isso? Misturar essa mídia do Brasil com a luta de estudantes e professores. Francamente... Um abraço.

quarta-feira, 23 de maio de 2007 22:57:00 BRT  
Anonymous JV disse...

só pode ser ironia de sua parte.

quarta-feira, 23 de maio de 2007 23:33:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Fina ironia, amigo. Permito o anonimato para concordar que se diferente fosse o resultado eleitoral em Sao Paulo, a bandeira seria "universidade popular e democrática" e pressão sobre o governador Mercadante para "popularizar a universidade" etc etc e vencer esse conceito democrático-burguês de "autonomia universitária".

quinta-feira, 24 de maio de 2007 05:48:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, reparo que não é de bom algúrio que o governo democraticamente eleito tem todo o direito de nela meter o bedelho. Sempre que se fala em Governo, refere-se ao Poder Executivo, um tanto hipertrofiado no Presidencialismo. Assim, um Executivo democraticamente eleito deve acionar as Instituições consagradas pela Democracia, às quais o Governo (Executivo)deve, primeiro e sem quaisquer titubeios, respeitar e zelar por elas. A hipertrofia do Executivo deve ser limitada por freios e contrapesos. Então, quem deve meter o bedelho são as Instituições.
Sotho

quinta-feira, 24 de maio de 2007 11:12:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A invasão da Reitoria da USP está fadada ao fracasso, mas gera fatos políticos. Tanto quanto as invasões e destruições de centros de pesquisas e a recente invasão de usina hidroelétrica. Os efeitos negativos de tais invasões, porém, são, de forma pouco sutil, colocadas no passivo dos outros. Assim, jamais falariam em ampliar o conceito de autonomia para outros setores. O objetivo não é este. Quem deveria ter contabilizado tal passivo em suas contas, desaparece.
Sotho

quinta-feira, 24 de maio de 2007 11:29:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, vc. me assustou!
Aqueles meninos do seu tempo, despreparados em compração ao atuais, são os que hoje dominam a cena no governo Lula. Isso quer dizer que os meninos atuais dominarão a cena de que governo no futuro? Será a ditadura total de um Stálin redivivo?
Em tempo: que comparação mais besta! É um non sequitur só...
Abx., de Marcelo.

quinta-feira, 24 de maio de 2007 12:21:00 BRT  
Blogger iagê disse...

Caro Alon,

Acompanho teu blog há muito, mas algumas comparações têm me incomodado. Aborto e excesso de velocidade foi uma que preferi não comentar, pois é um debate complexo, que não se reduz a uma decisão plebiscitária entre "sim" e "não". Sobre essa questão da autonomia da universidade (no caso, a USP) e a autonomia dos meios de comunicação, acho que o Paulo Henrique Amorim, no seu blog Conversa Afiada, responde à tua comparação, que, mais uma vez, me parece descabida:

". Ora, caro amigo leitor, é a reforma para centralizar nas mãos do presidente eleito José Serra toda verba disponível e dirigi-la a obras que tornem inevitável a posse (já prevista) de Serra na Presidência da República, em 2010.

. Como demonstrou a Carta Capital, a autonomia das universidades paulistas foi obra (elogiável) do então secretario Luiz Gonzaga Belluzzo, na gestão Orestes Quércia.

. Se não for assim, as universidades paulistas ficam como a Fundação Padre Anchieta, que controla a TV Cultura * pergunta lá na Cultura quem manda no pedaço.

. Se é o Conselho da Fundação ou o Governador ?"

Alon, os decretos de Serra não vêm propor um controle semelhante ao que se pede nos meios de comunicação. Primeiro, os meios privados devem ter um tipo de controle, já que são empresas e visam ao lucro e os meios públicos, outro mecanismo (público) de controle - o que não significa perda de autonomia, certo? Segundo, Serra não pretende submeter as contas da Universidade de São Paulo a um controle externo e público. Parece-me ingenuidade acreditar nisso. O interesse em controlar os recursos da USP é, como mostra a comparação, aí sim pertinente, de Paulo Henrique Amorim, semelhante ao que ocorre na TV pública do Estado de São Paulo. Há um Conselho, responsável pelo controle público da Fundação, mas quem gerencia verba e política é o governo estadual. Será que podemos ignorar isso? A autonomia que se busca proteger na USP (discutir como se dá essa defesa é outro debate, também necessário) é justamente contra interesses que contaminam, por exemplo, a TV Cultura.

Enfim, acho que essa comparação, tal como propuseste, e como a do aborto, não tem lógica; é retórica - perigosa.

quinta-feira, 24 de maio de 2007 14:17:00 BRT  
Blogger rafael disse...

O nome disto é um só, Alon: O chamado "movimento estudantil" é um monstrengo cuja cabeça é dominada por certos partidos: Pc do B, Psol, e as diversas tendências do PT. E é com esse tipo de coisa que a universidade brasileira pode se tornar cada vez mais irrelevante- e o Brasil um país mais desgraçado, certamente.

quinta-feira, 24 de maio de 2007 15:46:00 BRT  

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