segunda-feira, 7 de maio de 2007

O au revoir e as lágrimas (07/05)

Por que a direita ganhou as eleições na França? A maioria dos franceses é de direita? Há pelo menos um dado que debilita essa hipótese: cinco anos atrás a França uniu-se em torno de Jacques Chirac exatamente para impedir a vitória da extrema-direita de Jean-Marie Le Pen. Os franceses têm lá o seu charme histórico, mas são como qualquer outro povo. Costumam dar a vitória nas urnas a quem consegue interpretar melhor as tendências momentâneas do centro político e representar melhor as aspirações nacionais. E a França tem a sorte de contar com uma direita marcadamente nacional. As pessoas às vezes se esquecem de que a Revolução Francesa aconteceu na França. E de que Napoleão Bonaparte era francês. Assim como Charles de Gaulle. Lamento informar, mas nem Napoleão (clique na foto para ampliar o sarcófago do corso nos Invalides) nem De Gaulle eram de esquerda. Não à toa Nicolas Sarkozy encerrou sua campanha homenagenado os combatentes da Resistência Francesa contra a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial. Eu tenho inveja dos franceses. Eu invejo países que têm uma direita comprometida com o projeto nacional. Porque neles a alternância no poder não coloca em risco a nação. Pensando bem, eu também invejo os países cuja esquerda entende a importância do vetor nacional na resultante que leva à emancipação política e econômica dos trabalhadores. Eu invejo, por exemplo, a China -e acho que a minha admiração pelos chineses é evidente no blog. Uma figura que me marcou muito desde cedo foi Sun Yat-sen. O fundador da China moderna tampouco era de esquerda. É por essas minhas invejas e admirações, e pela importância que dou à questão nacional, que eu defendo a centralidade (para o Brasil) da integração regional da América do Sul. E é pela mesma razão que eu proponho e procuro tratar sempre com respeito os presidentes Hugo Chávez e Evo Morales, democraticamente eleitos e que encarnam as legítimas aspirações de seus povos pela soberania e por uma vida melhor. Mas eu estou divagando. Este post é sobre a França. O que foi derrotado na França? Uma esquerda multiculturalista, muito identificada com a "globalização alternativa" e pouco ligada à defesa da nação francesa. O que venceu na França? Uma direita antenada na globalização mas disposta a defender a França como bem próprio dos franceses. Tipicamente francês. E os imigrantes? Se eu fosse francês teria votado em Ségolène Royal. Porque eu invariavelmente voto na esquerda contra a direita. É um hábito antigo. Eu não concordei, entretanto, com a tentativa de Madame Royal de dividir os franceses entre tolerantes e intolerantes à imigração. Esse assunto foi resolvido cinco anos atrás, quando a França indicou a Monsieur Le Pen que ele jamais chegará ao poder. Do que se tratou agora foi outra coisa: foi se a França deveria ou não abrir mão do protagonismo de sua própria cultura e da sua própria política diante das pressões globalizantes -vindas da esquerda ou da direita. Circunstancialmente, Monsieur Sarkozy interpretou melhor a aspiração nacional do eleitorado francês. A Madame Royal restou o au revoir. Restaram também as lágrimas, dos repórteres e analistas que buscaram transformar a cobertura das eleições francesas numa arquibancada de Fla-Flu. Au revoir para eles também.

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7 Comentários:

Anonymous José Augusto disse...

Au revoir ao início das mudanças sociais do século XXI na França.
É verdade que a França vinha perdendo terreno econômico ao oferecer resistência ao projeto de globalização que procura tornar a economia dos países mais competitiva, via reformas, retirando benefícios sociais e barateando mão de obra. O que os franceses reclamavam quando rejeitaram a constituição européia é que não querem a Europa nivelada por baixo. Queriam que todos os países tivessem jornada de trabalho de 35 horas em vez da França ter sua jornada ampliada de novo para atrair empresas.
As leis trabalhistas vigentes hoje estão atrasadas em algumas décadas. Continua a jornada padrão de 8 horas, quando houve enorme ganho de produtividade via automação. Aumenta o tempo de aposentadoria enquanto o lógico seria diminuir, se os cálculos atuários levassem em conta a riqueza produzida pelas máquinas.
O século XXI exige que o trabalho de rotina seja reduzido em horas, e o trabalhador tenha mais tempo livre para estudar, reciclar, pensar, dedicar mais tempo a vida familiar, a educação dos filhos, a cuidar dos ancestrais idosos, participar mais do zêlo da comunidade em que vive, exercer atividades criativas ou mesmo realimentar a economia via lazer e turismo.
Os socialistas franceses reduziram a jornada de trabalho para 35 horas semanais. Resistiam a reformas. Os franceses como maioria rejeitaram a constituição Européia em referendo que beneficiava muito a economia das corporações e pouco a do cidadão.
Posso estar errado, mas para mim, Royal representa(va) a resistência ao nivelamento por baixo, à mexicanização da Europa. Sarkozy representa o contrário.
O relógio da mudança no Século XXI retrocedeu. Perdeu o mundo, em não ter a França um governo como referência para novas relações sociais e trabalhistas.
Espero que nas eleições parlamentares os franceses contrabalancem.

segunda-feira, 7 de maio de 2007 18:28:00 BRT  
Anonymous Robert disse...

Sou casado com uma jovem francesa que não é nem de esquerda nem de direita, muito pelo contrário. Ela, como milhares de patrícios, votou no centrista Bayrou por acreditar que este representaria a "verdadeira" mudança em relação aos demais políticos, sejam estes de direita ou esquerda. Como Bayrou não foi ao segundo turno, ela, sem pestanejar, decidiu votar em Royal, ainda q a candidata socialista não lhe encantasse nem um pouco ("falta-lhe algo"). A razão? "O arrogante do Sarkozy é ainda mais perigoso do que Le Pen, pq tem o q a este lhe falta: inteligência".

terça-feira, 8 de maio de 2007 07:52:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Você escreveu: "Porque eu invariavelmente voto na esquerda contra a direita. É um hábito antigo."

Pela lógica da sua afirmação só posso concluir que você define-se como um conservador de esquerda.

Interessante, não é? No imaginário esquerdista conservadores são sempre os outros, isto é, os direitistas.

abs

terça-feira, 8 de maio de 2007 10:28:00 BRT  
Anonymous Fabrício Santos disse...

Alon, você coloca no centro da decisão francesa por Sarkozy o tema da identidade nacional. Mas é no campo econômico e do trabalho que estão as principais diferenças entre as propostas de Royal e Sarkozy, não?

Em tempo. o que esperar das eleições parlamentares francesas, que vem em breve?

terça-feira, 8 de maio de 2007 14:09:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Alon, não pude deixar de lembrar de um post seu em que dizia que a criminalidade seria a ruína do PT e Lula, se insistissem em negligenciá-la. Referendei seu comentário, inclusive citando o exemplo de Brizola, vítima do desleixo com a criminalidade. Acho que é esse o fenômeno que acontece na França.
Desde Leonel Jospin, os socialistas tem perdido eleições pela visão equivocada de tolerância com a criminalidade crescente na França. É nesse vácuo que os conservadores tem ganho seguidas eleições, mesmo defendendo políticas contrárias ao interesse dos franceses, que preferem o Estado de bem estar social às reformas neoliberais.
É um aviso para o PT de Lula em 2010. Abram os olhos com a violência.

terça-feira, 8 de maio de 2007 14:16:00 BRT  
Anonymous Antônio Luiz Calmon Filho disse...

Alon:

Ter inveja da China e respeitar Chaves e Morales, daqui do Brasil, é muito bacana - por enquanto.
Reflita apenas que se você estivesse em qualquer um daqueles países você não poderia dizer o que pensa.
Simples assim.

quarta-feira, 9 de maio de 2007 13:14:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Não é significativo que Sarkozy - e não Ségolène, nem Royal - seja um nome estrangeiro na França?

Que seja Nicolas o descendente de imigrantes?

quinta-feira, 10 de maio de 2007 10:59:00 BRT  

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