segunda-feira, 16 de abril de 2007

O MST, o professor e a dúvida que permanece (16/04)

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) decidiu mirar direto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva para desempacar a reforma agrária no Brasil. Leia a reportagem de Verena Glass na Carta Maior. A posição do MST é razoável. Tenho escrito aqui que a reforma agrária patina no governo Lula. Aliás, faltou agradecer a gentil referência feita pelo colega blogueiro José Dirceu ao artigo que publiquei no Correio Braziliense sobre o assunto. Qual é, oficialmente, o principal entrave à reforma agrária no Brasil? A falta de terras para desapropriação. É por isso que os movimentos sociais do campo reivindicam corrigir para cima os índices mínimos de produtividade necessários para evitar que determinada área seja desapropriada por interesse social. Boa sorte ao MST na sua luta. Em contraste com essa realidade de escassez de terras, o professor Rogério Cezar de Cerqueira Leite interveio na Folha de S.Paulo de ontem para descascar os que têm dúvidas sobre o anunciado milagre do etanol. Aliás, mesmo quem não se interessa pelo assunto deve ler o texto do professor. Chega a ser espantoso que alguém com o nível intelectual dele recorra à retórica da fúria para tentar desqualificar quem discorda de suas verdades absolutas. Pelo visto, a alma humana é mesmo insondável. De repente, o sujeito explode sem que se saiba bem por quê. A tese de Cerqueira Leite e dos demais gladiadores do etanol é conhecida: a cana necessária para expandir fortemente a produção de álcool será plantada em terras ociosas. Eu, aqui do meu canto, vou continuar repetindo algumas perguntas, até que elas sejam convincentemente respondidas. Se, de fato, existem áreas de baixa produtividade disponíveis, por que então falta terra para a reforma agrária? Se não existem, o que se cultiva hoje nas terras que serão destinadas à cana? Nesse segundo caso, como garantir que a cana não vai empurrar outros ramos do agronegócio para áreas de preservação ambiental, reservas legais e terras indígenas? Essas e outras são dúvidas legítimas, que nem todos os adjetivos e toda a arrogância do professor Cerqueira Leite vão conseguir desqualificar.

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8 Comentários:

Anonymous Caetano disse...

Todas as pessoas, se perguntadas, são a favor da reforma agrária, desde que na terra dos outros... Por falar nisso, qual a densidade demográfica e a produtividade das reservas indígenas? Está aí uma área imensa a ser usada para a desejada agricultura familiar...

segunda-feira, 16 de abril de 2007 22:32:00 BRT  
Blogger Edgard Pina disse...

Ora Alon,

Apesar de concordar que o texto é desnecessáriamente agressivo, vale lembrar que ele menciona apenas terras de floresta ou ecologicamente sensíveis e não as atualmente agricultáveis. Conclui ainda que, multiplicando por 10 a atual produção de álcool, poderíamos chegar a ocupar tão somente e apenas 3 a 10% (dependendo da evolução tecnológica) daquelas terras (florestas e ecologicamente sensíveis). O que eu compreendi do texto é a a acusação implícita de que os chamados ecologistas fazem tamanho barulho por uma parcela ínfima de terras que podem vir a ser utilizadas na produção de álcool. O debate deve então girar em torno de se vale ou não apena utilizar estas terras (que não comprometem a produção de alimentos), ainda que utilizemos apenas 3 a 10% delas.

um abraço!

segunda-feira, 16 de abril de 2007 22:43:00 BRT  
Anonymous Artur Araújo disse...

Alon, e se para, além do "oficialismo", não faltarem terras, só vontade política, para execução de desapropriações? O cálculo usado para debater bioenergia muda? É, porventura, um cálculo conjuntural ou político-ideológico?
Quanto ao professor, confesso que ri muito, particularmente com o boi de 7 milhões de litros, o boi inevaporável, o boi-arrasa-quarteirão, 7 mil caixas d'água de picanha.(rs)
Tá bom, admito, foi excessivamente mordaz, mas já as teses... há réplicas firmes para os petardos do Dr. Rogério César?

terça-feira, 17 de abril de 2007 09:55:00 BRT  
Anonymous taq disse...

Com relação a falta de terras para a reforma agraria, acho esse argumento meio fraco, o que falata são terras onde os MST´s da vida querem, nas novas fronteiras agricolas, centro - oeste, norte, etc existem muitas terras ainda possiveis de plantio. O problema e que so querem ficar em SP, PR, RS, etc, neste estados existe uma grande dificuldade legal por conta da desapropriação das terras, inclusive aquelas que pertencem ao estado, mas que a anos já são ocupadas por fazendeiros e especuladores. Terras existem, só precisa ir onde elas estão.

terça-feira, 17 de abril de 2007 10:00:00 BRT  
Anonymous Fuad Mattar disse...

Está no estadão de hoje, o Brasil avisa a europeus que não aceita certificação ambiental para o etanol. Ou seja, o Brasil não aceita ter que certificar que a cana não foi plantada em terras que até pouco tempo antes eram florestas tropicais. O Alon está certo. Se a cana não vai invadir terras novas, por quê não aceitar a certificação?

terça-feira, 17 de abril de 2007 13:11:00 BRT  
Anonymous Frank disse...

Não entendi seu diagnóstico acerca do maior entrave à reforma agrária: falta de terras para desapropriação? De quem é esse diagnóstico? Do MST ou do governo?

Uns meses atrás, tomei contato com os números (do governo) da reforma agrária que vem se realizando no Brasil, desde FHC. Não os tenho, mas achei impressionantes. A quantidade de famílias assentadas é assombrosa. Pareceu-me que os que bradam que falta reforma agrária no Brasil estão indo contra (ou desconhecem) os fatos. Pode falar-se o que quiser: que falta apoio, crédito, etc. Mas que há assentamentos à larga, isso há.

Não se pode dizer que o MST seja hj um movimento pela reforma agrária. Em face do que o Estado brasileiro vem fazendo, desde FHC e continuando com Lula, o MST ficou sem bandeira real. Hj, o MST parece ser apenas uma caixa de reverberação de anacrônicos e batidos slogans da Esquerda.

quarta-feira, 18 de abril de 2007 11:03:00 BRT  
Anonymous Frank disse...

Não entendi seu diagnóstico acerca do maior entrave à reforma agrária: falta de terras para desapropriação? De quem é esse diagnóstico? Do MST ou do governo?

Uns meses atrás, tomei contato com os números (do governo) da reforma agrária que vem se realizando no Brasil, desde FHC. Não os tenho, mas achei impressionantes. A quantidade de famílias assentadas é assombrosa. Pareceu-me que os que bradam que falta reforma agrária no Brasil estão indo contra (ou desconhecem) os fatos. Pode falar-se o que quiser: que falta apoio, crédito, etc. Mas que há assentamentos à larga, isso há.

Não se pode dizer que o MST seja hj um movimento pela reforma agrária. Em face do que o Estado brasileiro vem fazendo, desde FHC e continuando com Lula, o MST ficou sem bandeira real. Hj, o MST parece ser apenas uma caixa de reverberação de anacrônicos e batidos slogans da Esquerda.

quarta-feira, 18 de abril de 2007 11:04:00 BRT  
Anonymous JV disse...

" Se, de fato, existem áreas de baixa produtividade disponíveis, por que então falta terra para a reforma agrária? Se não existem, o que se cultiva hoje nas terras que serão destinadas à cana?"

Esta resposta eu já te dei, Alon. Assentados querem terras de primeira, formadas, limpas e preparadas. As empresas do agro-negocio plantam soja em areia, desde que haja um bom regime de chuvas ou irrigação, o adubo fica por conta do capital a ser empregado.

quarta-feira, 18 de abril de 2007 22:13:00 BRT  

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