sexta-feira, 6 de abril de 2007

Governo vegetariano e terras finitas - ATUALIZADO (06/04)

Saiu hoje a segunda parte do relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês). É apocalíptico. Clique aqui para ler sobre. Aproveito o gancho para voltar ao debate sobre o etanol. Fidel Castro tem batido duro no plano Brasil-Estados Unidos de universalização do álcool etílico como alternativa aos combustíveis fósseis. O editor deste blog tem dúvidas parecidas com as de Fidel (no final deste post, links para posts anteriores sobre o etanol). Clique aqui para ler artigo do presidente cubano sobre o assunto. Para enfrentar bem a discussão, falta aos militantes do etanol responder a uma dúvida central: de onde virão as terras para produzir plantas em quantidade suficiente para abastecer de álcool os mercados internacionais, na proporção desejada por George W. Bush e Luiz Inácio Lula da Silva (já que nem a velhinha de Taubaté cairia na conversa de que esse crescimento da produção virá apenas por ganhos de produtividade). Não sei se Fidel está certo no seu ponto de vista sobre o tema, mas sei que enquanto a dúvida acima não for respondida o presidente cubano estará em vantagem na polêmica. Vamos ao caso brasileiro. Nossas terras produtivas, grosso modo, distribuem-se entre: 1) áreas de proteção ambiental e reservas legais, 2) territórios indígenas, 3) lavoura e 4) pecuária. O governo afirma que a expansão da área plantada de cana de açúcar vai se dar preservando os itens 1 e 2. Sobrariam então terras em que hoje se planta ou se cria gado. Mas o governo diz também que as áreas destinadas à produção de alimentos tampouco serão afetadas, "apenas os pastos". Pelo visto, o governo brasileiro aderiu ao vegetarianismo, pois não considera a carne um alimento. Vejam como o argumento governamental não pára de pé. Suponha que a cana de açúcar para a produção de etanol avance nas áreas de pastagens e de grãos. Qual será a conseqüência imediata? Queda de produção de carne e grãos. Mas o Brasil é um campeão mundial na produção de carne e grãos. Hoje, o The New York Times traz reportagem sobre a pressão de demanda chinesa pela soja brasileira. Demanda em alta e produção em baixa significam aumento de preços. E preços de commodities em alta significam estímulo à produção. Ou seja, se a expansão da cana se der à custa de pastos e plantações de grãos, as vacas, os bois e a soja serão empurrados para onde existir terra disponível. Para as áreas de proteção ambiental, para as reservas legais e para as terras indígenas. Claro que você pode discordar. Você pode achar, por exemplo, que o agronegócio deixará de lado os rentáveis boi e soja em nome do combate ao aquecimento global. E uma dúvida final, exposta em posts anteriores: se há terras de baixa produtividade disponíveis para a cana, por que o governo diz que faltam terras para fazer a reforma agrária?

ATUALIZAÇÃO (09/04, 18h11) - Coloquei na seção Textos de outros o interessantíssimo How Biofuels Could Starve the Poor, de C. Ford Runge e Benjamin Senauer, publicado na revista Foreign Affairs, edição de maio/junho de 2007. Parece-me um texto bem fundamentado sobre o caráter ficcional de que se reveste a idéia de uma "revolução sem custos" no biocombustível. Leia e veja por que Fidel está em vantagem no debate.

Posts anteriores:

Uma dúvida sobre o álcool e a reforma agrária

Duas medidas simples, para evitar as más companhias

Que antiamericanismo?

Álcool, reforma agrária e meio ambiente

As crianças estão brincando lá fora


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12 Comentários:

Anonymous Ricardo Melo disse...

Existem 200 milhões de hectares de pastagens no Brasil.
Com 22 milhões de hectares de cana o Brasil substituiu 5% do álcool do mundo.
Com o aumento da produtividade da cana (via hidrólise) da palha, a produtividade pode aumentar ao dobro.
Ou seja, com 22 milhões de hectares de pastagens ocupados pela soja, há perspectiva de o Brasil substituir até 10% da gasolina do mundo.
Isso não é tudo. Segundo os estudos de JW Bautista Vidal, com óleos vegetais, ou com biodiesel, o Brasil poderia gerar combustíveis na mesma proporção que a Arábia Saudita exporta hoje.
Quem é JW Bautista Vidal? É o pai do Proalcool.
As culturas energética não incorrerão em fome no mundo. É importante lembrar que a fome do milho no México decorre da influência do programa norte-americano do etanol, baseada no processo do milho, que é ineficiente.
O problema da fome no mundo é causado pela má distribuição de renda.
Se países africanos apostarem na produção de biodiesel, poderão incorporar milhões de pessoas na economia global, e isso ajudaria no combate à fome.
Repito: não há falta de alimentos no mundo. E para afimar isso, me baseio em Amartya Sen.
A fome global é melhor explicada pelo gasto em armamentos (fato que não deve mudar) e pelo alto subsídio dado aos agricultores dos países ricos, que deixa os agricultores dos países pobres sem mercado nos seus próprios países e com fome por falta de mercado e renda.
A Reforma Agrária lenta e gradual do Brasil deve ser melhor explicada pelo governo. Terra ociosa é que não falta. Aliás, o índice que calcula a ociosidade da terra está defasado. Talvez a bancada ruralista esteja colocando entraves para a atualização desse índice.

sexta-feira, 6 de abril de 2007 16:00:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Ricardo Melo foi ao ponto.

Não dá para falar aqui na base do achômetro. Quem pode responder as suas perguntas são os pesquisadores que atuam na agronomia e na biotecnologia.

Quando se fala de pastagens é preciso diferenciar as áreas de pastagem que estão degradadas também para pastagem. A pastagem é a que requer solos menos férteis. Seria um crime fazer reforma agrária com essas terras de pastagens degradadas.

Ao MST e quejandos não interessa que seus "campesinos" tornem-se prósperos agricultores. O ideal deles é o de uma reforma agrária de molde comunitarista que mistura coisas incompossíveis: proselitismo "marxista" e cristianismo.

sexta-feira, 6 de abril de 2007 18:03:00 BRT  
Anonymous Anísio Lana disse...

A pauta é poluição do planeta. O Etanol brasileiro será econômico, sem dúvida. Porém terá sua fatia de poluidor e vai estimular o que não deveria, demastamento. A queima da cana será um poluidor a mais, e esse é o fator que se faz discutir. O etanol tem suas vantagens, ninguém discute, o que se discute é quem vai tirar vantagem disso, e através do celo de "proteção ao meio ambiente" vai fazer o contrario, explorar, desmatar. Vale lembrar que estamos no Brasil, onde derubar árvores e queimar florestas é cultural como o Big Brother da globo.O etanol já é uma realidade, então que não seja também um fator destruidor de nossas riquezas naturais em nome do consumo, o detonador do planeta terra.

sexta-feira, 6 de abril de 2007 18:03:00 BRT  
Anonymous Ricardo Melo disse...

O surgimento de uma crise alimentar no México em decorrência do uso do milho no projeto do etanol estadunidense é um argumento que os opositores do projeto do etanol brasileiro têm usado com frequência. Esse "argumento" na verdade não tem validade em comparação ao projeto brasileiro. A seguir está um outro lado pouco conhecido desta questão:
Crise da fome no México:
Como integrante do NAFTA, o pobre México praticamente foi incorporado à economia dos EUA. E, como o programa de álcool estadunidense é baseado no uso de milho, o governo mexicano permitiu – por não possuir mais autonomia real – a expansão do programa do milho no país.
O governo mexicano não se preocupou com a dieta da população, que é justamente baseada no consumo do milho, principalmente na forma de tortilha.
O caso do México é exemplar. Atendendo às regras de mercado do poderoso vizinho, o governo mexicano não se preocupou com a estratégia alimentar do próprio país. Afinal, o Estado mexicano, ao aderir ao NAFTA, abriu mão de suas atribuições básicas de planejamento.
Apesar de ser um país subdesenvolvido, a situação do México é claramente diferente do Brasil. O México, embora tenha grande extensão territorial, e uma boa insolação, possui uma extraordinária carência de água. E essa carência faz com que o país não disponha de terras para a expansão agrícola de culturas energéticas. O que o México tem daria para suprir a dieta da população local.
Como o Estado local não planejou a sua agricultura, grande parte do milho do país está sendo direcionada ao programa energético dos EUA. Afinal, pelas leis de mercado impostas pelos EUA, o milho para a geração de energia vale mais do que o milho alimentar. Então, os produtores vendem a quem paga mais.
Devemos sempre lembrar que, segundo Amartya Sem, a causa da fome no mundo não é a falta de alimentos, mas sim a má distribuição de renda.
A expansão de um modelo energético baseado na biomassa nos países tropicais com boa disponibilidade de água pode gerar forte enriquecimento das economias nacionais. E a renda oriunda disso tudo não fica somente concentrada nas mãos de plantadores e usineiros. A renda desse negócio gera o chamado efeito riqueza. Ela se espraia para todas as atividades econômicas locais.
O biodiesel tem condição de, no plano futuro, ajudar no fortalecimento da agricultura familiar. Há problemas sérios quanto a esse tema atualmente no Brasil, mas esse programa está só engatinhando, muita coisa vai ser descoberta e desenvolvida nessa área ainda.

Sobre a poluição do etanol: vários estudos comprovaram que o balanço de CO2 do etanol brasileiro é negativo. Isso quer dizer que a emissão de carbono na queima de álcool é inferior à captação de carbono no canavial.
Para quem se interessar por mais detalhes, recomendo o sítio do prof Cerqueira Leite no seguinte link:
http://www.inovacao.unicamp.br/etanol/

sexta-feira, 6 de abril de 2007 18:33:00 BRT  
Anonymous Artur Araújo disse...

Caro Alon,
creio que os outros comentaristas já deram o tom de "pé-no-chão", de "back-to-data", que essa discussão exige.
Eu vou por outra embocadura: toda vez que leio sobre "falta de terra para alimentos", "aquecimentos apocalípticos", "fim do petróleo", "fim da história" e quejandos,ponho as (brancas) barbas de molho e sinto cheiro de dejá-vu.
No caso dos biocombustíveis quero mais é ler uma pauta centrada nos modelos de propriedade e uso da terra que um novo ciclo de produção de cana e oleaginosas pode trazer, inclusive com alto graus de descentralização fundiária e decooperativização do agronegócio, via ação estatal de financiamento e regulação.
Aceitas a encomenda?

sábado, 7 de abril de 2007 15:44:00 BRT  
Blogger Michel disse...

Enquanto não fôr estudado o renovável, nem vale a pena ter ideias...

sábado, 7 de abril de 2007 15:50:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Artur

Boa. Nossa seara é a política. A pauta que você sugere é pertinente.

Tenho um grande amigo de infância que se diz ateu. Quanto ao fim do mundo, ele acredita piamente num final tipo big bang. Eu, crente, gosto mais da versão do Apocalipse.

Ambos concordamos que o atual irracionalismo ambientalista lembra muito o pensamento de 68 (ei, ei, ei Marcuse é o nosso rei!)e seu ódio à civilização ocidental porque industrial, tecnológica e capitalista.

Abolidas a ciência e a técnica, escreveu hoje um outro amigo, as pílulas de Frei Galvão serão decretadas a salvação do SUS.

Um pouco de vida inteligente:

"A tese de que a floresta Amazônica e a Mata Atlântica sofrerão grandes mudanças com o aquecimento global é considerada "uma besteira" por uma das mais importantes autoridades da geografia brasileira: o professor Aziz Ab´Sáber, 83 anos."

Segue o link para entrevista com o professor:

http://www.estadao.com.br/especial/global/noticias/2007/mar/16/242.htm

sábado, 7 de abril de 2007 22:43:00 BRT  
Anonymous Ricardo Melo disse...

A possibilidade do Brasil substituir parte da gasolina do mundo já é fato comprovado. Tenho um arquivo com um trabalho do Prof Cerqueira Leite, com mais de 300 páginas, demonstrando a viabilidade de a cana brasileira chegar a substituir até 10% da gasolina global. Substituindo algo como 10% das pastagens do país pela cana.
Isso parece incrível mas é viável. E é demonstrado em termos de clima, solo (fertilidade, composição, declividade, etc), infra-estrutura; enfim, todos os aspectos envolvidos. Inclusive a tecnologia que foi desenvolvida aqui.
Podemos também exportar tecnologia: técnicas agrícolas, biotecnologia, tecnologia de produção do álcool, constução de usinas de cana, carros flex, colheitadeiras mecânicas, etc.
E exportar tecnologia é o pulo do gato de uma Nação.
Se o Brasil protagonizar isso em outros continentes pode, ao mesmo tempo, ajudar na composição de uma nova matriz energética e ajudar na ampliação da agricultura em regiões marginalizadas do comércio internacional, como é o caso de áreas inteiras da África. E, como já cansei de afirmar, a causa da fome global é a falta (concentração) de renda...
A cultura da biomassa poderia levar renda a milhões de famílias sem mercado do Brasil e da Àfrica.
Calma, isso não é tudo. É só a ponta do Iceberg. Tem muito mais por aí.
O uso intensivo da biomassa na substituição do óleo diesel e de outros óleos automotores pode implicar, no longo prazo, na substituição integral do petróleo.
Apesar dos problemas do projeto do biodiesel, que eu já citei antes, a itenção dos projetos do governo é a de acoplar a produção dé óleos combustíveis à agricultura familiar.
O projeto do álcool tem mais de 30 anos. O biodiesel começou ontem, embora esteja sendo prejudicado pela cultura da soja, que está tirando o filé dos pequenos agricultores. Mas uma sintonia fina pode ajustar isso também.
Quem tiver alguma curiosidade sobre a extensão e importância disso tudo precisa ler uma ótima entrevista da Caros Amigos com o pesquisador JW Bautista Vidal, um dos idealizadores de todos os projetos de biomassa e do Proalcool.
Segundo Bautista Vidal, só com a produção de dendê, o Brasil poderia gerar uma produção de óleo equivalente à da Arábia Saudita. Isso poderia ser feito em meio à Floresta Amazônca, sem derrubar a mata. Só na base da coleta, no mesmo padrão dos antigos seringais.
Praticamente ninguém entendeu ainda a enorme capacidade que o dendê, a manona, o pinhão-bravo, o babaçú possuem de captar e armazenar energia solar. Eles são altamente intensivos na fotossíntese, e são muito, mas muito superiores à cana-de-açúcar, que já é considerada como uma verdadeira "bomba energética" (e ainda há que ache que os portugueses eram burros).
A enorme capacidade fotossintética desses vegetais demanda pequenos espaços para a produção de muita energia. Energia limpa e renovável todos os anos.
Uma energia muito diferente do petróleo, sujo e não renovável.
Uma energia só disponível aos países tropicais, com boa disponibilidade de sol e água.
Um recurso estratégico para o Brasil, que é o único país tropical a desenvolver a tecnologia para substituir o petróleo, que está minguando e terá de ser substituído nas próximas décadas.
Recomendo novamente a leitura da entrevista com Bautista Vidal.
As áreas abordadas são variadas:
energia, independência econômica das nações tropicais pela posse da energia, política, economia global, biomassa.
O link é :http://carosamigos.terra.com.br/outras_edicoes/grandes_entrev/bautista.asp
Depois de ler, poderemos todos falar bem ou mal, propor os problemas ou obstáculos. Mas antes, é bom saber que as perspectivas desses projetos são revolucionárias. E lembrar também que, no Brasil, há espaço para muita coisa: biomassa, Reforma Agrária, agricultuira familiar, agroindústria.
Enfim, precisamos sair da estupidez da lógica binária (Reforma Agrária ou Agroindústria?).

domingo, 8 de abril de 2007 10:42:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Nesse assunto eu fico com a opinião do Luiz Pinguelli Rosa, ex-presidente da Eletrobrás no 1o. governo Lula e diretor da COPPE/UFRJ:

"É pouca a área plantada de álcool. Se você considerar que a soja ocupa 23 milhões de hectares, e a cana entre sete e oito milhões, sendo metade para produção de açúcar e metade para álcool. Então, de fato, a plantação de cana para a produção de álcool ocupa por volta de quatro milhões de hectares, ou 3,5 milhões. Excetuando as pastagens que são mais de cem milhões de hectares, das áreas agriculturáveis do país uma boa parte está degradada. É possível expandir a área plantada de cana para a produção de álcool, mas é preciso, como já disse, melhorar a produtividade. Os melhores produtores de cana, que apresentam uma produtividade infinitamente melhor, estão quase todos em São Paulo. É possível produzir mais álcool."

Sobre afetar produção de alimentos:

"Bobagem. Discussão vencida... Pode ser o problema da China, que não tem muito lugar para plantar. Não é o nosso caso, podemos plantar álcool, biodiesel, que não vamos ter problemas na produção de alimentos."

Sobre como plantar tudo isso protegendo o meio ambiente:

"Polícia, Forças Armadas. Você tem lei, então, cumpra-se lei... Houve, na Amazônia, grandes operações da Polícia Federal, apoiadas pelas Forças Armadas e com a assistência do Ibama. De fato, melhorou. Nos últimos dois anos, houve uma taxa menor de desmatamento."

"...Havia uma velha dívida do Estado, que agora está sendo cumprida pelo governo, que era o zoneamento da Amazônia, ou seja, definir vocações. A Amazônia é uma fusão de amazônias. Existem áreas nas quais você pode plantar, áreas nas quais não deve, áreas que precisam ser preservadas..."

A entrevista inteira está no blog do Zé Dirceu, na seção entrevistas, e ele é entusiasta do acordo com os EUA, é crítico da atual gestão da Eletrobrás, e defensor da energia nuclear.

domingo, 8 de abril de 2007 20:30:00 BRT  
Anonymous Ricardo Melo disse...

Alon,

Tal qual Jack o Estripador, vou comentar o seu post por partes.

1) Sobre acabar com as pastagens do Brasil.
Calma, a expansão da cana no Brasil não vai acabar com a sagrada picanha. Temos 200 milhões de hectares de pastagens. E a grande maioria dessas pastagens do Brasil além de extensiva é ociosa. São muitos milhões de hectares ocupados com reduzido número de cabeças de gado. Em muitos casos, o gado está sendo usado com um único propósito: demonstrar que a terra tem dono e é “produtiva”. Isso é um problema do nosso defasado índice de produtividade rural, outro assunto.
São ainda pouquíssimos os hectares comprometidos realmente com uma atividade com bom nível tecnológico, aptos a fornecer carne para o mercado interno e externo com qualidade e eficiência.
Mesmo levando em conta o inegável avanço da pecuária nacional nos últimos anos, posso afirmar com certeza: bem mais da metade da área de pastagens seria melhor aproveitada com uma boa Reforma Agrária e pela expansão da cana e outras culturas energéticas e alimentares. E mesmo assim, continuaria sobrando carne.
Na verdade, o termo “pastagens” não é sinônimo de pecuária produtiva. “Pastagens” é um termo muito vago. Ele inclui também grandes áreas sem destinação econômica definida. Existiu, existe e existirá muita especulação de terras no Brasil.
Desse modo, podemos ficar tranqüilos que o churrasco do fim de semana continua e continuará garantido. Ninguém vai precisar virar vegetariano. Mesmo que a cana abarque 10% das pastagens, tenham certeza de que os canaviais não soterrarão milhões e milhões de cabeças de nelores e brangus.

2) Sobre o fim da soja.
Pelo contrário, as terras ocupadas pela soja são muito produtivas e rentáveis. Portanto, tendem a ser mais caras. A lógica capitalista induz que o investidor da cana dê preferência para a compra ou arrendamento das baratas e ociosas pastagens.
Na verdade, o perigo é a soja se ampliar com a finalidade de se produzir biodiesel. Esse é o problema que está acontecendo com os projetos de biodiesel no Nordeste do Brasil. A intenção do governo é favorecer a agricultura familiar com o cultivo de mamona, dendê e pinhão-bravo destinado à geração de biodiesel.
Os problemas decorrentes do avanço da soja nessa área (energética) deverão ser resolvidos com uma sintonia fina do governo. Nada de catastrofismo. O brasileiro tem essa mania de apedrejar uma alternativa nacional quando surge o primeiro problema no horizonte. Sejamos menos colonizáveis.

3) Aumento dos preços dos alimentos no mundo.
Esse fato é explicado pelo efeito riqueza do “planeta China”.

4) Sou fã de Hugo Chavez, de Fidel Castro e da Revolução Cubana. Gosto dos seus discursos e, além de seus discursos, da prática desses líderes. Mas não adianta negar. Depois de ser um satélite da União Soviética, Cuba passou a depender da política externa da Venezuela. Hoje é Chavez quem garante os cubanos contra o bloqueio imposto pelos EUA. Apesar disso continuo pensando com a minha própria cabeça. E ela não concorda com Fidel e Chavez no quesito etanol e biomassa. Eles deveriam preparar os seus países para um novo paradigma energético, pois o modelo baseado no petróleo está condenado.
Até bem pouco tempo atrás, Hugo Chavez era entusiasta do programa do etanol brasileiro. Esse posicionamento mudou quando Bush resolveu correr para o presidente Lula propondo um acordo internacional. Certo, esse pode ser um aspecto das tensões das Relações Internacionais. Mas também não considero isso uma atitude inteligente e comprometida com um novo panorama energético global.

terça-feira, 10 de abril de 2007 10:43:00 BRT  
Anonymous Neves disse...

Fidel está pleno de razão. O estadista veterano forjado no epicentro da guerra fria sobressai neste momento com uma visão lúcida da crise energética que se aproxima. Os demais chefes de estado jogam para a platéia, ninguém quer tocar em questões incomodas e desagradáveis às ilusões consumistas de suas respectivas populações. Copiar o american way of life é impossível em escala planetária, como vaticinava o Clube de Roma há décadas, se o mundo consumisse petróleo como consome os EUA, seria necessário multiplicar a produção por cinco, algo impossível de ser atingido. O crescimento econômico encontra limites no uso de energia, quando este consumo energético atingir o apogeu, a riqueza mundial também estará no apogeu. Um mundo com menor uso de energia será um mundo mais pobre. A riqueza está criada, trata-se de dividi-la.

terça-feira, 10 de abril de 2007 12:15:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Bom Dia Brasil de hoje:

Cana-de-açúcar invade os pastos e muda a economia do interior




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RENATO MACHADO: O interior do Brasil está mudando de novo e bem depressa. Depois da soja, agora é a cana-de-açúcar que avança, tirando espaço de bois e vacas. Vamos voltar a São Paulo, Mariana, algumas festas tradicionais também estão mudando

MARIANA GODOY: A Festa do Leite de algumas cidades não existe mais, porque a criação de gado foi substituída pela cana. Até a Festa do Peão de Barretos também foi afetada pela mudança que está trazendo outro tipo de riqueza e fazendo o preço da terra disparar.

REPÓRTER: A cana cresce com facilidade - para cima, por natureza; e para os lados, por causa dos lucros. Na média nacional, a área plantada aumenta 5% ao ano. No momento, trata-se de uma força sem oponentes no campo.

Ênio Melo Rodrigues - Diretor do Sindicato Rural: "A cana hoje produz, na renda, o dobro da cultura da soja e mais quase três vezes a renda do gado da pecuária, tanto de corte como pecuária leiteira".

REPÓRTER: A marcha dos canaviais vence até no estado de São Paulo, onde a terra sempre foi disputada. Na região de Ribeirão Preto, a primeira vítima foi a pecuária leiteira. Em Batatais, a Festa do Leite perdeu o sobrenome - o leite acabou. A laranja, que já reinou absoluta em Bebedouro, hoje é minoria. Neste ano, as usinas chegaram à terra do peão de boiadeiro com três novas unidades.

Se antigamente o gado comia a cana, hoje a cana é que engole os passos da pecuária. Trata-se de uma transformação que está mexendo com a cultura no interior de São Paulo. A Festa do Peão de Barretos já não tem nenhum fornecedor de touros do próprio município. Ninguém sabe quem vai ser o próximo campeão do rodeio. Mas o boi, com certeza, vem de fora.

Avô e pai pecuaristas, Cyro acaba de se tornar canavieiro. Os 500 hectares de capim braquiária que fizeram a riqueza da fazenda estão sendo gradeados. O gado vai mudar de estado.

CYRO PENNA - produtor rural: "Nós migramos nosso negócio de pecuária. Nós arrendamos uma propriedade no Mato Grosso e estamos tocando nosso negócio de pecuária lá".

REPÓRTER: O curral vazio aperta o coração o produtor rural José Cantizano, mas a terra plantada com cana alegra o bolso dele.

JOSÉ CANTIZANO - produtor rural: "Quando vejo as novilhas, vou sentir porque a gente gosta. O que eu gosto é de gado, sempre gostei. Nós vamos diminuindo e vamos trocar pela cana para acompanhar a evolução e a técnica".

REPÓRTER: Com a corrida das usinas e de algumas propriedades já dobraram de preço. É um lado bom e outro preocupante. Na avaliação do agrônomo João Amadeu Giacchetto, o custo da valorização da cana é a concorrência sufocada.

JOÃO AMADEU GIACCHETTO - agrônomo: "A monocultura, com o cultivo da cana-de-açúcar, acaba com aquela imagem do homem do campo. Nós estamos passando agora para uma atividade essencialmente econômica, sem vínculo com a terra".

RENATA VASCONCELOS: A região Centro-sul do país concentra 85% da produção de cana-de-açúcar. Nos próximos dias, a colheita começa a ser moída nas usinas. Hoje, o Brasil é o maior produtor mundial de cana. São quase 390 milhões de toneladas, processadas em 306 usinas.

MARIANA GODOY: Os produtores brasileiros aproveitam o pioneirismo para ganhar mercados, mas especialistas afirmam que esta transformação, embora lucrativa, pode atrapalhara a produção de grão e alimentos, não só no Brasil.

MÍRIAN LEITÃO: E a gente tinha que aprender as lições já vividas. A gente já viveu problemas assim. Na economia, uma coisa afeta a outra. Por exemplo, nos Estados Unidos a grande preocupação com o milho, que se espalha como a cana-de-açúcar está se espalhando aqui. E tudo está indo produzir etanol. Resultado, a soja começou a subir de preço.

E o departamento de Agricultura dos Estados Unidos já avisou que a carne também vai subir. O pior, é que lá, eles comem milho nos cereais da manhã, comem milho nos produtos habituais das refeições e adoçam refrigerantes com milho, e nos fins de semana, comem pipoca no cinema. A contribuição com a alimentação é direta. A monocultura nunca foi um bom negócio no Brasil. E diariamente, novas áreas estão indo para produção de cana. Isso expulsa a soja e a pecuária para a Amazônia e aumenta o desmatamento. O Brasil já viu esse filme e ele não termina bem.

terça-feira, 10 de abril de 2007 12:56:00 BRT  

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