segunda-feira, 9 de abril de 2007

Eu e o cachorro de Pavlov (09/04)

Na última quarta-feira, Luiz Inácio Lula da Silva encarregou a Força Aérea Brasileira (FAB) de garantir um feriado de Páscoa tranquilo para os passageiros da aviação civil nacional. De posse da autoridade que o governo vinha lhe negando nos últimos seis meses, a FAB deu um jeito e correu tudo bem. Hoje, Lula agradeceu. À FAB? Que fez das tripas coração para cumprir a missão presidencial? Não, o presidente agradeceu aos controladores de vôo. O governo, pelo visto, gosta mais dos controladores de vôo do que da FAB. Talvez porque os sargentos-controladores sejam aliados do governo na "desmilitarização de bilhões de reais" do sistema de controle do tráfego aéreo nacional. Essa é uma boa pergunta, aliás: o governo mantém as Forças Armadas à míngua porque supostamente não tem dinheiro, mas acha bom gastar bilhões de reais para duplicar algo que já existe. Sim, duplicar, a não ser que alguém esteja planejando entregar também o controle militar do espaço aéreo nacional ao sindicato dos sargentos-controladores. Eu quero, cada vez mais, que o controle do tráfego aéreo civil brasileiro continue nas mãos da Aeronáutica. Em primeiro lugar, porque eu sou contra gastar bilhões inutilmente (ou "utilmente", conforme o ponto de vista). Em segundo lugar, porque eu quero morar num país em que o presidente da República não se sinta obrigado a agradecer aos controladores quando a aviação comercial funciona normalmente. Em terceiro lugar, porque eu sou como o cachorro do Pavlov (foto). Eu tenho reflexos condicionados. Durante seis meses, os controladores de tráfego aéreo mandaram e desmandaram no sistema, fizeram todo tipo de operação-tartaruga e chegaram até à greve geral. Para o usuário comum, como eu, foi um inferno. Aí o presidente mandou a FAB dar um jeito -e ela deu. Pois eu quero que tudo continue como foi na Páscoa. Ainda que eu compreenda a insatisfação dos controladores. Eu também gostaria de pertencer aos quadros do funcionalismo federal civil, ganhar um ótimo salário, ter estabilidade no emprego e também o poder de parar o país quando me aprouvesse, sem recear qualquer punição por causa disso (o direito de greve está garantido na Constituição). É preciso saber, porém, se essa alternativa seria boa para o Brasil. Eu acho que não seria. E uma observação final: eu estou fora de circulação, e por isso os posts rarearam. Fora de circulação, mas de olho bem aberto.

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9 Comentários:

Anonymous Roberto Baginski disse...

Prezado Alon,

acho que você está exagerando o papel da FAB nesta história, não está? Pelo que li, a situação se normalizou porque o governo negociou com os controladores (se isso carcatriza alguma quebra de hierarquia militar é outra história) e lhes prometeu atender algumas de suas reivindicações, não foi? Você poderia mencionar quais ações da FAB resolveram o problema assim tão subitamente?

Saudações,
Roberto Baginski

segunda-feira, 9 de abril de 2007 22:32:00 BRT  
Anonymous PriscilaM disse...

Senhor Roberto, enquanto a coisa ficou nas maos do consorcio Waldir Pires-controladores, a coisa foi um desastre.O Alon tem razao.

terça-feira, 10 de abril de 2007 06:47:00 BRT  
Anonymous Silas Dvorak disse...

Parabens Alon, você é o único que enfrenta esse debate como tem que ser enfrentado, sem medo de cara feia.

terça-feira, 10 de abril de 2007 06:48:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Permita-me permanecer anônimo. O presidente já devia ter mandado embora esse Pires. Se não o faz, é poque está de acordocom a ação doministro, empenhado unicamente em desacreditar a FAB.

terça-feira, 10 de abril de 2007 06:53:00 BRT  
Anonymous Fernando Silva disse...

Perfeita análise. O quadro que você descreveu revela o método petista de administrar, que tem um viés muito claro: incentivar ações de cunho sindical e solapar o vigor de instituições tradicionais como a Aeronática, o Congresso etc. Ah, Alon, parodiando o Vinicíus, se todos os nossos homens de esquerda fossem iguais a você...

terça-feira, 10 de abril de 2007 07:55:00 BRT  
Anonymous Roberto Baginski disse...

Prezada priscilam,

posso ser convencido facilmente de sua afirmação. Basta que sejam mencionadas as ações tomadas pela FAB que teriam normalizado a situação. Continuo com a impressão de que a greve se encerrou com o encaminhamento da negociação pelo governo. Observe que não estou afirmando que isso tenha sido correto ou não (como indicado anteriormente, isso é uma outra historia) mas apenas compilando as informações disponíveis. E pelas informações disponíveis, a situação se normalizou após uma negociação com os controladores de vôo sem intervenção da FAB, não foi? Novamente, para me convencer do contrário, basta indicar as ações tomadas pela FAB que teriam normalizado a situação.

Saudações,
Roberto Baginski

terça-feira, 10 de abril de 2007 09:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Existe uma palavra que era muito utilizada: paura. Normalmente era utilizada como sinônimo de medo. Hoje ela está em desuso. Talvez porque a paura tornou-se coisa tão presente que não há mais necessidade de temer qualquer coisa. Basta ouvir discursos de "Agradecimento aos controladores de voo...por terem deixado os aeroportos sossegados na Páscoa" e pronto. Tudo era apenas uma fantasmagoria. Antes havia a paura de não ter-se quem gerenciasse o País. Hoje, ninguém mais se importa.
Sotho

terça-feira, 10 de abril de 2007 11:06:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

A crise aérea me parece uma típica crise de ausência de Estado. Tentou-se retirar uma coisa (no caso o Comando da Aeronáutica) e substituí-la por uma entidade ainda abstrata chamada controle civil, sem estrutura e sem regulamentação devida.
Além disso, parece que a entidade "controle civil" estava querendo ficar com o bônus (a parte rentável da coisa), e deixar a FAB, que já vem tendo seus recursos contingenciados (lembrem-se da renovação da frota dos antigos Mirage, adiada já em 2002 em nome do Fome Zero), à míngua e com o ônus do serviço duro a fazer: manter a estrutura funcionando do Oiapoque ao Chuí, passando pela Amazônia profunda (além das 200 milhas marítimas do espaço aéreo), para os controladores de vôo exercerem seu "sagrado direito" de ganharem salários internacionais, terem direito de greve, fugirem ao regime disciplinar militar, confortavelmente sentados em salas de operações.
Ora, repetir-se-ia o desmonte do Estado feito no Governo FHC. A privatização das Telecomunicações, por mais que advoguem o sucesso da expansão da oferta (em grande parte devido às conquistas tecnológicas que baratearam os produtos e serviços no mundo inteiro, coisa que também aconteceu com as estatais chinesas não privatizadas), cometeu a sandice que tirar o controle dos satélites Brasilsat do Comando da Aeronáutica e entregá-lo à Embratel privatizada, apenas resguardando o direito ao serviço da comunicação militar. Com isso, hoje, nossos satélites estão sob controle de empresa mexicana (por onde passam nossas comunicações militares), e a expansão dos serviços de satélites na América do Sul de acordo com o programa Brasileiro original foi cancelado, e passou a ser suprido pelo México. Resultado: perda de um mercado bilionário de alta tecnologia que dominávamos e tínhamos tudo para suprir todo o subcontinente com o qual fazemos fronteiras com quase todos os países. E ainda perguntam porquê o Brasil cresce pouco!
Assim como o Alon, eu também estou fora dessa "desmilitarização", e não é apenas pelos vôos estarem funcionando melhor sob comando militar. Quando quiserem desmilitarizar cresçam e apareçam, não esvaziando a segurança nacional nem entregando os mercados (riquezas) conquistadas a preço de banana.

terça-feira, 10 de abril de 2007 15:40:00 BRT  
Blogger alberto099 disse...

Caro Alon, de fato, querer avançar soluções racionais sobre problema que não se conhece deve parecer com uma briga de cachorros de Pavlov. Cada qual exibindo seus reflexos condicionados. Também possuo os meus. Sua suposição básica, para mim incompreensível, é a de que o governo vinha negando autoridade à Força Aérea: justo o contrário, a Força Aérea vinha engavetando atribuições que já eram decisões de governo, as quais lhe cabiam apenas cumprir, como a desmilitarização. Fica claro no episódio a capacidade de coação das Forças Armadas sobre o governo. Quanto maior o órgão burocrático, e quanto mais atribuições distantes de seu “core business” detiver, maior o seu poder de fazer parar ou andar as determinações de governo, portanto maior sua capacidade de pautar o governo. Você prefere pôr bilhões (?) com quem pode coloca-lo contra a parede, simplesmente não fazendo a lição de casa?

quarta-feira, 11 de abril de 2007 07:03:00 BRT  

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