terça-feira, 10 de abril de 2007

Esquerda e direita, sócias (10/04)

Artigo publicado hoje no Correio Braziliense:

Esquerda e direita, sócias

Alon Feuerwerker

Entre os grandes países em território, o Brasil é o único no qual a questão fundiária permanece como um problema nacional sem solução. Tal peculiaridade se deve ao nosso histórico de modernizações conservadoras. Somos uma nação que obteve a independência sem revogar a escravidão e proclamou a República sem fazer a reforma agrária. Ao longo de cinco séculos, o latifúndio brasileiro vem se reciclando para não morrer. Agora mesmo, a grande propriedade produtora de açúcar e álcool é louvada pelo presidente da República como a nova heroína na batalha para tornar o Brasil um campeão mundial nos biocombustíveis.

A defesa do latifúndio tem sido historicamente associada à direita, mas não deixa de ser curioso que a reforma agrária e a questão fundiária tenham permanecido no limbo durante o governo do PT. Não há diferença qualitativa entre o tratamento dado ao problema nesta administração e nas anteriores. Os assentamentos seguem em passo de tartaruga, e a nova desculpa é que os recursos oficiais devem ser investidos na elevação da qualidade de vida dos assentados. Ou seja, para o governo do PT a reforma agrária é uma questão social, e não sócio-econômica. Não se nota qualquer preocupação governamental com a liberação de forças produtivas no campo a partir da democratização da propriedade territorial.

A elite brasileira tem sido competente para dar sobrevida ao latifúndio, que vem silenciosamente se modernizando em aliança com o capital. Mas seria injusto debitar essa “via prussiana” apenas na conta da direita. A esquerda é a nova sócia da direita no congelamento da reforma agrária no Brasil. E uma das razões é que, a pretexto de combater o neoliberalismo, a esquerda brasileira e os movimentos sociais que deveriam representar a força transformadora no campo estão aprisionados pela lógica do preservacionismo cego, pela ortodoxia do ambientalismo global.

Se quisermos encontrar terra disponível em grandes quantidades para fazer a reforma agrária no Brasil, basta olhar para o norte. Mas o destino que as grandes potências enxergam para a Amazônia é o de reserva intocada. Para que, naturalmente, eles a explorem de acordo com as suas conveniências no futuro –quando a água se tornar um bem mais escasso ainda e quando a biotecnologia adquirir o protagonismo previsto. Toda a pressão sobre o nosso país é para que deixe a Amazônia como está. E a esquerda e os movimentos sociais brasileiros, que construíram sua identidade recente na “luta contra o neoliberalismo”, são hoje reféns da agenda neoliberal para o Brasil. Qual é o coração dessa agenda? Crescer pouco, em nome de nossas “responsabilidades planetárias”. Sacrificar o futuro dos jovens de nossas periferias em troca de recebermos uma medalha de honra como bons guardadores de jardim zoológico e jardim botânico.

Um governo verdadeiramente patriótico e popular colocaria no primeiro ponto da agenda nacional a colonização da Amazônia, centrada na agricultura familiar, no cooperativismo e no crescimento ambientalmente sustentável da produção agropecuária. A Amazônia não é um problema. Ela é a mãe de todas as soluções. A expansão ordenada na Amazônia será a oportunidade de uma vida mais próspera para milhões de brasileiros. Teremos uma base demográfica para consolidar nossa soberania sobre a fronteira norte do Brasil. Criaremos uma base material para melhor integrar os países e povos do continente. E estaremos munidos de uma política ambientalmente eficaz. Hoje, por não oferecer alternativas econômicas para a maioria, o preservacionismo cego anda de mãos dadas com a devastação.

Mais cedo ou mais tarde, o Brasil terá que se voltar para a Amazônia. A própria Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) reconheceu a importância do tema e o adotou para a Campanha da Fraternidade deste ano. Aliás, as dificuldades vividas pela Igreja Católica na abordagem da questão amazônica sintetizam de algum modo os impasses nacionais relacionados à região. Por que o catolicismo perdeu espaço na Amazônia? Também porque, quem sabe?, tenha deixado de representar, para o homem e a mulher locais, uma fé relacionada ao progresso, à melhoria da qualidade de vida e à prosperidade. O que não deixa de ser paradoxal, já que a Igreja Católica talvez seja quem lute há mais tempo pelo primado da agricultura familiar em nosso país.

Alon Feuerwerker foi repórter especial do Correio Braziliense e edita o Blog do Alon (www.blogdoalon.com.br)


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7 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Concordo com a defesa da agricultura familiar.

O problema é que o solo da amazônia não é fértil. A vegetação cobre uma parte superficial do solo. À partir do momento em que ela é retirada, desertifica-se. Isso até aonde alcanca o meu conhecimento.

Talvez um olhar um pouco mais para o centro-oeste, onde existem tantos latifúndios enormes e improdutivos.

terça-feira, 10 de abril de 2007 18:25:00 BRT  
Anonymous Artur Araújo disse...

Está no blog D'ele (rs):
"É preciso debater a reforma agrária

Está na hora de se avaliar a reforma agrária no Brasil. O jornalista Alon Feurwerker publica no Correio Braziliense de hoje o artigo “Esquerda e direita, sócias” (só para assinantes) que é uma importante contribuição para esse debate, ainda muito pobre, e que aponta uma saída para o impasse que vivemos.

Vale a pena ler.
enviada por Zé Dirceu"

quarta-feira, 11 de abril de 2007 10:46:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A afirmação de que existem em algum lugar muitos latifúndios enormes e improdutivos, apenas coaduna com uma visão que pode não corresponder à realidade. Coaduna também com decisões não-governamentasis de o que invadir, o que destruir, o que quer da agricultura etc. O País precisa de diagnósticos e de planejamento, enfim, de gestão até onde vistas de simples mortais perscrutam. Sem visões redentoristas ou triunfalistas.
Sotho

quarta-feira, 11 de abril de 2007 12:10:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

"Somos uma nação que obteve a independência sem revogar a escravidão e proclamou a República sem fazer a reforma agrária."

Eu já sugeri anteriormente que você emoldurasse isso no alto deste seu blog. Talvez devesse até acrescentar que ambas -Independência e República - foram alcançadas por golpes de Estado e acordos de elites com participação das forças armadas. Sem povo, nem revolução de verdade. Só a conservadora, como observado.

Acho melhor concordar com você do que perder de lavada como o pobre do Lula.

quarta-feira, 11 de abril de 2007 15:49:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

o velho argumento do casamento da esquerda com a direita

mas elas são incasáveis; um lado pode cooptar outro, apenas isso

a questão é de hegemonia

texto muito ruim, apesar de alguns pontos importantes, como a ortodoxia alienante de um ambientalismo xiita e obscurantista

quinta-feira, 12 de abril de 2007 10:47:00 BRT  
Anonymous Gelio Fregapani disse...

Cada vez fica mais claro que a cobica dos EUA, Reino Unido, Holanda e outros estah formando paises indigenas independentes nas nossas serras do norte, visando a posse das jazidas minerais.

domingo, 27 de maio de 2007 17:54:00 BRT  
Anonymous Rafael disse...

Deixe-me ver se entendi: o senhor está defendendo a "expansão agrícola ordenada" para a região norte? Faltou um pouco a geografia nesse artigo. A expansão da agricultura familiar para a região norte é um assasinato ao nosso futuro como nação desenvolvida. Os solos da região norte são pobres, a fertilidade está apenas para o desenvolvimento da floresta. Além disso, não há expansão da agricultura sem devastação. Imagine milhões de famílias com no máximo (e sendo realmente otimista) ensino médio se instalando nessas terras, nenhum governo conseguiria fiscalizar todas as propriedades e a falta de educação e consciencia ambiental representariam a devastação total da Amazônia e a consequente perda de toda a sua biodiversidade. O melhor a se fazer com a Amazônia é o incentivo à pesquisa dentro das universidades, precisamos conhecer a nossa própria riqueza para a partir daí, podermos explorá-la. O pontecial da Amazônia é com certeza gigantesco. Podemos virar referências mundiais na produção farmacêutica, basta o estímulo à pesquisa. Isso sem contar as grandes reservas minerais, e provavelmente de petróleo na região. Desenvolver a agricultura na região norte é como um cobertor pequeno, estaremos cobrindo os pés e deixando o resto do corpo do lado de fora.

domingo, 23 de novembro de 2008 16:23:00 BRST  

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