terça-feira, 24 de abril de 2007

A diferença (24/04)

Acho que foi na ditadura que começou esse negócio de adjetivar a oposição. O então Movimento Democrático Brasileiro (MDB) era inicialmente chamado de oposição consentida. Um jogo retórico esquerdista para desqualificar a luta parlamentar durante o regime militar. Eu me orgulho de nunca ter caído nesse canto de sereia. Com quinze anos, em 1970, radinho de pilha colado ao ouvido, eu já torcia por Franco Montoro e Lino de Matos, do MDB, contra Hilário Torloni e Orlando Zancaner, da Arena, na disputa pelas cadeiras paulistas no Senado. Depois, o MDB cresceu, virou uma potência e obrigou o establishment arenista-militar a múltiplas manobras para tentar evitar que a oposição chegasse ao poder. Havia também a tal oposição moderada, em contraposição à autêntica. Mais tarde, se não me engano, inventaram esse negócio de oposição responsável. Quando a oposição busca adjetivos para si é porque uma parte dela não quer fazer oposição. Aliás, oposição mesmo era a feita pelo PT antes de Luiz Inácio Lula da Silva chegar ao poder. O PT opunha-se sistematicamente a tudo que vinha do governo Fernando Henrique Cardoso (FHC). Isso não impedia que os governadores do PT mantivessem bom relacionamento com o governo federal e com o próprio presidente. Perguntem ao Jorge Viana (AC) e ao Zeca do PT (MS). Outro que se dava bem com FHC e vivia espinafrando o governo era o então governador Anthony Garotinho (RJ). Hoje, são os governadores do PSDB (e o do PFL, José Roberto Arruda, do DF) que buscam boa relação com o presidente e o governo federal. Ou seja, é a mesma coisa de lá atrás, só que com o sinal trocado. Qual é a diferença, então? A diferença é que José Serra (SP) e Aécio Neves (MG) são comandantes do PSDB, enquanto Viana e Zeca estavam a anos-luz de mandar alguma coisa no PT. Por esse último detalhe, ninguém estranhava a contradição entre o bom-mocismo dos governadores petistas e a ferocidade dos parlamentares do partido em relação a FHC. Hoje, entretanto, não há como o PSDB fazer o jogo duplo que o PT fazia no passado, pois qualquer radicalização congressual será debitada nas contas do Serra e do Aécio. Mas eu nem acho que o tema seja muito importante. Só entrei nele para não dizerem que não falei das flores. Jornalismo tem disso. Os jornalistas querem que os políticos se matem o tempo todo. Mas nem sempre isso corresponde ao interesse dos políticos. Aliás, quando os políticos se pautam excessivamente pelos jornalistas o resultado nem sempre é bom -para os políticos. Calma, colegas. Com o tempo, o PT irá construir a sua candidatura a presidente para 2010. Os tucanos, idem. E aí as coisas entrarão nos (ou sairão dos) eixos. Basta esperar a hora certa para ver o circo pegar fogo.

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2 Comentários:

Anonymous Alexandre Porto disse...

É um simplismo essa visão de que a oposição, geralmente minoritária nas casas legislativas, é contra tudo.

Minorias têm que gritar para serem ouvidos pelo rolo compressor do Governo.

Votar contra, usar o regimento até o limite são recursos para exigir negociação sobre as matérias.

Na era FHC o PT tinha 50 deputados e 6 senadores.Votar contra propostas, que até eram boas, mas precisavam de ajustes, era a única forma enrentar o rolo compressor.

Para mudar um item de uma lei em muitos casos é preciso derrubar o projeto para assim abrir negociação.

Ex.
O PT votou contra o Fundef, não porque era contra, mas porque queria um projeto melhor. Quem sabe o Fundeb.

Hoje não é muito diferente, considerando que a oposição é bem maior hoje que há 5 anos.

terça-feira, 24 de abril de 2007 14:03:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A candidatura do governo para 2010 já está posta. O perfil dela é: popularidade que mantém a força política. Outro aspecto do perfil: neutralização da oposição. Em tal moldura, basta colar uma figura e está tudo resolvido. Já dizia um antigo político mineiro, "se eu indicar um poste, o poste será eleito". Por mais que haja jogo de cena, não há um tema candente trazido pela oposição. Nada capaz de galvanizar pelo delineio de novos caminhos,um vislumbre de algo diferente, mais dinâmico. Enfim, algo mais de realidade. Nesta sopa vital, só poderá medrar um candidato tal como o poste (repito, poste)dito acima.
Sotho

quarta-feira, 25 de abril de 2007 10:37:00 BRT  

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