quinta-feira, 19 de abril de 2007

Argumento fora de lugar (19/04)

A esta altura, é evidente que o jovem que matou três dezenas de colegas universitários nos Estados Unidos sofria de graves perturbações mentais. Foi a razão principal da tragédia. Desequilibrados há por toda parte. E sempre existe o risco de a loucura alheia cruzar o nosso caminho -e deixar a nossa vida definitivamente marcada pela desgraça. Assim como nunca está completamente afastado que a nossa própria loucura desenhe a marca (inapagável) do sofrimento em vidas alheias. Entretanto, a regra é que não cometamos loucuras -pelo menos não as que possam causar a quem as comete sofrimento num grau insuportável. Mas o que é um sofrimento insuportável? Teoricamente, deve ser insuportável imaginar que a sua vida está no final, que dali a alguns instantes você estará morto. Apesr disso pessoas cometem suicídio. A explicação óbvia: chega um ponto que em eliminar a própria vida causa no suicida um sofrimento menor do que a dor que resultará -supõe ele- de permanecer vivo. Isso sem contar o prazer que o suicida eventualmente pode sentir, nem que por alguns instantes, ao imaginar a dor que sua morte vai causar nas gentes de quem ele deseja se vingar -e que no mais das vezes são as pessoas mais próximas dele. O sujeito vai embora silenciosamente, sacrifica-se para infligir, com a sua partida, um sofrimento que não seria capaz de causar se continuasse entre os seus. Para o atirador da Virgínia, pelo visto, uma vingança assim, silenciosa, não era suficiente. Por esse detalhe, três dezenas de pessoas pagaram com a própria morte. Mas a vida segue. Até a próxima tragédia. No caso da chacina na universidade americana, uma coisa me chamou a atenção: os especialistas que correram às tevês e às rádios para dizer que crimes assim seriam evitados caso fosse proibido o comércio de armas. Eu concordo que proibir o comércio de armas reduziria o número de mortes violentas em alguns casos muito particulares. O tiro acidental que mata o sujeito que está manuseando uma pistola. A criança que está mostrando o revólver do pai ao amiguinho e a arma dispara sem querer. Aquela briga de trânsito que acaba em morte porque um dos brigões tinha um revólver no porta-luvas. Mas esse caso do atirador da Virgínia nada tem a ver com o comércio de armas ser legal ou não. Quando o comércio de armas é proibido, o abastecimento passa a ser feito pelo mercado ilegal. E, já que comprar uma arma ilegalmente é muito mais arriscado do que fazê-lo dentro da lei, é razoável supor que a proibição desestimulará muitas pessoas que estariam dispostas a ter uma arma de fogo, mas não pensam em matar ninguém no momento. O cara comum costuma raciocinar que “eu gostaria de ter uma pistola, mas não vou me meter com bandidos e me arriscar a ser preso só para satisfazer um capricho”. Não é o caso de situações como o a do atirador da Virgínia. Um indivíduo que está disposto a se matar, e a levar um monte de gente para o além junto com ele, não vai deixar de comprar armas só porque pode ser preso por adquirir armas ilegalmente. Não faz sentido.

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18 Comentários:

Anonymous ZEH disse...

Alon,
tudo bem que se o cara quer realmente matar alguém, ele vai ao "mercado negro" e compra uma arma. O cara compra um revólver, e manda ver.

Mas, para comprar um fuzil, um metralhadora, ou uma pistola super-automatica e poderosa como a GLOCK que o cara comprou, ele teria que ter contatos muito bons. E muita grana também.

Nesse sentido, comprar facilmente uma Glock na lojinha do bairro pode fazer a diferença entre um crime passional e uma chacina. Em outras palavras, dificilmente alguém conseguiria salvar as primeiras duas vítimas. Mas as dezenas pessoas que morreram ou ficaram feridas duas horas depois, quando o cara descarregou vários pentes de munição em salas de aula lotadas, acho que não seriam tantas vítimas se o cara estivesse com um par de .38.

Inteh +
Z.E.H.

quinta-feira, 19 de abril de 2007 15:05:00 BRT  
Anonymous Luis Hamilton disse...

Oi, Alon,

Concordo com você no geral, apenas reassaltando, como disse o "Z.E.H." , que o fato de armas com alta capacidade de destruição estarem facilmente disponíveis realmente agrava o problema.

Mas o que você acha do argumento dos pró-liberação de armas de que se elas fossem permitidas no campus não teria morrido tanta gente assim?

Abraço.

quinta-feira, 19 de abril de 2007 15:40:00 BRT  
Blogger Rodrigo disse...

Argumento fora de lugar.

me parece que embora lógicos os comentários acima, tendo em vista a vontade e a disponibilidade financeira americana, não vejo que isso seria impeditivo.
Me baseio inclusive por meus colegas policiais (salário miseráve) e pelos colegas do lado negro.
Valores não impedem a ambos de terem acesso a armas realmente boas.
Pra mim, o trato é realmente social-psicológico.
A falta de respeito com tudo e todos, isso sim é armar o inimigo.

quinta-feira, 19 de abril de 2007 20:48:00 BRT  
Blogger Diego disse...

Oi,
concordo em parte com esse argumento. Deveria haver um controle maior sobre as armas sim, afinal para que alguém iria querer uma AK-47 por exemplo? Poderia existir um exame psicológico sobre os compradores. No Brasil também existem pessoas como esse estudante mas é bem mais complicado obter armas por aqui.
abraços

quinta-feira, 19 de abril de 2007 22:11:00 BRT  
Blogger rafael disse...

"No Brasil também existem pessoas como esse estudante mas é bem mais complicado obter armas por aqui."

Não é tão complicado assim. Basta ter vontade de infrigir a lei e grana.

quinta-feira, 19 de abril de 2007 22:50:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Eu acho impressionante é que outros jornalistas que se alimentam na esquerda não cheguem a conclusões óbvias que o Alon consegue chegar. Psicopatia. Armas proibidas se tornam até mais desejadas. No Rio de Janeiro, se consegue por telefone. Será que estes jornalistas não sabem disso?

sexta-feira, 20 de abril de 2007 01:30:00 BRT  
Anonymous carlos frederico disse...

É muito óbvio que aumentar as dificuldades para a compra de armas e munições vai diminuir as possibilidades desses crimes acontecerem, assim como vai ajudar a frear a escala de cadáveres. Diminuir possibilidades é uma coisa, impedir completamente é outra. Assim como não cabe dizer que o crime seria evitado, também não cabe dizer que o argumento está totalmente fora do lugar. Cai-se, assim, no mesmo equívoco, e o sujo fica falando do mal lavado. É preciso analisar, e não desqualificar argumentos sem pensar em suas implicações. Quem sabe, ao invés de 32 pessoas, o cara, por causa das restrições, só conseguisse munição apenas para matar 30? Duas pessoas estariam vivas. Essa é a lógica que interessa. Não dá para controlar todas as pessoas (ainda bem), mas também não podemos ceder ao falso criticismo de um "libera geral".

sexta-feira, 20 de abril de 2007 01:35:00 BRT  
Anonymous Marcela Ferreira disse...

ah gente
se o cara tem dificuldade de comprar uma arma, se ele demora mais tempo para ele arrumar uma arma, aumenta a possibilidade dele pensar duas vezes e desistir de fazer merda
só isso já justificaria o controle de armas
esse psicologismo de voces é que o nosso grande mal

sexta-feira, 20 de abril de 2007 01:38:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Carlos e Marcela: É muitíssimo mais fácil e legal comprar armas nos Estados Unidos do que no Brasil. E as mortes por armas de fogo no Brasil acontecem numa proporção muito maior do que nos Estados Unidos.

sexta-feira, 20 de abril de 2007 07:33:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Além de tudo que refere-se à facilidade ou não de se adquirir armas (armas, brancas ou de fogo), o Alon destacou bem o aspecto da predisposição em matar revelada pelo rapaz. Em tais condições, como previnir tais ações? Em tais circunstâncias podria matar até com as mãos. Divulga-se que havia indícios (avaliação pasicológica) de distúrbios psicológicos, comportamento retraído etc. Assim, a pergunta é: por que mesmo com tais indicativos medidas preventivas não foram tomadas? O aspecto número de mortes: só a descoberta da intenção de, já deveria ser uma catástrofe, gerar forte indignação. Isto é que deveria contar e não o número de corpos.
Sotho

sexta-feira, 20 de abril de 2007 09:10:00 BRT  
Anonymous JV disse...

"Vocês tiveram bilhões de chances e formas de evitar hoje. Mas vocês me acuaram e só me deram uma opção. Vocês decidiram derramar o meu sangue; vocês me encurralaram e me deram só uma opção. A decisão foi sua; agora vocês têm nas suas mãos sangue que nunca mais será lavado".

O discurso de Cho Seung-hui, o estudante sul-coreano que matou 32 pessoas na Virginia, não passaria de arrazoados de um doente mental, não fosse uma sinistra coincidência: é mais ou menos o discurso corrente das esquerdas do Ocidente para justificar a violência. A culpa nunca é do criminoso. Mas de "vocês". Isto é, da sociedade. Ou melhor, é nossa. Nós, que nunca matamos, somos quem apertamos o gatilho das armas que o coitadinho encurralado empunha. A diferença no caso é que normalmente são os defensores dos tais de Direitos Humanos que assim fazem a defesa dos criminosos. Cho Seung-hui se antecipou. Antes que psicólogos, sociólogos e outros ólogos assumam os holofotes da mídia para defendê-lo, ele mesmo fez sua defesa. Deixou os ólogos sem argumentos.
http://cristaldo.blogspot.com/2007_04_01_archive.html#688479934900161242

sexta-feira, 20 de abril de 2007 10:56:00 BRT  
Anonymous taq disse...

Perfeito

sexta-feira, 20 de abril de 2007 11:01:00 BRT  
Anonymous Luiz Lozer disse...

Alon excelente o seu artigo.

Só gostaria de lembrar que a proibição de venda de armas legais no Brasil, na prática esta implantada, eu desafio algum de vocês a comprar um revolver 38 ou um espingarda de caça LEGALMENTE.
No Rio por exemplo não tem mais nenhuma loja funcionando, porém tem o “disk gun” hehehehe

Eu queria ter uma boa pistola .40 ou 9mm, meu julgamento me diz que minha família estaria mais segura se eu possuísse tal arma, (e meu capricho atendido : )cabe a mim somente a mim essa decisão, se eu fazer merda com a arma, que eu assuma as conseqüências. Isso é liberdade com responsabilidade. Acontece que aqui em vez de tratarmos a doença, que é difícil tem que trabalhar duro, reformar a justiça (cada vez mais corrupta) refundar a polícia e reeducar o povo a cumprir a lei, punindo que não cumprir, sem jeitinho sem exceção. Buscamos uma saída fácil, normalmente uma lei nova, “pena de morte”, “estatuto do desarmamento” “diminuição da maioridade penal” senhores não vamos resolver o problema da violência com papel e tinta, mas sim com ações.

Não lembro o estado mas a alguns anos um maluco resolveu começar a matar numa escola lá nos EUA, um professor armado com uma 45 derrubou o cara e salvou um monte de gente, . Aqui na minha cidade (vitória ES) a poucas semanas um velhinho salvou a sua família, atirando nos bandidos, salvou mesmo por que os bandidos iam matar todo mundo.

As coisas não são tão simples como gostaríamos que fossem, o saldo do desarmamento da população é invariavelmente negativo em TODOS OS PAISES QUE IMPLANTARAM A PROÍBIÇÃO DO COMERCIO LEGAL, Os dados estão lá é só olhar na internet.

Trabalho com muitas coisas, uma de minhas atividades, me coloca próximo da coleta dos dados sobre criminalidade, tanto aqui como no rio, a empresa em que trabalho fornece parte dos softwares dos centros integrados de diversos estados. O crime está aumentando, apesar da proibição imoral do comercio de armas, isso é o que os dados estão mostrando, o resto é papo furado.

sexta-feira, 20 de abril de 2007 11:06:00 BRT  
Anonymous carlos frederico disse...

O número de corpos conta, claro que conta. Se não, estaremos dando margem à máxima stalinista: "uma morte é uma tragédia; um milhão de mortes é uma estatística"

Eu acho que quanto maior o NÚMERO de mortes que se evita, melhor.

Quanto a uma suposta "prevenção", devemos ter cuidado para não entrarmos no perigoso discurso do Minority Report e seus componentes nazi-psiquiátricos.

Quanto a ser mais fácil comprar armas nos EUA que no Brasil, e as mortes por armar de fogo serem maiores aqui, isso é um fato, mas não justifica em nada que não se ponha em prática mais restrições para o comércio de armas.

sexta-feira, 20 de abril de 2007 12:02:00 BRT  
Anonymous Neves disse...

O texto abaixo, segundo o blogueiro Tão Gomes Pinto, foi recolhido da seção de cartas do 'New York Times', nele transparece certa psicopatia que se traveste em ideologia:

“Tudo isso aconteceu porque o campus é um lugar “politicamente correto”, onde as armas são proibidas. Se os estudantes tivessem rifles, poderiam ter reagido e matado o atirador. O mesmo teria acontecido com os passageiros dos aviões no 11 de setembro. Os governantes promoveram uma lavagem cerebral na população para convencê-la de que só eles podem ter a posse das armas. Assim, apenas eles - e os criminosos e terroristas - possuem armamentos. A nós cabe o papel de alvos. O controle das armas só deixa indefesos os cidadãos de bem.”

Por esse "raciocínio", o mundo para ser seguro seria igual a um imenso Saloon do Far West, todos teriam o direito de andar armado por toda parte, só assim poderiam estar cem por cento seguros. Seria assim dentro de aviões, ônibus, nas escolas, no ambiente de trabalho, nos cultos das igrejas, dentro de agências bancárias, nos estádios de futebol, inclusive dentro do campo, nos tribunais, no congresso e em audiências com autoridades públicas.

Da mesma forma "raciocinam" os que acham que armas podem ser vendidas como um inocente Chica-bon. Seria um liberou geral para comprar qualquer tipo de arma, de qualquer calibre, sem nenhum controle, registro, ou notificação da autoridade pública, pois não cabe ao estado se meter na vida do cidadão. Nossa segurança estaria garantida, desde que fossemos rápidos no gatilho e sacassemos primeiro, como Wyatt Earp ou Billy the Kid.

sexta-feira, 20 de abril de 2007 16:37:00 BRT  
Blogger Richard disse...

Concordo plenamente. Aliás, encontrei o pai da Daniela, morta no Metro-Rio, e falei que a Campanha do Desarmamento só não foi adiante pq a população percebeu que somente ela é quem seria desarmada... no que ele concordou!!!

sexta-feira, 20 de abril de 2007 17:43:00 BRT  
Anonymous césar augusto dos reis figueiredo disse...

Sr. Alon : concordo plenamente com suas colocações,a respeito da influência das armas no massacre nos EUA. Logo que surgiram as primeiras notícias, a mídia com histeria antiamericana foi logo pondo a culpa na armas, que seriam vendidas a qualquer um em qualquer esquina. Agora as coisas vão sendo esclarecidas : a compra foi ilegal (o porte mais ainda) pois o maluco tinha antecedentes psiquiátricos!. Como deves saber,no Brasil hoje é quase impossível comprar legalmente uma arma; enquanto isso a criminalidade cresce a cada dia, por conta da bandidagem que não sabe o que é lei. Agora até mesmo as armas perfeitamente legalizadas (já cadastradas no SINARM), deverão novamente ser recadastradas, agora na PF, com exigências absurdas o que vai aumentar de forma significativa, o número de armas clandestinas! Fizeram o Referendo de 2005 e quebraram a cara,mas não se deram por vencidos, afinal nossa democracia é de mentirinha.
Saudações do César Figueiredo Lins SP

segunda-feira, 23 de abril de 2007 21:34:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Se a comercialização destas armas fossem proibidas, o maluco poderia conseguir comprar no mercado negro, mas pelo menos teria uma barreira a mais para atravessar, e nesse obstáculo a mais ele poderia ter contratempos e até mesmo ser detido.
Além disso, certamente quem teria vendido no mercado negro estaria sendo investigado agora, e iria para a cadeia.
Acho que faz sentido sim a proibição da venda de armas, pois dificulta o acesso mesmo por estes psicopatas. Muito provavelmente, de cada 10 psicopatas destes, pelo menos alguns não conseguiriam seu intento ao esbarrarem em obstáculos maiores.

terça-feira, 24 de abril de 2007 03:59:00 BRT  

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