quarta-feira, 18 de abril de 2007

Aquecimento global, energia e integração regional (18/04)

Os estudos sobre o aquecimento global mostram que não é desprezível -ao contrário- nossa contribuição para que cada vez mais CO2 seja lançado na atmosfera. Mas, infelizmente, enquanto os países mais desenvolvidos comparecem ao ranking dos "aquecedores" graças ao alto padrão de consumo de seus habitantes, nós ali estamos principalmente por causa do ritmo de derrubada das nossas árvores (encarregadas pela natureza de fixar o CO2 produzido pela combustão). Portanto, não faz sentido o Brasil concentrar sua contribuição à luta contra o aquecimento global na restrição ao consumo de combustíveis fósseis. Portanto, não pára de pé a tese de que a expansão do etanol será o grande aporte brasileiro ao combate planetário contra o hiperaquecimento da Terra. A não ser que você acredite que nós, os africanos e outros vamos conseguir expandir as culturas de plantas destinadas à produção de etanol (para substituir a gasolina em megamercados como Estados Unidos, Europa e Japão) sem derrubar mais árvores. Ou seja, reduzindo a área plantada de grãos e a área destinada à produção de carne num mundo em que a demanda por alimentos é crescente (e será mais crescente ainda caso o etanol, como prometem os seus profetas, sirva para incluir no mercado centenas de milhões de pobres). Se você acredita nessa fantasia das "terras infinitas", cuidado. Nem o próprio governo brasileiro bota fé nela, pois já mandou avisar à União Européia que não vai aceitar a imposição de um certificado ambiental sobre o comércio de etanol. A exigência do certificado seria uma forma de garantir que a cana usada na produção do álcool não fosse plantada em terras recém-depenadas de sua cobertura vegetal tropical. Escrevi essa introdução para justificar minha posição de que a resistência brasileira a formar um mercado regional de energia (resistência exposta nos últimos dias na reunião de chefes de Estado na Venezuela) tem menos a ver com preocupações ecológico-ambientais do que com a crescente influência da indústria alcooleira sobre as políticas do governo brasileiro. Se você não leu, leia o texto Leaders Seek Regional Energy Sovereignty, de Humberto Márquez, da Inter Press Service News Agency (IPS). Algumas informações que ele traz (a fonte é a OLADE, Organização Latino-Americana de Energia):

- A América Latina e o Caribe produzem anualmente energia equivalente a 5,17 bilhões de barris de petróleo (BOE), mas consomem apenas 4,06 bilhões.

- 3,1 bilhões de BOE chegam ao consumidor final na forma de eletricidade, gás liqüefeito e derivados do petróleo como gasolina.

- A região, que responde por 11% das reservas mundiais de petróleo, produz 3,5 bilhão de barris e consome 2,1 bilhão de barris de petróleo por ano, enquanto produz 240 bilhões de metros cúbicos (m3) de gás natutal e consome quase tudo (220 bi m3).

Ou seja, não precisamos derrubar árvores, e no lugar delas plantar cana, para produzir energia para o nosso próprio consumo. Poderemos viver muito bem, durante muito tempo, queimando petróleo e gás. E destinando as nossas melhores terras para produzir comida, para nós e para o resto do mundo. Você poderá argumentar que os combustíveis fósseis são "sujos" e que o etanol é "limpo". Sim, o etanol é mais limpo, mas a sua expansão estará necessariamente vinculada a mais desmatamento e mais avanço do agronegógio sobre terras indígenas, áreas de proteção ambiental e reservas legais. Como sempre, chega-se à conclusão de que não existe almoço grátis. Da minha parte, acredito que convém mais aos interesses nacionais (e até globais) queimarmos gasolina venezuelana e gás boliviano (atenuados com frações residuais de álcool) do que oferecermos nosso estoque de terras, luz e água para ajudar a "libertar" os Estados Unidos e a Europa de sua dependência do petróleo. O que os americanos e europeus têm que fazer é outra coisa: é mudar o padrão de consumo deles, como bem defende Fidel Castro. Aliás, nós também deveríamos fazer isso. Em vez de ficar só no namoro com a indústria do etanol, o governo brasileiro deveria se concentrar na criação de belos sistemas de transporte público, especialmente nas regiões metropolitanas. Cadê os investimentos públicos maciços para fazer metrô nas grandes cidades brasileiras? Cadê os investimentos públicos maciços para investir nas ferrovias? Nada, ou muito pouco. Sim, você poderá também argumentar que não vale a pena depender de venezuelanos e bolivianos, que seria mais prudente fazer negócio com os americanos. É, aliás, a conclusão que se tira a partir dos últimos movimentos da diplomacia comercial brasileira no continente. Eu não concordo com essa orientação. Se não venderem o seu gás para o Brasil, a Bolívia e a Venezuela vão vender para quem? Quando se criam mercados, cria-se junto a interdependência. Nós dependeremos mais deles e eles dependerão mais de nós. Isso será ótimo para a estabilidade e a democracia na América do Sul. Nada contra (tudo a favor) de o Brasil manter ótimas relações com os Estados Unidos. Mas isso não pode nem deve acontecer às custas da unidade e da coesão regional. Os interesses estratégios de um país devem subordinar os econômicos (aprendam com o subsídio europeu a sua agricultura). Quando acontece o inverso, é porque alguma coisa vai mal.

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14 Comentários:

Anonymous luiz lozer disse...

Acho que essa posição de “ou é uma coisa ou é outra” não é muito feliz.

Acho a história do álcool para os EUA uma grande oportunidade, que de maneira nenhuma podemos perder. Só que temos, já na saída, que estabelecer critérios, ambientais e de produção.

Um desses critérios é o de esgotar as áreas agrícolas já desmatadas, e só avançar sobre novas áreas quando não houver mais opção, e quando avançar, se avançar, faze-lo com planejamento.

Essa história de que não existem áreas improdutivas é a maior conversa fiada que eu conheço, elas existem e são muitas. Aqui no Espírito Santo o que mais tem é área de pastagem subutilizada. Vamos meter cana nelas!!!!

Essa coisa de que vai faltar comida, por favor, fala sério... o governo tem instrumentos para controlar isso, tem um tal do ministério do planejamento que serve para planejar, bota esse povo para trabalhar, criando mecanismos de gestão, como zoneamento agrícola, onde não interessa plantar cana, bota uma sobre taxa tributária, tem mil maneiras de comer neston. É só ter criatividade, pensar no Brasil, querer ganhar dinheiro por muito tempo (outra maneira de dizer sustentável) e ir para o abraço.

quarta-feira, 18 de abril de 2007 13:21:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Muito bom artigo, Alon. Não sei se está completamente certo ou não, mas estimula o debate. Parabéns.

quarta-feira, 18 de abril de 2007 16:24:00 BRT  
Anonymous Caetano disse...

Alon, você pessoalmente investiria comprando títulos públicos da Venezuela, Bolívia ou Estados Unidos?
Excluindo a parte ideológica, os investimentos do país devem ter a maior segurança possível, parece que nosso Presidente está despertando...

quarta-feira, 18 de abril de 2007 17:36:00 BRT  
Anonymous Neves disse...

Parabéns, Alon,
Lembrando que país rico é o que consome mais energia. Com menos de 5% da população mundial, o mais rico de todos consome 25% da energia do mundo. A OPEP que reúne os maiores exportadores de energia é uma organização de paises pobres.
Pela física se sabe que energia se converte em trabalho, fonte de toda a riqueza. Quem mais consome energia mais riqueza dispõe. É canoa furada embarcar na onda de exportador de energia.
Essa é a discussão, a mudança de paradigmas para sustentar a civilização.O chamado american way of life é uma utopia inviável de ser estendida para a humanidade. É um modo de vida para uma elite, com a necessária exclusão da imensa maioria da população. Se, por exemplo, a média de consumo per capita de petróleo dos EUA fosse estendida para o mundo, seria necessário extrair 5,5 vezes mais petróleo do que atualmente se extrai, algo que jamais será atingido, isso esgota as atuais reservas em menos de 8 anos.

quarta-feira, 18 de abril de 2007 18:43:00 BRT  
Blogger domingos disse...

A cana de açucar possue um balanço oxigenio / Gás carbonico altamente favoravel. O problema é a queimada da cana que libera novamente estes carbonos que foram aprisionados pela fotossíntese em massa de uma lavoura bem planejada e orgânica, principalmente quanto aos agrotóxicos e adubos quimicos, altamente negativos.
Ainda há tempo. Basta querer.

domingos m tringali
Eng. Agronomo

quarta-feira, 18 de abril de 2007 20:23:00 BRT  
Blogger domingos disse...

A cana de açucar possue um balanço oxigenio / Gás carbonico altamente favoravel. O problema é a queimada da cana que libera novamente estes carbonos que foram aprisionados pela fotossíntese em massa de uma lavoura bem planejada e orgânica, principalmente quanto aos agrotóxicos e adubos quimicos, altamente negativos.
Ainda há tempo. Basta querer.

domingos m tringali
Eng. Agronomo

quarta-feira, 18 de abril de 2007 20:24:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Coesão com Evo e Chaves "descoaliza" na primeira revolta indigena, e nós ficamos chupando o dedo. Já os "esteites" cumprem o que está escrito.

quarta-feira, 18 de abril de 2007 22:41:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O texto tem um tom apaixonadamente ideológico, o que o torna menos convincente para mim, porém sem dúvidas traz à tona um debate importantíssimo e coloca pontos importantes para reflexão, que não têm sido abordados pela mídia.
A parte com a qual mais concordei fala sobre a necessidade de mudar padrões de consumo, gostaria até que o autor abordasse mais esse ponto.

quinta-feira, 19 de abril de 2007 00:08:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Matou a pau Alon, veja o editorial de hoje do Estadão:

Um basta a Chávez e Morales

O governo boliviano poderá investir mais uma vez contra a Petrobrás em 1º de maio, um ano depois de ter invadido instalações da estatal brasileira com tropas do Exército. Desta vez, se a ameaça for confirmada, será para desapropriar duas refinarias. O aviso foi dado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo companheiro Evo Morales, durante a reunião de cúpula sul-americana encerrada terça-feira na Ilha Margarita, na Venezuela. Desta vez Lula foi menos compreensivo do que no ano passado. Ao saber da ameaça e da intenção do governo boliviano de pagar menos de metade do valor das instalações, estimado entre US$ 160 milhões e US$ 180 milhões, prometeu abandonar todos os planos da Petrobrás na Bolívia e trabalhar para outros investidores deixarem o país.

Se tivesse dado essa resposta há um ano, talvez o presidente brasileiro houvesse evitado uma porção de aborrecimentos. O Brasil se havia tornado alvo preferencial do nacional-populismo do novo governo boliviano. Era previsível a multiplicação de atritos, não só pelas pretensões políticas de Evo Morales, mas também por sua disposição de agir sob a orientação do companheiro venezuelano Hugo Chávez.

A atividade principal de Lula e de seus auxiliares, na 1ª Cúpula Energética Sul-Americana, realizada na Venezuela, foi neutralizar iniciativas contrárias aos interesses brasileiros. O balanço desse trabalho é apreciável. Em dois dias, a delegação do Brasil conseguiu deter uma campanha contrária ao programa nacional de biocombustíveis, frear o projeto de criação do Banco do Sul e barrar, pelo menos por enquanto, o projeto de formação de uma “Opep do Gás”, defendido principalmente pelos governos boliviano, venezuelano e argentino.

O ministro boliviano da Energia, Carlos Villegas, chegou a anunciar a intenção brasileira de participar do cartel, mas essa informação foi rapidamente desmentida pelo chanceler Celso Amorim. “Não tem cabimento defender a ‘Opep do Gás’ numa reunião como esta”, disse o ministro brasileiro. “Se estamos envolvidos num esforço de integração, não podemos dividir consumidores de produtores de gás. Ao contrário, temos de conciliar e harmonizar seus interesses.”

Na quarta-feira, jornais da Argentina apontaram o Brasil como vitorioso na conferência da Ilha Margarita. No balanço da reunião, mencionaram a rejeição da “Opep do Gás”, a resistência brasileira à proposta do Banco do Sul nos termos defendidos por outros governos e a eliminação de qualquer referência crítica aos biocombustíveis no comunicado final. O jornal Ambito Financiero citou também a virtual paralisação das negociações sobre o gasoduto entre Venezuela e Argentina, proposto inicialmente pelos presidentes Hugo Chávez e Néstor Kirchner. “Ficou tudo com Lula”, segundo o jornal.

A menção a vencedores e vencidos pode parecer estranha, quando se noticia uma reunião de cúpula destinada, segundo a propaganda oficial, a fortalecer a integração da América do Sul. Toda a retórica da integração tem sido baseada na tese de uma ampla comunidade de interesses. A conferência, no entanto, mostrou uma realidade muito distinta. Serviu principalmente para evidenciar divergências políticas e objetivos econômicos conflitantes.

O presidente Lula voltou da Venezuela na terça-feira à tarde e no dia seguinte reuniu-se durante cerca de quatro horas com o presidente da Petrobrás, Sergio Gabrielli. A duração da conversa forçou a mudança de sua agenda e o cancelamento da reunião com o grupo de coordenação política.

Ao chegar à Câmara dos Deputados, para falar a uma comissão especial, Gabrielli recusou comentar com os jornalistas o longo encontro com Lula. Mas anunciou aos deputados investimentos de US$ 22,4 bilhões na cadeia do gás até 2011. A oferta será triplicada até 2010, devendo passar dos atuais 42 milhões de metros cúbicos diários para 121 milhões. A maior parte do aumento será garantida pela produção nacional. O volume comprado da Bolívia pouco deverá crescer, devendo chegar a 30 milhões de metros cúbicos. Outros 20 milhões serão importados em estado líquido e 71 milhões serão produzidos internamente. Esses números certamente serão lidos com atenção em La Paz.

quinta-feira, 19 de abril de 2007 08:06:00 BRT  
Anonymous Maurício Galinkin disse...

Alon,
Seu comentário é perfeito, no meu entender.
Etanol não vai resolver o problema do aquecimento global, pois sua causa fundamental é o padrão de consumo energético dos países ricos.
Se isso não mudar, se não se privilegiar o transporte de massa, se não se conter o excessivo consumo de proteinas animais que gera uma epidemia de obesidade (cf. OMS) entre as camadas mais ricas da população em todo mundo (não apenas nos países ricos), pouco vai adiantar queimar álcool. E veja, não sou vegetariano... é que a soja e o milho estão na base das criações intensivas ("fábricas de carne") de animais (porcos, gado vacum e frangos), e a expansão mundial do seu consumo se fez com base na devastação das terras baratas do Cerrado brasileiro (foi a única possibilidade de se ter aumento de produção com preços sistematicamente cadentes ao longo de 20 anos...).
A interdependência no fluxo de comércio é natural, e todos países tentam minimizá-la dentro de suas possibilidades e parceiros alternativos. E negócios são negócios: no momento que Evo Morales perceber que seu faturamento pode cair drásticamente por atitudes políticas, ele mudará seu rumo e amaciará o discurso. Mesmo porque existem grandes reservas de gás natural na costa brasieira que podem ser colocadas em uso com alguma rapidez...

quinta-feira, 19 de abril de 2007 12:02:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Discordo de você. O padrão de consumo dos americanos não vai mudar e devemos aproveitar a oportunidade de mercado. Se podemos nos tornar uma potência do biocombustível, não há por que não fazer.

quinta-feira, 19 de abril de 2007 14:30:00 BRT  
Anonymous Saulo disse...

Alon está errado. Dá para ganhar mais $$ com etanol? Plantemos cana e se precisar importamos comida. Eu não entendo porque vocês jornalistas sempre criticam o que é bom para o Brasil.

quinta-feira, 19 de abril de 2007 14:33:00 BRT  
Blogger Dourivan disse...

Caro Alon,

Sobre a dicotomia economia-estratégia, lembro-me de um artigo na Gazeta Mercantil, há coisa de dez anos, lembrando que desde o início do século passado o Brasil sofria um choque cambial por década.

Isso até os choques do petróleo da década de 70 e os desgovernos Sarney-Collor-Itamar, nos 80/90, quando o ciclo de choques cambiais caiu para uma média de cinco anos.

Tenho impressão (o artigo é anterior a isso) de que com a "âncora cambial" de Fernando Henrique tornaram-se ainda menos espaçados.

O governo Lula, superado o difícil começo, não vem sofrendo problemas cambiais sérios devido ao ciclo de valorização das nossas commodities, com o efeito China, que ninguém sabe quanto tempo durará.

O Brasil tornou-se um respeitável produtor (embora não exportador) de petróleo, uma commoditie de importância estratégica, com preço alto ou baixo.

O álcool tornando-se também uma commoditie internacional, como se tem falado tanto (e o Japão é outro sério interessado), creio que o o Brasil terá uma proteção e tanto contra essas recorrentes restrições cambiais.

Voltando à questão estratégica, não sei até que ponto podemos separá-la da questão econômica.

Mas imagino que País nenhum pode pleitear qualquer tipo de liderança vivendo de tempo em tempo com o pires na mão.

quinta-feira, 19 de abril de 2007 16:42:00 BRT  
Anonymous Alessandra disse...

O Alon defende que a terra onde será plantada cana será a de reservas ambientais e indígenas. Só que isso é dito na base mais de achismo do que numa pesquisa que nos demonstre essa assertiva. Eu gostaria de ver mais dados sobre isso, e não um raciocínio com lógica de 1 + 1 = 2.

Não há terras improdutivas no país? Qual o critério para produtividade? Esses critérios são satisfatórios? É necessário revê-los? A propriedade privada é mais importante que sua função social (como manda a bendita Constituição do país)? É possível haver no país substituição de culturas em prol da cultura da cana? Soja é mais importante que cana?

sexta-feira, 20 de abril de 2007 12:13:00 BRT  

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