terça-feira, 24 de abril de 2007

Ao que se resume a divergência sobre o jornalismo estatal (24/04)

Fernando Rodrigues, na Folha de S.Paulo (para assinantes) e em seu blog, conta hoje que o governo federal investiu mais de R$ 1 bilhão em publicidade no ano passado. Em números precisos: R$ 1,015 bi. Desse montante, 76,3% vieram dos orçamentos das empresas estatais. Os numeros motivam-me a voltar ao assunto da rede estatal de comunicação, que o governo federal quer fazer. O ministro das Comunicações, Hélio Costa, afirma que ela vai custar R$ 250 milhões em quatro anos. Mas suponhamos que o número esteja subestimado e que o gasto total vá ser, digamos, quatro vezes maior, R$ 1 bi até 2010. Mesmo assim, isso corresponderia apenas a um quarto do que o governo e as estatais investem em publicidade. Ou seja, se o governo gastar R$ 1 bi na rede estatal em quatro anos, três em cada quatro reais da despesa publicitária do governo federal continuarão indo para as receitas dos veículos de comunicação privados. Veja que boa a minha hipótese: ela implica que nenhum centavo adicional preciará ser gasto para fazer a tevê e a rádio estatais. O que neutraliza a crítica de que o projeto do governo significará necessariamente mais despesa. Outra objeção dos críticos é que o governo não deveria produzir o seu próprio material jornalístico. Só que hoje o governo já produz. E ninguém reclama. Há alguém que proponha, por exemplo, acabar com a competente Agência Brasil? Não conheço. Mas, se o governo pode ter um serviço noticioso pela internet, por que ele não pode ter uma rede de tevê? Chegamos ao cerne da divergência. Os críticos da proposta de uma rede estatal de comunicação não se opõem a que 1) o governo gaste dinheiro do orçamento e das estatais com comunicação ou 2) produza o seu próprio conteúdo jornalístico. Só se opõem 1) à ampliação do público atingido pelo jornalismo estatal e 2) a perder parte do dinheiro que recebem do governo e das estatais. É uma posição frágil, essa dos veículos. Por mais competentes que sejam no seu esforço argumentativo, vai ficando difícil vender como de "interesse público" uma situação como a atual. Uma reserva de mercado para alguns players privados, mas financiada (ainda que parcialmente) por dinheiro do orçamento federal e das estatais.

Leia também:

A solução é acabar com a verba publicitária. Alguém me apóia? (24/03)

Liberalismo com reserva de mercado e dinheiro público (18/03)

Por que sou favorável à criação de uma TV estatal (13/03)

Estatal ou pública? (04/12/06)

Democratizar a comunicação (25/11/06)

Neil Armstrong e o debate sobre um programa para o Brasil (05/03/2006)

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9 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Minhas questões:

1. Por que uma empresa estatal MONOPOLISTA precisa investir em propaganda e comunicação?

2. Por que empresas estatais que sofrem concorrência no mercado iriam direcionar seus altos investimentos em propaganda e comunicação para mídias com baixos índices de audiência? Como justificar ao contribuinte e aos acionistas dessas empresas tais investimentos? Em nome do "interesse público"? E o que é extamente esse "interesse público"? Quem é que pode e como pode definir o que seja interesse público?

3. Você realmente acredita que os fabulosos investimentos em propaganda e comunicação realizados pelas empresas estatais seriam direcionados para a TV pública? Eu penso que não. E principalmente por isso sou contrário.

Alon, recoloco aqui minha proposta: sairei às ruas em defesa da TV estatal se o governo enviar projeto de lei, e aprovar, para zerar no orçamento toda a verba destinada à propaganda e comunicação nos três poderes, nos estados e municípios. Incluo também as empresas estatais monopolistas. Que o Congresso vote uma lei proibindo para sempre que governos, judicário e legislativos e empresas estatais monopolistas anunciem em mídias privadas ou patrocinem eventos de particulares.

Enfim, Alon, neste post seus argumentos são fracos. Lhe devolvo a dificuldade que também é sua: vai ficando difícil vender como de "interesse público" a tese da TV estatal.

Do interesse público, e isso é histórico, ou seja, está na origem do estado moderno, é que o Estado invista mais e melhor em educação, saúde, segurança, saneamento, pesquisa em C&T, habitação, por exemplo. Num país tão carente de investimentos nesses setores é um absurdo o governo gastar no que não é prioritário.

abs.

terça-feira, 24 de abril de 2007 19:02:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Neste comentário queria observar que vários comentaristas (Luca Sarmento, sobretudo) deixaram questões contrárias à criação da TV estatal que são relevantes para o debate. Na minha opinião o post deveria incorporá-las.

Acho fácil a posição dos que defendem (não só você) a TV estatal atacando os interesses privados. Claro que eles existem. Mas alçá-los à condição de primeiros interlocutores nesse debate é como bater em criança.

Gostaria de ler um post no qual você, ou qualquer outro que defende a TV estatal, argumentasse, por exemplo, contra o comentário do Luca no post "Liberalismo com reserva de mercado e dinheiro público (18/03)":

Luca Sarmento disse...
A expressão dinheiro público ou do povo, vem aparecendo bastante. Por vezes passa a idéia, a meu ver imprecisa, de que o Governo produz um dinheiro que pertence ao povo. A realidade é que o Governo não produz o que gasta.

De onde vem o chamado dinheiro público? Da uma formidável máquina de arrecadação de impostos do Governo. Este dinheiro dos impostos não vem apenas do imposto de renda dos "ricos". Vem, principalmente, de impostos embutidos nos preços dos produtos. A cada vez que alguém compra algo na venda do bairro, compra combustível, faz uma transação bancária ou fala ao telefone, só para lembrar alguns exemplos, paga uma fatia de impostos ao Governo .

É este o dinheiro que está neste debate sobre gasto publicitário ou em imprensa governamental.

Feito este preâmbulo, sou favorável a que os governos, este e outros no futuro (a crítica vale para o passado também passado), gastem com sabedoria o dinheiro do contribuinte, em benefício do público e com prestação clara de contas, de acordo com a lei.

Se olharmos o faturamento total do mercado publicitário Brasileiro, o Governo e as empresas de capital de controle estatal , detém uma fatia desproporcional ao valor daquilo que produzem. É evidente que a decisão sobre onde gastar estas verbas acaba tendo forte conotação política. Em minha opinião há abusos de toda a sorte nesta área, que devem ser observados e questionados pelo eleitor.

Domingo, 18 de Março de 2007 15h32min00s BRT

terça-feira, 24 de abril de 2007 19:18:00 BRT  
Anonymous Rodrigo disse...

Na mosca Alon, muito bom.

quarta-feira, 25 de abril de 2007 01:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Difícil imaginar para que, afinal, uma TV Estatal uma vez que nem oposição existe mais? De que forma uma tal TV Estatal trataria temas do desenvolvimento econômico? Será que seria com base em "por dia são desmatados um campo de futebol na Amazônia para a instalação de vilas, estradas, hidroelétricas, projetos de agricultura e pecuária?", tal como nos idos dos redentores anos 70, com a tal de Transamazônica, a maior estrada do mundo e o maior projeto de povoamento do mundo? Que só Hermann Kahn e a oposição não viam o robusto crescimento em torno de 7% a.a.? Em suma, para que TV Estatal? Trocar o mensageiro resolve?
Sotho

quarta-feira, 25 de abril de 2007 10:14:00 BRT  
Anonymous Antonio Lyra Filho disse...

Os grandes paises do mundo têm TV Pública, só o Brasil não pode ter.
Parte da imprensa e a oposição que fazem campanha contra o governo, não desejam um TV Pública, mas dão apoio a TV Cultura de São Paulo.
O motivo é um só, Lula esta crescendo muito junto a população e acham que poderá ser usada para outros fins.
Esquecem que Lula não precisa de uma emissora que por certo terá pouca audiência para se promover no Brasil, ele já esta aprovado.
O medo se chama 2010.

quarta-feira, 25 de abril de 2007 10:21:00 BRT  
Blogger Frodo Balseiro disse...

Muito bem levantado pelo Paulo Araújo a questão das estatais monopolistas! Por que razão Correios, Eletrobras, Infraero precisam anunciar?
No meu modo de ver governo não devia nem fazer Tele jornal! Para que? Por que a Câmara, O Senado, A TV Justiça, mais NBR, Radiobrás tem que fazer jornalismo? Eu estou muito satisfeito com as alternativas que tenho nas TVS abertas e a Cabo! Como contribuinte me recuso a pagar por algo que tenho de graça.

quarta-feira, 25 de abril de 2007 10:31:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Assisti o Franklin Martins no Roda Viva e deu pra perceber um monte de coisas:
1. Como este blog nos informa bem com tanta antecedência.
2. Como a TV Tucana tem ciúme da TV Lula é vice-versa.
3. Como Franklin deu um show nos demais jormalistas presentes, que só fizeram futricas e nem de longe conseguiram penetrar no âmago da questão. Franklin deu a deixa do "modelo de gestão" dezenas de vezes e ninguém quis saber como, afinal, a TV iria funcionar.
4. Todos os entrevistadores devem estar satisfeitos com seus empregos atuais. Ninguém perguntou quando será o concurso de seleção dos funcionários. E todos ali tinham currículo, formação e conhecimentos suficentes para passar em primeiro lugar. Ou não?
5. Franklin merece ancorar o Jornal do Brasil noturno na TV Lula.
6. Só mesmo um entrevistado como ele consegue coordenar o Roda Viva direito e responder todas as perguntas até o fim. Ele só não conseguiu evitar que as entrevistas gravadas fossem gravações das perguntas ao vivo...

O show de Franklin foi tamanho que até eu fiquei entusiasmado com o projeto. Até o apoiaria se tivesse que ele duraria além de Franklin e não acabasse como a TV Tucana de São Paulo.

E, sobretudo, até pagaria para ver esse canal se ele se revelasse verdadeiramente republicano, ao contrário do comportamento demonstrado pela grande imprensa nacional contra o governo Lula, conforme a contraposição crítica feita pelo próprio ministro jornalista diante das câmeras.

quarta-feira, 25 de abril de 2007 11:39:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O debate não é sobre a rotulação da tv. Ficaria melhor centrada em questões como restrição orçamentaria. Ou seja, utilização de recursos escassos em algo de retorno intangível como uma tv estatal. Então, a melhor alocação de recursos públicos, escassos, seria na forma de: regulação, definição de marcos regulatórios, defesa da concorrência etc., com em qualquer Democracia. E no Brasil vigora a Democracia, com travas contra interesses megalômanos. Portanto, sem necessidade de tv estatal e sem necessidade de vultosos recursos de estatais em propaganda nas redes privadas. Estas deveriam ter outras formas de avaliação para atrair investidores: investir em qualidade de programação, abrir o capital, aporte de sócios etc., como qualquer empreendimento para consolidar-se. As estatais deveriam preocupar-se com a eficácia de suas funções básicas. O fim para as quais foram criadas e não serem objeto de consumo de quem que deseja recursos para custear projetos. Continua valendo que trocar o mensageiro não resolve. Aliás, não é tv estatal de agora que se critica, mas toda tv estatal de qual matiz for.
Sotho

quarta-feira, 25 de abril de 2007 14:36:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Aliás, se a TV Cultura ( paulista ou de qualquer outro Estado) for realmente boa, que seja permitido que busque recursos privados, a abrir o capital, capitalizar-se etc. Se forem ruins, que fechem. Se forem utilizadas para outros fins, que sejam impedidas. A regulação da tv é federal. Se ficar nessa de se tal governador tem, se tais grupos privados têm, se tais países têm, então, o governo federal do Brasil também pode ter, fica parecendo birra de criança turrona. Está-se falando de um País e suas instituições. Aspectos adultos de uma Democracia que já não é tão nova assim e é muito importante para ser tutelada pela vontade de governos.
Sotho

quarta-feira, 25 de abril de 2007 14:44:00 BRT  

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