sexta-feira, 30 de março de 2007

Uma oportunidade para você raciocinar (30/03)

Tem gente que escreve para este blog querendo saber por que minha opinião sobre alguns assuntos (segurança pública, Irã x Israel, liberdade de imprensa) "não bate" com o que escrevo sobre outros (reforma agrária, tevê estatal, Venezuela, direito dos palestinos a um estado). Ora, o ato de pensar não existe para compor um "sistema" que se sobreponha aos fatos, com o objetivo de proporcionar conforto emocional ao pensante que gosta de estar "alinhado". As idéias nascem da realidade, e servem para entendê-la e transformá-la. Mas mesmo a idéia mais brilhante precisa de comprovação. Então, creio eu, o melhor é fazer a análise concreta da situação concreta, ainda que o resultado apareça como uma assimetria em relação a outros temas. Entender o que se passa é mais importante do que ter uma explicação qualquer para o que se passa. Agora, o presidente de Cuba, Fidel Castro, desfecha um ataque contra a estratégia liderada por Luiz Inácio Lula da Silva e seu colega americano, George W. Bush, de substituição dos combustíveis fósseis por biocombustíveis. Clique no logo do Granma para ver o artigo de Fidel. Nesse assunto, Castro está alinhado com o presidente da Venezuela (grande produtora de petróleo e gás), Hugo Chávez. Este post é para você, que tem na parede cartazes com retratos de Lula, Chávez, Fidel e Che Guevara. E que foi às ruas para xingar Bush quando ele esteve aqui. Que tristeza, não? Desta vez, em lugar de sair por aí berrando contra o neoliberalismo, você vai ter que estudar o assunto e decidir quem está com a razão: a dupla Lula/Bush ou a dobradinha Fidel/Chávez. Talvez você esteja destreinado nessa coisa de raciocinar por conta própria. Mesmo assim, enxergue a situação como uma bela oportunidade. De, finalmente, botar o seu miolo para funcionar com alguma autonomia.

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4 Comentários:

Anonymous Artur Araújo disse...

Plena concordância com o post. Divirto-me muito com quem se surpreende com determinadas posições que defendo.
No caso em tela, este comunista fica com Bush/Lula, contra Chávez/Fidel e é plenamente capaz de defender sua posição à luz do marxismo-leninismo.
Diga-se de passagem que o homem que tanto gostava da "análise concreta da realidade concreta" tinha sérias dificuldades para conviver com o que chamaria de "ecletismo", ainda que muitas vezes fosse um eclético de mão cheia.

sexta-feira, 30 de março de 2007 11:58:00 BRT  
Anonymous Ricardo Melo disse...

Após intensivos esforços em raciocinar por conta própria, concluí:

Viva Fidel! Mas seu discurso precisa ser alinhado a Chavez pela dependência do apoio político e material dado pelo líder venezuelano.
Porém, não concordo com Fidel no tema etanol. Já foi provado que a fome no mundo é causada pela concentração de renda. Na verdade não há falta de alimentos, pelo contrário, sobra alimento no mundo. Então, sejamos radicais: desconcentremos a renda global.

Ora, a agricultura dos países pobres é solapada pelos abusivos subsídios europeus e norte-americanos. Os preços baixos propiciados pela agricultura subsidiada dos países ricos deixam milhões de camponeses dos países pobres sem mercado.

O problemático projeto do biodiesel está sendo iniciado com foco justamente nos pequenos agricultores. Há problemas nessa área – os moedores têm preferido a soja de grandes plantações. Mas esse problema não deve significar uma desistência. Estudos comprovam que plantas como pinhão-bravo, mamona e dendê possuem uma fantástica capacidade de geração de biomassa. Se esse modelo for desenvolvido, poderá representar uma verdadeira alternativa para milhões de agricultores dos países pobres saírem da fome através da geração de um produto energético.

Energia é poder e estratégia. Bush entendeu isso e correu ao Brasil pedindo parceria no projeto do etanol brasileiro. Bush entendeu que exército não controla poço de petróleo, e já ficou sabendo que as reservas de óleo estão minguando. Em 50 anos, as principais jazidas estarão findas.

O modelo energético dos países ricos de clima frio acabou, já era. O futuro é a biomassa, processada e exportada pelos países tropicais, como o Brasil.

Temos uma posição incomum para a biomassa. Temos 200 milhões de hectares de pastagens. A maioria destas pastagens é ociosa. Com 22 milhões de hectares de pastagens plantados com cana, o Brasil sozinho substitui 5% da gasolina de todo o mundo. As pesquisas podem dobrar a produtividade.

Com o desenvolvimento do biodiesel, no futuro teremos chance de substituir todo o petróleo do mundo, produzindo aqui e no resto dos países tropicais.

O Brasil tem terra de sobra, técnicas agrícolas, biotecnologia, carros flexfuel, colheitadeiras de cana. Poderemos exportar tecnologias também, esse é o pulo do gato.
E, se mecanizarmos a colheita, o 1 milhão de cortadores de cana dispensados poderia ter o problema do desemprego resolvido por uma Reforma Agrária.

Ou vão querer me dizer que o uso de mão-de-obra precária nos canaviais é importante como válvula de escape para a péssima questão fundiária brasileira?

Precisamos sair da lógica binária. Entre o discurso do Fidel e do Bush, entre a expansão da cana ou da Reforma Agrafia; podemos defender os interesses nacionais e expandir o programa do álcool e do biodiesel. Tudo isso, assentando mais agricultores despossuídos pelo Brasil.

No Brasil, temos espaço para Reforma Agrária, agricultura familiar, expansão do álcool, expansão geral da agroindústria.

E, no mundo não haverá mais espaço no futuro para os hidrocarbonetos. Pela poluição e pelo fim das reservas. Então, sejamos espertos pela primeira vez, investindo em um modelo energético de tecnologia tropical.

sexta-feira, 30 de março de 2007 13:50:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Fidel é o único estadista (alias ele parece ser o único estadista de nossos dias) com visão realista da crise energética que se avizinha, está pleno de razão, a civilização do automóvel e o american way of life estão condenados, são insustentáveis.
Não há substituto viável para a quantidade de petróleo consumida hoje no mundo, da qual os EUA consomem um quarto. Os americanos consomem mais de três trilhões de litros de petróleo anualmente, a meta de produção de etanol para 2017 exposta por Bush não chega a cinco por cento desse volume. Esse valor só será atingido se houver alguma tecnologia revolucionária no caminho, pois como mostra Fidel a produção atual de milho nos EUA é insuficiente para isso. É a história de contar com o ovo..., produzir álcool a partir de celulose ainda está em fase de pesquisa, uma promessa, há ainda um caminho para desenvolver a tecnologia de um parque industrial que realize essa produção.
O temor de Fidel é que se reproduza no mundo a situação vivida pela Índia durante o domínio britânico. As melhores terras eram dedicadas as culturas comerciais do império, as epidemias de fome eram freqüentes, agravadas ao extremo em anos de seca, e isto não sensibilizava os donos do poder. Se dermos uma olhada nas barbaridades cometidas pela dupla saxonica no Iraque, tudo em nome do petróleo deles de cada dia, daremos razão a Fidel.

sexta-feira, 30 de março de 2007 14:40:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Nenhuma carapuça me serviu.

Alon disse,

"Entender o que se passa é mais importante do que ter uma explicação qualquer para o que se passa."

Eu não sei explicar, mas também gosto de entender.

Chávez, Fidel e Bush estão defendendo seus interesses. Temos que entender os nossos. Se a "Bio Nation" marqueteira for apenas um retorno ao ciclo da cana e da escravidão com latifúndio e destruição do ambiente, e se a oferta interna de alimentos for reduzida, estou com Chávez e Fidel.

Estou com Bush e Lula se surgirem acordos que propiciem a reforma agrária ou pelo menos o desenvolvimento das paequenas propriedades, se o Brasil for realmente capaz de exportar sua tecnologia etílica - e não ser um exportador de patentes para os EUA -, se o nosso meio-ambiente for respeitado, se nossa indústria de equipamentos especializados puder exportar e gerar empregos no Brasil e se a produção de alimentos não for prejudicada.

Pronto, entendi. Se soubesse explicar não estaria aqui perdendo tempo.

sexta-feira, 30 de março de 2007 15:29:00 BRT  

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