sábado, 24 de março de 2007

Uma nova partilha da Palestina (24/03)

O noticiário aponta para uma nova possibilidade de diálogo entre Israel e os países árabes, com base na iniciativa saudita de paz, apresentada pela primeira vez em 2002. Na proposta, o que não é problema (pois é fácil chegar a um acordo):

1) Israel se retira de territórios ocupados em 1967.

2) Nesses territórios, nasce um estado palestino independente e comprometido com a paz com Israel.

2) Os países árabes reconhecem Israel e fazem a paz com o estado judeu.

Onde está a polêmica:

4) Todos os palestinos e descendentes adquirem o direito de retornar ao território pré-1967 de Israel.

Clique aqui para ler a íntegra da proposta da Arábia Saudita, de 2002. O item 4 implica, crêem alguns, a renúncia de Israel a ser um estado judeu. Portanto, não seria viável. Assim como não seria realista, por exemplo, um plano que desse a todos os judeus o direito de se estabelecerem num eventual estado palestino. Mas isso não significa que a proposta da Arábia Saudita deva ser afastada. Ela é uma boa proposta. Desde que o debate evolua para o único consenso possível: a garantia da existência de dois estados, um etnicamente judeu e um etnicamente palestino (árabe), no território da Palestina. Eu, por exemplo, acredito que algumas áreas de maioria árabe no território de Israel pré-1967 deveriam fazer parte do estado palestino. E que algumas áreas de maioria judaica na Cisjordânia deveriam ser integradas ao estado judeu. A única solução duradoura para a paz é reconhecer o direito pleno de ambos os povos, sem que o pleno direito de um signifique a aniquilação dos anseios nacionais do outro. Ou seja, é necessária uma nova partilha da Palestina, nos moldes (mas diferente, pois a demografia mudou) da que foi feita pela ONU em 1947 (na imagem, o mapa original da partilha). Até hoje, os árabes enxergam naquela decisão uma catástrofe. Catastrófico, para o mundo árabe, foi acreditar que Israel poderia ser apagado do mapa na porrada. E cá estamos nós de novo, sessenta anos depois (o que em termos históricos é uma besteirinha), diante do mesmo problema irresolvido. Vamos ver o que acontece desta vez. Eu, como sempre, sou otimista. Até porque os países árabes, convenhamos, têm um problema maior com que lidar agora: a ambição do Irã de se projetar como uma potência nuclear regional, a pretexto de acumular forças para acabar com Israel. A agressão do Hezbollah a Israel ano passado (antes que você grite, a própria ONU definiu que o agressor foi o Hezbollah, um braço do xiismo iraniano) e a guerra que se seguiu acenderam a luz amarela no mundo árabe. Além disso, os países árabes gostariam que o Iraque se estabilizasse, para funcionar como um tampão diante do país dos aiatolás. O curioso é que no Iraque o terrorismo é principalmente sunita, e os sunitas são apoiados pela Arábia Saudita, aliada dos Estados Unidos e agora propulsora do processo de paz na região. Ou seja, o terrorismo no Iraque vincula-se menos à ocupação americana propriamente dita e mais a uma disputa política entre a minoria sunita (desalojada do poder com Saddam Hussein) e a maioria xiita, que manda no país graças a um acordo com os curdos -que são sunitas, mas têm um projeto nacional próprio. Como pano de fundo dessa disputa, a dúvida sobre quem controlará o dinheiro do petróleo iraquiano. É natural, portanto, que os Estados Unidos se aproximem da Arábia Saudita em busca de uma solução política no Iraque. Em contrapartida, os sauditas adquirem posição central na estratégia americana para o conflito entre Israel e os palestinos. Dois elementos adicionais para compor o quadro. 1) À oposição democrata no Congresso americano não interessa um acordo de paz agora entre Israel e os palestinos ou a estabilização do Iraque com base na ampliação da influência saudita. Os democratas sonham em voltar ao poder em 2008 montados nos impasses da política externa de George Bush. 2) A remoção de Saddam Hussein do poder em Bagdá abre espaço para um protagonismo saudita bem ao gosto dos atuais interesses americanos.

Leia mais:

Who's afraid of renewing the peace process? Haaretz

Moussa: No Plans to Modify Arab Peace Initiative Reuters

A chance de Abdullah The New York Times

Rice Meets Arabs, Urges Reconciliation with Israel Reuters/NYT

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5 Comentários:

Anonymous Artur Araújo disse...

"Até porque os países árabes, convenhamos, têm um problema maior com que lidar agora: a ambição do Irã de se projetar como uma potência nuclear regional, a pretexto de acumular forças para acabar com Israel".
Alon, de verdade, vc vê esse "renascer" do império persa como centro da estratégia geopolítica dos iranianos ou esse é um argumento, digamos, "utilitário"?

domingo, 25 de março de 2007 08:39:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Artur, citarei uma referência comum, o Vladimir. "A tática é a expressão da correlação de forças." O desaparecimento do Iraque como potência militar deixa um espaço geopolítico que será ocupado por alguém. Ou pelos árabes ou pelo Irã. E o Irã busca o domínio da tecnologia nuclear. Sabemos ambos, até pelos anos de janela, que não é para fins pacíficos. E creia, amigo, os governos árabes estão muito preocupados com isso. Até porque eventuais mísseis nucleares iranianos poderiam ser apontados para qualquer lugar num certo raio de ação, e não apenas para Israel. Aliás, é consenso que Israel não tem ambições territoriais fora da Palestina. O que não é o caso do Irã.

domingo, 25 de março de 2007 08:53:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Tem TV estatal em Israel? E quem assiste, os palestinos? E o que eles acham do governo? E quem paga?

segunda-feira, 26 de março de 2007 11:41:00 BRT  
Blogger DANIEL PEARL disse...

O mundo poderá vencer
Deus de Abraão, de Isaac e Jacó?
Você sabia que a única nação do mundo inteiro que é aliado de Israel é os Estados Unidos da América? Enquanto o restante das nações são contra, são anti-semitas? Você sabia que nunca houve uma Nação Palestina naquela região? Nunca existiu uma raça Palestina? Aqueles que hoje são chamados de "palestinos", na verdade são "árabes", isso mesmo, sangue árabe. Gostaria que você pesquisasse o livro "História dos Judeus" do historiador Flávio Josefo, personagem da Era de Jesus, Século I, que trabalhava para o Império Romano, se existiu essa tal "Palestina" que parte da imprensa mundial insiste que existiu.

Sobre o Estado de Israel:
1) Existem 21 países árabes no Oriente Médio e apenas um Estado judeu: Israel, que também é a única democracia naquela região. Pergunto aos defensores dos Palestinos(Árabes): porque vocês não criticam os palestinos, que utilizam a ditadura como regime de governo, não respeitam a liberdade de expressão, discriminam as mulheres, etc. etc.?

2) Israel é o único país daquela região que permite a cidadãos de todas as crenças praticarem sua religião livre e publicamente. Vinte por cento dos cidadãos israelenses não são judeus. E aí, você pode responder: porque a maioria dos países árabes não aceitam que sejam implantadas em seus territórios, igrejas cristãs (Evangélicas ou Católicas)? Que a Bíblia não pode entrar? Você defende essa postura?

3) Enquanto os judeus não podem viver em muitos países árabes, em Israel os árabes têm garantida a cidadania israelense e o direito de votar. Eles também podem ser eleitos como membros do Knesset (o Parlamento de Israel). Na verdade, muitos árabes já foram democraticamente eleitos e desempenham suas funções parlamentares há anos. Os árabes que vivem em Israel têm mais direitos e mais liberdades que a maioria dos árabes que vivem nas nações árabes. Você sabia que em nenhum país árabe, os judeus tem esses mesmo direito? Que na Arábia Saudita não pode entrar judeu, se acontecer ele pode ser morto? Você defende essa posição árabe?

4) Israel é muito pequeno [tem aproximadamente o tamanho de Sergipe] e está cercado de nações que se opõem à sua existência. Algumas propostas de paz – incluindo a que foi feita recentemente pela Arábia Saudita – exigem a retirada de toda a Margem Ocidental, o que deixaria o território israelense com menos de 15,5 km de largura em seu ponto mais vulnerável. Porque os irmãos árabes não cedem um pequena porção de suas nações para o povo palestinos? Tanta terra no Iraque, na Síria, no Irã, no Egyto...
Toda História do povo judeu, você encontra um vasto relatório, como iniciou, território, costumes, etc. etc. tudo na Bíblia. Deus fez uma pacto com Abraão, que seria seu povo na Terra, e que ele (Abraão) receberia uma terra chamada "Canaã", e lá seria formada a Nação de Israel. O neto de Abraão, Jacó teve 12 filhos(12 tribos de Israel), e Deus deu cada tribo uma porção de terra, com limites e divisões, formando o Estado de Israel. Os Árabes (filhos de Ismael) formariam um grande nação e habitariam na região da Arábia Saudita, Iraque, Irã, Síria, Jordânia e nunca região de Israel (conforme mapa acima). Escrito por Daniel Pearl.

segunda-feira, 26 de março de 2007 11:43:00 BRT  
Anonymous Artur disse...

Alon, acabei encontrando seu blog por acaso. Devo dizer q fiquei bem impressionado.
Hj em dia em que direita e esquerda estão indo cada vez mais para seus pólos de radicalismo, vc consegue ter uma visão muito mais abrangente e menos maniqueista.
Este seu post mostra que vc conhece bem o assunto ISR/PAL, diferentemente da maioria dos jornalistas de esquerda, q sem estudar o assunto a fundo ja saem atacando Israel. Engraçado notar q estes mesmos esquerdistas, fecham os olhos ao q acontece nos territórios de seus "amados" arabes(nao falo só dos palestinos), com relação à direitos humanos, direitos da mulher, perseguição à homossexuais, liberdade de expressão e de imprensa. Ou seja, aqueles q lutaram pela nossa democracia, agora apoiam os regimes mais totalitarios do planeta.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008 23:13:00 BRST  

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