domingo, 11 de março de 2007

Duas medidas simples, para evitar as más companhias - ATUALIZADO (11/03)

A visita do presidente dos Estados Unidos ao Brasil colocou o selo que faltava no acordo entre as duas nações em torno do principal biocombustível derivado da cana de açúcar: o etanol (na imagem, a molécula). Bom para o Brasil, que caminha para se transformar num ator global em energia, papel até agora monopolizado pelos países exportadores de combustíveis fósseis. E bom para os Estados Unidos, por alavancar uma fonte energética renovável, capaz de fazê-los depender menos de regiões instáveis do planeta, marcadas por conflitos bélicos. Na última vez que um governo brasileiro foi chamado pelos americanos para participar ativamente da estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos, saímo-nos bastante bem: em troca da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, o presidente Getúlio Vargas conseguiu recursos que lhe permitiram, por exemplo, instalar a Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda. Agora, é Luiz Inácio Lula da Silva quem tem nas mãos a chance de passar à história como um presidente que inovou, que aproveitou a oportunidade oferecida pelo destino e fez algo de diferente, de melhor para o seu povo. A cana de açúcar está na raiz da formação da nacionalidade brasileira. Foi a primeira monocultura, a primeira plataforma de exportação das riquezas nacionais, o primeiro vetor para a colonização do país. Foi também a responsável maior por inocular a chaga da escravidão no nosso código genético. É consenso entre os historiadores que os quatro séculos da escravidão no Brasil explicam a maior parte das mazelas nacionais. Pelo menos daquelas mazelas que nos distinguem dos demais países. A escravidão está na raiz da nossa desigualdade crônica, da nossa incapacidade de enxergar valor positivo na cultura do trabalho e da prosperidade, da nossa tendência ao desperdício, da nossa tolerância à brutalidade. Deus dotou o Brasil de um cenário natural único. Ninguém tem tanta terra agricultável, tanta água ou tanta luz incidindo sobre áreas férteis. Aqui não temos terremoto, furação, deserto ou neve. Por isso, os portugueses que chegaram ao Brasil imaginaram ter encontrado nestas plagas um ambiente que era quase o paraíso. Aí tiveram a idéia de melhorar ainda mais a obra divina, de acrescentar o que faltava: escravos, para que eles próprios, portugueses, não precisassem nem trabalhar. O resultado da boa idéia dos nossos patrícios é conhecido de todos. O Brasil é um país que alcançou a sua independência sem abolir a escravidão e proclamou a República sem realizar a reforma agrária. A indústria do açúcar e do álcool talvez seja a síntese mais acabada dessa insistente modernização conservadora (prussiana), que amarra os nossos pés há séculos. A herança do latifúndio está lá, na concentração da propriedade territorial. As marcas da escravidão também estão, nas condições desumanas de trabalho e na baixa remuneração dos trabalhadores nos canaviais (não em relação a outros colegas pouco qualificados, mas em relação à riqueza produzida). Esse quadro é especialmente dramático no nordeste brasileiro. E, como corolário de tudo, vem o dano ambiental. Ninguém deseja que o Brasil fique fora da caravana mundial do etanol proposta pelos Estados Unidos. Ela representa para nós uma oportunidade de crescer, de gerar emprego e renda, de avançar no domínio de conhecimentos essenciais para o progresso humano. Precisamos, porém, fazer esse movimento de maneira diferente da habitual. Se vamos inovar na tecnologia e na ciência [e espero que o Brasil saia desse ciclo com uma poderosa indústria alcoolquímica, e não apenas como exportador de energia barata, como transferidor de capacidade fotossintética], que inovemos também, e principalmente, na organização social do trabalho e na distribuição mais democrática dos benefícios do progresso. O ramo sucroalcooleiro, definitivamente, já produziu desigualdade suficiente no Brasil. Com isso, cresceu e enriqueceu. Ótimo para eles, mas agora chegou o momento de distribuir. Sabe-se que a reforma agrária do governo do PT vai mal, patina. Pois bem, eis uma oportunidade de ouro para fazer deslanchar a reforma agrária na administração Lula. Por que não acelerar a implantação de cooperativas de agricultores familiares e, com o devido investimento público, criar unidades de produção de álcool nessas áreas? Por que não obrigar os grandes usineiros a transferirem, compulsoriamente, tecnologia para as cooperativas de pequenos produtores? Por que restringir o acesso de pequenos proprietários de terra ao progresso trazido pelo etanol de Lula e George W. Bush? Por que repetir mais uma vez o ciclo prussiano? Há pelo menos duas iniciativas, simples e práticas, que o governo federal poderia adotar, se quiser de fato sinalizar que desta vez a história será diferente. Acelerar a votação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC 438/01) que determina desapropriação de terras onde for constatada exploração de trabalhadores em condições análogas à de escravidão. As áreas seriam destinadas à reforma agrária e seus proprietários não receberiam nenhum tipo de indenização. A proposição já foi aprovada em primeiro turno na Câmara dos Deputados em 2004, mas dorme na gaveta desde então. Aliás, a mesma coisa deveria ser feita com terras em que se cultivam insumos para drogas proibidas. Outra boa medida seria rever, para cima, os índices de produtividade exigidos para que uma área escape da expropriação por interesse social. Os índices em vigor são de 1980, baseados num recenseamento agropecuário de 1975. A portaria para atualizá-los repousa em algum escaninho do Palácio do Planalto. Duas medidas singelas, com as quais Lula poderia calar seus críticos. O presidente mostraria que o alinhamento com os americanos no álcool atende, sim, aos interesses nacionais, mas não significa que ele, Lula, e o seu partido, o PT, tenham abandonado os compromissos históricos com os trabalhadores e a reforma agrária. Com terra mais barata e apoio técnico e financeiro, os pequenos no campo teriam, finalmente, lugar no trem do progresso. E o presidente ficaria bem na foto. Pelo menos, Lula ficaria longe de figurar num outro retrato, montado ao longo dos séculos. A imagem reúne donatários de capitanias, traficantes de escravos, senhores de engenho, usineiros milionários, caçadores de negros fugidos, caloteiros do Pró-Alcool e latifundiários em geral. Nosso presidente não merece essas más companhias, acho eu.

Atualizaçao (12/03 às 15h06): Leia também que Produção de etanol precisará aumentar 12 vezes para substituir 10% da gasolina (Agência Brasil)

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13 Comentários:

Anonymous Artur Araújo disse...

Agora, sim!! Esse é ponto: quais as vertentes estruturantes de um projeto democrático, nacional e popular moderno, includente, viável, sustentável sob os vários prismas da tal "sustentabilidade". Isso é pensar progresso, muito além da pobre econometria do crescimento e do "planilhismo" castrante. Isso é superar a cultura do eu e do "mercadismo" simplório, é traçar planos coletivos e reviver o Estado nacional a serviço da sociedade civil.
Como é bom - ainda que vá servir de mote de ataque, tenho certeza - ouvir de novo ecos de Caio Prado, Celso Furtado, Florestan Fernandes, José Serra (sim, pasmem os incautos, o próprio malgré lui), devidamente "aggiornados", e até um saborzinho de Conde Affonso Celso que não faz mal a ninguém. (rs)
Parabéns!

domingo, 11 de março de 2007 16:58:00 BRT  
Anonymous Maurício Galinkin disse...

Alon,
Tanto ler quanto escrever (creio eu) um texto como esse, trazem o prazer de uma proposta efetiva em benefício da população e do país.
Embora otimista militante, não vejo disposição do atual governo para enfrentar as dificuldades políticas de criar uma estrutura de cooperativas de trabalhadores do campo, necessária para execução da proposta.
O MST até que poderia incorporá-la, pois tem lideranças e organização capaz de implantá-la, mas dependerá do aval do governo para seu financiamento, além das terras e de disposição política de inovar caminhos.
A tendência, a meu ver, é o presidente da República ficar na foto com os mesmos de sempre, que você lista em seu último parágrafo. Infelizmente para nosso país...

domingo, 11 de março de 2007 18:56:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Junto das sugestões de acelerar desapropriações justas, acrescento parar de anistiar dívidas de usineiros, e acioná-las judicialmente, quando for o caso.

Você sugere que o setor público, como o BNDES (ou a Petrobrás, quem sabe) invista em usinas de álcool para cooperativas de agricultores familiares. Eu concordo, apenas ressalvo que para esses empreendimentos darem certo, é preciso ter a figura de alguém empreendedor, que pode ser um talento recrutado destas comunidades, bastando receber melhor treinamento, ou teria que haver algum "interventor" externo. Do contrário haveria grande risco de fracasso do empreendimento.

Uma boa alternativa seria o BNDES priorizar financiamentos de novas Usinas aos grupos empresariais de usineiros já existentes (que detém tecnologia, mercados e garantias financeiras), com 50% (ou pelo menos 30%) de participação acionária de cooperativas de pequenos produtores.

No Sudeste onde parece haver um capitalismo mais desenvolvido no setor de Usinas, é interessante vermos o perfil do produtor de cana (que vende a matéria prima à Usina). De acordo com a ORPLANA (Organização de Plantadores de Cana da Região Centro Sul do Brasil), que tem 12.927 produtores associados em SP e MG, a área média de produção de cana é de 60 ha, sendo que as áreas variam de 26 a 111 hectares nas diferentes regiões produtoras de cana do Estado, o que permite afirmar que o setor da agroindústria da cana-de-açúcar, ainda possui uma certa distribuição de renda no Sudeste.
( http://www.orplana.com.br/perfil_foca_orplana.asp )

Os produtores independentes respondem por 27% da produção de cana do Brasil. Não encontrei o perfil exato dos demais 73% da produção. Mas parece que nem tudo é latifúndio.

De acordo com uma matéria do Valor Econômico de 14/12/2006 ( http://www.unicamp.br/unicamp/canal_aberto/clipping/dezembro2006/clipping061214_valoreconomico.html ), as usinas têm a prática de arrendar (alugar) as terras de pequenos proprietários:

"Na região [Lins - SP], os contratos de arrendamento têm um prazo de no mínimo 5 anos. Os valores pagos pelo arrendamento de terra variam de R$ 600,00 a R$ 800,00 por hectare por ano. A renda obtida com o arrendamento supera a receita proporcionada por atividades como a pecuária de corte e outras."

A matéria enfatiza o problema do êxodo rural como consequência.

Desses números, se a uma família assentada recebe um lote pequeno de 20 ha, e se conseguir arrendá-lo a esses valores receberá de renda entre R$ 1000 e R$ 1300 por mês, sem riscos, e ficará com o tempo de trabalho livre para fazer algum outro "bico", ou mesmo trabalhar como cortador de cana. É muito tentador para uma família assentada, dentro de sua realidade.

O governo tem algumas diretrizes e instrumentos (certamente de resultados mais tímidos do que propõe Alon), mas não acredito que conseguirá muita coisa sem uma repactuação da organização social, do MST e outros, a não ser coloque uma estrutura de alto profissionalismo como da Petrobrás, para intervir diretamente.

domingo, 11 de março de 2007 20:02:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Outra coisa que esqueci de dizer.

Na corrida do ouro no Oeste dos Estados Unidos, ao contrário do que se costuma pensar, muito pouca gente ficou rica com o ouro. A maioria enriqueceu vendendo dinamite, pá, carrinho, bebidas, alimentos, etc.

Talvez haja uma grande janela de oportunidade para o pequeno produtor familiar fora do álcool, na própria produção de alimentos, pecuária, uma vez que muitos produtores convencionais deverão trocar suas atividades pela cultura da cana.

domingo, 11 de março de 2007 20:09:00 BRT  
Anonymous Luiz Lozer disse...

O programa do biodiesel é cheio de instrumentos de inclusão social, inclusive tem até um selo social, se o empreendimento tiver, paga menos imposto. O Governo Brasileiro dá todos os sinais de que essa é linha, no discurso do Presidente, além de ponto G, Lula tocou no ponto da justiça social.

Ta na hora de um pouquinho de fé, esperança e otimismo. Tenho 36 anos e desde que me entendo por gente só ouço falar em crise, primeiro a ditadura depois estagnação econômica agora violência e desesperança. CHEGA!!!

PRA FRENTE BRASIL! 

domingo, 11 de março de 2007 21:13:00 BRT  
Anonymous jv disse...

Estava pensando aqui, Alon, se não fosse a escravidão, muitos amigos meus não existiriam.......

domingo, 11 de março de 2007 22:04:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Se eu comprar um latifundiom para plantar e criar gado, Alon, você vai gostar menos de mim? :)
Claro que eu não sou louco, me meter numa atividade que rende menos que a poupança, tem riscos enormes de dar errado e ainda por cima é diariamente combatida nos meios de comunicação, mal-falada, desamada. Vou continuar emprestando a juros altos para o governo. Paguem-me os rendimentos com o imposto dos trabalhadores. (calma Alon, é ficção).

segunda-feira, 12 de março de 2007 10:25:00 BRT  
Anonymous Frank disse...

Sobre nossa incapacidade de enxergar valor positivo no trabalho e na prosperidade: acredita-se que isso tenha mais a ver com nossa matriz cultural católico-ibérica. OS EUA, protestantes, encaram prosperidade de outra maneira.

Antes de apanhar: é claro que isso é uma simplificação. Mas muito boa, a meu ver.

segunda-feira, 12 de março de 2007 11:03:00 BRT  
Blogger Bruno Abreu disse...

Caro Alon,

As propostas que você apresentou são boas, mas não para a indústria sucro-alcooleira, pois esta padece do problema de escala, produzir álcool em propriedades familiares é inviável - infelizmente. Embora se possa argumentar que o arrendamento e as pequenas propriedades respondam por uma parte da produção, eles são incapazes de atender a demanda. O latifúndio, única forma rentável para essa indústria, mas responsabilizado pelas relações sociais ultrapassadas, pela degradação ambiental e pela baixa inovação tecnológica, tem sido modernizado – seja por pressão governamental, do mercado ou dos trabalhadores, seja por saltos tecnológicos da indústria. A superação, contudo, dos problemas do setor e o feitio dos ajustes necessários é incapaz de tornar o Brasil a potência dominante do mercado mundial de etanol.

As soluções de arrendamento, prática que existe desde o início do século, tanto no Nordeste quanto, depois, em São Paulo surgiram em um momento de crise para o setor. Era a maneira dos grandes latifundiários obterem alguma renda com suas propriedades, uma vez que não tinham condições nem lhes era interessante tocar a produção, uma vez que o pequeno boom de modernização do final do século XIX trouxe as Usinas, empreendimento muito mais rentável. As relações de arrendamento, no entanto, não são modernas, ao contrário, são, ainda, resquícios de coronelismo. O arrendo permanece porque é interessante para as usinas deixarem a produção para outros e funcionarem como um monoxonio.

Muitos dos problemas sociais gerados pela indústria canavieira estão, de qualquer maneira, sendo superados pela organização dos trabalhadores - dos quais a Fetape, em Pernambuco, é um exemplo –, pelo avanço dos programas sociais do governo e da fiscalização do ministério do trabalho. Embora ainda pobres – são os excluídos do desenvolvimento de que falei no meu último comentário – sua organização já garantiu salários e condições de trabalho menos degradantes, para o que concorre também a fiscalização federal.

Quanto aos problemas ambientais gerados pela indústria, eles são de solução simples, pois provém mais de métodos antigos em processo de substituição, do que de algo inerente à cultura da cana. Se os canaviais fossem tão prejudiciais ao meio ambiente, como se argumenta, depois de 5 séculos de exploração, a Zona da Mata pernambucana seria um deserto. A terra, entretanto, permanece fértil e isso tem relação com os canaviais, que devolve nitrogênio ao solo. Até 2015 serão proibidas, por completo, as queimadas de canaviais em São Paulo, o vinhoto, apesar do cheiro é um excelente fertilizante, jogá-lo fora, os canavieiros já descobriram, é um desperdício: perde-se adubo e eutrofiza-se os leitos de água que são úteis para a própria usina.

A tecnologia brasileira na área, por sua vez é surpreendente. A produtividade dobrou de 1985 até hoje e pode triplicar até 2016, graças ao trabalho da Coopersucar e outras usinas similares (propriedade de canavieiros) que suprem a ausência do governo, a partir da década de 90, em pesquisas no setor, segundo o físico José Golbemberg. O rendimento energético, 8:1, faz do etanol de cana um combustível de fato verde, ao contrário do de milho que tem rendimento de 1,3:1. Argumentar, como se fez à época do pró-acool que as áreas seriam melhor aproveitadas na produção de alimentos é uma não-questão. Há terra suficiente para cana, soja, milho, feijão, etc e a expansão do cultivo de cana se faz, sobretudo em áreas degradadas pela pecuária, cujo efeito é o adensamento do rebanho brasileiro, algo que não representa problema uma vez que temos uma vaca por hectare, ter duas não afetará em nada o setor. A cana também, ao contrário da soja, não invadirá a Amazônia, exceto se a Embrapa desenvolver uma variedade que resista ao clima equatorial, o que até agora não foi feito.

Achar questões insolúveis na indústria de Etanol é tolice; problemas existem, mas podem ser superados por políticas governamentais de inclusão e fiscalização e por saltos tecnológicos. Ambos já ocorrem. Ao mesmo tempo, não espere que o etanol brasileiro substitua todo o consumo de gasolina do mundo: a nossa produção, o rendimento energético da cana – 8:1–, a produtividade dos canaviais e a tecnologia que o Brasil detém são suficientes para o mercado interno e para algo em torno de 10% do mercado mundial; Jamais seremos, por isso, no setor de biocombustíveis, o que fomos com o café no início do século XX. Talvez não seja interessante nem almejar tal situação.

terça-feira, 13 de março de 2007 11:13:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Bruno, você está errado. Pequenos e médios proprietários rurais podem dar escala a sua produção por meio de cooperativas. Especialmente se forem estimuladas pelo poder público. Não me alinho entre os que, como você, são fatalistas do latifúndio como vetor de modernização da agricultura. Quanto à simplicidade da solução dos problemas ambientais, admiro o seu otimismo. Mas não sou tão otimista quanto você. O interior de São Paulo, com o sua agricultura intensiva em capital, não resolveu esse problema. Ou resolveu? Tampouco concordo que há terra suficiente para plantar tudo. A terra no Brasil é propriedade privada. Plantar-se-á o que der mais lucro. O que não der para plantar será importado. Ou você acha que o latifundiário, podendo plantar soja e cana, ou largar o boi no pasto, vai distribuir terra entre posseiros para que eles plantem arroz, feijão e milho?

terça-feira, 13 de março de 2007 11:33:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Ao que tudo indica, todos fomos pegos de surpresa por essa investida do EUA.

Até onde sei, os investimentos na expansão da indústria alcoleira previstos no PAC estão restritos ao atendimento da demanda do mercado interno. Ou seja, vai ser preciso investir muito mais que o previsto.

Mais urgente do que discutir se será latifundio ou cooperativa, é decidir o quanto o país vai investir em C&T. Penso que há espaço e oportunidade para a coexistência dessas duas formas. Elas não antagônicas. As contradições interpostas, à direita e à esquerda, são ideológicas. O pior que se pode fazer neste momento é enviesar o debate com discussões de caráter puramente ideológico. Como dizia o velho Mao, a bondade de um gato revela-se pela sua capacidade de caçar ratos.

Sobre a democratização da terra, ela bem vinda, desde que saia da nefasta influência do clero esquerdista, dos próselitos do "socialismo campesino" e do irracionalismo ambientalista. Reforma agrária ou democratização da terra tem como objetivo levar a cultura capitalista e seus benefícios materias pra uma parcela da população está à margem do desenvolvvimento capitalista brasileiro. Falo de ampliação da classe média e democratização da propriedade privada. Deixar a gestão e os recursos nas mãos desses brucutus do coletivismo é o mesmo que prender uma bola de ferro nessa oportunidade.

abs.

terça-feira, 13 de março de 2007 12:42:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Para o Bruno ler e responder:

IRC Americas Program Discussion Paper

Brazil's Ethanol Plan Breeds Rural Poverty, Environmental Degradation

Isabella Kenfield | March 6, 2007

Americas Program, International Relations Center (IRC)
americas.irc-online.org

On Jan. 22 the Lula administration announced it will increase federal funding for Brazil's sugar-based ethanol industry by almost US$6 billion over the next four years. One day later, U.S. President George W. Bush declared in the State of the Union address his goal to reduce U.S. use of gasoline 20% by the year 2017.

The general response in Brazil to Bush's announcement was overwhelmingly positive. Luis Fernando Furlan, Minister of Industry, Development, and Commerce, was quoted in the Gazeta Mercantil as saying he received Bush's announcement "with applause."

"It is a fantastic business opportunity," Luis Carlos Correa Carvalho, an industry consultant, told Reuters. "We have never had such a great opportunity for the substitution of petroleum."

The United States is currently the largest importer of Brazilian ethanol. Last year it imported 1.74 billion liters, or 58% of the total three billion liters that Brazil exported. For the United States to reach Bush's target reduction of gasoline use, the country will need an additional 135 billion liters of ethanol annually. Because it will not be able to produce the entire amount, no doubt a large portion will come from Brazil.

Brazil is the global leader in ethanol exports. In 2006, the country exported about 19% of the total 16 billion liters it produced, providing 70% of the world's supply.

This amount will soon increase. A partnership between the Ministry of Science and Technology and the University of Campinas in São Paulo is currently conducting a study to plan Brazil's ethanol exports as a substitute for 10% of the global use of gasoline in 20 years.

If this plan is successful, the country's ethanol exports will total 200 billion liters by 2025—an increase of almost 67%. The geographic area planted with sugarcane will increase from 6 million to 30 million hectares.
Is Ethanol the Solution or the Problem?

Many citizen organizations in Brazil are concerned that what appears to be an economic panacea may be a social and ecological disaster. They claim that as the industry expands and more hectares are planted mono-cropping sugarcane, existing problems in rural areas of landlessness, hunger, unemployment, environmental degradation, and agrarian conflicts will be exacerbated.

A recent declaration from the Forum of Resistance to Agribusinesses, a consortium of non-governmental organizations (NGOs) throughout South America states, "The implementation of the model of production and export of biofuels represents a grave threat to our region, our natural resources, and the sovereignty of our people."

There is concern that while expansion of the ethanol industry may boost Brazil's GDP and some Brazilians will become very wealthy in the process, the majority of the population will not benefit from the ethanol export boom. Given U.S. plans to increase imports of Brazilian ethanol and the alliance slated to be forged during Bush's South America visit in March, it is likely the livelihoods of many Brazilians, especially the rural poor, will be subordinated to maintain U.S. consumption.

"The era of biofuels will reproduce and legitimize the logic of the occupation of rural areas by multinational agribusiness, and perpetuate the colonial project to subvert ecosystems and people to the service of the production and maintenance of a lifestyle in other societies," states the Forum. The group alleges that Brazil's effort to supply the Global North with ethanol is simply a repeat of the same model of economic growth via agro-export that has been practiced since Portuguese colonization.

Agricultural production for export in Brazil has traditionally been a model imposed on the country by more powerful nations in the North, alongside a small group of Brazilian landowners. Agro-export generates vast amounts of wealth for a few Brazilians, and exploitation and poverty for many others. Brazil's high rate of income inequality is inseparable from the fact that it also has one of the most unequal rates of land distribution. The sugar industry is a classic example of Brazil's land and income inequality.
A Bittersweet Future

Brazilian ethanol is produced from sugarcane, which has always been a primary agricultural commodity for the country. Because ethanol relies on sugarcane as its primary material, the industry is linked to the social and economic dynamics in rural areas that have developed from sugarcane production since the colonial era, most importantly labor exploitation and land concentration.

According to Marluce Melo of the Pastoral Land Commission (CPT) in the northern Brazilian city of Recife, Pernambuco, "Rural poverty has always been intrinsically related to the economy of sugarcane. Even in the 1970s, when Pernambuco was the largest national producer of sugarcane, the levels of poverty were amongst the highest in the world."

In many ways, things have changed little on the sugarcane plantations since colonial times.

"The problems with [sugarcane's] production today are very similar to the problems it generated hundreds of years ago," says Maisa Mendonça, Director of the São Paulo-based NGO Rede Social. Sugarcane fieldworkers endure some of the hardest labor in the world. According to Mendonça, Brazil has the lowest cost of production in the world because of the industry's dependence on labor exploitation, including massive slave labor, and its refusal to implement environmental regulations. In São Paulo the cost of production is US$165 per ton; in Europe it is US$700 per ton. I n São Paulo the median monthly salary for a field laborer on a sugar cane plantation is US$195; in Pernambuco it is US$167.

It is estimated that 40,000 seasonal migrant laborers from the Northeast and Minas Gerais state work in the annual harvest in São Paulo. They work long hours in extremely hot temperatures, cutting as fast as they can because their pay is based on the weight of their cuttings.

Maria Aparecida de Morães Silva, at the State University of São Paulo, reports that the required rate of productivity for cane cutters is increasing. In the 1980s, the average rate of productivity demanded of an individual cutter was between five and eight tons of sugarcane cut per day; today it is between 12 and 15 tons. From 2004 to 2006, the Pastoral of Migrants registered 17 deaths from excessive labor in São Paulo, and in 2005 the state's Regional Delegation of Labor registered 416 deaths of workers in sugar-based ethanol production.
Concentration in the Industry

As it grows, the sugar-ethanol industry has undergone a process of increasing concentration and vertical integration, as large corporations invest in land and production. According to a banker who finances loans to the ethanol industry in São Paulo and asked to remain anonymous, in the past control of the industry was dispersed among smaller businesses. Sugar mills were owned by individual owners who controlled both cultivation and milling.

Today Brazil has 72,000 sugar producers, and the ten largest producers still control less than 30% of production. However, the banker says, "The current trend is toward concentration, with a large number of mergers and acquisitions."

Many of the larger companies that are buying out the smaller companies are multinational agribusiness corporations. "The participation by foreign capital in the production of sugar and ethanol is currently 4.5%, and this number is going to grow. Recently many foreign groups are looking to invest in this industry in Brazil, due to one of the lowest costs of production in the world," says the banker.

Sugarcane seems to be following the same pattern of foreign investment and concentration as that of soybeans. Today almost all soybean production in Brazil is controlled by a handful of multinational agribusinesses.

Many of the corporations that control soybeans are now investing in the ethanol industry. Among the multinational agribusinesses investing in the industry are, according to the banker, Louis Dreyfus Commodities and Tereos, both based in France, as well as U.S.-based Cargill. The Louis Dreyfus site states the company is one of the three largest sugar traders in the world, and owns three Brazilian sugar mills with a fourth mill currently under construction in Mato Grosso do Sul . The company produces 450,000 tons of sugar and 150,000 cubic meters of ethanol annually.

According to the Cargill website, in addition to being Brazil's largest soybean exporter and second-largest processor, Cargill is the largest operator of sugar, both in terms of Brazilian sugar production and export sales, as well as global sugar trading.

As more land is planted as a monoculture of sugarcane, and control of the industry becomes more concentrated, rural poverty increases. According to Melo of the CPT, "Monoculture has created a huge dependency on the sugarcane economy in the [Pernambuco] region, and impedes the creation of other forms of work and income. The monoculture of sugarcane also leads to an increasing concentration of lands in the hands of the sugar mills.

"For about 15 years, there were 43 sugar mills and alcohol distilleries in Pernambuco. Currently only 25 of these companies control practically all of the land in the 43 municipalities of the sugarcane growing region of the state ... In the last two decades, practically all of the small properties in the region have disappeared, with the forced destruction of the sites, and the expulsion of the workers to the periphery of the 43 municipalities of the sugarcane region and to the larger cities of the neighboring metropolitan region. In this same period, about 150,000 jobs were lost when 18 companies closed and the lands and sugarcane processing was concentrated in the 25 sugar mills and distilleries that remain ... This has provoked a generalized 'slumming' of the workers, which has aggravated hunger."
Economic Boom or Environmental Bust?

Industry, government, and mainstream media in Brazil generally argue that increasing ethanol exports will boost economic growth and sustainable rural development, while simultaneously helping to curb global warming by helping the world reduce its dependency on fossil fuels.

But contrary to the "green" image evoked by industry advocates, the monoculture of sugarcane leads to massive environmental destruction. According to Melo, in Pernambuco only 2.5% of the original forest of the sugarcane region remains. In order to satisfy future global demand, Brazil will need to clear an additional 148 million acres of forest, says Eric Holt-Gimenez of the NGO FoodFirst, based in Oakland, CA.

The damaging environmental effects of monocropping sugarcane are, in the São Paulo banker's mind, the most troubling aspect of the sugar-ethanol industry. He claims that the sugar takeover is "pushing other crops to the agricultural frontier."

He explains that, "because sugarcane generates a high price per hectare, the regions with better climactic conditions are dominated by this crop, which results in sugarcane occupying lands that before were planted to grains and used for grazing livestock. Grain producers move to more remote regions, such as the center-west, which before were used for cattle. The result of this flux is that cattle ranchers seek new areas such as the Amazon region."
Resisting Changes in Land Use

As the expanding ethanol industry spreads rural poverty and loss of rural livelihoods due to increased land concentration and environmental destruction, the number and intensity of agrarian conflicts has risen. Brazil has one of the highest rates of income and land inequality in the world, and a well-articulated and organized agrarian reform movement of the rural poor. This has created a smoldering socio-economic fire that could very well be ignited with ethanol.

On Feb. 19 the Movement of Landless Rural Workers (MST) and the Central Union of Workers (CUT) organized about 2,000 MST members and rural workers to non-violently occupy 12 plantations totaling 15,600 hectares in nine municipalities of São Paulo state. According to the newspaper O Estado de São Paulo, "MST leader José Rainha Júnior said the objectives of the occupations are to force the government to acknowledge the emergency need for agrarian reform, and to call attention to the social problems resulting from the expansion of sugarcane in the state."

Melo reports that in 2005, Pernambuco registered 194 conflicts over land—a rate higher than the previous five years. She also reports that in the same year a general strike by sugarcane workers was violently repressed.

"The employed and unemployed workers who struggle for agrarian reform are constantly threatened and coerced by the landowning companies and by the police at their service," she says. CPT data shows 60 labor conflicts for 2005 alone, while between 2000 and 2004 the highest number of labor conflicts was nine.

As the Lula administration proceeds full-speed ahead with ethanol export as a model for economic development, it is turning its back on the millions of Brazilians who voted for the Workers' Party based on its promises to implement real social and economic changes, especially agrarian reform. According to Melo, "The Lula government has strengthened the historical cane-production model imposed on the country based on monoculture, and concentrated landholdings and large companies. He has not shown any interest in creating alternatives to this perverse model."

Can there be viable economic alternatives to sugarcane monocropping? " Our evaluation is that the government needs to combat hunger," says Mendonça. "The government wants to become a factory to supply rich countries with cheap energy. This is compromising agrarian reform and food production."

What the social movements, many NGOs, and other organizations agree on is that Brazil needs to incorporate the concepts of food sovereignty into its development policy, prioritizing the land to produce food for Brazilians. Food sovereignty includes both the obligation of governments to ensure that their populations have access to nutritious foods in adequate quantities, and the right of people and countries to define their own agrarian policies, and produce foods destined to feed their populations before producing for export.

But food sovereignty will be unattainable without a comprehensive agrarian reform to keep family farmers on the land, producing and distributing healthy food to local populations. As it is currently developing, the Brazilian ethanol industry represents a direct challenge to food sovereignty and agrarian reform. Ethanol production to sustain the enormous consumption levels of the Global North will not lead the Brazilian countryside out of poverty or help attain food sovereignty for its citizens.

Isabella Kenfield is a freelance journalist based in Brazil and a contributor to the IRC Americas Program www.americaspolicy.org.

terça-feira, 13 de março de 2007 13:05:00 BRT  
Anonymous Artur Araújo disse...

Só não compreendo porque a cultura de cana é associada, inelutável e obrigatoriamente, ao modelo de plantation tal como o conhecemos. Ou é má fé ou conservadorismo imobilista nem se considerar a possibilidade de discussão e análise de outros arranjos produtivos e fundiários. Às vezes me parece que retornamos à revolta da vacina ou que teremos que ler de novo O Poço do Visconde.

quarta-feira, 14 de março de 2007 03:12:00 BRT  

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