quarta-feira, 21 de março de 2007

Sobre políticos e cientistas (21/03)

O ex-ministro Delfim Netto escreve artigo hoje na Folha de S.Paulo. O final é um bom resumo dos impasses da economia brasileira:

Em mais uma geração, se continuarmos a conversar sobre o crescimento em lugar de realizá-lo, teremos os PIBs per capita previstos (...). Não se trata de destino. Aceitar a possível tragédia do empobrecimento relativo do Brasil depende só de nós: da nossa capacidade de decidir o que fazer para crescer a uma taxa per capita de pelo menos 3% a 3,5%, o que significa um crescimento do PIB em torno de 4,5% a 5%. A mensagem cruel é que será muito difícil fazer isso: 1º) com a sociedade do "bem-estar" social construída com mais paixão do que razão na Constituição cidadã. Ela se acomodaria muito mal mesmo se tivéssemos o triplo do nosso PIB per capita; 2º) se insistirmos em ampliar a ênfase no passado (previdência e assistência) em detrimento do futuro (educação e saúde dos jovens, o que começa a ser corrigido pelo PDE) e 3º) se insistirmos em aumentar as despesas de custeio do governo em detrimento das de investimento. Isso está longe de sugerir a necessidade de um retorno aos bemvindos avanços sociais conseguidos. Exige apenas que se melhore o seu "foco" e se aprofunde o seu monitoramento.

Mas o ex-ministro dá uma escorregada no começo do seu texto, ao debitar o "Estado obeso e endividado que impõe o baixo crescimento" na conta da "execução do brilhante Plano Real" . É verdade, o Real matou a inflação à custa de um endividamento que atormenta o país até hoje (ainda que cada vez menos). Mas talvez Fernando Henrique Cardoso (FHC) não tivesse outros caminhos para seguir na época, pois não havia leis nem maioria social e política para o governo federal impor ao país uma orientação austera na área fiscal. O Brasil vivia embalado pela ilusão de que a escalada dos preços poderia ser abatida a custo zero. Essa tese, nutrida desde os tempos do oposicionista MDB (1066-80), encontrou depois guarida entre os economistas do petismo. Falta porém uma informação na coluna de Delfim: quem ajudou a levar a inflação até os níveis em que se encontrava quando FHC assumiu o ministério da Fazenda de Itamar Franco? Todo mundo sabe que a superinflação liquidada por FHC com o "brilhante Plano Real" (nas palavras de Delfim) havia sido cevada ao longo do período militar (1964-85), com Delfim Netto no comando da economia. Especialmente no governo de João Figueiredo (1979-85), quando em lugar de apertar os parafusos para desacelerar preços Delfim preferiu a indexação geral. Mas é necessário fazer também justiça a Delfim Netto. É provável que ele próprio não tivesse outro caminho para sobreviver politicamente no ocaso de um enfraquecido poder militar. Governo fraco e austeridade não combinam. No mesmo governo Figueiredo, Mário Henrique Simonsen quis seguir essa trilha (austeridade) e teve que voltar para casa. Como bem disse Karl Marx, os homens não fazem a História de acordo com os seus desejos, mas limitados pelas circunstâncias. E Delfim, certamente, entende bem mais de Marx do que eu ou você que lê este post. O revolucionário alemão já afirmava, por exemplo, no prefácio da Contribuição à Crítica da Economia Política:

(...) O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu de fio condutor aos meus estudos, pode resumir-se assim: na produção social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral. Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência. (...)

Marx foi melhor cientista social do que político. Esse famoso trecho da "Contribuição" me faz lembrar de outro episódio histórico. Foi quando Isaac Newton disse que tinha conseguido enxergar longe pois estava apoiado nos "ombros de gigantes". Em miúdos, nem Galileu Galilei nem o próprio Newton falavam mal, por exemplo, de Ptolomeu (no retrato), o que achava que o Sol orbita em torno da terra. Mas cientistas são obrigados a certas práticas de rigor intelectual não exigidas dos políticos. E políticos são arrastados a certos hábitos vedados a cientistas. Políticos podem, por exemplo, falar mal uns dos outros assumindo como pressuposto que as possibilidades colocadas hoje estiveram desde sempre à disposição dos governantes. Talvez esteja aí uma razão para que nem sempre cientistas dêem bons políticos. E vice-versa.

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11 Comentários:

Anonymous JV disse...

responsável por não melhorar (como havia prometido) e ainda por piorar (como realmente fez) a situação fiscal brasileira.

quarta-feira, 21 de março de 2007 15:30:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Belo post. Boa lembrança a do Mário H. Simonsen. Se a memória não falha, Delfim estava, nesta ocasião, na agricultura. Voltou para a fazenda na saída do Simonsen. Quanto a Delfin e FHC, penso que foram movidos em suas ações como agentes políticos por escolhas individuais. Não vejo como colocar ai o sentido de necessidade contido na passagem do Marx. Se a aceitarmos tudo, no passado e no presente, justifica-se
por imposição da inexorável lei da "necessidade da história". História não é um ser racional. Não possui uma ontologia. Ela resulta de embates, conflitos, escolhas feitas por indvíduos e grupos. Sendo assim, o seu sentido é totalmente aberto a infinitas possibilidades.

Quanto à passagem que você cita do Marx penso que o Delfin concordaria com ela. Claro que ele discordaria do finalismo marxista. Mas a base no pensamento de ambos é a mesma. Qual seja, há nos dois pensamentos a certeza de conhecer e dominar as leis de movimento, sentido e a racionalidade interna da realidade. Disso deriva a ceteza (autoritária) que ambos compartilham de saber os fins racionais (divergentes para os dois, é claro) que TODOS estamos destinados a alcançar, queiramos ou não, saibamos ou não.

Alon, o que aprendemos, ou pelo menos eu aprendi, com a nossas ilusões da juventude é que elas eram ilusões. Não me tornei um niilista. A prova é que estou aqui. Mas fiquei mais desconfiado e cético quanto à segurança ontológica oferecida como solução pelo marxismo. Não faço parte da turma raivosa que renega Marx. Aceito, no entanto, que suas previsões não se confirmaram e que por isso sua crítica da economia política deve ser também criticada.

Li outro dia uma metáfora muito legal de Noberto Bobbio sobre a História: ele "a compara a um labirinto. Acreditamos saber que existe uma saída, diz Bobbio em sua autobiografia (Diário de um século, Rio de Janeiro, Campus, 1998), mas ninguém sabe onde está, e, não havendo alguém do lado de fora que nos possa indicá-la, devemos procurá-la nós mesmos. Eis a conclusão: 'o que o labirinto nos ensina não é onde está a saída, mas quais os caminhos que não levam a lugar algum'." (citado por Orlando Tambosi)

abs.

quarta-feira, 21 de março de 2007 16:58:00 BRT  
Anonymous Ricardo Melo disse...

Alon:parabéns por esse belo exemplo de post. É por esse e outros que vale a pena passar pelo seu blog.
Agora, uma dúvida: você absolve ou não o Delfim? Ou isso nem lhe passou pela cabeça?
Por outro lado, convenhamos: não é um exagero de Delfim acusar a nossa constituição como provedora do well-fare state? Do jeito que ele fala, parece que estamos na Suécia...
O que Delfim quer? Denunciar os velhinhos aposentados da Caatinga?
Ou será que ele está apenas "jogando para (uma distinta) platéia?

quarta-feira, 21 de março de 2007 16:59:00 BRT  
Blogger alberto099 disse...

Caro Alon, o Plano Real foi mais conseqüência do acúmulo de dólares nas nossas reservas que de qualquer outra coisa. Sarney teria feito se os tivesse, em vez de declarar a "moratória soberana", Collor teria feito se não estivesse acuado no fim do mandato (foi durante seu último ano na presidência que os dólares entraram), Itamar fez. Quase o mundo todo fez igual, e fez antes de nós. Agora, de onde surgiram as leis e a "maioria social e política" que permitiram ao governo Fernando Henrique Cardoso praticar uma política fiscal mais austera no segundo mandato, que não existiam no primeiro? A novidade daquele momento foi a ascendência do FMI sobre o governo brasileiro, decorrente de o país já ter esgotado aquelas mesmas reservas cambiais. A idéia de necessidade histórica pode justificar tudo, como bem disse o Paulo Araújo acima, e já foi usada para tornar os personagens irrelevantes. Mas julgo que o esforço de separar o que era inevitável do que poderia ter sido diferente é importante para tentarmos não repetir os erros do passado.

quinta-feira, 22 de março de 2007 07:18:00 BRT  
Anonymous Artur Araújo disse...

Primo: que post! Conteúdo e elegância!
Secondo, já atacado da Síndrome de Escorpião: na origem do Marx "mau político" não estaria um excesso de Rousseau e Darwin e uma relativa falta de Hobbes e Maquiavel?

abs,

quinta-feira, 22 de março de 2007 11:04:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Caro Artur Araújo

Até recentemente eu desconhecia (conhecia muito superficialmente. Minha formação deu-se pela escolástica do leninismo-stalinismo, com direito a aventuras marcusianas) a existência de um importante debate dos marxistas italianos ocorrido durante os anos 40/50/60 e 70, originário no PCI. Três nomes importantes: começando com Togliatti, depois Galvano Della Volpe e Lucio Colletti.

Há um livro do Prof. Orlando Tambosi (sua tese de doutoramento na UNICAMP em 1991) que traça uma análise do ideário marxista a partir dos escritos de Lucio Colleti.

O livro apresenta um panorama das doutrinas marxistas na Itália e seus vínculos com o hegeliano Croce. Gramsci, sabemos, era conhecedor e admirador de Croce. Posteriormente, Della Volpe produziu uma vigorosa crítica do idealismo hegeliano e das concepções historicistas que marcavam profundamente o comunismo italiano. Colletti entra no debate pela vertente dellavolpiana nos anos 40/50. Essa turma tentou contrapor ao historicismo uma visão do marxismo como ciência. Colletti, nesse percurso, faz-se profundo conhecedor de Hegel e Marx. No início dos anos 70 ele radicaliza suas análises e conclui que Marx era um epígono de Hegel. Ao admitir a existência de contradições na realidade (a passagem citada pelo Alon é um bom exemplo) o marxismo apresentou-se como uma filosofia da história: a idéia do processo histórico como portador de uma ontologia (finalidade) que o conduziria a uma determinada e necessária meta (o comunismo, a sociedade sem classes e sem Estado eram o corolário da história). Colletti concluiu que a dialética de Marx, que supunha ter invertido a dialética hegeliana em termos materialistas, não superou o idealismo alemão. Colletti concluiu que o marxismo é, sim, uma metafísica herdeira de Hegel.

Com o mesmo rigor, honestidade e independência intelectual com que analisou a “conexão Marx-Hegel”, procurando nela esmiuçar os elementos científicos do marxismo, Colletii desmonta a concepção que durante 25 anos ajudou a construir (marxismo como ciência) e rompe (início dos anos 70) com o marxismo, aproximando-se cada vez mais de uma perspectiva liberal.

Eu o convido, caro Artur, a conhecer esse debate e essa trajetória intelectual pelo livro do Orlando Tambosi (na suposição de que você não o conheça) também pelas perguntas que você deixou no fim do seu comentário. O nome do livro: O declínio do marxismo e a herança hegeliana (Editora da Universidade Federal de Santa Catarina,1999). O livro, praticamente deconhecido nos meios acadêmicos brasileiros, foi bem recebido na Itália e ganhou tradução: Perché il marxismo ha fallito (Milano, Mondadori, 2001). Leitura mais que bem vinda para quem quer arriscar-se no pensamento do passado de uma ilusão.

Abs.

quinta-feira, 22 de março de 2007 17:28:00 BRT  
Anonymous Artur Araújo disse...

Co-Araújo,

Gratíssimo pela indicação, que será saboreada, sim, assim que possível.
Conhecia Colletti de nome e desconhecia Tambosi e della Volpe. Apesar de uma simpatia epidérmica pelos italianos, nunca fui além de Gramsci. Minto: já passeei por Rossana Rossanda e está na pilha por ler o inefável Negri.
A farpa do escolasticismo dos guias geniais será desconsiderada em nome do shabbat que se avizinha.
abs,

sexta-feira, 23 de março de 2007 09:55:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Caro Artur

Estou terminado a leitura do livro.
Não tenho formação em filosofia, o que torna lenta a leitura. Assim que terminar, devo voltar e reler. Se preciso, reler novamente. O assunto sempre interessou-me. Eu gosto.

Aprendi com um grande professor que num curso sobre Marx não se estuda Marx. O certo, ele dizia, "era imitar Marx". Num curso sobre Marx "seriam vistos Aristóteles, Hegel, Smith, Ricardo e etc", pois ninguém opta por esta ou qualquer outra filosofia sem cuidadoso exame prévio. E arrematou com uma lição que aproveito até hoje: se desejávamos aprender marxismo precisaríamos antes nos "comunicar com os pensadores que definiram o campo teórico a partir do qual Marx refletiu". Ou seja, antes de escrever "crítica da economia política" era preciso conhecer a economia política. "Crítica", ele nos lembrou, "é exame, seleção, partilha, análise."

Ele nos perguntava sobre o porquê dessa "necessidade sectária de jurar em nome de alguém, de uma autoridade". Na melhor tradição do iluminismo crítico e racionalista ainda ouvimos dele que Kant afirmou serem as "Luzes a saída dos homens da sua condição de menores tutelados. Mas acrescenta: tal situação deve-se aos próprios homens."

O nome do meu professor e amigo: Roberto Romano. Como você, Artur, uma espécie em extinção neste terrível tempo em que tantos ajoelham-se à realpolitik e a cada novidade trazida pelo mercado solenemente autoproclamdo pós-moderno. Prafraseando Nietzsche, eu trocaria tranquilamente alguns minutos com Marx do 18 Brumário por milhares dessas vidas ultra pós-modernas.

abs. e boa leitura

sexta-feira, 23 de março de 2007 12:07:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Artur

Acho que a paráfrase saiu mau feita. Certa ela é assim: eu trocaria tranquilamente milhares de vidas ultra pós-modernas por cinco minutos com Marx do 18 Brumário.

abs.

sexta-feira, 23 de março de 2007 14:02:00 BRT  
Anonymous Artur Araújo disse...

Co-Araújo,
Vou parar nesta, ou a caixa de comentários do trabalhador do fogo vira correio sentimental.
Creio ser óbvio que Roberto Romano não forma entre minhas referências mais marcantes (rs), mas essa postura - conhecer matrizes, territórios, nada do humano reputar estranho a si - é essencial, independente do "lado" em que se forma.
Quanto aos multiculturalistas e pós-modernosos, vou à prática do cabotinismo, auto-citando-me em uma troca de emails com um amigo, sobre sua (deles) influência vulgar e deletéria no pensamento marxista:
"Acrescentaria a malta gálico-tedesca - Foucault, Derrida, Baudrillard, Habermas, Barthes, Marcuse, Deleuze et caterva. Vou já promover um auto-da-fé e lançar ao fogo santo e purificador os exemplares do Said e dos estruturalistas que a S. teima em manter na estante."
Bom fim de semana

sexta-feira, 23 de março de 2007 19:51:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Artur

Melhor usar pra acender lareira.

Até a próxima.

abs.

sexta-feira, 23 de março de 2007 20:17:00 BRT  

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