sexta-feira, 9 de março de 2007

Que antiamericanismo? (09/03)

Estão aí, escancarados, todos os sinais de que a política externa no segundo governo Luiz Inácio Lula da Silva sofreu um ajuste fino em relação ao primeiro quadriênio. Errou quem acreditou estar em alta no Itamaraty um suposto antiamericanismo (maior do que o habitual na instituição). O que se passa é o contrário. É uma aproximação estratégica com os Estados Unidos. O primeiro sinal foi a adesão imediata do Brasil ao conjunto de países que sancionaram o Irã por afrontar as determinações da ONU sobre o programa nuclear iraniano. Agora, vem o alinhamento entre Brasília e Washington na política para o álcool combustível. O Brasil será um pilar central da tentativa estadunidense de depender (e fazer o mundo depender) menos do petróleo. Ou seja, depender menos do Oriente Médio, da Nigéria e da Venezuela. Não resta mais dúvida de que as iniciativas do presidente Hugo Chávez para reforçar suas Forças Armadas e o apoio dele à nuclearização do Irã (que os iranianos dizem ter apenas fins pacíficos) podem ser até movidos pelo desejo de se defender de Washington. Mas causam incômodo em Brasília. Chávez se apóia nos dólares do petróleo para ampliar sua influência regional e se aproxima de Teerã. E Luiz Inácio Lula da Silva ajuda os Estados Unidos a construírem uma plataforma energética alternativa, capaz de oferecer combustível e desenvolvimento econômico na América Central, onde George W. Bush e Chávez disputam terreno palmo a palmo. Se isso é "antiamericanismo" do Brasil, o que seria então um "americanismo"? (Na foto, os presidentes Lula e Bush visitam o terminal da Transpetro, em Guarulhos (SP). Foto Agência Brasil/Ricardo Stuckert/PR)

Leia mais: A aliança Brasil-EUA, de Carlos Tautz (http://outraglobalizacao.blogspot.com)

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8 Comentários:

Blogger Cesar Cardoso disse...

Talvez nenhum dos lados esteja preparado para o pragmatismo militante que a política externa brasileira tem utilizado nos últimos meses.

Não é por acaso que a grande imprensa está congelada, sem ter o que falar sobre a história do etanol, talvez com medo de ser obrigada pelos fatos a elogiar Lula. Como também não é por acaso que Hugo Chávez, que evidentemente só tem a perder com o deslocamento da matriz energética para fora do petróleo, começou a criticar o etanol.

Realpolitik faz as pessoas ficarem desconfortáveis...

sexta-feira, 9 de março de 2007 23:56:00 BRT  
Blogger Luca Sarmento disse...

O que seria um americanismo? Talvez procurar o ponto G da rodada de Doha seja uma forma ...

sábado, 10 de março de 2007 00:42:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, somente faço um reparo: a adesão do Brasil às sanções econômicas contra o Irã não demonstra alinhamento ou aproximação com os Estados Unidos, e sim um alinhamento automático com as deliberações do Conselho de Segurança da ONU - o qual o Brasil pretende ocupar uma vaga permanente.

Rosan de Sousa Amaral

sábado, 10 de março de 2007 14:04:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Em termos de política externa Brasil-EUA, não acho que foi o governo Lula quem sofreu ajuste fino e sim Bush. Simbólica a foto de Bush com capacete da Petrobrás. Há 5 anos atrás, o único interesse de Washington na empresa era apoiar sua privatização.

Desde a posse, desde o primeiro encontro Lula-Bush, não vi anti-americanismo praticamente nenhum do governo (apenas de setores da base de apoio ao governo). Vi apenas pró-brasileirismo. O mesmo que não via desde a época de Médici e Geisel.
No início do governo Lula o contencioso Brasil-EUA era, sobretudo, a ALCA. Esta saiu da agenda por exaustão, ou seja, nenhum dos lados abriu mão daquilo que consideram indispensável para justificar o acordo.

O Brasil já tinha e tem uma agenda própria de produção de biocombustíveis (é interessante e alentadora, tanto economicamente como ambientalmente, uma entrevista que vi na GloboNews com o físico Rogério Cezar Cerqueira Leite, da Unicamp, que comanda estudos sobre a expansão da produção de álcool).

No discurso da União de Bush desse ano, ele introduziu uma meta ambiciosa para misturar 20% de etanol à gasolina até 2017. Então quem se aproximou da política brasileira foi Bush e não o inverso.

Os desconfiados hão de argumentar que o Brasil não ganhou nada, pois a sobretaxa do álcool brasileiro nos EUA foi prorrogada até 2009. Isso não tem muita importância agora, porque não teríamos capacidade produtiva até lá para exportarmos tanto volume. Também podemos exportar a cota de 7% sem sobretaxa via Caribe, que não serão grandes produtores até 2009. Os EUA precisam desta sobretaxa agora para viabilizar sua produção interna mais cara, mas essa capacidade produtiva deles irá se esgotar em breve.
Então os EUA tentarão ganhar contrapartida na liberalização de algum setor de serviços em troca da eliminação da sobretaxa (coisa comum entre países - só o Brasil é que foi capaz de assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear sem exigir contrapartida nenhuma em troca).

Mas com contrapartida ou não, essa sobretaxa está com os dias contados. Quando outros países (da Am. Latina e/ou África) tornarem-se produtores, a sobretaxa cairá para forçar concorrência, pelo simples fato de que mantê-la criaria um piso de preço interessante aos demais produtores, contrário aos consumidores (EUA).

O interessante para nós, brasileiros, é, de fato, desenvolver o álcool como commodity mundial e ampliar a frota de carros flex nos países de primeiro mundo, pois quando o álcool subir muito ou faltar, o petróleo o substitui, regulando o mercado. Isso garante segurança enérgica aos consumidores, o que dá segurança à expansão do mercado do álcool.

Parece ruim para produtores, mas eu teria medo de uma acordo de fornecimento nos moldes do acordo de gás Brasil-Bolívia. Se os EUA se tornassem extremamente dependentes do Álcool brasileiro, viraríamos alvo do arsenal militar dos EUA.

Quanto a Chavez X Bush, cada qual faz seu jogo, como seria de se esperar. Bush quer reconciliar-se com o eleitorado latino, e o americano médio preocupado com o aquecimento global. Quer também recuperar influência e mercados perdidos na América Latina, sobretudo para a China.

Acho simplismo ver Lula servindo de ponte para Bush contra Chavez na América Latina. Antes da visita de Bush, Lula conteve o Uruguai em sua aproximação com os EUA. Tem tido um papel de moderação na sustentação de governos anti-EUA como Evo Morales e o próprio Chavez. Em julho próximo, Brasil e Argentina farão câmbio em Reais e Pesos, sem a intermediação do dólar. Enquanto Bush visitava o Brasil, Mantega estava na Argentina negociando (e apoiando) a criação do Bando de Desenvolvimento do Sul.

O Brasil, sob o governo Lula, quando recebe e faz acordos com o governo Bush, está apenas exercendo o multilateralismo.

sábado, 10 de março de 2007 16:16:00 BRT  
Blogger alberto099 disse...

Caro José Augusto, parabéns e obrigado por sua análise. Também não vejo qualquer ajuste fino do governo Lula no caso. Desde o primeiro momento houve acordo com os EUA em assuntos importantes, como no caso do Irã agora (via ONU é claro, mas em assunto vital não só aos EUA mas ao governo Bush). Para quem não lembra, Brasil e EUA estiveram juntos, e sob liderança brasileira, para mediar a crise entre Chaves e a oposição na Venezuela. As reiteradas tentativas da oposição de desqualificar a diplomacia brasileira são tão canhestras que acabam evidenciando a enorme distância entre o que era a presença diplomática do Brasil antes do governo Lula e o que é hoje.

domingo, 11 de março de 2007 08:21:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Não se pode evitar a citação da um texto da Veja última onde se conclui que o brasileiro é o povo mais americanista que existe. Tese defendida usando o argumento óbvio 's... vale a pena ver.

domingo, 11 de março de 2007 22:01:00 BRT  
Blogger Pedro Lamarão disse...

Bush com o capacete da Petrobrás é uma visão magnífica.

segunda-feira, 12 de março de 2007 10:21:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Pronto. Está provado que o Brasil é o mais americanista dos antiamericanistas latinoamericanos...:


Imagem dos EUA em queda livre
Uma pesquisa encomendada pela BBC, divulgada na semana passada, antes da viagem de Bush à região, mostrou que os brasileiros têm uma imagem mais negativa dos EUA do que da Venezuela. Segundo a pesquisa, quase três em cada cinco brasileiros (57%), entrevistados em oito cidades, disseram ter uma visão negativa do país liderado por Bush, contra dois em cada cinco (41%), que disseram ter a mesma percepção em relação a Venezuela. A pesquisa indicou, por outro lado, que a viagem de Bush poderia resultar em uma melhor receptividade de muitos outros brasileiros que têm uma visão positiva dos EUA. No entanto, o que se viu nas ruas de São Paulo não indicou, exatamente, uma melhora da imagem de Bush. O forte aparato de segurança montado nas ruas da capital paulista prejudicou o cotidiano de milhares de pessoas que consideraram um exagero o teatro de guerra montado na cidade.

Douglas Miller, presidente da empresa que fez a pesquisa para a BBC, disse que a reputação dos EUA se corroeu significativamente nos últimos dois anos, chegando a um ponto em que será difícil para o governo deste país convencer as pessoas de que sua visão de mundo é boa. Junto com o Chile, afirmou a pesquisa, o Brasil está entre os países latino-americanos pesquisados em que os EUA tiveram o seu melhor índice de avaliação positiva, e esse índice chegou apenas a 32%. No México, os EUA são bem vistos por apenas 12% da população. Já na Argentina, duas em cada três pessoas (64%) vêem os EUA negativamente. “É uma situação desafiadora para Washington”, resumiu Douglas Miller. Nos 27 países pesquisados pela empresa GlobeScan, a avaliação positiva dos EUA ficou em apenas 30%, enquanto a negativa bateu 51%, um percentual superado apenas por Irã (54%) e Israel (56%).

http://agenciacartamaior.uol.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=13688&boletim_id=247&componente_id=4695

terça-feira, 13 de março de 2007 07:49:00 BRT  

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