quinta-feira, 29 de março de 2007

O presidente e a objetividade jornalística (29/03)

Luiz Inácio Lula da Silva falou hoje, durante a posse de ministros seus, sobre a rede estatal de tevê que vai criar. Está na Agência Brasil:

"Eu sonho grande, eu sonho com uma coisa quase 24 horas por dia. Não sei se a gente vai conseguir construir. E que não seja uma coisa chapa-branca. Porque chapa-branca parece bom, mas enche o saco. Gente puxando o saco não dá certo. Temos que fazer uma coisa séria. Não uma coisa para falar bem do governo ou para falar mal do governo. Uma coisa para informar", defendeu ao enfatizar que essa será uma tarefa grande do novo ministro da Secretaria de Comunicação Social, o jornalista Franklin Martins (na foto de Roosevelt Pinheiro, da Agência Brasil, Franklin toma posse como novo ministro da Comunicação Social).

Já tratei desse assunto à exaustão. Mas volto a ele. Há certas coisas que eu defendo sozinho. Não tem problema. Eu defendo que o governo tem o direito de fazer o seu próprio jornalismo. Porque todo mundo tem esse direito. Simples assim. Eu acho divertido quando as pessoas ficam com rodeios para explicar as próprias posições. O presidente diz que "gente puxando o saco não dá certo". E se desse certo, presidente? O senhor defenderia que os jornalistas da rede estatal puxassem o saco do governo? Aliás, o que significa "puxar o saco"? Difícil discutir assim. Eu prefiro esse outro pedaço do que disse Lula: "
temos que fazer uma coisa séria, (...) uma coisa para informar". Muito bem. O presidente diz que a tevê estatal vai se guiar pela busca da objetividade jornalística. Nessa busca, certamente ela vai se deparar com uma dificuldade bem conhecida no nosso ramo. Quem define o que é a tal informação objetiva? O bom jornalismo resolve esse problema a partir da constatação de que a convergência das subjetividades aproxima a objetividade. Em outras palavras, não há como ser objetivo sem ser plural. Pois ninguém detém o condão da objetividade suprema. Não há técnica jornalística que consiga eliminar completamente o viés, o preconceito, a tentativa de selecionar na realidade os fatos que melhor se encaixam na explicação que temos para ela (a realidade). Por isso é que eu acho bom ter uma tevê estatal. Porque a idéia de que qualquer veículo possa ser 100% plural é utópica. Eu, por exemplo, não vou colocar a tevê no canal do Lula para obter "a informação como ela é". Eu vou assistir esse canal para saber o que o governo pensa das coisas. Eu não leio os jornais principalmente para saber o que aconteceu. Eu os leio para saber como os seus donos e os jornalistas que mandam nas redações vêem o que aconteceu. Por isso é que eu apóio a plena liberdade de imprensa. Para que tenhamos cada vez mais veículos de comunicação, inteiramente livres para espalhar as notícias e opiniões selecionadas por quem neles manda. Essa multiplicidade é vital para a democracia. E boa sorte ao Franklin.

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11 Comentários:

Anonymous JV disse...

Alon, quem faz jornalismo é jornalista, governo faz propaganda.

quinta-feira, 29 de março de 2007 19:11:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Se a mesma pessoa que pauta, paga os veículos, algo já começa errado no Ministério da Verdade de Lula.
Além disso, a objetividade das notícias do governo ficaram patentes ontem, quando o IBGE, ao invés de mostrar o mais relevante, que foi a queda de renda da classe média e o nivelamente por baixo da renda, comunicou o misterioso número de 8 milhões de novos classes médias (que ganham até 1000 reais - muito média mesmo...)

quinta-feira, 29 de março de 2007 19:20:00 BRT  
Blogger Cesar Cardoso disse...

Eu entendi o "gente puxando o saco não dá certo" como: não se pode cair no risco de se cercar de bajuladores, porque eles o afastam da realidade. Isso inclui uma TV...

...estatal ou pública?

TV estatal é uma coisa. É TV do governo, financiada pelo governo, pra falar do governo, e quem não vai com a cara do governo não passa nem na calçada.

TV pública é outra coisa. Aberta, plural, sem interferência e dinheiro do governo, financiada a partir de contribuições específicas.

Se vamos fazer TV pública, presidente Lula, que tal cobrarmos um imposto para cada aparelho/set-top-box de TV digital para financiar a TV pública brasileira? O seu ministro das Comunicações vai espernear, mas qualquer coisa o senhor o demite, certo?

quinta-feira, 29 de março de 2007 19:29:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Por quê defender o direito de governo de ter uma imprensa própria, caríssima, paga com nosso dinheiro?

Para ser coerente, por quê não defender também a publicidade oficial? Jornalismo é moralmente mais elevado do que publicidade?

quinta-feira, 29 de março de 2007 20:51:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Sua defesa da objetividade jornalística é suportada por uma lógica irretocável. Não temos divergência aí. Minha divergência é se a criação da TV estatal é uma prioridade. Eu, pelas razões que já expus, penso que não é.

Abs.

quinta-feira, 29 de março de 2007 22:41:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Eu não entendo muito quem faz objeção à esta rede, porque na verdade ela já existe. É a NBR (canal 4 da TV a cabo). A rede do executivo não seria apenas repaginar e expandir este canal?

sexta-feira, 30 de março de 2007 00:18:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

É isso ai, Alon. Cada veículo enxerga a realidade pelas próprias lentes. Só que o governo não é nenhum coitadinho como você insinua. O governo já tem poder demais.

A TV Cultura enxergou no discurso de Lula - que a elogiou - uma prova da sua "independência". E isso foi dito por Salete Lemos na presença de Alexandre "Petrobrax" Machado, que fizeram campanha aberta por Alckmin há poucos meses. Eles sempre dirão que não, que foram isentos, mas as minhas lentes perceberam. Pois bem, as minhas lentes também percebem que, ao invés da independência da TV estatal paulista, o que Lula demonstrou foi o seu ciúme por não ter um canal para puxar o saco dele com o nosso dinheiro, como faz a TV "educativa" paulista para os governantes estaduais.

Petrobrax teve a ousadia de ressaltar que a TV Cultura é uma "fundação privada de direito público". Sempre que você ouvir falar isso, Alon, lembre-se que o cara tá querendo dizer que faz o que quiser com o seu rico dinheirinho e você que se dane. Inclusive contratar os amigos, como ele e seus colegas foram, sem concurso público, na base do QI.

Se eu quisesse ouvir os comentários de Alon Feuerwerker na TV, faria o que? Ligaria na TV do Lula? Mas se você puder falar lá, porque eu não posso? Afinal, eles devem pagar melhor do que você aqui.

Porém, se Lula e Franklin (boa sorte, também) conseguirem cumprir a outra parte do discurso, aquela que fala de educação - como já foi feito pela gloriosa TV Cultura, antes de sucumbir ao neoliberalismo - eu apóio. Eu sempre troco um mal maior por um menor.

sexta-feira, 30 de março de 2007 08:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A dificuldade, como entendo, situa-se no fato de ser muito complicado distinguir entre o que é estatal e público. Um órgão pode ser estatal, mas pode ser público, ou seja, ter a independência de servir aos intereses da sociedade como um todo e não ao governo do momento. Mais uma TV estatal, caso tais coisas não sejam resolvidas e não o serão no curto prazo, poderá sucumbir, sim, aos ditames do governo. Tal como aconteceu com as Agências Reguladoras, que praticamente sumiram do mapa. Em suma, um bom governo pode contrapor-se a quaisquer outros instrumentos numa Democracia. Há cerca de 40 anos, a escola pública (Primário, Ginásio, Científico, Normal e Clássico), dava o tom da educação. Hoje, se for estatizada toda a educação, será uma calamidade. Portanto, se buscar a eficácia administrativa e política, nenhum governo terá necessidade de criar meios de comunicação próprios para dizer "verdades" e benefícios que supostamente não são ditos por meios privados. O que é verdade e o que realmente beneficia o interesse da sociedade é percebido. Se não o forem, não haverá TV estatal que consiga que seja. Dentro da Democracia, lógico. Fora dela todos sabem o que pode ocorrer.
Sotho

sexta-feira, 30 de março de 2007 10:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

José Augusto, boa sua observação. Mas, as práticas são as de sempre criar algo novo. Para que aprimorar, tornar eficaz algo se pode-se fazer o que bem entende com o beneplácito de todos. Ainda mais com a anestesia tão forte que anula a pouca discordância ao que o governo coloca como verdade. O exemplo das Agências Reguladoras é sintomático. Sem falar nas questões políticas e dos fatos de 2005. Antes, os governantes atuais lutaram contra a hipertrofia do Executivo - o CIP (Conselho Interministerial de Preços), o Decreto-Lei, os Atos Institucionais etc. Hoje, parecem lamentar a extinção de tais instrumentos. E aliás, quem assiste a NBR? Pode ser que nem o governo.
Sotho

sexta-feira, 30 de março de 2007 10:43:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Por outro lado, entendo que o Presidente deveria para de sonhar com coisas deste tipo e aprimorar o que de bom está feito, eliminar o que não funciona e outras coisas. Para isto foi eleito e reeleito. Quem deve sonhar é a sociedade. O Executivo tem de saber executar os programas que concretizem os sonhos da sociedade. Uma TV pública não deve estar nos sonhos de muita gente comum que trabalha para cuidar de si e dos seus.
Sotho

sexta-feira, 30 de março de 2007 10:47:00 BRT  
Anonymous Artur Araújo disse...

JV, jornalista põe no papel (ou na tela, ou no meio que for) o que o patrão acha e manda, à luz das metas de circulação e das opiniões dos anunciantes. Nem mais, nem menos.
Falar em "isenção" de imprensa privada é tão sem sentido quanto rogar pela despolitização de veículos estatais.

sexta-feira, 30 de março de 2007 12:04:00 BRT  

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