sexta-feira, 16 de março de 2007

"Nossa situação ainda é contornável. Eu e minha esposa suprimos as deficiências em casa. E quem não tem condições?"

Rodrigo Ribeiro escreve de Guiricema (MG), cidadezinha de menos de 10 mil habitantes. Ele deixou este comentário no post anterior. Decidi transformar o comentário em post. É um depoimento definitivo. Nada do que eu viesse a escrever seria tão eloqüente.

Bom! Sou pai de duas filhas. A primeira tem 06 anos de idade. A segunda apenas 07 meses e, portanto, ainda não está na idade escolar. Estamos atrás das lindas montanhas de Minas, vivemos em Guiricema, pequenino município de 9 mil habitantes. Não há nada mais decepcionante e revoltante do que a péssima qualidade de ensino. Minha filha estava na chamada fase introdutória. Todo dia a professora entrava em sala e escrevia no quadro negro: "Hojé é (o dia da semana). O dia está (nublado, chuvoso ou ensolarado). Tia Aparecida. Guiricema - MG, 16 de março de 2007". A ficha acima era transcrita no quadro negro todos os dias, com pequenas alterações no que se refere ao dia da semana e às condições do tempo. A única tarefa das crianças até o horário do recreio era copiar a dita ficha. Isto é, em 02 horas. Minha filha costumava copiar com 10, 15 minutos. E o restante? Ficava à toa, esperando os colegas terminarem. Resultado: desmotivação. Aí surgiram com a proposta de passar minha filha para a tal da fase I, pois ela já poderia começar a ser alfabetizada. A proposta foi da supervisão escolar. Como partiu da própria escola, eu e minha esposa concordamos com a transferência. Na fase I, a dita alfabetizadora tem o hábito de escrever pérolas do tipo: "centença" e "onte". Sem contar que passou a discriminar a criança, porque causou um grande transtorno para ela, que já estava introduzindo "a família do F" para a turma e agora vai ter que ter atenção especial para minha filha. Compreensível que a "alfabetizadora" da fase I fique chateada. Mas, onde ficam a pedagogia, o profissionalismo? Ela simplesmente, para não "perder tempo", passou a copiar para minha filha, ao invés de ensiná-la. A própria professora faz as tarefas no caderno de minha filha. E o mais revoltante é que a iniciativa partiu da supervisão escolar. É revoltante! E o pior é que esta é a única escola da cidade. Poderia eu transferi-la para uma escola particular. Sim, até temos condições financeiras para isso. Mas, vejam! Na cidade não há escolas particulares. Na cidade vizinha, sim. E aí, transferir para a cidade vizinha? Isto seria um atentado à infância de minha filha. Não temos pretensões de mudar de cidade, aliás, não podemos, por razões profissionais. Levá-la para outra escola em outra cidade seria tirar dela o direito de fazer amigos, de conviver com seus amigos, de freqüentar a casa de seus amigos, de ter seus amigos freqüentando nossa casa. O convívio dela com outras crianças estaria restrito simplesmente ao horário escolar. Nossa situação ainda é contornável. Eu e minha esposa (esta principalmente) conseguimos suprir as deficiências em casa. Compramos livros, almanaques, vídeos e jogos educativos. E quem não tem condições?! Estamos perpetuando nossas desigualdades sociais. Em outro momento falo de minhas propostas para a educação.

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6 Comentários:

Anonymous JV disse...

..e de chorar....

sexta-feira, 16 de março de 2007 19:55:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Em Trajano de Morais, município de mesmo tamanho de Guiricema (9.500 habitantes) a 250 Km do Rio de Janeiro, o CIEP Guiomar Gonçalves Neves, das 41.000 escolas avaliadas na Prova Brasil, foi a que recebeu a melhor nota em português e ficou com o segundo lugar em matemática (dos alunos de 4ª série).
Não há nada de glamouroso nessa escola de interior.
Os pais dos estudantes vivem com um salário mínimo por mês e não tiveram chance de completar os estudos.
As paredes da escola carecem de pintura e há vazamento nos banheiros.

O que a fez sobressair é uma fórmula simples:

1) Oferece jornada de estudos esticada, de oito horas. No tempo extra, os estudantes recebem aulas de reforço e os professores corrigem lições.

2) Há esforços para aumentar a participação dos pais na vida escolar. A direção promove festas e reuniões pedagógicas.

3) Os professores estão visivelmente envolvidos com o projeto educacional. Quase todos decidiram cursar uma universidade.

Essa solução está ao alcance de qualquer escola. Não há grande dificuldade para todos os diretores de escola seguirem esse exemplo. O MEC e Governadores devem disponibilizar verbas complementares que garantam professores ensinando em horário integral. Prefeitos devem disponibilizar as instalações físicas das salas de aulas.

sábado, 17 de março de 2007 02:25:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Tambem acho que é simples assim como o Jose Augusto falou, e tambem acredito que cursar a universidade pode ser do itneresse dos professores, mas não dos alunos. Em uma cidade pequena as familias tem a oportunidade de controlar de perto a qualidade de ensino, e de compensar eventuais falhas, exigir outros mestres.

sábado, 17 de março de 2007 14:26:00 BRT  
Anonymous Maurício Galinkin disse...

O problema, meus caros, é que as pessoas "se acostumam" com a situação, poucos buscam romper maximizando os parcos recursos disponíveis.
Isso exige, pelo menos:
1- forte compromisso com os alunos;
2- ter um projeto (de educação, de futuro) e ser capaz de enfrentar incertezas para implantá-lo;
3- capacidade de motivar colegas, alunos e seus pais;
4- disposição para "enfrentar" as autoridades constituídas, pois estas costumam (no geral, salvo honrosas exceções) não apoiar inovações.

E muito mais que isso: disposição para incomodar-se, pagar o custo de sair da mesmice, da burocracia...

sábado, 17 de março de 2007 17:13:00 BRT  
Blogger alberto099 disse...

O comentário do Rodrigo Ribeiro, transformado neste post, põe o dedo na ferida: o comportamento da professora, e da supervisão da escola, é padrão nos serviços prestados pelo Estado. Ao contrário de uma empresa privada (enfrentando concorrência, claro), cuja remuneração depende de alguém pagar voluntariamente, o serviço público apenas satisfaz uma demanda se essa for a forma mais fácil de se livrar do encargo que lhe justifica a existência. Se for possível, e der menos trabalho, criar uma aparência de solução, como fazer as tarefas no lugar da filha do Sr. Rodrigo, assim se fará. Esse padrão deriva das condições objetivas em que o Estado opera, o que não exclui exceções, como parece ser o caso do CIEP citado pelo José Augusto. Menos por possuir o regime diferenciado dos CIEP, e mais por enfrentar a incumbência que tem: ensinar. O padrão também se aplica aos altos escalões do serviço público, como a esmagadora maioria (com toda certeza) dos especialistas que assistiram à explanação do ministro Cláudio Haddad. Um exemplo pertinente está na última coluna de Hélio Schwartsman, na Folha Online, "Desastre na educação", que chama atenção para a deterioração do ensino no estado da federação com maior numero de especialistas em qualquer assunto e dirigido pelo partido com maior concentração de especialistas em seus quadros, cito: "Em 1995, os alunos da 8ª série (1º grau) obtiveram o segundo lugar na prova de português e quarto na de matemática (do ENEM). No exame de 2005, as respectivas posições foram 7ª e 10ª". A coluna ainda tem a vantagem de fazer a defesa do regime de progressão continuada (que você acertadamente condena, Alon). O único argumento válido nesse sentido, a meu ver, é o que condena a repetência obrigatória em todas as matérias de um ano por quem não tem rendimento em apenas uma; mas os cursos supletivos, há muito, resolveram esse problema, sem cair na (não) solução da progressão continuada, típica de quem quer se livrar do dever de casa sem fazê-lo. Mas os especialistas, ao contrário do que você quer Alon, são inescapáveis, o presidente não pode se dirigir diretamente à professora da filha do Sr. Rodrigo. Toda questão, e não apenas na educação, se resume a descobrir como fazê-los se moverem, e na direção correta.

segunda-feira, 19 de março de 2007 12:32:00 BRT  
Anonymous Rodrigo Ribeiro disse...

Bom, já que meu comentário foi transformado em post pelo moderador, acho que é minha obrigação dar continuidade da discussão.
Minha mãe é professora da rede estadual de ensino, está perto de aposentar.
Meu pai costuma contar que à época do casamento seus amigos faziam comentários positivos por estar se casando com uma professora. A profissão era dignificada na ocasião, professoras e professores eram pessoas ilustres, "autoridades", em nossa sociedade rural de então. O salário não era nenhum pote de ouro, mas era bem melhor do que é atualmente. Mas, fundamentalmente, o professor era valorizado, era uma pessoa importante, em quem os jovens se espelhavam.
De lá para cá, o que percebo é que houve um rebaixamento do papel do professor na sociedade.
Antes que possam me interpretar equivocadamente, não estou a falar de métodos rígidos e ortodoxos de ensino, como ajoelhar sobre o milho e outros. Estou falando de ver no professor uma pessoa realmente importante na construção de uma sociedade justa e libertária. A educação liberta, não tenho dúvida.
Mas, voltando ao tema, com o passar dos anos o magistério passou a ser uma sub-profissão. O professor passou a ser criticado porque tem 02 férias ao ano, passou a ser marajá. A remuneração foi rebaixada ao extremo. A auto-estima do professor foi a zero. Hoje é comum você chegar a uma escola e encontrar a professora fazendo crochê enquanto os alunos copiam a "ficha" do quadro negro. Este é um dos problemas. Os mesmos simplesmente "desistiram" de serem bons. Vejam o raciocínio: ganho mal, ninguém me valoriza, ningúem me respeita, tudo que eu fizer para melhorar não vai ser reconhecido...
Aqui está outro problema, além de pagar um salário de miséria, o Estado contribuiu em muito para rebaixamento da auto-estima dos professores. Aqui em Minas, comenta-se que quando Newton Cardoso era Governador ele costumava dizer a seguinte frase quando os professores entravam de greve: "As professoras não são mal pagas; são, na verdade, mal casadas."
Não se tem política de valorização do magistério. A começar por progressão na carreira que pudesse proporcionar melhores salários. Segundo, não há qualquer tipo de valorização do papel do professor na sociedade, isto é muito mais que bons salários. Bons salários não significam necessariamente boa educação, ainda que os professores mereçam muito mais do que recebem hoje.
Aliás, tenho dito a título de brincadeira, mas bem que algum parlamentar poderia comprar a idéia, que na esteira de toda a discussão sobre criminalidade e violência, poderiam os legisladores transformarem em crime a conduta destinada ao sucateamento do ensino público, dentre estas pagar salário irrisório.
O Senador Cristovam Buarque tem me sensibilizado. Nós não iremos mudar a educação deste país, aumentando dois bilhões por ano no orçamento. O piso nacional dos professores é uma medida importante, mas não é o bastante.
A educação tem que entrar na pauta do dia. E porque? Porque o problema é muito grave, a solução envolve muito esforço, de todos: governo, professores, pais e sociedade civil, incluindo a imprensa. Apenas o "Amigo da Escola" é muito pouco. Temos que mudar nossa cultura e primeiro reconhecer que a educação é um direito fundamental tão importante quanto fazer 03 refeições por dia, ter posto de saúde no bairro, ter remédio gratuito.
Já me alonguei por demais, em novo texto posso voltar a falar, aí sobre proposta mais pontuais, mas, neste momento, quero deixar a mensagem de que é preciso muito mais do que construir prédios ou aumentar salários e implementar a escola em tempo integral, é preciso mudança de mentalidade.

segunda-feira, 19 de março de 2007 17:41:00 BRT  

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