terça-feira, 27 de março de 2007

Não sei como o negro consegue se sentir brasileiro no Brasil (27/03)

Uma coisa boa do governo Luiz Inácio Lula da Silva foi ter dado status ministerial a secretarias como a da Mulher e a da Igualdade Racial. Se não por outra razão, para criar referências no debate público sobre a discriminação e a desigualdade. Como temos uma ministra da Igualdade Racial (para o meu gosto, seria a ministra da Igualdade Étnica, mas tanto faz), ela é entrevistada na condição de ministra. É outra coisa haver uma ministra negra para falar dos assuntos relativos aos negros. Nesse aspecto, repito, Lula foi sábio: criou mecanismos para dar vazão a problemas irresolvidos e, na minha opinião, quase insolúveis. O "quase" fica por conta do meu otimismo irracional. Eu acho bom o presidente ter colocado uma válvula na tampa da panela de pressão. Hoje, em entrevista à BBC Brasil, a ministra Matilde Ribeiro, da Igualdade Racial, soltou um pouco do vapor:

BBC Brasil - E no Brasil tem racismo também de negro contra branco, como nos Estados Unidos?
Matilde Ribeiro - Eu acho natural que tenha. Mas não é na mesma dimensão que nos Estados Unidos. Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.

Clique aqui para ler a íntegra da entrevista da ministra Matilde. Eu, sinceramente, não sei como um negro consegue se sentir plenamente brasileiro no Brasil. Você pode se chocar com a crueza da minha dúvida. Ela soa brutal até para mim mesmo. Mas são os fatos. E este blog é sobre fatos, aos quais as opiniões devem bater continência. O Brasil é um país de imigrantes. Primeiro vieram os portugueses, que trouxeram os escravos negros da África, inicialmente para trabalhar na cultura da cana e na indústria do açúcar. Muito depois vieram as ondas migratórias de outros países europeus, voltadas principalmente para o sul e o sudeste do Brasil. Mas alguém que chegue de Marte ou de Saturno dificilmente dirá que os negros da África estão entre os povos mais antigos da formação brasileira. Este é um país muito mais pertencente aos descendentes de portugueses, italianos, espanhóis, japoneses, alemães, árabes e judeus do que aos dos negros africanos. Nosso cosmopolitismo é essencialmente branco (categoria que, com flexibilidade, pode incluir os orientais) e "ocidental". Já tratei das razões em outros posts deste blog. O Brasil conquistou a independência sem abolir a escravidão e proclamou a República sem realizar a reforma agrária. Não tivermos nem a dádiva de uma guerra civil como a americana, na qual o Estados Unidos brancos e industrializados precisaram fazer uma aliança com os escravos negros para derrotar o atraso e manter a União. Nossos negros foram servir de carne de canhão na Guerra do Paraguai e na volta receberam uma sonora banana. Quando, finalmente, veio a Abolição (e eu estou entre os que a consideram uma vitória popular, não me alinho com os que só enxergam "pactos de elites" nas rupturas da História do Brasil), os negros foram libertados mas não receberam capital (terra) para prosperar. Nem tinham dinheiro para adquirir meios de produção. Você pode não gostar dos Estados Unidos, mas é inegável que é melhor ser negro lá do que aqui. Os dois últimos secretários de Estado americanos foram negros. Um democrata negro (que eu não apóio, prefiro a adversária dele) está, para valer, na corrida para chegar à Casa Branca no ano que vem. Há negros em quantidade no comando de universidades e de empresas. E no Congresso. No Brasil, os negros em posição de liderança são exceção. Aí a ministra Matilde dá vazão a palavras que expressam a mágoa e o ressentimento resultantes da nossa trajetória, e o mundo cai. Bobagem. A primeira medida para curar uma doença é admiti-la. A ministra Matilde não está necessariamente certa nos diagnósticos e propostas que traz. Eu torço o nariz para muitas das saídas apresentadas pelo movimento negro. Eu acho que a princesa Isabel é uma heroína da História do Brasil. E daí? Nada disso resolve a questão central. Como fazer para que o negro brasileiro se sinta tão brasileiro quanto nós, brancos?

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16 Comentários:

Blogger alberto099 disse...

Caro Alon, a entrevista da Ministra Matilde Ribeiro foi um desastre mesmo, não tem como consertar, basta ler as mensagens ao fórum criado pela própria BBC Brasil. A maioria dessas mensagens revela o entendimento comum da fala da ministra, que a meu ver é o entendimento que deve prevalecer, já que a fala da ministra joga com sutilezas semânticas mal intencionadas. Diz a Ministra que “não é racismo quando um negro se insurge contra um branco” e logo depois acrescenta que “um negro (...) não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural” e “quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou”, mas silencia quanto ao que é permitido, e ao que não é, a um branco. Ora, o verbo insurgir pressupõe uma situação de submissão e onde quer que a lei permita a um negro insurgir-se, permitirá também a um branco. Se uma pessoa está sendo indevidamente coagida por outra tem o direito de insurgir-se, independente de etnia. Depois a ministra fala em “obrigação de gostar”, não tive tempo de ir à letra da lei, nem acho que o evento justifique muito esforço, mas, apesar de nossa capacidade de produzir um lixo de texto legal, a lei civil não vai me obrigar a gostar de nada, inclusive de todas as tonalidades de pele, independente da minha (a menos que a Ministra esteja falando da lei cristã). O que a Constituição não permite é a discriminação por motivo de raça, assim um hotel de propriedade de um negro não poderá recusar hospedagem a um branco, ainda que seu proprietário possa cultivar o sentimento que quiser a respeito do indivíduo pálido. Agora passo a discordar de você Alon, não sou daqueles que acreditam que sejamos uma democracia racial, acho Gilberto Freyre um chato e responsável por potencializar a hipocrisia interessada com que se trata o tema no Brasil, concordo que com toda a crueza das relações inter-raciais nos EUA, e diria que por isso mesmo, por evitar a hipocrisia que tanto usamos por aqui, eles avançaram muito mais do que nós na promoção da igualdade. Mas nada disso implica que um negro não possa se sentir brasileiro, nossa cultura hoje talvez seja mais negra que branca. A reação inversa à hipocrisia dominante, enxergar uma total hostilidade entre brancos e negros, postular a remição do passado no presente – como se isso fizesse sentido –, também atrapalha a promoção da igualdade.

quarta-feira, 28 de março de 2007 09:01:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

""O Brasil conquistou a independência sem abolir a escravidão e proclamou a República sem realizar a reforma agrária.""

Você devia emoldurar isso ai no alto do seu blog.

Foi só isso que a ministra disse? Eu assisti o jornal nacional ontem à noite - por acaso - e achei que ela tinha posto fogo em Brasília!

quarta-feira, 28 de março de 2007 09:51:00 BRT  
Blogger Cesar Cardoso disse...

alberto: é claro que qualquer declaração mais forte sobre a questão racial no Brasil vira pó em fóruns da internet. Basta fazer o cruzamento de raça x classe social e usuários da internet x classe social e chegaremos a uma conclusão chocante: a maior parte dos usuários da internet é branca, e os brancos do Brasil foram criados acreditando na 'democracia racial'.

Fora isso, achei que a ministra foi da maneira que tinha que ter ido: botando o dedo na ferida.
Não conseguiremos resolver a questão racial no Brasil sem, primeiro, radicalizar a discussão sobre sua existência. O Brasil é o país MAIS RACISTA do mundo e achamos isso muito normal! Os escravocratas americanos e os pais do apartheid sul-africano devem estar querendo saber como conseguimos isso.

Inclusive, sabendo-se que a maioria das vítimas da guerra urbana são jovens negros, seria interessante alguém levantar a discussão: até que ponto a violência ajuda na "limpeza étnica", que pelo menos boa parte da nossa elite deseja mas não confessa?

quarta-feira, 28 de março de 2007 10:14:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

Que tal falarmos do racismo "prático". Por exemplo: aquele que permite aos "com dinheiro" não se misturarem aos "sem dinheiro" no elevador nosso de cada dia?

quarta-feira, 28 de março de 2007 11:10:00 BRT  
Blogger Fabrício disse...

A fala da ministra traz mensagens importantes, perdidas na reação assustada e rasteira dos meios de comunicação. Ela lembra que racismo tem relação com poder. E no Brasil, negro não tem poder para discriminar branco. Daí que não existe racismo de negro contra branco. Daí que não existe colocar isso tudo numa balança e pensar que estamos falando de grupos iguais que não se entendem. A fala da ministra é uma provocação, é um lembrete sobre um passado e um presente que não gostamos de lembrar. E estou surpreendido pela superficialidade do debate gerado pela fala dela nos muitos blogs, jornais e afins que repercutiram o assunto. Com a honrosa excessão deste Alon.

quarta-feira, 28 de março de 2007 12:07:00 BRT  
Blogger alberto099 disse...

Caro Cezar Cardozo, acredito que exista muita hipocrisia na idéia de uma “democracia racial” no Brasil, acredito mesmo que sofremos de certa incapacidade ideológica: não conseguirmos tratar honestamente, abertamente, nossas diferenças. E não apenas na questão racial, a desigualdade social também é vítima da mesma hipocrisia, como o Alon mostra bem com sua provocativa idéia de uma “menoridade social”. Radicalizar a discussão, porém, como você propõe, apenas leva ao impasse. Não acredito que a Ministra tenha posto o dedo na ferida, acredito que ela busque criar uma nova ferida, ainda que ela afirme não estar incitando os negros a repelir os brancos (aliás, ela precisa dizer isso porque percebe que é o que, de fato, está fazendo). Tampouco ajuda o diálogo sugerir que a elite branca aprova a violência urbana como forma de limpeza étnica.

quarta-feira, 28 de março de 2007 12:20:00 BRT  
Blogger Paulo Roberto disse...

Análise lúcida.

Muito diferente da insanidade com que a imprensa vem tratando o tema.

Parece que nossos jornalistas (qual a cor da pele e a origem social da maioria deles?) têm medo, muito medo, de dialogar sobre racismo. Teriam, talvez, de admitir o inadmissível.

Aliás, lendo nossos encartes publicitários e vendo nossa TV parece que estamos na Alemanha, né?

quarta-feira, 28 de março de 2007 12:40:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

O ideário liberal, entendido como um conjunto de doutrinas, é muito complexo. Nele encontramos manifestações libertárias e democratizantes convivendo com teses contrárias à democracia. Ideólogos, portanto, são aqueles que ignoram essa complexidade (o mesmo valendo para o seu contrário, que é o ideário marxista). Por diversas razões, mas todas elas vinculadas a um núcleo bem definido (manutenção de posições de poder e disputa por posições de poder que beneficiam social e materialmente os diferentes ideólogos e os grupos que representam), a militância tosca (à direita e à esquerda) apaga as complexidades e transforma o que é crítico em cartilha.

É sabido que o liberalismo (Locke) desde sua origem conviveu perfeitamente com a escravidão. Livres são os iguais. E o que iguala os iguais é a propriedade. O resto está fora não só dessa sociedade política mas também da humanidade. Só é humano quem é proprietário.

Não quero dizer com isso que todo liberal é uma besta fera e que todo liberalismo resume-se nessa bestialidade. Enfim, em Locke a justificativa da escravidão não faz qualquer referência à cor da pele. Será escravizado o não proprietário (não homem) que atentar contra a propriedade dos “homens bons”. Tal antropologia está na origem do liberalismo e concordo que foi Marx quem melhor enfrentou a questão.

Os nossos liberais, portanto, não se afastaram do ideário liberal lockeano. No entanto, e diferentemente do tempo de Locke, eles defrontaram-se com a questão dos negros livres numa época em que as ciências sociais eram dominadas pela interpretação racista . Por outro lado, não podemos menosprezar a luta abolicionista no Brasil. O que quero ressaltar com essa introdução é que na história do Brasil a escravidão foi combatida TAMBÉM por liberais. Ou seja, nossa história registra muitas e diferentes vozes e ações práticas contra a escravidão num tempo bem anterior à proclamação da lei Áurea.

A historiadora Maria Helena Capellato (O bravo matutino. São Paulo. Alfa Ômega) registra uma passagem que dá uma medida sobre como o pensamento racista manifestou-se no Brasil através, neste caso, do liberal jornal O Estado de São Paulo. Em editorial no ano de 1929, o jornal repercutia o pensamento hegemônico sobre um “fato” aceito como “verdade científica” pelas ciências sociais: países com grande miscigenação de raças estavam fadados ao fracasso. Nossa salvação, portanto, residiria no branqueamento da nacionalidade brasileira. No editorial, citado por M.H. Capellatto, o “bravo matutino” indagava (o que fazer enquanto não se realiza o branqueamento?) sobre a "massa impura e formidável de dois milhões de negros subitamente investidos das prerrogativas constitucionais (...) fazendo descer o nível da nacionalidade na mesma proporção da mescla operada".

Quanto a Gilberto Freyre, não concordo com as afirmações que reduzem sua obra a manifestação de racismo. Penso que é exatamente o contrário. Ela, na sua época, foi anti-racista. Sua obra surge no mesmo tempo que produziu o pensamento como o acima citado. Mas na contramão das ciências sociais de sua época Freyre valorizou a miscigenação como uma das marcas mais positivas da sociedade brasileira. Desconheço (o que não quer dizer muito, pois não sou profundo conhecedor) se algum outro intelectual em qualquer parte do mundo tenha dado à miscigenação a interpretação que ele deu, na sua época. Freyre valorizou a miscigenação e era crítico das teorias racistas que defendiam a repartição dos homens em raças estanques.

Sobre o que a ministra disse, muito já se falou. De minha parte, considero sua fala um enorme equívoco. Também considero equivocado o debate que tenta reintroduzir a “questão racial”, repercutindo aqui as últimas novidades e modismos lançados pelo mercado do politicamente correto. Nosso problema não é estabelecer a cor predominante nas peles brasileiras, que, aliás, não é ou somente branca ou somente negra. O que fazer com os “pardos”, que não são nem “brancos” e nem “negros”? Nosso problema é o Estado que arrecada muito e pouco faz efetivamente pelo homem pobre trabalhador. Nosso problema é o modelo capitalista concentrador de renda e ainda dependente do Estado. Nosso problema é a inexistência de fato de uma república federativa e democrática. Nosso problema é a proeminência quase imperial do Executivo sobre os demais entes da federação. Nosso problema é o predomínio da área econômica do Executivo que decide, com base na sua racionalidade tacanha, os negócios públicos como saúde, educação, C&T e etc.

Por último, recomendo a leitura do livro de Ali Kamel “Não Somos Racistas”. Ed. Nova Fronteira. É um livro que nossa ministra deveria ler (não só ela, claro), se quiser deixar de lado a retórica politicamente correta sobre a nação bicolor.

Neste endereço é possível ler o primeiro capítulo do livro do Ali Kamel
http://www.livrariacultura.com.br/imagem/capitulo/1621498.pdf

No ano passado acompanhei pelo blog do Simon Schwartzman o debate sobre cotas raciais e sobre o Estatuto da Igualdade Social. Há muita informação. Segue o link:
http://sschwartzman.blogspot.com/search?updated-min=2006-01-01T00%3A00%3A00-02%3A00&updated-max=2007-01-01T00%3A00%3A00-02%3A00&max-results=50

O link abre com os posts de 2006, que concentram o debate.

Abs.

quarta-feira, 28 de março de 2007 20:06:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,

Vc que lutou bravamente nos seus artigos ao tratar da maioridade penal e das mudanças na lei, não fez relãção entre a violência e as vítimas, em sua maioria, negras desta violência. O seu discurso passou longe desta questão racial que é intrínseca à questão da violência. As maiores vítimas da violência são os jovens negros, mulatos, mestiços.
Outra afirmação sua bastante questionável. A de que a formação brasileira é majoritariamente branca européia. Será? Li num artigo do Felipe de Alencastro, da Veja, que o no passado o Brasil era 70% mulato, 20%, negro e apenas 10% branco. E que voltaríamos a estes números num futuro próximo. Quem está certo? O Brasil foi um dos´países do mundo que mais utilizou a mão-de-obra escrava. Quantos negros africanos não vieram para o Brasil durante os 400 anos que durou a escravidão? Acho que a percepção é que o Brasil é um país branco; mas de perto podemos ver que é uma percepção falsa, talvez pela pequena expressão econômica, cultural e po´lítica dos negros.
Sobre a Guerra do Paraguai, você também amaciou: os negros que lutaram no Paraguai e ganharam a guerra, na volta, não ganharam uma banana, mas foram sumariamente fuzilados porque o "patrono" do Exercito desejava uma corporação branca.
Confira estes dados, e não tenha medo de radicalizar o discurso. O Brasil é racista sim e muito, e a ministra está sendo trucidada por colocar o dedo nesta ferida aberta da sociedade brasileira.
E tem mais: Enquanto muitos netos, bisnetos e tataranetos de europeus se consideram também europeus, o negro brasileiro se considera basileiro, sim, apesar de tudo.

quarta-feira, 28 de março de 2007 22:42:00 BRT  
Anonymous Artur Araújo disse...

Gostaria que o Anônimo do comentário de 28/3, 22:42, nos fornecesse a(s) fonte(s) que conhece sobre o fuzilamento de soldados negros pós-Guerra da Típlice Aliança. Tenho algum conhecimento de História do Brasil e nunca vi referência a isso.
Grato pela eventual colaboração.

quinta-feira, 29 de março de 2007 09:41:00 BRT  
Blogger alberto099 disse...

Caro Paulo Araújo, obrigado pelas indicações bibliográficas, vou conferir, mas acredito que boa parte da agressividade, de parte do movimento negro, justifica-se em contraposição a essa idéia de democracia racial ou de que não somos racistas, enfim do não reconhecimento da especificidade da questão racial. Que ela existe me parece evidente, ontem mesmo os telejornais falavam no incêndio criminoso dos alojamentos onde estavam hospedados alunos visitantes da UNB, vindos da África. A idéia de que o colonizador no Brasil estava mais aberto a miscigenação, de onde uma menor aversão entre as raças, me parece esquecer que a sociedade trazida para cá já era fortemente hierarquizada, ao contrário do individualismo que a colonização do norte carregava, quer dizer, o africano não representava por aqui qualquer ameaça a preponderância do senhor branco. Além disso, professar a superioridade do mestiço me parece uma posição tão ideológica como professar a superioridade de uma raça sobre a outra.

quinta-feira, 29 de março de 2007 13:01:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alberto 099

Concordo com você que o racismo existe no Brasil. Concordo que o combate ao racismo deve ser uma prática constante.

Sem dúvida os trabalhos de Gilberto Freyre foram ativados ideologicamente para escamotear o racismo no Brasil. Mas isso não justifica colocar sua obra numa espécie de "index" das obras racistas. Insisto que sua obra é datada e contra tudo o que se escrevia na época ela defendeu a miscegenação brasileira como uma marca positiva da nacionalidade. Não é certo que o conceito de "democracia racial", tal qual ele é acionado hoje tanto pelos que defendem a "visão idílica" como pelos que a combatem, seja um conceito que se aplique à obra do autor. Freyre destacou que na realidade o que predominava era a mestiçagem. Ele nunca falou em
"democracia racial" como convívio sem conflito entre domínio senhorial e escravos.

Só quem não leu Gilberto Freyre não sabe que ele também denunciou em sua obra todo tipo de torturas e violências cometidas contra o escravos. Casa Grande e Senzala relata com todas as letras as terríveis condições de trabalho nas lavouras, os estupros de meninas negras, as mucamas que tinham seus olhos ou seios cortados como forma de vingança e ciúmes das senhoras de engenho.
Freyre nunca ocultou as bestialidades cometidas contra os escravos em nome da construção de uma visão idílica da época da escravidão. Erra feio quem afirma o contrario.

Como escreve Ali Kamel, "como bem tem mostrado a antropóloga Yvonne Maggie, a visão de Freyre coincidiu com o ideal de nação expresso pelo movimento
modernista, que via na nossa mestiçagem a nossa virtude. Num certo sentido, digo eu, a antropofagia cultural só poderia ser mesmo uma prática de uma nação que é em si uma mistura de gentes diversas. Esse ideal de nação saiu-se vitorioso e se consolidou em nosso imaginário. Gostávamos de nos ver assim, miscigenados.
Gostávamos de não nos reconhecer como racistas. Como diz Peter Fry, a “democracia racial”, longe de ser uma realidade, era um alvo a ser buscado permanentemente. Um ideal, portanto."

O equívoco do debate atual reside, no meu entendimento, exatamente nessa recusa da construção de uma democracia que valorize o que temos de melhor: a mistura de gentes. Compare-se tal proposta com o que assistimos hoje na Europa, ou seja, recrudescimento do racismo contra negros, árabes, judeus, ciganos.

O Brasil não é um paraíso, todos sabemos. Na minha opinião o foco das políticas públicas de inclusão social está equivocado desde o FHC. E o equívoco foi potencializado no governo Lula.

Na minha época de militante comunista dávamos risada da "ingenuidade" que defendia a educação como uma forma fundamental de superação das desigualdades sociais. Do alto da nossa arrogância e estupidez militante bradávamos contra os "ingênuos" slogans do tipo "socialismo ou barbárie". Desta forma de idiotia derivaram os "experimentos" pedagógicos que contribuíram decisivamente para o caos educacional dos dias de hoje. Se tivesse tempo, relacionaria miríades de falas influentes sobre a desimportãncia dos conteúdos (matemática, ciências, português, humanidades) face à formação urgente de alunos "críticos".

Hoje, examinando o legado do "socialismo real" e dos seus representantes aqui no Brasil, reconheço o quanto estava preso a uma ilusão e como eu era estupidamente arrogante.

Desculpe, Alberto, o tom de desabafo.

abs.

PS: para quem se interessa por uma abordagem científica sobre a inutilidade da idéia de "raça" e o dilemas políticos que tal abordagem apresenta, há boa leitura aqui:

http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=8&id=51

quinta-feira, 29 de março de 2007 18:02:00 BRT  
Anonymous Neves disse...

A Matilde falou uma coisa que incomoda. Os negros têm razão histórica e conjuntural para ficar, digamos, indignados com uma sociedade dominada por brancos (suavisado assim é aceito?). Ela explica, mas não justifica radicalizações da indignação dos negros. Vejo que a reação a ministra é desproporcional e tem cor.

quinta-feira, 29 de março de 2007 18:49:00 BRT  
Anonymous Juarez Silva disse...

Caro Alon, não conhecia seu blog e o encontrei por acaso hoje ao buscar notícias sobre a repercussão da fala da ministra; que conforme obvia observação de todo texto original, foi mesmo divulgada com ênfase distorcida e fora do contexto, atitude comum à toda imprensa com linha editorial "neo-democrata-racial" que na defesa do "Status Quo", se utiliza da tática META-RACISTA a que chamo de INVERSIONISMO (tentar atribuir aos negros a culpa pela sua situação e atribuir a pecha de "racista" e "segregacionista" a qualquer um que ouse dizer claramente que temos problemas raciais sim e é necessário tratar os mesmos com Ações Afirmativas com recorte racial ).

Gostei do seu posicionamento, pois falta a muitos a consciência da nossa realidade.

Para quem realmente se interessa pelo assunto e quer informações úteis e verificáveis sobre a temática étnico-racial brasileira escrevi um artigo bem didático : NÃO QUERÍAMOS SER RACISTAS, uma reação aos que insistem em dizer que não somos um nação com problemas de cor.

http://www.movimentoafro.amazonida.com/nao_queriamos_ser_racistas.htm

* se não apareceu tudo na URL acima o complemento é :
/nao_queriamos_ser_racistas.htm

Boa leitura.

sexta-feira, 30 de março de 2007 14:37:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Artur Araújo,

Tenho esta informação e buscarei as fontes bibliográficas sobre o assunto e as repassarei. Obrigado pela resposta.

Anônimo

domingo, 1 de abril de 2007 12:00:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pensei que eu ia comentar e dizer pura tema, você fez por si mesmo? É realmente impressionante!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010 09:34:00 BRST  

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