segunda-feira, 19 de março de 2007

"Combateremos à sombra" (19/03)

À esquerda, uma reprodução do cartaz de 300, o novo filme americano sobre a batalha das Termópilas. A película (antigo, esse negócio de "película") lembra o heroísmo do punhado (três centenas) de espartanos que combateram até a morte, num passo grego conhecido por suas águas termais, centenas de milhares de persas cinco séculos antes do nascimento de Jesus. A bravura dos homens de Esparta atrasou o exército persa e impôs perdas suficientes para que ele acabasse derrotado pela confederação de cidades-estado gregas, o que interrompeu a expansão persa em direção à Europa . Desse episódio histórico vem a frase célebre do soldado espartano Dienekes. Avisado de que o número de combatentes inimigos era tal que a massa de flechas disparadas pelo exércio do rei persa Xerxes I poderia bloquear a luz do sol, Dienekes não hesitou. "Então combateremos à sombra." Os gregos, claro, são os mocinhos do filme. Os "bandidos" são os liderados de Xerxes (Rodrigo Santoro faz o papel). O filme despertou forte rejeição no Irã. Os iranianos acusam os americanos de manipular e deformar um evento histórico com objetivos geopolíticos. Os iranianos dizem que o filme foi feito para ser uma peça de propaganda contra uma (segundo eles inexistente) ameaça persa ao Ocidente. Pode ser. Os americanos são campeões no negócio de produzir cultura em escala industrial para fazer propaganda do seu modo de vida e de suas convicções. Mas, por melhores que sejam na indústria cultural, não chegam aos pés dos iranianos quando se trata de cultuar a violência e a barbárie -e de falsificar a História. Na parte direita da imagem acima, ao lado do cartaz de "300", reproduzo um desenho que fez grande sucesso no recente Festival Iraniano de Charges sobre o Holocausto. O autor é Maziyar Bizhani, importante cartunista dos principais jornais do Irã. Na charge, judeus ortodoxos vestidos com o típico traje preto fazem fila para entrar numa caixa em que está escrito "câmara de gás". A piada é que eles entram de um lado da caixa e saem ilesos do outro, apenas para entrar de novo na fila e voltar à "câmara de gás". Em cima, um contador marca 5.999.999. Falta unzinho só para completar os cerca de seis milhões de judeus "supostamente" (o supostamente e as aspas são homenagem aos manuais de redação dos jornais de Teerã) mortos pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial. O objetivo do cartunista é ridicularizar as vítimas do nazismo, "farsantes" que "amplificam" o próprio sofrimento para se beneficiar da compaixão alheia. Segue a minha conclusão. O país do presidente Mahmoud Ahmadinejad é bem valente quando se trata de fazer troça com a desgraça alheia. Os iranianos são bons humoristas para fazer piada sobre o genocídio dos adversários. Mas toda essa coragem e todo esse humor não são suficientes para evitar que eles saiam por aí se lamuriando e choramingando quando alguém relata a História da Pérsia de um jeito que não lhes agrada. Pelo jeito, talvez falte aos líderes e propagandistas iranianos de hoje um pouco da valentia de reis persas do passado, como o próprio Xerxes I e como Ciro, o Grande, reconstrutor do Templo de Jerusalém e libertador dos judeus da escravidão na Babilônia.

Por motivos óbvios, a moderação neste post será rigorosíssima.

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15 Comentários:

Anonymous JV disse...

e aí temos a civilização ocidental, meia judia e meia grega, o resto é....iraniano mesmo. Grande Alon, assim é que se fala.

segunda-feira, 19 de março de 2007 23:41:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Não esqueça também, o pai de Xerxes, Dário o Grande;;;;;;;

terça-feira, 20 de março de 2007 00:39:00 BRT  
Anonymous Paulo Silas Mattar disse...

A exibição iraniana de charges sobre o Holocausto, lamentável em todos os sentidos, foi uma reação a charges que um jornal dinamarques publicou, mostrando Muhammad como terrorista. O estranho é que nem os judeus nem Israel tiveram nada a ver com as charges do jornal dinamarquês. Mas o Irã, em vez de revidar contra a Dinamarca, preferiu atacar os judeus. Na minha opinião isso é um claro anti-semitismo. Mas o blogueiro tem razão: os iranianos ficarem com lamúrias agora não pega bem para eles.

terça-feira, 20 de março de 2007 09:48:00 BRT  
Anonymous PaulinhoW disse...

Eu sou favorável aos palestinos e ao Irã. Mas é mesmo ridículo o Irã esbravejar contra o "300" depois que promoveu um concurso de caricaturas filonazista em Teerã.

terça-feira, 20 de março de 2007 09:52:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Caro Alon,

Você é brasileiro e jornalista, entre outras coisas, certo? Poo brasileiro é jornalista?

Nem todo judeu é ortodoxo. Nem todo iraniano é xiita. Nem todo americano é imperialista. Graças aos Deuses - e não a seus representantes na terra, seja Moisés, Cristo ou Maomé - existe oposição em qualquer lugar do mundo.

Ainda bem que, pelo menos, você não confundiu a Pérsia com o Irã. Saddam Hussein morreu blasfemando contra os persas, mas acho que ele fez essa confusão.

Já pensou o que diria dos brasileiros um eventual leitor estrangeiro do Diogo Mainardi?

terça-feira, 20 de março de 2007 11:01:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Ahmadinejad e os Mullahs são uma ameaça ao ocidente. O programa nuclear iraniano é uma ameaça (não só) à existência de Israel. A questão é como o ocidente vai enfrentar essas ameaças.

O presdidente iraniano não acredita que houve holocausto porque ele não concorda com a existência de Israel. Penso também que ele acredita que o Islam é uma religião superior e que ele é intolerante em relação às outras religiões.

Mesmo que os EUA fossem multilateralistas, não intervissem em nenhum país e se preocupassem mais com o bem estar das popualções pobres, mesmo assim Ahmadinejad e os Mullahs seriam o que são. Acho engraçado certos contorcionismos do intelecto politicamente correto para justificar um Ahmadinejad radical em oposição à política externa americana. É fácil contruir um discurso que diz que o Iran de hoje é uma espécie de filho bastardo do imperialismo americano.

Vejo com temor um novo "espírito de Munique" a assombrar a Europa: uma crença acomodada na esperança interessada que Ahmadinejad e os Mullahs podem ter seu instinto bélico controlado. Será que após chegarem à Bomba Ahmadinejad e os Mullahs ficarão mais racionais? Ficarão mais comedidos? Mudarão seu pensamento sobre o holocausto e sobre o direito de Israel existir?

abs.

terça-feira, 20 de março de 2007 11:05:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Tem israelense contra a ocupação da Palestina. E tem americano comunista, também:

http://www.nytimes.com/2007/03/20/arts/20nyu.html?_r=1&th&emc=th&oref=slogin

The songwriter, labor organizer and folk hero Joe Hill has been the subject of poems, songs, an opera, books and movies. His will, written in verse the night before a Utah firing squad executed him in 1915 and later put to music, became part of the labor movement’s soundtrack. Now the original copy of that penciled will is among the unexpected historical gems unearthed from a vast collection of papers and photographs never before seen publicly that the Communist Party USA has donated to New York University.

terça-feira, 20 de março de 2007 11:27:00 BRT  
Anonymous Frank disse...

Tive a pachorra de ler a resenha do professor iraniano radicado nos EUA - é claro, pois, no Irã, esse historiador não disporia das condições materiais e do necessário grau de liberdade para dizer o que pode dizer nos EUA.

Não vi o filme, mas, a tomar como preciso o relato do professor, a caracterização dos persas como negros-islamizados é grosseiramente imprecisa. Não havia islã em 480BC (!??) ou negros (africanos) em terras persas.

Mas não se trata de lição de história. É só um filme. Contudo, o diretor (e/ou produtor) poderia ter sido mais cauteloso. Não iria ferir o apelo comercial do filme e posaria melhor na foto.

PS: o Irã é sim o estado sucessor da Pérsia e herdeiro da alta cultura que se desenvolveu no Zagros, em tempos antigos (medos, impérios persa) e idade média (sassânidas e dinastias de persas islamizados, como os safávidas). Não há nenhuma confusão nisso.

terça-feira, 20 de março de 2007 17:16:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Caro Jura

Saddan era sunita. Conhece o conflito secular entre sunitas e xiitas? Sabia que os palestinos não gozam de boa imagem no Iran xiita? Dois motivos: são sunitas e, apesar de numerosos, são incapazes de aniquilar os israelenses e, pior, deixaram-se dominar por eles.

terça-feira, 20 de março de 2007 17:29:00 BRT  
Blogger Pedro Lamarão disse...

As reinterpretações históricas dos eventos são curiosíssimas.

O filme 300 atualmente em cartaz é a adaptação para o cinema de uma revista em quadrinhos do consgrado autor Frank Miller, que faz questão de participar da produção para manter a qualidade do seu trabalho intacta.

Frank Miller está de namoro com o cinema desde que uma de suas mais famosas séries de graphic novel foi adaptada para o cinema: Sin City.

Sinto muito para o Irã mas 300 não tem nada a ver com o que eles fazem ou deixam de fazer.

quarta-feira, 21 de março de 2007 01:01:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Desculpem a minha folha. Correção:

Caro Alon,

Você é brasileiro e jornalista, entre outras coisas, certo? Posso afirmar então que todo brasileiro é jornalista?

Agradeço os comentários dos demais leitores mas acho que eles apenas confirmam uma diversidade iraniana que não cabe em generalizações, graças a Deus, novamente.

Millor é Millor, Ziraldo é Ziraldo, Mainardi é Mainardi e Alon é Alon. E nenhum deles representa o Estado, o povo ou o governo do Brasil.

quarta-feira, 21 de março de 2007 07:36:00 BRT  
Anonymous Luiz Lozer disse...

Vi algumas das charges do tal concurso, quando fazem troça do holocausto ou insinuam que ele não existiu, acho deplorável. Porem quando comparam o massacre dos palestinos com o massacre dos Judeus como faz o Brasileiro que tirou segundo lugar, concordo com eles.

Os israelenses conhecedores como são, da injustiça, da violência, do genocídio, deviam ser os primeiros a dar o exemplo, mas em vez disso são algozes injustos, violentos, genocidas.

Mas nessa lambança milenar eu não ponho minha colher palpiteira, tenho muita dó dos palestinos, mas é só isso.

quarta-feira, 21 de março de 2007 15:14:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

O que segue é uma transcrição parcial de “As Novas Faces do Mais Antigo Ódio do Mundo”, que encontrei num ótimo site: http://ruadajudiaria.com/index.php?p=20

Concordo com o autor que subjaz nas condenações à Israel “o ódio mais antigo do mundo”.Interessante observar que o autor não coloca hífen quando grafa antisemitismo.

Sugiro enfaticamente a leitura do artigo, que foi escrito por um judeu português que defende a solução normalmente designada
“dois povos, dois estados” – uma Palestina livre, democrática, autônoma e economicamente viável, ao lado de um estado de Israel onde a segurança dos seus cidadãos é salvaguardada. Uma posição com a qual concordo inteiramente.

Uns dos temas neste post foram os cartoons. Neste artigo o autor apresenta alguns antigos e novos, mostrando o que há de comum neles: a figura da serpente associada ao judeu. Ou seja, mostra que essa idéia de que os judeus são a progênie do diabo é muito antiga.

Nenhum Estado é imune a críticas. Podemos condenar as assimetrias entre israelenses e palestinos? Sim. Mas o que eu me pergunto é se a oposição a Israel se deve exclusivamente às políticas dos governos face aos palestinos. Por que a gritaria militante contra Israel e o silêncio perante as atrocidades cometidas por outros países? A oposição da opinião pública (principalmente a européia) a Israel deve ser contrastada com as violações dos direitos humanos por outros países contra muçulmanos ou não. Lembro dos massacres no Kosovo e na Bósnia e Chechênia. Em Dafur as milícias árabes (Janjaweed) promoveram limpeza étnica e genocídio nos anos 2003 e 2004. Em Israel e nos territórios ocupados e semi-ocupados vivem uns 3,5 milhões de árabes (maioria sunita). Quantos morreriam se os xiitas atirassem para lá bombas atômicas? Então porquê só Israel e não também a Rússia, a Sérvia, o Sudão ou mesmo a China, a Índia e o Paquistão? Porquê não observamos a mesma contundência na condenação contra essas violações aos direitos humanos por tantos outros países?

O filósofo francês Alain Finkelkraut escreveu certeiramente que “a violência de que os judeus são hoje alvo apresenta-se sempre como solidariedade com a causa palestina. Alimenta-se das imagens da intifada”. Mais diretamente, a questão proposta pelo filósofo é essa: será a causa palestina que alimenta o antisemitismo, ou será a causa palestina alimentada pelo antisemitismo?

É preciso acompanhar as morfologias do anti-semitismo. Da extrema-direita fascista e ultra-nacionalista, o discurso antisemita, e muitas das suas mitologias, faz agora parte do imaginário do outro lado do espectro político. Seguindo com Finkelkraut “o antisemitismo que hoje prevalece não é o mesmo do passado. Nada tem a ver com o racismo que defendia um qualquer ideal nacionalista. Hoje é um antisemitismo em nome dos oprimidos. Não se trata de um antisemitismo racista, mas sim de um antisemitismo ‘anti-racista’”.

A recorrente sensibilidade face às minorias, que perpassa o todo do discurso da esquerda, possui hoje uma fronteira rígida no que toca aos judeus. A homogeneização, o tomar o todo pela parte, o recurso ao simbolismo e imaginário do “velho” antisemitismo continuam a prevalecer entre aqueles que dizem defender os direitos humanos, os oprimidos e as minorias. Ao contrário do que muitos afirmam, o único ódio socialmente aceitável na era do politicamente correcto é o ódio ao judeu, ainda que muitas vezes encapotado e dissimulado como “crítica legítima”.

abs.

quarta-feira, 21 de março de 2007 20:08:00 BRT  
Anonymous Maurício Galinkin disse...

Paulo Araújo,
Muito interessantes suas colocações.
Conheço o site citado e realmente vale a pena dar uma chegada lá.
O antisemitismo "politicamente correto" que alguns esquerdistas e partidos de esquerda andam praticando, aqui e no velho mundo, ultrapassa em muito o sentido de solidariedade política que o esconde.
Essa solidariedade na realidade dirige-se à direita árabe, pois no meu entender qualquer ação que busque espalhar terror e atingir populações aleatoriamente só se enquadra em pensamentos de direita (sei que alguns vão discordar, citar ações terroristas atribuídas a pessoas/facções que se diziam de esquerda, mas no meu entender não eram esquerda, mas sim de direita ou, no máximo, adolescentes revoltados com seus pais...).
Um grande problema é que a ultra-direita, tanto israelense quanto dos países árabes, só faz agravar o conflito e não deseja uma solução efetiva de "dois países,.." (com a qual também concordo e apoio).
Envolvida em um tremendo conflito e terror, os eleitores israelenses acabaram apoiando ainda mais as políticas direitistas e o terrorismo de Estado (ou que outro nome pode-se dar aos "assassinatos seletivos"?).
Os palestinos também são discriminados por seus vizinhos e acabam tornando-se massa de manobra para alguns, como a Síria, para desestabilizar o Líbano.
O terror e a guerra estão acabando com os jovens em ambos os lados, e criando um futuro sem perspectiva. As feridas estão cada vez mais profundas e, com isso, mais difíceis de cicatrizar.
Será preciso um esforço muito grande das verdadeiras esquerdas da região, juntamente com os pacifistas de todos os países, para se encaminhar uma solução equilibrada e duradoura que leve à paz entre os primos. Queiram ou não, árabes e judeus ainda são "primos".
Mas acho que o Alon entende mais disso e poderia falar com mais conhecimento e propriedade que eu, pois acompanho a situação de longe, alguns tios mandam notícias, e nunca estive lá.

quarta-feira, 21 de março de 2007 22:10:00 BRT  
Anonymous paulo raújo disse...

Maurício Galinkin

O meu comentário é uma transcrição parcial e quase literal de um artigo de Nuno Guerreiro Josué sobre a questão. Um dos melhores que li nos últimos tempos. Recomendo a leitura na íntegra do artigo e também a leitura de várias fontes que ele cita no artigo.

Entre tantas coisas certas que ele escreve, destaco a sua preocupação (que é sua também) em mostrar que os judeus divergem entre si (dentro e fora de Israel) sobre a solução para a questão palestina. Ele se pergunta, então, sobre o porquê dessa divergência não receber a devida atenção pelos "isentos" da mídia. Enfim, o artigo aponta fortes evidências empíricas que mostram estar em gestação, sobretudo no campo que se reivindica de esquerda, uma nova forma de antisemitismo mais perigosa e odienta do que a antiga.

abs.

quinta-feira, 22 de março de 2007 09:15:00 BRT  

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